A bola é redonda, ou: a vitória do(s) Patrício(s)

Felizmente não percebo absolutamente nada de futebol. Também, isso não quer dizer nada, pois a esmagadora maioria dos «especialistas» — ou treinadores de sofá — que escrevem por aí e que comentam na rádio e na televisão têm tanta formação em futebol ou ciências do desporto como eu; as únicas pessoas que conheço pessoalmente e das quais respeitaria eventualmente a opinião, são o meu irmão e a minha cunhada, ambos licenciados em ciências do desporto, embora a especialidade deles seja o andebol, não o futebol… De resto, trata-se tudo de amadores que percebem tanto do assunto como eu percebo de mecânica quântica ou biologia molecular: e desde já devo explicar que sou capaz de ficar várias horas a falar sobre estes dois assuntos e convencer uma audiência de que percebo catrefadas do assunto, quando na realidade pouco mais sei do que se lê por aí em Wikipedias e afins. Mas como domino, em certas áreas, a técnica do bullshitting along (vão ao dicionário ver o que significa), cá vai a minha contribuição para este momento de orgulho nacional!

A sorte de não ter, de todo, qualquer conhecimento sobre futebol, excepto as regras elementares que me ensinaram lá para 1983 ou coisa parecida (e que entretanto foram muito alteradas desde então), é que também não tenho grandes preconceitos relativamente a ver jogos de futebol. Claro que posso ter as minhas equipas favoritas, normalmente decididas de acordo com a dificuldade em pronunciar o nome das mesmas e/ou os cortes de cabelo dos futebolistas (se o Trump fosse treinador de uma equipa qualquer, eu seria imediatamente fã — gosto tanto do Trump como de futebol, por isso, para mim, faz todo o sentido!). E claro que qualquer jogo que seja emocionante, seja porque razão for, sempre me faz ficar a perder mais tempo a olhar para a TV do que devia.

Mas também significa que deixo os óculos côr-de-rosa pousados na mesa, e vejo aquilo que realmente se passa entre as quatro linhas, e não aquilo que as pessoas pensam ver. É evidente que estou a falar da final do campeonato europeu de 2016, que, se se lerem as críticas feitas nos jornais portugueses (mesmo os não desportivos), nos blogs, ou no Facebook, é evidente que não estiveram a assistir ao mesmo jogo que eu, a minha mulher, e um dos meus gatos, que considero um excelente crítico imparcial do jogo (não adormeceu durante os 120 minutos, com os olhos colados no écrã, mas também não mostrou grande entusiasmo).

Consolo-me que a imprensa britânica e os adeptos de futebol em todo o mundo (excepto em Portugal, França, e qualquer ponto do planeta onde existam franceses [raro] ou portugueses [bué deles]) viram mais ou menos o mesmo jogo que eu. Significa que podem estar uns 60, 70 milhões de pessoas completamente convictos de que têm razão (seja se estiveram do lado vencedor, seja do lado vencido), mas aposto que as centenas de milhões cuja opinião coincide mais ou menos com a minha também tinham os óculos côr-de-rosa postos de lado.

Não vou dizer, de todo, que a nossa selecção — o que inclui obviamente o treinador, os preparadores físicos, e todo o resto da equipa técnica que fizeram o milagre acontecer — não esteja de parabéns. Claro que está. Já Cristiano Ronaldo dizia há uns dias que «estar na final já tem imenso mérito». Vencê-la contra a equipa da casa é obra. A Grécia fê-lo cá em 2004. Nós fazemos o mesmo em França em 2016. E não vou querer comparar as coisas: é muito mais fácil vencer Portugal em casa do que a França em casa, basta olharem para as estatísticas (a França não perdeu em casa nos últimos 21 jogos que jogou em casa; Portugal perdeu 10 vezes contra a França das últimas vezes em que jogámos contra eles, cá, lá, ou em qualquer outro sítio).

Dizem-me os «peritos» que é normal. Ao contrário de muitos desportos em que vence normalmente quem é melhor, no futebol acontecem «azares» ou «milagres», e nem sempre é a melhor equipa quem ganha, o que faz com que o jogo seja mais divertido por causa disso mesmo (para mim isto é uma estranha perversão, mas enfim, como disse e repito, não percebo nada de futebol). Na realidade, trata-se mais de uma competição entre fé e superstição do que de estratégia e técnica: os portugueses têm muito mais fé na Nª Srª de Fátima do que os franceses na Nª Srª de Lourdes:

fatima-vs-lourdes

Por outras palavras: todos sabemos que se não tivesse sido a praga de traças, prodigiosamente atraída por alguém que se «esqueceu» de deixar os holofotes ligados durante a noite toda (nota: foi de certeza um «infiltrado» português…), os portugueses nunca teriam ganho. Pragas de gafanhotos isso é lá mais no Egipto; para França, a Nª Srª de Fátima tinha um plano especial. Funcionou. O verdadeiro vencedor do Euro 2016 foi a traça.

traça

Bom, mas deixemo-nos de brincadeiras infantis. Afinal de contas, estes jogadores, que são pagos a peso de ouro — minto: na realidade, são pagos a peso do açafrão, ou melhor, ao peso da tinta de impressora, o líquido mais caro do planeta — é suposto saberem o que andam por lá a fazer. Mesmo o Herman José, que pode não ser um grande artista, é bem pago, porque atrai audiências; os jogadores de futebol atraem audiências muito mais vastas que o Herman José, logo, é natural que ganhem mais. No entanto, têm de ter um mínimo de qualidade. Até o Herman José tem um mínimo de qualidade, e não digo isto só porque existem uns restícios de laços familiares entre parte da minha família e o Herman José. É porque é verdade. E não estou a usar óculos côr-de-rosa.

A selecção francesa era claramente favorita. Afinal de contas, basta ler os jornais — estrangeiros, e não apenas os franceses — para não restar sombra de dúvida que assim era. A selecção francesa e as suas prodigiosas vitórias, asseguram-nos os mesmos jornais, até estavam a contribuir para a «união nacional» dos franceses (hoje, felizmente, podem voltar a andar à porrada uns com os outros como dantes — até porque há por aí muitos tugas nessa Cidade da Luz — a tal luz que atrai traças, estão a ver?). Derrotaram equipas importantes como a Alemanha, de forma merecida. Estavam em plena forma física. Jogavam em casa, com 66,600 milhões de apoiantes. (ou melhor, 65 milhões, porque o resto são emigrantes portugueses lá nas terras gálicas que evidentemente não os iam apoiar). Aliás, tinham muito mais do que isso. Como contei no Facebook, na manhã do dia 10 estive a jogar uns joguinhos online onde só estavam americanos nos chats, todos eles fervorosos seguidores do campeonato europeu, e todos eles, sem excepção, apoiantes de França (bem sabemos como todos os americanos adoram França, embora, claro, o contrário seja tudo menos verdade!). Só eu é que lá disse que era português, pelo que esperava que não me levassem a mal apoiar a minha selecção. Riram-se de forma condescendente e até me desejaram «boa sorte», embora, claro, eu senti (nas palavras que escreviam) que abanavam a cabeça com um sorriso. Depois, à noite, antes do jogo, ainda estava noutro joguinho online, desta vez alojado na China, onde surpreendentemente (não me perguntem porquê, não sei) jogam imensos vietnamitas. Ora eu não percebo nada de vietnamita, claro está, mas não era preciso ser um génio poliglota para perceber que também eles seguiam o campeonato europeu, e, claro, estavam a torcer pela França (afinal de contas, aquilo fazia parte da Indochina francesa…). Na BBC faziam-se rasgados elogios ao mérito da equipa francesa, às suas vitórias, à sua capacidade de jogo — Portugal apenas mereceu meio parágrafo, se tanto, a referir que Cristiano Ronaldo era essencialmente um bom jogador. De resto, era como se Portugal não existisse, ou seja, que a França ia entrar no Stade de France apenas por uma questão de pro forma, porque o resultado, esse, estava garantido a priori. Aliás, de certa forma, até parece que era um pouco desprestigiante aos Bleus estar a jogar uma final contra uma equipa de futebol de sopeiras e trolhas. Ou melhor, de filhos de sopeiras e trolhas. Ainda por cima a arrotar a alho e azeite.

Tinham tudo a seu favor e até a final parecia ter pouco interesse; a «vitória» de França era já tão garantida que o que se ia passar entre as quatro linhas pouco mais era do que os preliminares da cerimónia oficial de entrega do troféu.

Em contraste, a selecção portuguesa, tendo feito um campeonato europeu medíocre, ao contrário do que se passava antes do Euro começar (em que até estávamos na lista dos potenciais favoritos), só mostrou um futebol feio, que aparentemente só à custa de muita sorte e de muitos milagres é que lá se ia arrastando ao longo da competição. Empatou todos os jogos da fase de grupos; só por milagre é que conseguiu acabar em terceiro lugar, e tinha golos suficientes para passar à fase seguinte. Fez exibições fracas com equipas de 2ª categoria, deixando a França «papar» os pesos-pesados do Euro 2016. Teve o mérito de ser a equipa a chegar à final com mais jogos com prolongamentos de sempre. Muitos concordavam que tinha uma boa defesa, é certo, e dois ou três bons jogadores, incluindo obviamente CR7, mas de resto não tinha mais nada. O certo é que de empate em empate lá chegaram à vitória final…

O jogo começou exactamente como se esperava por parte de uma equipa favorita, a jogar em casa, sabendo-se claramente superior ao adversário em todos os sentidos — fisicamente, psicologicamente, e sei-lá-o-que-mais-mente. Todos sabemos como funciona a arrogância francesa, e é evidente que tinham muito mais auto-confiança que qualquer outra equipa europeia, por isso é que estavam na final, não era? Mas se pensarmos meramente do ponto de vista de estratégia, era assim que era suposto jogarem. Por um lado, eram supostamente a equipa superior, estavam ali para massacrar um adversário fraco e mal preparado, por isso o ideal seria atacar, atacar, atacar, sem dar espaço aos portugueses para respirar. Com isso iriam destroçar completamente o adversário. E, realmente, a início assim parecia acontecer. Portugal nem sequer parecia ter ninguém a meio campo. A defesa parecia resultar, de facto, mas era uma questão de tempo até ser «furada». O ritmo era intenso, e era suposto que assim fosse numa final. Por outro lado, saberiam também que Portugal era especialmente vulnerável a ínicio do jogo; um ou dois golos metidos no primeiro quarto de hora, e poderiam deixar os fãs a celebrar a vitória durante todo o tempo regulamentar.

Mas mesmo nesse primeiro quarto de hora, havia algo de estranho que não se percebia. Chegavam com tanta facilidade à grande área portuguesa como uma faca ao lume a cortar manteiga; depois até chutavam, criavam situações perigosas, mas… hesitavam imenso. Falhavam os remates. Parecia até que estavam surpresos por o jogo ser «fácil demais». E sempre que hesitavam, a defesa portuguesa impedia-os de entrarem; se não hesitavam, estava lá o Arcanjo Patrício, verdadeiro anjo da guarda enviado por Nª Srª de Fátima (repararam nas asas de traça semi-transparentes e naquela aura luminosa que o envolvia?… ah, pois, esperem, isso era só para quem tinha óculos côr-de-rosa…), que defendia tudo o que valia a pena defender — pois a maioria dos remates não chegava à baliza. Chegava perto, mas não o suficiente para entrar.

Os frances mudaram de estratégia. O jogo estava há demasiado tempo sem golos. Resolveram deixar de se portar como meninas. Espatifaram logo o Cristiano Ronaldo, e pronto, assunto resolvido: toda a gente sabe que o CR7 é a alma da selecção nacional, e se se exterminar a alma, o resto do corpo morre de morte natural.

O Cristiano Ronaldo, como se sabe, é um rapaz porreiro (é mesmo!… e não é só por ele ser madeirense que digo isto). Mas também gosta de dar nas vistas. Há doze anos que esperava por uma oportunidade para ganhar qualquer coisa com a selecção nacional. Chorou de raiva, de desespero, de dor. Mostrou também que era «valente e imortal», como reza essa horrível canção que nos serve de hino, e, apesar de todas as dores, ainda tentou regressar ao relvado. Era simbólico — pois claramente quem o tinha lesionado sabia o «trabalhinho» que tinha feito. Mas esse simbolismo não se perdeu. Houve quem dissesse que a equipa toda se uniu, determinada a «ganhar o campeonato da Europa para o Ronaldinho». Se é verdade ou não, não o saberemos.

O certo é que o jogo mudou. E isto não tem aqui nada de mágico, e não foram apenas as traças que passaram a confundir o adversário. Toda a gente — até mesmo eu! — sabe que os treinadores passam horas com vídeos do adversário, a perceber todas as suas jogadas, e a delinear as suas estratégias de acordo com essas jogadas. Os franceses estavam perfeitamente treinados para lutar contra uma selecção nacional que tivesse CR7 como «alma». Eliminando Ronaldo de cena, esperavam o natural desmoronamento e colapso do que restava dos Patrícios. Nada de mais óbvio.

Mas Fernando Santos trocou-lhes as voltas. Afinal tinha preparado bem os seus pupilos. Com a cabeça fria — e talvez esse desejo de vencer por uma questão de vingança — os portugueses não hesitaram nem um momento. Continuaram a fazer o mesmo jogo de sempre, sem arredar pé. Não perderam o sangue-frio. Não amoleceram, não desesperaram, não se mostraram frustrados por perderem o melhor jogador do mundo. Este, claro, foi para o banco — ou melhor, em pé e aos saltos (ao pé coxinho) ao lado do banco — incentivar a «sua» equipa, com a mesma energia e entusiasmo que o treinador. Se foi isto que encorajou a equipa toda a não perder a calma, ou apenas o fruto de um treino muito intenso e muito cuidado imposto por Fernando Santos — neste caso, um treino psicológico — não o sei dizer. Como estou sempre a repetir, não percebo nada de futebol. Mas percebo que quem treine uma selecção nacional que se centra na «arma mortífera» CR7 tem de estar preparado para a eventualidade de Cristiano Ronaldo não estar a jogar: não podem cruzar os braços, desistir, e ir para casa.

Quaresma substitui Ronaldo (e pouco depois até parece que também ele é «trucidado» pelos franceses, mas felizmente não) e há realmente uma mudança no jogo. Na RTP dizem que «assim a equipa nacional encaixa melhor na francesa». Não sei o que isto quer dizer, não sou fluente em futebolês, mas uma coisa é certa: os franceses baixam o ritmo. O que não faz qualquer sentido: são a equipa favorita. São a equipa melhor. Acabaram de colocar o melhor jogador do adversário fora de campo. Ainda há imenso tempo para jogar. Porque é que quebraram o ritmo?

Esse, afinal de contas, foi — desde o primeiro minuto — a estratégia da equipa portuguesa: baixar o ritmo dos franceses. Fazer tudo por tudo para evitar a enorme velocidade destes. Não perder a cabeça. Futebol medíocre? Sim, não é bonito de se ver, mas foi consistente desde o primeiro minuto: sempre que Portugal tinha a bola, baixava o ritmo. Tudo sempre mantido na maior das calmas. Guardar forças (sim, porque uma equipa habituada a decidir tudo nos prolongamentos ou nos penálties tem de manter as forças…) para mais tarde; arriscar apenas em segurança, construindo jogadas inteligentes. Foram poucas, sim, muito poucas. Mas a partir do momento em que Cristiano Ronaldo sai, foram aumentando progressivamente. Quem se deu ao trabalho de olhar as estatísticas do jogo, viu que o domínio da bola — e do jogo — era praticamente absoluto para os franceses a início, mas, à medida que o jogo progredia, cada vez se aproximou mais. É certo que os franceses terminaram o jogo com maior domínio, muito mais remates, etc. — mostra que de facto eram a equipa superior. Mas no final claramente já não eram a equipa arrogante e ultra-confiante que tinha entrado no estádio. Enquanto que a selecção das quinas não mudou a sua estratégia — de manter a calma e a cabeça fria — até ao final.

Claro que o golo no prolongamento foi eufórico e determinante para Portugal. Mas também reparei na reacção de ambas as equipas: os jogadores portugueses, em vez de perderem a cabeça com a possibilidade já não tão remota de virem a ganhar o campeonato, mantiveram, como sempre, a calma. Continuaram a jogar exactamente como dantes: com calma, muita paciência, jogadas muito estudadas. Uma máquina — não uma «geringonça», mas algo que também não era lá muito bonito — bem oleada, que nem sequer a euforia e o entusiasmo de estar um golo à frente do adversário os fez desviar um milímetro do seu objectivo.

Os franceses, em contraste, à medida que o tempo ia passando — e que a Nª Srª de Lourdes não lhes dava oportunidade para meterem um golo, mesmo que estivesse por pouco por imensas vezes, muitas mais que as oportunidades que os portugueses tiveram — cada vez pareciam mais desmoralizados. A dada altura parece que se esqueceram do jogo em que estavam: passaram também a abrandar o ritmo, a jogar de uma forma defensiva, a ceder o meio campo — até agora, zona onde tinham domínio total — aos portugueses.

Ora isto não faz sentido algum, mesmo para alguém que não perceba de futebol. O empate não interessava a ninguém. A França estava a perder muito tempo para marcar um golo: deviam ter cilindrado com o adversário logo a início. Cilindraram, isso sim, Cristiano Ronaldo, mas depois nem sequer tiraram partido disso. Pelo contrário: ficaram como que «baralhados» com a ausência de CR7. Até parecia que o treinador se tinha «esquecido» de lhes dizer o que fazer se CR7 não jogasse. Algumas das jogadas dos portugueses foram defendidas de forma quase amadora, como se não imaginassem sequer que Portugal pudesse conseguir pensar numa estratégia de ataque sem CR7. O facto é que não pensaram só numa; pensaram numa montanha delas. Ou seja: Fernando Santos tinha-os bem preparados para esta eventualidade. Didier Deschamps não. Sem um «plano de batalha» com um adversário «conhecido», os franceses até parece que não sabiam muito bem o que estavam a fazer.

Se soubessem… porque raio quebraram o ritmo de jogo? Porque é que começaram a «imitar» a estratégia portuguesa, de fazer um jogo lento e seguro? A altura era para o ataque cerrado, não para estar a «dormir» no relvado; isso era só favorecer o adversário, potencialmente mais fraco, que assim mantinha as forças e acabava por defender todos os ataques (muitas vezes com imensa sorte; outras graças ao olho de lince de Rui Patrício, que parecia saber magicamente para onde se atirar; outras, enfim, dando remates à baliza que até eu seria capaz de defender…).

Com o golo português, acabou-se a chama dos Bleues, mas isso não foi, uma vez mais, nada lógico. Então não estamos a falar da equipa favorita em campo, a jogar em casa e tudo, uma equipa altamente profissional, com um rol de jogadores fabulosos, entre os melhores do mundo? Uma equipa dessas, numa final de um campeonato da Europa, não desmoraliza. Havia muito, mas mesmo muito tempo para recuperar. Notou-se que Portugal se preparou imediatamente para uma série de contra-ataques fortíssimos e um aumento do ritmo e da pressão por parte dos franceses; deve ter havido alguma tensão no relvado e no banco, a tentar adivinhar o que é que os franceses iam fazer a seguir, porque estava, afinal de contas, a honra francesa em jogo, perante uma audiência de milhões. No mínimo dos mínimos tinha-se de empatar, levar o jogo a penalties.

E o que fizeram os franceses em vez disso? Baixaram, uma vez mais, o ritmo do jogo. Estariam assim tão cansados? Recuso-me a acreditar nisso; estamos a falar de jogadores de topo, com uma preparação física superior, não de um clube de 3ª divisão que só treina aos fins de semana. Até pareceu que as novas instruções de Didier foram para «segurar» os portugueses, não fossem estes marcar mais golos, aumentando assim a vergonha para os franceses. Mas duvido que tenha sido isso. Foi, talvez, uma combinação de excesso de confiança e arrogância que, por fim, foi exposta como de nada valendo nesta situação — porque o que era preciso era jogar futebol, não puxar brilho ao ego e derrotar o adversário apenas pelo medo que lhe impunham pela sua mera presença física.

Os portugueses não se deixaram intimidar de todo. Mesmo quando os franceses adoptaram como estratégia secundária a violência física, tentando desmoralizar o adversário inflingindo-lhes duras faltas, os portugueses não se foram abaixo. Também responderam na mesma moeda («eles começaram primeiro…»). Podiam ser mais baixinhos e menos entroncados que os franceses, mas um pontapé na canela com um sapato cheio de pitons derruba qualquer pessoa, por mais alta, forte, e pesada que seja! Não contei quantos cartões amarelos foram passados a cada lado, mas se é certo que a início os franceses estavam a coleccioná-los mais, lá para o fim era ela por ela. Se calhar isto também desmoralizou ainda mais os franceses, ao verem que Portugal nem sequer reagia à violência física. Ou melhor: reagia, sim, mas de cabeça fria, a continuar a fazer o seu joguinho como sempre.

Enfim, claro, o jogo chega ao fim com uma vitória perfeitamente surpreendente para a equipa de Fernando Santos — mas aparentemente não para o treinador, que já tinha dito que não interessava jogar «bonito ou feio», o que interessava era jogar «bem» ou «mal». Talvez ele realmente seja tão bom como parece ser, e tenha percebido perfeitamente a equipa que tinha, e o que fazer dela. O certo é que, com ou sem traças, com ou sem velinhas acesas a Nª Srª de Fátima, com ou sem Cristiano Ronaldo, com muita sorte, a selecção nacional, sem fazer exibições brilhantes, e jogando apenas o mínimo indispensável, lá chegou ao troféu.

Merecido? Não sei. Sinceramente, se deixar os óculos côr-de-rosa ao lado, custa-me a acreditar que uma equipa que começa logo mal contra a Islândia — por amor de Deus, trata-se de uma ilhota com pouco mais habitantes do que a Ilha da Madeira! — «mereça» um título como o de campeão europeu. Todos os jogos foram fracos, muito fraquinhos, e foi sempre com muita, muita sorte que se passou às fases seguintes. Claro que podemos ver isto através dos tais óculos côr-de-rosa, e dizer que, se ganhámos o campeonato da Europa, é porque o merecemos ganhar. Pois, é uma maneira de ver a coisa. Mas se formos ler as análises feitas por comentadores de países «neutros» (ou seja, que não apoiavam nem a França, nem Portugal) podemos ver o que eles pensam da «qualidade» da nossa equipa. Claramente toda a gente acha que tivémos muita, muita sorte, desde o dia em que a selecção nacional aterrou em solo francês até ao momento em que Cristiano Ronaldo, coxeando, ergue a taça. A sorte, esse factor que raramente está do nosso lado, sorriu-nos.

É certo que podemos sempre encontrar a posteriori algumas boas razões para o resultado que tivémos. Em especial na final, é sem dúvidas verdade que o jogo da selecção nacional foi sempre consistente: tudo muito bem estudado, muito bem planeado. Pouco entusiasmante, é certo, mas gente que sabia o que estava a fazer, e que fazia exactamente o que se pretendia do início ao fim. E depois, ao contrário do que é tão frequente entre nós lusitanos, desta vez parecíamos alemães no nosso estoicisismo: não nos deixámos afectar por nada. Nem pelos comentários dos jornalistas desportivos; nem pela falta de confiança na equipa e no seu treinador (pelo menos nos maus momentos); nem pela alegada ou suposta superioridade ou favoritismo do adversário; nem sequer por nos ter sido «subtraído» o melhor jogador do mundo, numa final do campeonato, praticamente logo a início. Nunca se perdeu a calma. Nunca se perdeu o sangue-frio. Manteve-se a cabeça no lugar. Não houve desmoralizações. Não se baixou a cabeça; continuou-se sempre a tentar. Ora isto é um pouco novidade para quem assiste a jogos da selecção nacional. Portugal apresentou-se como uma equipa com um jogo medíocre e pouco imaginativo, sim, mas com uma consistência extraordinária e uma determinação inabalável, fria, como seria mais de esperar dos povos nórdicos, do que de um povo Atlântico-Mediterrânico que tende a ferver em pouca água e a desistir quando tudo corre mal.

Ironicamente, talvez, acabámos por mostrar à Europa (e ao mundo) algumas das características que, na realidade, até são bem portuguesas. O mundo é que pensa ao contrário, mas a verdade é que os portugueses mostram o seu melhor na adversidade. A actual crise financeira (que, bolas, já dura há quase uma década, assim a brincar, a brincar…) tem dado mostras do melhor que temos, em termos de capacidade de «aguentar», de resistir, de continuar em frente apesar das adversidades. Mas estas adversidades têm de ser «sérias», senão somos os primeiros a desistir e a achar que não somos capazes de nada. Não sei, talvez a selecção nacional tenha sido «infectada» com o espírito nacional desta época de crise; o que também é mais ou menos estranho, já que a maioria dos jogadores na selecção não é «afectada» pela crise (e a maioria nem sequer joga em Portugal!). Mas se calhar está-nos nos genes.

Afinal de contas, nem sequer Napoleão nos conseguiu derrotar, apesar de ter invadido praticamente toda a Europa. Sim, claro que tivémos uma mãozinha dos ingleses há duzentos anos atrás, e sem isso, teríamos sido cilindrados. Mas também pouco mais bastou do que ensinar aos portugueses os rudimentos da guerra moderna para que nos tornássemos invencíveis contra o «rolo compressor» que era o exército napoleónico. E nessa altura ainda tínhamos a desculpa de jogarmos em casa!

Deixo apenas como memória uma prova de como o espírito nacional não é algo que a gente «aprenda», está-nos mesmo no sangue.

Ah, e também achei de muito bom gosto terem escolhido uma música dos Xutos & Pontapés para a vitória da selecção nacional. Acho excelente (mas sou suspeito por ser fã dos Xutos). Mais vale usar do melhor que temos em termos de música nacional do que ir lá fora «pedir emprestada» uma música qualquer, como se fez no passado…

Mas pronto. Já disse que não percebo nada de futebol? Por isso não liguem…

Futebol-Park-1-940x380

65.000 portugueses recebem a selecção nacional na Alameda D. Afonso Henriques. Fonte: Oje

P.S. Esqueci-me de deixar uma nota especial ao nosso mui estimado Presidente da República — pode não ser popular, mas é, sem sombra de dúvidas, popularucho. A forma como ele abraçou efusivamente cada um dos membros da selecção nacional, em vez do tradicional cumprimento de mão formal, deve ter chocado os gauleses: Marcelo não tem vergonha, perante as câmaras, de mostrar que estes são os seus portugueses, não só aqueles que o elegeram, claro, mas aqueles que lhe trouxeram alegria e orgulho. Portanto, cumprimenta-os como velhos amigos. É algo que faz com tanta espontaneidade e desembaraço que é um regalo de se ver.

marcelo a rir com cristiano

Marcelo ri-se com agrado com Cristiano Ronaldo. É assim o nosso presidente. Fonte: Jornal de Negócios

E depois, sabe-se lá como (excepto que todos por cá sabemos que Marcelo praticamente não dorme), consegue apanhar um vôo antes da selecção, chega ao Palácio de Belém, abre-o de porta em porta, convidando todos os portugueses (e estavam lá umas centenas à espera, segundo dizem os jornais) a virem cumprimentar os seus novos heróis (mas já imortais, e sem dúvidas que valentes) a serem agraciados com a Ordem de Mérito — para grande arrelio do pessoal do protocolo, que informou Sua Excelência de que era impossível, assim da noite para o dia, estar a «fabricar» as medalhas e demais penduricalhos que fazem parte da dita comenda. Não faz mal, diz Marcelo (ou imagino que o terá dito), entregamos para já um documento (sim, há impressoras laser na Presidência da República), e depois mandam-se as medalhas e tal quando estiverem prontas; o que é importante, isso sim, que o Presidente de Todos Os Portugueses (Ou Pelo Menos de Grande Parte Deles) seja o primeiro a receber os nossos novos heróis em pessoa.

campeoes

Não são só os americanos que sabem receber com honras de heróis os seus campeões. Nós não lhes ficamos atrás. Fonte: MaisFutebol

E assim se fez, ao contrário do que estava previsto, mas Marcelo dixit e as coisas acontecem. A selecção nacional, em vez de rumar directamente para a Alameda D. Afonso Henriques, onde cerca de 65.000 portugueses os saudaram, fez um «desvio» pelo Palácio de Belém, lançando a cidade num caos de trânsito, para desespero da polícia, que viu assim os planos todos alterados.

torre de belem

Durante 2 dias podemos ver a bandeira nacional a iluminar a Torre de Belém. Fonte: Jornal de Negócios

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s