As Novas Bruxas

Dark Moody Beautiful Witch Child por D. Sharon Pruitt

Dark Moody Beautiful Witch Child por D. Sharon Pruitt (licensa Creative Commons by Attribution)

O século XVIII autodenominou-se «O Século da Iluminação». Os grandes pensadores da época acharam que o futuro da Humanidade estava na substituição gradual da mitologia e das superstições pela Razão. Esperava-se que o progresso científico, assente na experimentação empírica, que tão bons resultados tinha dado no início do período barroco, com gigantes como Isaac Newton, continuasse a progredir e que se alastrasse a todas as áreas do conhecimento humano. Esperava-se igualmente que um dia todas as pessoas (bem, pelo menos na aristocracia…) soubessem ler, escrever, fazer contas, e aprender a pensar pela própria cabeça, usando a lógica e a razão.

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Visite Lisboa antes do terramoto de 1755

Parte da tese de doutoramento que estou a fazer tem a ver com arqueologia virtual. Isto é um ramo relativamente novo da ciência que «casa» duas coisas completamente distintas: por um lado, a investigação em história, em património, e em arqueologia. Por outro lado, a tecnologia informática que permite a visualização de objectos arqueológicos.

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As consequências do Stallmanismo radical

O modelo da distribuição de música e de vídeo/cinema está em colapso. Penso que não é preciso vir com muitas estatísticas nem com grandes filosofias para chegar a essa conclusão. Cada ano que passa, e apesar de serem lançados mais álbuns e mais DVDs, o número de vendas global em lojas tem diminuído. Durante alguns anos, a resposta das labels era aumentar os preços para compensar a falta de vendas; mas essa estratégia só piorou a situação, e actualmente os preços têm baixado, e muito.

Porquê? A razão é tremendamente simples. Nos anos 80, quando o formato CD foi lançado, começando aos poucos a substituir o vinil (e a velha cassete), este revelou-se demasiado simples de copiar: qualquer puto de 6 anos com um computador consegue extrair as músicas à vontade. O DVD resistiu um pouco mais de tempo, até os computadores se tornarem suficientemente rápidos para facilmente quebrarem as chaves de encriptação do formato com que eram codificados. Essa é uma evolução natural das coisas: não há formato digital que não possa, mais cedo ou mais tarde, ser descriptado — é uma questão de tempo. A chave super-segura de hoje é facilmente quebrada por computadores exponencialmente mais rápidos de amanhã (ou um grande número deles a trabalhar em conjunto, como é o caso da utilização da Internet para esse fim).

Com a disponibilização de produtos culturais e artísticos em formato digital que podem ser reproduzidos em computador, acabou-se finalmente uma antiga premissa, sob a qual assentava a legislação de protecção de direitos de autor: a noção de que o investimento na reprodução de uma obra era cara e necessitava de um enorme investmento. Hoje em dia, o “investimento” custa algumas poucas centenas de Euros, se tanto — e com isso pode-se copiar e distribuir tudo.

Não há sistemas de cópia seguros. A noção de “buraco analógico” (analogue hole) é uma premissa incontornável — um facto inegável: qualquer coisa que passe por um computador pode ser copiável. Pode-se fazer a cópia mais ou menos difícil (por exemplo, utilizando chips de encriptação em hardware, como existem em alguns dispositivos), mas “difícil” apenas significa “mais tempo e mais trabalho” — até a primeira pessoa encontrar uma maneira de subverter o sistema. Depois essa pessoa pode simplesmente distribuir cópias à vontade, e é impossível de prevenir esse sistema. Continuar a ler

O que os finlandeses (e não só eles!) deviam saber sobre Portugal… e vice-versa!

Claro que é tendencioso. Mas não deixa de ser uma excelente introdução à história e cultura portuguesas, passada e presente. 🙂

E eis a brilhante (e simpática) resposta:

Isto pode ser que se torne numa moda; significaria que os países europeus acabavam por se conhecer muito melhor! Já era uma vantagem da crise…

Política académica…

Como alguns de vocês sabem, recentemente tenho estado a voltar a estudar (sou burro, por isso achei que devia estudar mais…), e apesar de ter passado os últimos cinco anos a fazer uma série de projectos para universidades portuguesas e estrangeiras, não tinha (ainda) muita sensibilidade para o trabalho académico. Uma coisa com que se entra pouco em contacto durante a licenciatura (pelo menos foi o meu caso) é o código de conduta ética dos investigadores científicos.

Seja em que ramo do conhecimento for, é natural que os trabalhos se baseiem uns nos outros — é assim que a ciência avança! — seja refutando trabalhos anteriores, seja aproveitando as linhas de investigação desenvolvidas e apresentando uma nova visão. Neste processo é crucial garantir que seja dado crédito a quem o merece; tudo o resto é considerado plágio, e fortemente penalizado por toda a comunidade científica, sempre que alguém se apropria indevidamente de trabalho de terceiros sem lhes dar o devido crédito. Se se tratou de um lapso honesto — é publicado tanta coisa, que nem sempre é fácil de estar a par de tudo — pede-se desculpa formal, publicamente, e apresenta-se os novos créditos e referências a investigadores que já tinham trabalhado na área. Se foi uma apropriação indevida, há um ostracismo por parte da comunidade, declarando determinado investigador como sendo pouco honesto intelectualmente, e não sendo digno de ser citado ou reconhecido. Este mecanismo estranhamente funciona…

Muito do trabalho de análise das equipas que fazem a revisão científica de artigos de revistas ou de conferências gira em torno de descobrir se houve plágio ou aproveitamento indevido, e se sim, se foi deliberado ou não. No fundo, é fácil — se quem faz a revisão descobre que afinal de contas o artigo contém material de outro investigador, o autor é informado. Se for honesto, vai simplesmente agradecer a quem faz a revisão, ler o trabalho do colega, e dar-lhe o devido crédito. Se não for honesto, pura e simplesmente não é publicado. Como a atribuição de verbas e a progressão na carreira depende do nível de publicações, a maioria dos cientistas tenta manter-se o mais honesto que consegue, por interesse pessoal.

Não é “vergonha” nenhuma citar colegas e dar-lhes crédito. Não torna o trabalho “menos importante” ou “menos sigificativo” apenas porque se usam referências de terceiros que trabalharam na mesma área. Pelo contrário, há um reconhecimento de que o investigador fez um bom trabalho, leu o que devia ler sobre o assunto, e mostrou-se consciente do trabalho que tem sido desenvolvido pelos colegas, fazendo-lhes referência. É isso que se espera que aconteça.

Fora do mundo académico, não é assim. Como a esmagadora maioria dos trabalhos académicos é publicado livremente — com o entendimento de que quem usar esses trabalhos lhes deve fazer referência — é muito simples para a indústria pegar nesses trabalhos e apropriarem-se deles sem mais problemas. A indústria não está “comprometida” com este código de conduta ético, pois não necessita de se preocupar que a atribuição de verbas seja indexada à integridade ética, mas sim apenas à sua capacidade de vender ideias, produtos e serviços. Se há apropriamento indevido de material de terceiros, cabe a estes o recurso aos tribunais. São modelos diferentes de funcionamento.

Para mim isto é todo um mundo relativamente novo, e confesso a minha inocência ao aperceber-me que estes casos são mais frequentes do que pensava. Dentro do meio científico, como há uma pressão (financeira…) para os investigadores se manterem honestos, estes geralmente cumprem os códigos de conduta. Fora do meio científico, pensava que as pessoas não ligassem lá muito ao que os investigadores andam a fazer. Foram sempre para mim mundos mais ou menos distintos.

Nada como sentir na pele como é que as coisas realmente são para ficar mais sensibilizado a estes problemas 🙂

Em 2005, a minha pico-empresa de desenvolvimento de conteúdos 3D em Second Life foi abordada por uma investigadora que precisava de um modelo 3D do edifício da Ópera de Lisboa, construído em Abril de 1755 e arruinado pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. Sabíamos de antemão de que não iria haver financiamento para este trabalho, pelo que o oferecemos generosamente, na expectativa de no futuro eventualmente fazer mais coisas na área da arqueologia virtual, e acrescentar algo mais ao portfolio. O projecto foi muito bem recebido, e pouco tempo depois, tornou-se mais ousado: na área da arqueologia virtual, está fora de moda apresentar objectos arquitectónicos fora de contexto, mas a modelação 3D tradicionalmente foca-se nos elementos isolados. Criou-se então um novo projecto para recriar a totalidade da Lisboa barroca destruída em 1755, com financiamento praticamente nulo, mas constantemente à procura do mesmo, seja por entidades públicas, seja por entidades privadas.

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A perversidade da eliminação da propriedade intelectual

Recentemente no blog do meu primo Ludi ele discutia a questão da propriedade intelectual a propósito de uma controvérsia em torno de um vídeo colocado no YouTube dos “31 da Sarrafada“. O Ludi mostra como o actual sistema de direito de autor e de protecção de propriedade intelectual está obsoleto, moribundo, e desadequado, e que são casos irónicos como este — alguém que regularmente utiliza propriedade intelectual alheia queixando-se de que terceiros usaram indevidamente a sua própria propriedade intelectual — que mostram como o sistema está cheio de falhas.

Isto fez-me logo lembrar eternas discussões de defensores públicos de uma propriedade intelectual mais estrita que depois têm os seus portáteis cheios de MP3 copiados de amigos e cópias pirata de software da Microsoft com que escrevem os seus manifestos em prol de maior controle da pirataria…

Seja como for, eu não concordo com a abolição da propriedade intelectual (já fui um Stallmanista, mas passei essa fase). É que há uma série de perversidades relativamente à questão dos direitos de autor que normalmente conduzem a falácias típicas de argumentação (combinação de “strawman” com a rejeição do todo por uma das partes), e confesso que quando era mais novo e mais ingénuo, não me apercebia destes pormenores.

Vejamos algumas argumentações e as falácias que escondem:

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Festival da Canção 2009: De grunhos para grunhos (de sempre)

Há anos que não via o Festival da Canção (não tenho TV desde 2000 e mesmo antes disso nunca foi algo que verdadeiramente me agradasse). A razão é simples: desde os anos 80, pelo menos, que os compositores nacionais das músicas participantes a concurso ainda não perceberam o que é que “vende” no Eurofestival, e muito menos o que vende música no mundo. Têm apenas uma vaguíssima, muito ligeira noção do que vende em Portugal — e mesmo assim, geralmente por falta de educação musical do público.

O Eurofestival da Canção também não é propriamente um exemplo de erudição musical — mas por vezes lá aparece uma coisinha ou outra que mostra que o compositor até estudou num conservatório e que acompanha o panorama musical internacional. Por cá, infelizmente, os compositores, seja qual a sua formação, acompanham o “gosto musical” de um público sem formação, sem gosto, e sem capacidade de decisão baseada na qualidade. Há excepções, claro. Também há quem ouça música barroca (é o meu caso!) — mas não é para lançar CDs para um mercado de milhões de portugueses.

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Sessão de Autógrafos “A República Nunca Existiu”

Vai tarde, mas cá vai. Quando em Janeiro passado alguns cromos resolveram ser incentivados pelo Octávio dos Santos para escreverem um conjunto de histórias alternativas sobre um passado imaginário onde o regicídio nunca aconteceu, lançou-se “A República Nunca Existiu“, que, curiosamente, até se vendeu bem — a primeira edição de 2500 exemplares esgotou-se, apesar de tudo.

Em Junho passado, na Feira do Livro, os co-autores lá se juntaram para uma sessão de autógrafos — que teve mais autores que pessoas a pedirem autógrafos. Em amena cavaqueira, cá segue a reportagem fotográfica.

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