Populismo, nacionalismo, ignorância e comunicação social

Está-me a irritar descomunalmente a forma como a comunicação social — e, por inerência, o resto da população que passa o tempo todo nas redes sociais — tem andado a tratar o aumento do populismo no mundo ocidental. E chega a altura de alguém começar a ralhar com os senhores jornalistas e apontar-lhes o caminho — e abrir-lhes também uns livros de História para lerem! Continuar a ler

Anúncios

A bola é redonda, ou: a vitória do(s) Patrício(s)

Felizmente não percebo absolutamente nada de futebol. Também, isso não quer dizer nada, pois a esmagadora maioria dos «especialistas» — ou treinadores de sofá — que escrevem por aí e que comentam na rádio e na televisão têm tanta formação em futebol ou ciências do desporto como eu; as únicas pessoas que conheço pessoalmente e das quais respeitaria eventualmente a opinião, são o meu irmão e a minha cunhada, ambos licenciados em ciências do desporto, embora a especialidade deles seja o andebol, não o futebol… De resto, trata-se tudo de amadores que percebem tanto do assunto como eu percebo de mecânica quântica ou biologia molecular: e desde já devo explicar que sou capaz de ficar várias horas a falar sobre estes dois assuntos e convencer uma audiência de que percebo catrefadas do assunto, quando na realidade pouco mais sei do que se lê por aí em Wikipedias e afins. Mas como domino, em certas áreas, a técnica do bullshitting along (vão ao dicionário ver o que significa), cá vai a minha contribuição para este momento de orgulho nacional!

Continuar a ler

A solução para a Volkswagen?

Por esta altura do campeonato, a senhora Merkel andará com mais uma dor de cabeça. Ainda com os problemas da Ucrânia, da Grécia, e dos migrantes por resolver; a adivinhar-se uma longa batalha com David Cameron para mudar as regras da União Europeia (impedindo assim que em 2017 os britânicos não votem em referendo pela saída do Reino Unido); cai-lhe mais uma bomba em cima: que fazer com um dos maiores grupos da indústria automóvel europeia, sediada na Alemanha, que anda a enganar os consumidores e as entidades reguladoras há anos?

Continuar a ler

Para os indecisos…

Mulher gira lendoAs eleições estão à porta. Ainda não se decidiu em quem vai votar. Vamos imaginar que está confortavelmente num consultório médico à espera, a ler as notícias, a procurar informar-se sobre o que dizem os candidatos, a procurar escolher o destino que quer dar a Portugal para os próximos quatro anos.

Mas a comunicação social é confusa. Não a satisfaz. Continua com dúvidas. Qual é, de facto, a melhor escolha — para si, para os portugueses, para Portugal?

É difícil de tomar uma decisão? Este artigo é para si! Continuar a ler

Ortografia por computador

Na passada semana, uma série de meios da comunicação social andaram a divulgar que o (Des)Acordo Ortográfico de 1990 tinha entrado em vigor dia 13 de Maio de 2015, e que, por causa disso, agora passava a ser «proibido» escrever com o acordo «antigo».

Apesar dessa interpretação da data de entrada em vigor do acordo ser incorrecta, a questão principal que coloco não é essa. Nem sequer vou debater, como já fiz, os problemas deste alegado «acordo» de 1990.

A minha questão é mais pragmática: qual acordo é que foi, afinal de contas, aprovado?

Continuar a ler

Em defesa de Passos Coelho

À mulher de César não basta ser pura e virtuosa; também tem de estar acima de qualquer suspeita.

Está na moda «bater» em Pedro Passos Coelho porque este aparentemente não tem noção da legislação que regula as contribuições da Segurança Social, e, alegadamente, também não percebe da legislação fiscal. Ora num Estado de Direito, a ignorância da lei não é factor mitigante; e, para além disso, exige-se que um Primeiro Ministro seja, acima de tudo, exemplar na forma como cumpre a lei. Não basta parecer que é honesto e cumpridor. Tem de o ser mesmo. Esta é a essência sumária da opinião pública em relação ao actual Primeiro Ministro de Portugal: afinal de contas, é tão malandro como os outros, porque também não pagou as suas contribuições e dívidas fiscais — e ainda por cima teve pelo menos cinco processos de contra-ordenação e de execução fiscal!

Mas que malandro!

Continuar a ler

O que os analistas da indústria exigem da Apple…

Nota: Este texto apareceu na sua versão original no Facebook. Mas como o Facebook é impossível de pesquisar por conteúdo, e daqui por uns anos será divertido rir-me do que escrevi, resolvi copiar isto para o meu blog.

Li hoje de manhã um artigo escrito por analistas do mercado, antes dos anúncios da Apple, de que a Apple «tinha» que lançar outro produto que fosse revolucionário e que abrisse um novo mercado, pois «há nove meses que não o fazia» e como tal o seu futuro estaria sob compromisso…

Aparentemente, os especialistas da indústria estão à espera que a Apple faça o trabalho de todo o mundo — que diga ao mundo para onde é que a tecnologia deve apontar! Se não for a Apple a fazê-lo, mais ninguém o saberá fazer?

Pior que isso, acusam a Apple de «só» ganhar 10 mil milhões por ano a vender iPhones e outro tanto a vender música e apps. Dizem esses analistas que a Apple «está acabada» se não vender mais coisas diferentes. Mas babaram-se quando o Facebook anunciou, todo contente, que já ganhava mil milhões de dólares em publicidade…

Ou seja, o argumento destes analistas é que se a Apple só vender iPhones, apps, música, filmes, Macs, portáteis, iPods, iPads, Apple TVs, e sei lá que mais coisas existem hoje em dia na linha de produtos deles, ganhando umas dezenas de milhares de milhões de dólares por ano, com margens que fazem a concorrência chorar de raiva, então a Apple está «arrumada». Tem que fazer muito mais. Tem, por alguma imposição talvez divina, de inventar novos mercados, porque os que tem, «já não chegam para nada», como se fossem apenas uns «trocos»…

Bem. Olhemos para os últimos 15 anos apenas. Nesse período de tempo, é certo que a Apple lançou meia dúzia de produtos que de facto revolucionaram mercados, criando-os onde não existiam. Os meus amigos anti-Apple adoram dizer como a Apple nunca inventou nada (apenas copia as ideias que a Xerox já tinha no final dos anos 1970) e que os seus produtos são uma porcaria e estão ultrapassados (claro que esses meus amigos anti-Apple nunca experimentaram a sério os produtos da Apple por uma questão de fundamentalismo ideológico e apenas fazem comentários a partir de revistas que lêem e experiências que fazem em 5 minutos na FNAC; mas isso é outra conversa ). Na maior parte dos casos, até pode ser verdade. Os engenheiros da Apple são bons, mas os da Samsung, só para darem um exemplo, são melhores.

A questão nem é essa. Quando a Apple lançou no mercado um computador com interface gráfico de utilizador e um rato, tudo isso já tinha sido desenvolvido pela Xerox uma década antes. E pouco tempo depois os PCs passaram também a ter Windows e rato, e pode-se argumentar que eram melhores que os produtos da Apple. Mas essa não é a questão. A questão é que a Apple inventou a «necessidade» dos computadores pessoais terem interfaces gráficos de utilizador e que usassem janelas e ratos. Não interessa se já existiam e se o que veio depois era melhor. A necessidade — o mercado — não existia. A Xerox não acreditava nele. A Microsoft e a IBM riam-se da ideia. Mas a Apple mostrou que havia gente que preferia essa forma de utilizar os seus computadores pessoais, de uma forma simples, sem memorizar comandos complicados. Depois fez-se melhor, claro.

Já haviam trackpads antes da Apple achar uma boa ideia colocá-los em computadores portáteis. Mais uma vez a Apple não foi «a primeira». E se calhar hoje em dia nem é a melhor. A ideia de colocá-los num produto de massa é que foi inovadora (alguém se lembra dos micro-ratos de borracha dos IBM Thinkpads, encaixados entre teclas no teclado? Uma ideia giríssima, mas que não «pegou»).

A Sony, quando lançou o Walkman, também não estava a inventar algo de radicalmente novo. Já haviam leitores de cassetes portáteis, a pilhas, que se levavam a tiracolo, e nos quais se podiam ligar auscultadores. A inovação foi de conceito, de produto — não se pode correr com um leitor a tiracolo, enrola-se, é desconfortável… E de certeza que depois surgiram empresas a fazer melhores walkmen que a Sony. E de certeza muito mais baratos. Também não interessa. A Sony, apenas com boa concepção de produto, criou um mercado novo que não existia antes.

A dada altura a Apple achou que andar só com uma cassete ou um CD não chegava, e meteu milhares de músicas num aparelho pequenino que cabia em qualquer bolso. Mais uma vez não eram originais. Já haviam produtos assim no mercado. Nenhum foi massificado — porque, em simultâneo, a Apple lançou a idiea que a melhor forma de carregar músicas nesses aparelhos seria convencer a indústria musical a vender a sua música num formato novo: em vez de ser em CD, seria em descarregamento directo via Internet. Nada disso é novo. Já havia pirataria maciça quando o iPod foi lançado. Toda a gente sabia descarregar música via Internet e o que não faltavam eram sites. E haviam também sites que vendiam músicas. Mas, mais uma vez, o que não havia era alguém que dissesse à indústria de música que passara a haver um método novo de vender música — e a convencesse a aderir. Hoje em dia, podem-me dizer que todos os outros sites de venda de música são melhores que os da Apple, e que as próprias editoras e os artistas preferem a concorrência da Apple. Não questiono isso. O que importa é que o conceito não existia: distribuir música pela Internet era sinónimo de pirataria, mas a Apple mostrou que se podia também ganhar dinheiro. E de facto assim foi. Depois outros pegaram na ideia e melhoraram-na.

Quando o iPhone foi lançado, haviam decerto excelentes telemóveis no mercado. Os melhores já corriam aplicações em Java e noutras plataformas. A ideia de que o telemóvel pode ser um computador que sincroniza contactos e calendário com o nosso computador pessoal não era nova de todo. Mas a Apple foi muito mais longe, especialmente ao irritar os gigantes de telecomunicações, que, até à data, eram eles que impunham as regras aos fabricantes de telemóveis e ficavam com as margens todas. A Apple acabou com essa tirania criando um produto que os consumidores queriam, contra a vontade dos operadores. E o produto não tinha nada a ver com o que existia no mercado. É certo que fazia também chamadas, mas era um conceito completamente novo, com um interface absolutamente diferente de tudo o que existia na altura. Hoje em dia, chamamos-lhes «smartphones», e, como os meus amigos anti-Apple gostam tanto de dizer, publicando todo o tipo de estatísticas, a Apple não fabrica os melhores e mais sofisticados smartphones. São os engenheiros da Samsung, que forneceram quase todas as peças para os primeiros iPhone, que hoje em dia fabricam produtos muito superiores. Não nego isso, de todo. Mas é preciso lembrar que a Samsung estava incrivelmente céptica com as ideias da Apple quando esta lançou o iPhone. Só os fabricavam porque a Apple lhes pagava, e bem, por componentes caríssimos que na altura ninguém pensava usar (porque não havia margem para isso!), e, tal como todo o mundo, não acreditavam na capacidade da Apple de vencer um combate contra os gigantes das telecomunicações.

Uma vez que estes foram «vencidos» — e com bons argumentos: apesar de tudo, fizeram balúrdios com o negócio! — tal como os gigantes da indústria da música uns anos antes, então, sim, toda a gente passou a acreditar em smartphones. A Google comprou o Android e ofereceu-o. Gasta milhares de milhões por ano para manter um produto do qual não obtém retorno financeiro, mas apenas brand awareness. Em compensação a Apple ganha… dez mil milhões por ano a vender os seus smartphones quiçá obsoletos, ultrapassados, e demasiado caros para o que fazem. Não interessa. O facto é que o smartphone não é «apenas» um telefone móvel mais sofisticado. É todo um ecosistema que envolve a indústia de telecomunicações, de desenvolvimento de software, de distribuição de músicas, filmes, e livros. Nada disso existia antes da Apple «inventar» o iPhone — não o aparelho, que pode não ser inovador, mas o conceito. Hoje em dia, falamos do mercado da «economia móvel» como se fosse algo estabelecido há décadas por decreto governamental. Mas não existia antes da Apple o inventar!

Quando a Apple lançou o iPad, os tablets não eram de todo uma novidade. Numa «Scientific American» de 1993, salvo erro, havia um artigo sobre a Xerox. Viam-se claramente tablets, de vários formatos, sobre uma mesa à entrada das instalações; o tablet moderno tinha sido inventado em 1972 por Alan Kay, um cientista na altura na Xerox, que lhe deu o nome Dynabook (mas só foi construído um protótipo nos anos 1990), e que andava a pensar nestes conceitos já desde 1968. Funcionavam precisamente como hoje: sincronizavam via wireless a um sistema central. Os funcionários da Xerox quando chegavam ao escritório pegavam num tablet do tamanho que preferiam, faziam login, e ficavam com acesso aos servidores do escritório, e podiam tomar notas e comunicar em qualquer lado. No artigo referia-se que, embora a Xerox tivesse muito boas ideias, esta provavelmente não iria vingar fora do espaço de um escritório altamente especializado.

Imagem de um tablet a fazer uma chamada vídeo no filme «2001: Odisseia no Espaço», em 1968. O tablet parece ter o logotipo da IBM.

Imagem de um tablet a fazer uma chamada vídeo no filme «2001: Odisseia no Espaço», em 1968. O tablet parece ter o logotipo da IBM.

E como a Samsung demonstrou em tribunal num processo em que a Apple os colocou, o filme «2001 — Odisseia no Espaço», realizado em 1968, tem tablets iguazinhos aos iPads, até mesmo no pormenor de serem usados para ver vídeos e consultar notícias e mandar mensagens (talvez Kubrick tivesse lido os primeiros artigos de Alan Kay…)… Portanto, a ideia, o conceito, não tinha nada de revolucionário. A própria Apple já tinha experimentado uma coisa parecida com o Apple Newton, um PDA demasiado grande para caber num bolso que foi um «flop» comercial tremendo, ao ponto de já ninguém se lembrar disso (eu cheguei a ter um mas vendi-o ).

O facto é que há anos que se viam produtos semelhantes no mercado. Mas não «pegavam». A Apple lança a sua visão do que deve ser um tablet, e é um sucesso imediato. Depois é copiada por quem faz melhor e, principalmente, muito mais baratos — estive a ver tablets a correr Android por €40, que podem ser adquiridos directamente da China (portes incluídos!), e que têm as mesmas características e capacidades das «marcas brancas» que se vêem na FNAC pelo triplo do preço. Se se derem ao trabalho de pesquisar pelos fabricantes chineses de tablets, até ficam vesgos das opções que existem — centenas de marcas com dezenas de milhares de produtos, com todo o tipo de especificações que quiserem, a custar desde os tais €40 aos mais de €1000. Há para todos os gostos e todas as bolsas. É um mercado maduro, um produto de consumo completamente banalizado, e altamente apetecível. Mas não existia. Em 1993, ninguém acreditava nele. Antes de 2010, muita gente experimentava com a ideia, mas ninguém conseguia ter sucesso. Depois disso, abriu-se um mercado vasto que pura e simplesmente não existia — e do qual a Apple já provavelmente nem sequer é líder de mercado.

Não quer dizer que toda a inovação tecnológica que tenha radicalmente mudado o mercado e a forma como encaramos o papel da tecnologia no mercado tenham vindo da Apple. A Apple não inventou a World-Wide Web. Também não inventou o comércio electrónico, embora tenha contribuído bastante na questão da venda de música online. E, mais importante que isso, não inventou os serviços baseados em cloud —o mérito vem principalmente da Amazon, que os colocou de forma maciça e acessível a todos, e da Dropbox, que demonstrou o que se pode fazer com isso. O produto da Apple, agora iCloud (dantes era MobileMe), é, francamente, uma porcaria. Funciona, mas não se percebe bem como. A Apple chegou tarde a perceber as vantagens do conceito, e adaptou-o muito mal à sua própria filosofia (as novas versões do Mac OS X e do iOS que se aguardam a qualquer momento devem corrigir os problemas principais, mas, mais uma vez, repito, a Apple aqui nem inovou, nem sequer implementou bem, anda apenas a «reboque» e a cometer erros).

Quero apenas dizer que muitas das inovações tecnológicas que tiveram um impacto drástico no mercado partiram efectivamente da Apple, mesmo que actualmente não seja ela a principal beneficiada disso (ou sequer uma das principais). Claro que houve muitas mais coisas revolucionárias nestes últimos 15 anos. Estou a pensar em coisas como o Kinect da Microsoft (que vai muito mais além do interface do Wii), que podem revolucionar completamente como interagimos com os jogos — e, quiçá, com computadores — no futuro. Mesmo os conceitos de motores de pesquisa, o YouTube, e os sites sociais em geral são revoluções em termos de mentalidade, e a Apple não teve um papel activo em nada disso (nem sequer passivo — os forums da Apple são horríveis!). Podia listar muito mais coisas que tiveram um impacto na economia em torno da tecnologia em que a Apple não esteve presente. Mas isso não quer dizer que uma quota de mercado considerável dessas inovações radicais pertence, realmente, à Apple, mesmo que depois tenha sido ultrapassada pela concorrência, que faz mais, melhor, e por vezes mais barato.

Tira de «Basic instructions» por Scott Meyer

Tira de «Basic instructions» por Scott Meyer

Sem as inovações da Apple, hoje em dia continuaríamos a ter telemóveis minúsculos com teclas, cujas ligações à Internet se limitariam a consultar uns mails (como nos tempos áureos da Blueberry) de forma proprietária. Teriam muito melhor voz, uma autonomia extraordinária, e muito maior capacidade de armazenar contactos. Mas não tirariam fotografias, não dariam para jogar clones de Starcraft, ou para mandar mensagens no Facebook. Continuaríamos a ter gravadores de CDs nos portáteis porque seria a única forma de ouvirmos música — com os nossos Sony CD Walkman. E obviamente que continuaríamos a ir à FNAC para comprar música, ou pirateá-la na net como sempre. Os televisores em casa não estariam ligados à rede. Os fabricantes de portáteis continuariam a investir nas linhas dos subnotebooks e desesperadamente a tentar aumentar a performance dos mesmos — e as horas de bateria — para que conseguissem correr as últimas versões do MS-DOS… porque nenhum fabricante acreditaria que fosse útil usar um interface gráfico de utilizador! Provavelmente a Amazon continuaria a não vender eBooks… não vou dizer que tenha sido a Apple a «inventar» os leitores electrónicos portáteis (porque não foi!), mas se não tivessem sido os iPhones a serem usados como uma forma simples de ler livros, talvez nem sequer a Amazon se arriscasse a lançar o Kindle…

Seria um mundo muito diferente, o que se pode dizer praticamente de toda a tecnologia que force uma mudança de paradigma. No caso da Apple, fizeram-no muitas vezes.

Hoje a Apple anunciou o lançamento de… um relógio. Também não é nada de novo: há mais de um ano que existem «pesos-pesados» na indústria que têm os seus relógios a correr Android. Mais baratos e provavelmente melhores que o Apple Watch. Mas a diferença, mais uma vez, está nos pormenores. Quando Steve Jobs, ainda vivo, explicou que as pessoas iriam usar telemóveis para jogar jogos (em vez de comprarem consolas portáteis), estava a explicar que pensava no iPhone como muito mais do que meramente um dispositivo de comunicações, mas como uma forma de vida. O Apple Watch terá como característica notável a capacidade de substituir os dispositivos usados pelos maluquinhos do exercício — colocando sensores para o batimento cardíaco, pressão arterial, GPS, e tudo o que é preciso para o jogger profissional (incluindo música!) no relógio. Mas o mesmo relógio também vai servir para fazer pagamentos em 220.000 lojas nos Estados Unidos, no dia em que for lançado. Mais uma vez: nada disto é original. Antes do Natal de certeza que os fabricantes chineses vão todos lançar coisas idênticas. Daqui por cinco anos, é possível que a Visa e a MasterCard, em vez de emitirem cartões de plástico para os seus cartões, passam a oferecer relógios (têm a vantagem de poderem ser imediatamente desactivados se forem roubados), fabricados na China por uns tostões. Se calhar as companhias de aviação farão o mesmo — porque os cartões de embarque também já são arquivados no Apple Watch — e, pelo menos nos Estados Unidos, poder-se-á andar nalguns transportes públicos apenas envergando o relógio.

Vão-me dizer que nada disto é novo. Pois não é. Tenho amigos meus que usam os seus telemóveis para andar nos transportes públicos e que não precisam de relógios para nada. É verdade. Mas a questão nem é se o Apple Watch vai ser um sucesso ou não: é a mudança de paradigma que vai ocorrer quando passarmos a olhar para o relógio de uma forma completamente diferente de antigamente. Tal como um smartphone deixou de ser uma ferramenta de comunicação para ser muito mais, um relógio vai passar a ser muito mais do que uma coisa que diz as horas e que tem uns alarmes e uns cronómetros. Vai ser um equipamento prático que podemos usar a qualquer momento sem ter que o tirar do bolso e andar a teclar umas coisas fazendo figuras tristes. É isso que o Apple Watch implica. Primeiro, claro está, vai apelar aos fãs da Apple que não se importam de gastar balúrdios por um relógio que eu pessoalmente acho bonito, mas que muita gente não acha. Mas daqui por 5 anos os «smartwatches» vão custar €30 e correr Android e fazer praticamente o mesmo que os relógios da Apple. Toda a gente vai ter um — mesmo em África ou no Haiti. Para as pessoas que querem lá saber das trinta mil funções de um smartphone e que não se entendem com ele, e tudo o que querem é fazer chamadas telefónicas simples — e, já agora, ver as horas — se calhar só precisam é de um «smartwatch». A ideia da Apple de aumentar o tamanho dos iPhones se calhar não é tão burra como parece: um dia, muito próximo, se calhar deixamos de usar o smartphone para telefonar. Têmo-lo no bolso ou na mala, e usamos apenas o relógio para comunicar, que é mais prático para isso. É esta a questão. Não é se o relógio da Apple presta ou não. É no que vai transformar a nossa vida.

Curiosamente, de entre as coisas que a Apple apresentou, uma delas ainda me chamou mais a atenção, e que se calhar ainda representa uma mudança de paradigma mais profunda, mas passou despercebida à maioria das pessoas. Os U2 lançaram um álbum novo — exclusivamente via iTunes. Isto pode não parecer ser nada de especial. Mas uma particularidade é que o álbum é oferecido pela Apple, de borla, a toda a gente que esteja registada no iTunes. Dirão que é uma tentativa desesperada da Apple para que as pessoas voltem a ligar-se ao iTunes, que não tem feito tanto dinheiro como dantes. Talvez seja. Mas tem consequências curiosas. O álbum «Sounds of Innocence» dos U2, em poucos dias, vai ter 500 milhões de pessoas a descarregá-lo. Será provavelmente o álbum mais ouvido desde sempre no espaço mais curto de tempo. Eu nem gosto muito de U2 (mas a minha mulher adora), mas descarreguei o álbum e ouvi-o, porque é de borla. Poderão dizer-me que música de borla, na ‘net, é o que há mais. Sem dúvidas, mas não temos métricas sobre a pirataria. Do ponto de vista das editoras e da indústria de música, isto é uma anomalia. Será que o Bono levará um disco de platina um dia depois do álbum ter sido lançado? Aliás, na realidade, deve receber um disco de platina de praticamente todos os 119 países do mundo onde o álbum foi lançado. Que quer isto dizer para a indústria da música? Como serão feitas as métricas a partir de agora? E que dizer do modelo de negócios novo, em que uma empresa — a Apple — por uma questão de publicidade, contrata uma banda para depois oferecer a sua música a centenas de milhões de fãs? Será isto a indústria da música de futuro? Será que amanhã teremos a Google a contratar a Rihanna para fazer o mesmo? O que será o futuro da indústria quando as bandas, em vez de ganharem dinheiro a fazer concertos e a vender os poucos CDs que ainda conseguem, em vez disso passam a ser patrocinados pelas empresas, que subsidiam os seus álbuns — pagando-lhes milhões, claro, porque os artistas mais que merecem ser bem pagos! — para depois serem distribuídos gratuitamente, de forma legal, pelos vários sites de música?

Terá sido isto meramente um golpe de publicidade por parte da Apple, ou meramente um sinal de mais uma revolução silenciosa, que mal deu nas vistas — excepto para quem hoje abriu o iTunes, seja no computador, seja no telemóvel ou no tablet, e que reparou que tinha lá um álbum novo?…

Não percebo muito de «net neutrality» mas…

Net Neutrality

O meu primo Ludwig Krippahl mandou há uns tempos para o Facebook um link de um artigo do Cory Doctorow para o Guardian sobre os perigos que se avizinham com o fim da net neutrality nos Estados Unidos. Queria meter um comentário no Facebook também, mas, por ironia do destino, o Facebook estava com problemas e «censurou-me» o comentário 🙂 Por isso vai aqui para o meu blog, como referência futura…

Continuar a ler

«Factura da Sorte» — Combate à evasão fiscal com um cheiro pós-moderno

Monarquia: Só se taxam os plebeus (especialmente os que trabalham na agricultura) e os comerciantes nas feiras. Mais tarde, com os Descobrimentos, inventam-se os impostos aduaneiros. O resto da população não paga impostos (nomeadamente, a nobreza)

República: Os funcionários públicos não pagam impostos. Os pobres também não. Os ricos nunca pagaram, mas as suas empresas passam a ser taxadas. Há muitos impostos indirectos.

25 de Abril: Progressivamente toda a gente passa a ser taxada , menos os funcionários públicos. Os impostos sobre o comércio são complicadíssimos, especialmente sobre produtos importados e de luxo. Dada a universalidade dos impostos fora da função pública, passa a haver também universalidade de evasão fiscal, pois pagar impostos passa a ser uma «novidade». Início da fase da «contabilidade criativa», até porque qualquer pessoa pode ser contabilista.

Continuar a ler