Não percebo muito de «net neutrality» mas…

Net Neutrality

O meu primo Ludwig Krippahl mandou há uns tempos para o Facebook um link de um artigo do Cory Doctorow para o Guardian sobre os perigos que se avizinham com o fim da net neutrality nos Estados Unidos. Queria meter um comentário no Facebook também, mas, por ironia do destino, o Facebook estava com problemas e «censurou-me» o comentário 🙂 Por isso vai aqui para o meu blog, como referência futura…

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Phishing: burlas e como se proteger

Tendo em conta o recente ataque aos cartões de pontos Continente, uma notícia muito bem coberta pelo Lourenço Medeiros da SIC, talvez o grande público (e as grandes empresas!) comece a compreender que as coisas já não são como dantes: a Internet pode ser a plataforma mais segura do mundo, mas não podemos dar-nos ao luxo de sermos negligentes com a segurança informática. Neste mundo onde podemos pagar tudo (mesmo os impostos) via Internet, onde as facturas e os recibos podem ser enviados digitalmente, e onde praticamente todas as empresas que têm os nossos dados pessoais têm-nos de alguma forma acessíveis via um site qualquer, e em que recebemos toneladas de mails todos os dias — muitos parecendo vir de empresas das quais somos clientes ou fornecedores — há que tomar os mesmos cuidados que temos com as comunicações que são feitas em papel.

É por isso que o Paulo Laureano também está a fazer uma série de podcasts sobre informática chamado Os Zeros e os Uns — e sobre segurança informática, à parte do seu trabalho constante de informar o público em geral através do seu blog pessoal — e, neste episódio, em que ele convidou um caramelo gordo e feio para o programa, fala-se justamente de quão fácil é «enganar» as pessoas com aldrabices simples mas altamente eficazes; do cuidado mínimo que devemos ter todos os dias quando lemos comunicações aparentemente «sérias» no email ou nos sites que parecem ser legítimos mas são tudo menos isso; e das soluções que podemos adoptar para que seja muito, mas muito mais difícil, «apanharem-nos» as passwords.

Podcast disponível no iTunes: https://itunes.apple.com/us/podcast/os-zeros-e-os-uns/id595785752, via Feedburnerhttp://feeds.feedburner.com/OsZerosEOsUns, MEO Kanal 508991, e, claro, no YouTube.

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MAPAlhaçada

Desde que a Apple lançou o iPhone 5 com o iOS 6 que tem sido a gargalhada geral em torno da sua nova aplicação, o Apple Maps, que vem substituir a aplicação nativa do Google Maps. O Apple Maps é provável que se torne no maior falhanço na história recente da Apple (e mesmo na antiga) e o maior motivo de chacota pública, tendo sido já criado um site no Tumblr só com imagens exemplificativas do mau funcionamento da aplicação. Talvez seja mesmo a pior coisinha alguma vez desenvolvida pela Apple, pior até do que o Apple Newton, que, apesar de tudo, funcionava, mas foi silenciosamente esquecido pela história.

Se o Apple Maps tivesse sido lançado em vida do Steve Jobs, tenho a certeza que não teria aparecido como uma aplicação 🙂 Jobs era um perfeccionista, e não deixaria que uma aplicação «feita às três pancadas» fosse assim lançada publicamente… assim, Jobs deve estar às voltas no túmulo.

Apesar dos erros hilariantes da aplicação de mapeamento da Apple, e de realmente não dever ter sido lançada numa fase ainda tão cheia de bugs, a verdade é que há uma certa «injustiça» para com a Apple. Em primeiro lugar, devido às questões complicadas de licenciamento, e à guerra entre a Apple e a Google pelo domínio do mundo móvel, era evidente que a Apple teria, mais cedo ou mais tarde, de largar o Google Maps e optar pela «sua» aplicação. Portanto, mesmo que prematura, esta aplicação tinha de ser lançada, e tinha de estar «pronta» com urgência. Não é por «malandrice» ou «pura incompetência» que a Apple foi forçada a fazê-lo: foi por pressão da concorrência.

Ora em segundo lugar, é evidente que as comparações estão a ser feitas com o gigante do mapeamento digital, que é o Google Maps. Claro que a comparação é legítima: afinal de contas, os iPhones e iPads usavam o Google Maps antes, e é lógico que os actuais utilizadores comparem o que têm agora — que funciona horrivelmente mal — com uma aplicação que funcionava perfeitamente. Mas a verdade é que é importante perceber porque é que a Google é um «gigante» do mapeamento digital, batendo toda a concorrência — nomeadamente, os fabricantes de sistemas de navegação por GPS. É que para além de aceder a bases de dados públicas e bases privadas, que estão constantemente a ser actualizadas — fontes às quais a Microsoft e o Yahoo também têm acesso, para as suas próprias aplicações de mapeamento — a Google faz mais. Faz muito mais: Alexis Madrigal, no The Atlantic, explica isso muito bem.

Para resumir a questão: a maior parte dos sistemas GIS que por aí andam, e cujos dados são públicos (ou que podem ser adquiridos, tal como os dados cartográficos do Instituto Geográfico do Exército), baseiam-se num misto de cartografia por satélite, por imagens aéreas, e caminhadas no terreno para localizar certos pontos. A Google acrescenta a isso as famosas Google Vans que andam pelas principais cidades do mundo todo a fotografar todas as ruas — as imagens tiradas a partir das carrinhas são depois processadas para extrair uma montanha de dados incríveis, desde localizações de lojas a sinais de trânsito. E, claro, o gigante da pesquisa também extrai informação da localização de sites Web, dos telemóveis com que as pessoas andam na rua, das fotografias que contenham informação de GPS e uma identificação (se alguém mandar para o Picasa uma fotografia da Torre Eiffel e disser, «estou na Torre Eiffel em Paris», a Google pode associar uma coisa à outra e aumentar assim a precisão do mapa…).

Ora tudo isto chega a uma equipa de umas centenas de pessoas que depois validam essa informação e a colocam no mapa final. São centenas! E, para mais, fazem-no há cinco anos, tendo aprendido com os erros do passado. O Google Maps, a início, não era assim tão impressionante como isso; lembro-me de ter usado mais vezes os Mapas do Sapo (com informação geográfica vinda da InfoPortugal) para encontrar algumas ruas nos sítios mais obscuros. Os mapas da Yahoo eram tão bons ou tão maus como os da Google. Foram apenas cinco longos e penosos anos para que a Google se tornasse também no gigante da informação cartográfica que é hoje — apostaram imenso na tecnologia e deixaram praticamente toda a gente para trás.

A Apple, essa, coitada, andou a «namorar» a Tom Tom, ainda não se sabe se a vão adquirir ou não, mas é certo que a informação principal da base de dados que serve para alimentar o Apple Maps vem da Tom Tom. E está visto que nem a Tom Tom, nem a concorrência (em termos de sistema de navegação GPS), têm a riqueza de informação que a Google tem, especialmente no que concerne a imagens em 3D (pois a Google tem a tecnologia StreetView que usa imagens tiradas pelas suas famosas carrinhas, coisa que a concorrência não tem…), mas não só: por muita informação que a Tom Tom tenha (e disponibilize à Apple), não têm um motor de busca gigantesco que indexa o mundo todo. E isso é o que faz a diferença.

A Microsoft podia concorrer com os mapas do Bing, mas não o faz. É pena (a concorrência é boa!), pois os mapas do Bing usam imageologia muito mais recente que a Google, pelo menos na maior parte dos locais de Portugal. Pessoalmente irrita-me que na minha zona a Google ainda esteja a usar imagens de satélite de há uns sete anos atrás: faltam ruas e edifícios monumentais como a Igreja da Boa Nova, entre outras coisas. O Bing há anos que as mostra. Mas se compararmos toda a riqueza de informação que, regra geral, a Google apresenta, está a anos-luz do que quer que a Microsoft possa apresentar.

Mas evidentemente que a Apple também não pode usar a informação da Microsoft — seria ainda mais irónico! Ao ler melhor nas entrelinhas, olhando para as fontes que a Apple usa para complementar a falta de informação da Tom Tom, reparei numa coisa curiosa: também vão buscar dados ao OpenStreetMap.

OpenStreetMap? Eh lá! Eis uma coisa que não ouvia falar desde há uns anos, em que me registei lá no site deles. O OpenStreetMap (OSM), para quem não saiba, é uma espécie de «wiki cartográfica» — por outras palavras mais simples, um mapa do mundo em que todos podem acrescentar informação georeferenciada, editando o que quiserem em colaboração com milhares de outras pessoas. Quinhentas mil pessoas, para ser mais preciso.

A informação submetida ao OpenStreetMap é, como de costume nestes projectos de crowdsourcing, completamente pública e licenciada em modelo open source. Qualquer pessoa — incluindo a Apple! — pode usar esta informação como muito bem lhe apetecer e distribuir sob forma de uma aplicação, mesmo que seja comercial.

Cabe aqui fazer uma pausa para reflectir nisto. Em primeiro lugar, será que vale sequer a pena olhar para este tipo de soluções? Para já, não é a única solução de cartografia crowdsourced; a Waze também permite que as pessoas editem e completem os seus mapas; a diferença é que, neste caso, os direitos ficam todos com a Waze, que explora os mapas comercialmente. Por outro lado, graças às API da Google, qualquer pessoa pode usar a vastíssima informação que a Google colocou no Google Maps, de borla. De borla? Bem… sim… desde que seja para uma aplicação, também ela, gratuita. Evidentemente que a Google não é parva. Não há problemas em colocar um mapazinho num site — isso só dá mais hits à Google, e mais informação para pesquisar — mas empacotar a informação toda numa aplicação comercial (ou numa aplicação que sirva para vender um produto — como, por exemplo, um telemóvel que corra um sistema operativo concorrente ao Android…), é evidente que a Google não vai na conversa e diz que não!

Ou seja: na realidade não há dados georeferenciados, à escala mundial, que sejam gratuitos e livres de qualquer licenciamento. Com uma excepção: OpenStreetMap. Só isto devia encorajar aqueles que desenvolvem aplicações que necessitam de georeferenciação e que usam informação do Google Maps, mas que têm dúvidas se podem depois vendê-las. Em princípio não podem. Na prática, é pouco provável que a Google «ande atrás» dos pequenos programadores que vendem meia dúzia de licenças por ano. É evidente que «andará atrás» de gigantes como a Apple!

Mas há mais uma pequena coisa que sempre me irritou em todas as aplicações que por aí existem que usem dados cartográficos, que é: como é que os corrijo quando estão mal?

É evidente que esse é o cerne da questão! Se a Tom Tom permitisse que, no mundo todo, as pessoas pudessem corrigir as informações erradas na sua base de dados, o Apple Maps não mostrava os disparates que mostra. Mas não o faz, por razões óbvias (comerciais!), e por isso, dada a quantidade gigantesca de «erros», vai levar anos para corrigir tudo. A Google tem, como disse, uma equipa com centenas de pessoas para corrigir os erros que lhes são submetidos. A Tom Tom se calhar nem sequer tem uma linha de suporte para a qual se possa fazer essa submissão — e se calhar a Apple também não (ainda não fui verificar).

Mas mesmo a Google não deixa acrescenta com facilidade nova informação georeferenciada. É claro que qualquer pessoa pode registar a sua empresa no Google Maps de borla. Para validar que os dados são verdadeiros, a Google manda uma carta com um código para a morada da empresa. Assim evitam-se os dois principais problemas dos sistemas baseados em crowdsourcing: o spam e o vandalismo. Tenho uma vaga memória que, muito a início, a Google deixava as pessoas acrescentarem pontos e localizações no mapa, que eram «votados» pela comunidade, e que se tivessem votos suficientes, passavam a fazer parte do mapa. Mas isso acabou; ou se não acabou, não descobri como é que se faz. Também é possível, com o SketchUp e uma ferramenta baseada em browser, acrescentar novos modelos 3D ao Google Earth. Mas lembro-me de ter contribuído com bastantes modelos, há uns dois anos atrás, que nunca foram aceites/aprovados pela Google (nessa altura já deviam estar com as carrinhas na rua e a desenvolver o StreetView…). E isso é sempre desencorajador para quem não se importe de contribuir gratuita e voluntariamente com informação, que depois é descartada e esquecida. Essa é a razão principal pela qual não contribuo com informação para a Wikipedia: na altura em que o fiz, há muitos anos atrás, perdi semanas a escrever artigos, que foram depois todos rejeitados pelos Wiktators que administram a Wikipedia. Foi demasiado frustrante. Nunca mais contribui com nada para a Wikipedia!

Em compensação, o OpenStreetMap é totalmente diferente. Tal como todos os outros sistemas de cartografia online, usa várias fontes — públicas — para a informação «inicial». Por exemplo, a maioria dos rios em Portugal vem da Yahoo. A maioria das estradas vem do Bing. Noutros países obteve-se informação de fontes públicas semelhantes. Ao fim de uns anos, o OpenStreetMap estava mais ou menos ao nível do Yahoo, do Bing, ou mesmo dos Mapas Sapo: tinha a informação essencial — linhas costeiras, rios, estradas, e nomes de localidades — para a maioria dos locais do Planeta Terra.

Depois chegou a vez dos voluntários. O OpenStreetMap não tem dezenas de carrinhas a fotografar as ruas. Mas tem quinhentos mil voluntários a passearem por aí com os seus telemóveis com GPS — mesmo nos confins de África! — a recolher dados: nomes de ruas, tipos de edifícios, lojas, etc. Depois chegam a casa e metem essa informação no OSM. Mais do que isso: na realidade, nem toda a gente anda pelas ruas. Muitos fazem apenas a mesma coisa que eu: conheço bem a minha redondeza, e que me custa acrescentar informação sobre tudo o que conheço à minha volta?

No site do OSM existem várias formas de acrescentar informação aos mapas. Pode ser com uma aplicação externa que depois exporte para a base de dados central do OSM. Ou então com uma aplicação em Flash chamada Potlatch que é muito fácil de usar. Sobrepoem-se as imagens de satélite (que vêm do Bing, mas podem-se usar outras…) e toda a cartografar! Ao fim de umas horas, a cache do OSM já contém os novos dados, que são visíveis por todo o mundo. E há mesmo muita informação que se pode colocar — muito mais do que aparece na maioria das aplicações de cartografia digital que são publicamente acessíveis.

O princípio funciona — porque as pessoas conhecem as suas redondezas, e muitas pessoas a colaborarem podem efectivamente «preencher» muitas redondezas! Ademais, quanto mais alguém estiver frustrado com a falta de informação da sua redondeza, mais se sente encorajado em preenchê-la com informação, que é o que me acontece a mim! É por isso que o OSM tem, por exemplo, o mapa mais completo de Bagdade — os iraquianos estavam fartos de serem ignorados pelas empresas de georeferenciação, e por isso mapearam a sua cidade ao pormenor e ao detalhe.

Vamos a alguns exemplos. Eis o que a Microsoft pensa da zona onde vivo:

Ok, tem as ruas e pouco mais. De notar que a Rua do Monte Leite, onde vivo, está interrompida logo a meio do mapa. Mas a imagem de satélite que o Bing tem mostra a rua completa! E há umas ruas no canto inferior, ao centro, que estão por ali sem se perceber o que são. Na realidade não são ruas públicas: fazem parte de um condomínio de luxo que há por aqui, e não são acessíveis ao público. A norte, também ao centro, estão as ruas (sem nome) de um bairro social que outrora foi a zona mais temível do concelho — o Bairro do Fim do Mundo. Fazendo o zoom out, a Microsoft coloca correctamente o nome do bairro, mas não acha que vale a pena cartografar com mais detalhe um bairro social…

A Microsoft não tem mais informação nenhuma para estas paragens. Mas também não estaríamos à espera de melhor de um produto Microsoft 🙂

A Google, no entanto, não é muito melhor:

A ironia é que as imagens de satélite do Google mostram a rua interrompida, mas o mapa está correcto! De notar como as ruas parecem diferentes e às vezes até com menos nomes — embora na realidade, ampliando-se o mapa, há mais ruas com os nomes correctamente identificados. E, claro, começa a aparecer informação de empresas e pontos de interesse no mapa. Uma coisa que há muitos anos que aparece no Google Maps é a «Dolce Vita Guesthouse», que nunca percebi onde ficava, pois nunca a vi na minha rua!! (Já vou esclarecer o mistério mais abaixo).

Infelizmente não tenho nenhum produto Apple que corra iOS 6, pelo que não faço a menor ideia de como isto aparece no Apple Maps. Mas deve ser hilariante!

Contrastem isto com a riqueza de informação produzida pelo OpenStreetMap:

À partida, parece que há menos nomes de ruas, mas isso é apenas uma questão de ampliação — na realidade estão lá todos os nomes. Mas está muito mais. Por exemplo, percebe-se que há ali vários condomínios privados (na minha rua são dois, e há mais um abaixo) — quem conheça a legenda dos sinais topográficos do OpenStreetMap saberá distinguir entre estradas públicas e caminhos de acesso privados. Estão marcados passadeiras de peões, as zonas verdes, e até os percursos pedonais nos jardins! E, tal como nos mapas da Google de «cidades importantes», também aparecem os edifícios todos. Mas está lá muito mais ainda, que não se vê no mapa: os edifícios são classificados conforme sejam residências familiares, blocos de apartamentos, etc. Não se vê neste nível de ampliação, mas os edifícios principais têm também os números das portas. Os ícones podem apenas dizer que são ATMs, mas dizem também que são do Multibanco. Um símbolo de um banco diz que banco é que é. Podem-se ver não apenas as escolas, mas também os edifícios que pertencem à escola, os parques de estacionamento, e até os campos de futebol!

E toda esta informação está disponível para todas as aplicações que usem o OSM.

E resolvi finalmente o mistério do «Dolce Vita Guesthouse»: nunca o tinha visto na minha rua porque está num edifício dentro de um condomínio fechado ao qual não tenho acesso! Obrigado, OpenStreetMap, pelo esclarecimento de algo que me andava a fazer confusão há anos! Imagino a centenas de turistas confusos que andaram às voltas à procura do tal guesthouse sem saber onde ficava… 🙂

Ora mas a esta altura do campeonato vão-me dizer que é batota, porque é óbvio que fui eu quem lá colocou essa informação toda. Claro 🙂 Mas esse é o objectivo deste artigo. Na realidade, esta zona é um pedacinho de um trabalho de cartografia digital feita essencialmente por duas pessoas ao longo de dois dias. Não faço a menor ideia de quem seja a outra pessoa. No início da semana passada, o mapa do OSM estava igual ao do da Google, excepto com mais uma ou outra correcção que tinha feito há uns anos atrás. Mas reparei que havia um voluntário que estava a «encher» o lado leste da freguesia com casinhas, assim como a zona das praias. Então eu comecei a fazer o mesmo do lado oeste e norte, e corrigi alguns pormenores na zona das praias (não se vê nesta imagem). Ao fim de dois dias, praticamente mapeámos toda esta parte da freguesia, onde vivem 18.000 pessoas: S. João do Estoril tem neste momento no OSM mais informação cartográfica do que qualquer outra aplicação do mundo. E isto graças apenas a dois voluntários com insónias em dois dias. Imaginem isto multiplicado por quinhentos mil voluntários.

Ora claro que é fácil de acrescentar informação quando se conhece muito bem o sítio onde se mora, ou onde se trabalha, etc. Eu não conheço muita coisa assim tão bem em Portugal, por isso fui dar um saltinho aos mapas do Funchal, onde vivi mais de meio ano, e sabia que podia contribuir com alguma informação. Para meu espanto, vi que a cidade do Funchal tem já tantos voluntários a mapear aquilo tudo, que até fiquei vesgo com tanta informação!! Na altura em que vivia no Funchal, o Google Maps tinha apenas uma superfície toda branca para a Ilha da Madeira, com uma bolinha a dizer «Funchal». Hoje em dia claro que não é assim, mas a Google tem talvez um centésimo da informação que o OSM tem. Porquê? Porque não há Google Vans no Funchal. Mas há provavelmente algumas centenas de voluntários a cartografar tudo.

Ao ver nos sites das piadas dos mapas do iOS 6 que tantas universidades tinham desaparecido, ou que pelo menos os seus edifícios já não estavam lá, fui ver se a UTAD já estava no OSM. Claro que está. E com o mesmo nível de detalhe que a Google coloca nos seus mapas. Devem haver também alguns voluntários em Vila Real que fizeram o mesmo que os funchalenses fizeram à sua cidade, pois o nível de informação sobre Vila Real em geral é igualmente impressionante.

É evidente que os mapas no OSM são muito assimétricos em termos de informação: só aparece informação detalhada quando há voluntários nessa zona para fazer a cartografia. No entanto, os mapas «comerciais» também não têm o mesmo nível de detalhe — concentram-se primeiro nas zonas mais densamente povoadas, e deixam os subúrbios e as cidades de menor interesse para o fim. A ideia é que serão zonas tão remotas e despovoadas que não passará por lá ninguém.

Claro que eu acho que é justamente nos sítios mais remotos e despovoados que a cartografia faz mais falta, porque é precisamente aí que não se encontra informação em lado nenhum! Então, num impulso, decidi cartografar a Vila de Fonte Arcada, Concelho de Sernancelhe, Distrito de Viseu — pop. 270 (terra onde nasceu o meu pai):

Ok, é pouco provável que os turistas estejam interessados em visitar uma aldeia histórica (mais de dois terços dos edifícios têm mais de um século; alguns tem um milénio!) perdida na Beira Alta, mas se o fizerem, e usarem alguma aplicação que use dados do OSM, vão encontrar a Aldeia Com Mais Informação Cartográfica de Portugal™. Embora a ampliação acima não dê para ver, estão indicados todos os monumentos (e não são poucos), todas as ruas com nomes (nem todas as têm), e todas as casinhas que existem num raio de 10km, com os principais percursos pedonais assinalados, assim como os miradouros — e os dois únicos cafés e as fontes públicas que existem na redondeza quando for preciso beber água.

No Google Maps pelo menos fica-se a saber o traçado das ruas e os nomes das mesmas; os Mapas do Sapo têm até alguma informação adicional (excelente trabalho!) que muito me surpreendeu. Já não é nada mau, mas não conseguem competir com O Poder do Crowdsourcing™ do OpenStreetMap. Heh!

Ora isto tudo para dizer o quê?

Se a Apple tivesse usado uma das várias aplicações para iOS que usam OpenStreetMap em vez do Tom Tom, não teria havido tanta gargalhada geral. O que teria acontecido era que as pessoas reparavam que as coisas estavam todas mal e iam ao site do OpenStreetMap corrigi-las. É certo que iriam colocar imagens dos disparates que por lá encontraram, mas quem visse essas imagens, após se rir um bocado, se as fosse consultar no seu iPhone ou iPad, veria que já estavam corrigidas. É que com milhões de pessoas a actualizar o que está mal, o Apple Maps, em pouco tempo, deixaria de ter os problemas que tem.

Ironicamente, porque a Apple também usa informação do OSM, embora só para as zonas não mapeadas pela Tom Tom, vão ser justamente nas zonas menos povoadas e mais remotas que a informação do Apple Maps vai estar mais correcta e mais completa do que o Google Maps! Isto vai ser divertido de ver. O OSM publica imensa informação estatística sobre a sua utilização, e é giro de reparar que, desde que o iOS 6 foi lançado, que a utilização do OSM disparou. É natural que assim seja. Eu já me tinha esquecido de que o OSM existia, apesar de ter lá um login há anos. Foram justamente as piadas todas em torno do Apple Maps que me motivaram a ir lá acrescentar informação, mesmo sabendo que a Apple usa pouca informação do OSM. Mas usa alguma, e, pelo menos, para as dezenas de aplicações que usam, de facto, informação do OSM, todas estas ficaram mais enriquecidas com mais e melhor cartografia.

Há quem discuta o interesse da existência do OSM. Eu quando era puto era fascinado por mapas. Dizem-me os meus pais que aprendi a ler sozinho olhando para plantas de cidades e mapas porque queria saber os nomes das terras por onde passávamos quando andávamos de carro (já não me lembro nada disso). Na minha adolescência, perdia horas a fazer mapas imaginários para os meus jogos de role-play (na altura em que isso significava papel, lápis, dados, e jogadores humanos à volta de uma mesa). Sempre adorei mapas e cartografia. Obviamente que uma forma de contribuir com informação cartográfica é algo que me estimula. Inclusive parte do meu trabalho académico tem a ver justamente em descobrir formas de automaticamente encontrar percursos, e tudo o que tenha a ver com percursos de alguma forma atrai-me a atenção. Sei que há meio milhão de pessoas como eu, que estão registadas no OSM.

O argumento contra o OSM é que «dilui esforços». É verdade: se esse meio milhão de pessoas estivesse a contribuir para o Google Maps, este seria infinitamente superior. Mas a Google não está interessada nessas contribuições, não quer saber delas para nada (e porque provavelmente receia o vandalismo e o spam). Tal como a Microsoft, o Yahoo, a Tom Tom, etc. Provavelmente nem sequer o pessoal formidável dos Mapas do Sapo quer saber disso. E de certeza que o Instituto Geográfico do Exército, fonte da melhor e mais exacta informação georeferenciada neste país, deve odiar sistemas de crowdsourcing cartográfico, porque a venda de informação georeferenciada é uma fonte de receitas para o Exército Português, que bem precisa delas. E, finalmente, as dezenas de empresas em Portugal que trabalham em GIS também detestam esta ideia de ter centenas de milhares de voluntários a cartografar o mundo todo de borla. Estragam-lhes o negócio. É que uma coisa é ter duas ou três pessoas a fazer isso — naturalmente, cometerão erros, e os profissionais da cartografia farão mais e melhor, de forma consistente. Mas outra coisa é ter milhares de pessoas, a actualizar e a corrigir-se mutuamente. Tal como aconteceu com a Wikipedia, em relativamente pouco tempo — alguns anos — superaram qualquer outra enciclopédia do planeta.

Imaginem agora o que seria ter um funcionário de cada câmara municipal deste país dedicar, por exemplo, duas horas por semana a cartografar partes do seu concelho e a meter no OSM. Nem seria preciso mais do que isso. Ao fim de um ano, a informação cartográfica que existe para o país todo seria incrível — batendo toda e qualquer empresa ou aplicação existente. Mesmo o Exército Português, que tem mapas topográficos com um detalhe assustador (identificam árvores individuais e pedras que rolaram para o meio de caminhos florestais!), poderia beneficiar desse trabalho colaborativo. E duas horas por semana não é nada: é talvez o tempo que um funcionário camarário, em média, perde a ir à casinha e a tomar café 🙂 Mas o benefício será incomensurável, e, mesmo que cometa erros, mais tarde haverá quem os corrija. A Google pode ter centenas de pessoas para cartografar todo o mundo, mas Portugal teria centenas só para cartografar este país — e são pessoas que vivem no sítio que estão a cartografar, e sabem muito bem o que é importante e o que não é. Isso traduz-se na vantagem que a aplicação da Apple, em contraste, não tem: apresentar uma visão do território de acordo com a importância que as pessoas lhe dão.

A Apple jamais irá «apanhar» a Google em termos de informação cartográfica. Os meninos da Google têm cinco anos de vantagem, têm Google Vans, têm o maior e melhor motor de pesquisa do mundo. Em termos de tecnologia e capacidade de recolha e processamento de informação à escala global, a Google é imparável e imbatível. Talvez a Microsoft conseguisse fazer o mesmo, se fosse uma prioridade para eles, mas parece não ser. A Apple não tem um motor de pesquisa (tem o Siri…), e mesmo que contratasse centenas de pessoas e alugasse carrinhas, precisaria dos mesmos cinco anos para chegar ao mesmo nível da Google.

No entanto, aquilo que a tecnologia super-sofisticada da Google faz automaticamente pode ser replicada rapidamente — e com mais precisão — com centenas de milhares de voluntários. Como a própria Google sabe, há certas tarefas que os humanos desempenham muito melhor do que sistemas informáticos. Durante anos que a Google usava voluntários para fazer a classificação de imagens; de forma inteligente, até criaram um jogo em torno disso, para motivar as pessoas a classificar imagens. Isso criou-lhes uma base poderosíssima para terem imagens pesquisáveis de forma útil para os humanos (por isso é que o motor de pesquisa deles é tão bom a classificar imagens! Foram humanos que as classificaram!). Se a Google não o faz, a Apple nunca apoiará um modelo baseado em crowdsourcing para melhorar a qualidade do Apple Maps: não faz parte da sua cultura empresarial. O que isto significa é que, durante pelo menos uns cinco anos, vão continuar a ser o alvo da chacota universal dos utilizadores dos seus caríssimos produtos tecnológicos, que podem ser muito bons em imensos aspectos, mas que têm agora uma aplicação de cartografia digital pouco útil — ou mesmo totalmente inútil em muitas áreas do mundo.

No entanto, se forem espertos (não costuma ser o caso, na Apple…), poderão usar mais e mais o OpenStreetMap, e menos e menos o Tom Tom, e, «como por magia», a aplicação deles parecer-se-á mais e mais com o Google Maps, até finalmente o ultrapassar. Isto, claro, é fazer batota, e da grande. Mas as empresas espertas usam o que for de borla da melhor forma possível, se o objectivo for bater a concorrência. A Apple não consegue bater a concorrência excepto se usar informação crowdsourced — pelo menos a curto prazo.

Nos tempos do Steve Jobs, a Apple fazia este tipo de coisas com mais frequência. Toda a gente sabe que a Apple não desenvolveu o Mac OS X de raíz: foi buscar uma versão do FreeBSD e adaptou-a. Toda a gente sabe que não fez um browser de raíz: absorveu o projecto WebKit (que ironicamente a Google também usa) e deu-lhe apenas um nome novo. Eles fazem isso constantemente: encontram um produto open source estável e desenvolvido, e re-utilizam-no sob um novo nome, «vendendo-o» como se tivessem sido eles a inventar (a comunidade nem se importa, porque depois a Apple também contribui com algum desenvolvimento que fica depois disponível para todos de forma gratuita. É verdade!).

Nesta altura do campeonato, se fosse eu, tomava uma atitude de humildade (coisa que a Apple nunca faz!) e pedia desculpa aos milhões de utilizadores de iOS 6 que têm mapas inúteis. Lançava um patch ao iOS 6 com a mesma aplicação, mas a «puxar» dados do OpenStreetMap. E anunciava aos fãs todos da Apple em todo o mundo que, se quisessem melhorar os resultados dos mapas, podiam fazê-lo imediatamente, sem esperar pela Apple: bastava irem ao site do OpenStreetMap e corrigir o que está errado. Mas a Apple não é humilde e nunca pede desculpa pelos erros que comete. Por isso vai sofrer a gargalhada geral da humanidade (principalmente do campo Android!) durante muitos e muitos anos!

Dirão os anti-Appleianos: é muito bem feito! Estão a ser castigados pelo pecado do orgulho! 🙂

Entretanto, a única coisa que posso dizer é: não gostam dos mapas da vossa aplicação de mapeamento favorita? Fixe. Deitem-na fora. Usem uma aplicação que use os dados do OpenStreetMap e corrijam o que não gostam.

Será que o pessoal do Sapo está a ouvir? 🙂

É triste gastar-se tanto dinheiro…

Diariamente os meus amigos computer geeks quarentões atiram-me com links para o Facebook de artigos sobre o dinheiro que se gasta na Administração Pública com software e serviços informáticos neste país que depois até nem funcionam. Geralmente fico sempre chocado, e depois um pouco triste, pois há tantas soluções dispendiosas que podiam ser evitadas com apenas um pouco de bom senso e de conhecimentos…

Não pretendo aqui estar a fazer um «ataque» ao software comercial, dizendo que não presta e que as empresas que o comercializam são umas exploradoras. O mercado é livre: só compra produtos de software comerciais quem quer, ou quem pode. A título particular, nas alturas em que tenho dinheiro, até adquiro bastante software comercial (mesmo que seja de baixo custo). Não é porque não hajam alternativas open source gratuitas — normalmente até há! — mas porque gosto mais da interface, ou porque são mais estáveis, ou porque têm mais opções, etc. Num meio onde as empresas que vendem software comercial têm de concorrer com produtos idênticos open source a custo zero, há pressão para justificar a diferença de preço, porque os clientes potenciais (quando são indivíduos) que não tenham pruridos (leia-se: lavagem cerebral de que só o que é comercial é bom, uma falácia muito bem disseminada) sabem pesquisar na ‘net as alternativas e optar pelo que lhes parece melhor. Chamo a isto tomar decisões em consciência.

Infelizmente, neste país, o mesmo não se aplica à Administração Pública. Aqui o caso é grave, porque a Administração Pública está a gastar dinheiro que é de todos nós. Não seria legítimo, enquanto contribuintes, que esperássemos que gastassem esse dinheiro da forma mais eficaz possível?

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A Internet totalitária

Disclaimer: Não me filiei no Bloco de Esquerda e não defendo a sua ideologia (se é que eles têm alguma). Continuo a achar, mais do que nunca, de que neste momento a monarquia seria mais útil à sociedade portuguesa (mesmo que também possa não concordar com as opções ideológicas da maioria dos monárquicos). Continuo a defender o direito a todo e qualquer cidadão de ser remunerado pelo seu trabalho da forma como muito bem entender e de afixar os preços como achar que é melhor para si, sem intervenção do Estado (excepto em situações de monopólio/oligopólio/cartelização). Portanto ainda defendo ideiais de direita.

Continuo igualmente a apoiar a ideia do Estado Social, onde o único papel do Estado é o de distribuir riqueza para termos uma sociedade mais justa. Esse papel é o de Robin dos Bosques: tirar aos que têm demais para apoiar os que mais precisam (e que realmente merecem o apoio); não o papel «invertido» que temos hoje em dia (onde o Estado taxa os que não podem fugir aos impostos para enriquecer aqueles que têm os seus bens e capital fora do alcance da máquina fiscal). Continuo a defender que o papel do Estado deve ser limitado à fiscalização e regulação, nomeadamente o de evitar (mas também o de prevenir) os abusos a um mercado que se pretende livre (o combate à corrupção, à cartelização, aos monopólios, quasi-monopólios, e oligopólios). Nesse sentido, sou social-democrata, mas na utilização dada por essa designação fora do PSD.

Mas também apoio a mobilização da sociedade para apoiar os mais carenciados (e hoje em dia somos quase todos…) e do Estado para financiar aquilo que a sociedade civil não quer apoiar: a cultura, a arte, a ciência (e em certas situações, a educação e a saúde). Nesse sentido sou quase socialista 🙂 Entre o modelo europeu e o americano (onde o Estado não apoia directamente esses aspectos da sociedade), revejo-me mais no modelo europeu, porque as noções de «caridade» e investimento voluntário e altruista na arte e cultura são valores que não fazem parte da nossa sociedade — embora façam parte da sociedade americana, mais conservadora e religiosa que a europeia.

Apoio a livre circulação de pessoas, bens e serviços como pilar fundamental da União Europeia — deve ser o cidadão europeu que escolhe onde quer trabalhar, onde quer viver, e onde quer pagar impostos. Nesse sentido, sou liberal. Mas também defendo que o modelo de «União Europeia» não funciona: estamos a dar dinheiro (quase) de borla sem impôr regras estritas da sua aplicação. Nesse sentido, sou federalista: se os Estados-membros não conseguem ser rígidos na aplicação das regras, tem de haver alguém que lhes diga o que fazer, como fazer, e como é que não o podem fazer, e essa aplicação de regras não pode ser «voluntária».

E, finalmente, apoio a livre circulação de ideias, seja pela Internet, seja por qualquer outra forma. Acredito em modelos de sociedade onde as pessoas, nos seus tempos livres, e tendo garantido o direito ao seu trabalho (o que está na Declaração Universal dos Direitos do Homem e replicado em praticamente todas as constituições democráticas no mundo), possa colaborar livremente em projectos e ideias que beneficiem terceiros, sem se preocupar muito com a sua própria remuneração. Apoio o voluntarismo. Apoio a criação espontânea de grupos de trabalho para resolver problemas sem ser necessária uma «organização estatal» (ou corporativa) que diga as pessoas o que fazer; estas conseguem organizar-se perfeitamente sozinhas, desde que haja vontade e capacidade de trabalho. Mas também apoio o direito à privacidade (em todos os seus aspectos) e a liberdade de cada cidadão de apenas revelar ao Estado o que quer — e que, na privacidade das suas casas, toda a gente tem direito a fazer o que muito bem lhe apetecer (desde que não seja ilegal). Nesse sentido, sou quase libertário de esquerda 🙂

Neste último aspecto, é óbvio que apoio todas as iniciativas que procurem limitar a liberdade de acesso à Internet, à livre circulação de ideias, e à privacidade do que cada cidadão faz com a Internet no conforto e segurança das suas próprias casas. Não reconheço a ninguém, por mais bem intencionado que seja, o «direito» a interferir com essa liberdade. Não aceito «moralismos» de que fazer X ou Y é errado, porque «uma entidade superior» (mundana ou alegadamente supra-mundana) sussurrou a um político o que está «certo» ou «errado», e que, a partir disso, lhe concedeu o «direito» de dizer às pessoas como devem pensar, seja no espaço público, seja no privado. Obviamente que em público temos regras e normas de conduta a seguir, para benefício de todos. Mas o que fazemos em privado com a nossa família e/ou amigos é connosco (desde que não seja ilegal).

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WordCamp Lisboa 2011 — Um resumo

Todos os resumos serão necessariamente incompletos, pessoais e muito parciais. Esta é apenas a minha percepção do evento!

Mas antes de mais, um resumo do evento em imagens 🙂

Em primeiro lugar devo referir a perfeição da organização. Graças à Ana Aires, que fez a coordenação geral, o evento começou a horas, as sessões tiveram a duração prevista, e a pontualidade foi levada ao extremo. Nada de atrasos e de «quinze minutos académicos» ou semelhantes desculpas para a falta de pontualidade: o evento decorreu com maior precisão cronográfica que o sincronismo por NTP 🙂 Continuar a ler

Três argumentos a favor do Google Plus

Coloquei isto no Facebook (ironia das ironias) mas achei que era mais fixe reunir tudo num post só e colocá-lo aqui. Porquê? Porque o Facebook não permite a pesquisa de conteúdo, e isso significa que em breve desaparecerão. E tenho interesse, daqui por um ano ou dois, olhar para este artigo e rir-me imenso com as previsões idiotas que fiz.

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As consequências do Stallmanismo radical

O modelo da distribuição de música e de vídeo/cinema está em colapso. Penso que não é preciso vir com muitas estatísticas nem com grandes filosofias para chegar a essa conclusão. Cada ano que passa, e apesar de serem lançados mais álbuns e mais DVDs, o número de vendas global em lojas tem diminuído. Durante alguns anos, a resposta das labels era aumentar os preços para compensar a falta de vendas; mas essa estratégia só piorou a situação, e actualmente os preços têm baixado, e muito.

Porquê? A razão é tremendamente simples. Nos anos 80, quando o formato CD foi lançado, começando aos poucos a substituir o vinil (e a velha cassete), este revelou-se demasiado simples de copiar: qualquer puto de 6 anos com um computador consegue extrair as músicas à vontade. O DVD resistiu um pouco mais de tempo, até os computadores se tornarem suficientemente rápidos para facilmente quebrarem as chaves de encriptação do formato com que eram codificados. Essa é uma evolução natural das coisas: não há formato digital que não possa, mais cedo ou mais tarde, ser descriptado — é uma questão de tempo. A chave super-segura de hoje é facilmente quebrada por computadores exponencialmente mais rápidos de amanhã (ou um grande número deles a trabalhar em conjunto, como é o caso da utilização da Internet para esse fim).

Com a disponibilização de produtos culturais e artísticos em formato digital que podem ser reproduzidos em computador, acabou-se finalmente uma antiga premissa, sob a qual assentava a legislação de protecção de direitos de autor: a noção de que o investimento na reprodução de uma obra era cara e necessitava de um enorme investmento. Hoje em dia, o “investimento” custa algumas poucas centenas de Euros, se tanto — e com isso pode-se copiar e distribuir tudo.

Não há sistemas de cópia seguros. A noção de “buraco analógico” (analogue hole) é uma premissa incontornável — um facto inegável: qualquer coisa que passe por um computador pode ser copiável. Pode-se fazer a cópia mais ou menos difícil (por exemplo, utilizando chips de encriptação em hardware, como existem em alguns dispositivos), mas “difícil” apenas significa “mais tempo e mais trabalho” — até a primeira pessoa encontrar uma maneira de subverter o sistema. Depois essa pessoa pode simplesmente distribuir cópias à vontade, e é impossível de prevenir esse sistema. Continuar a ler