Para os indecisos…

Mulher gira lendoAs eleições estão à porta. Ainda não se decidiu em quem vai votar. Vamos imaginar que está confortavelmente num consultório médico à espera, a ler as notícias, a procurar informar-se sobre o que dizem os candidatos, a procurar escolher o destino que quer dar a Portugal para os próximos quatro anos.

Mas a comunicação social é confusa. Não a satisfaz. Continua com dúvidas. Qual é, de facto, a melhor escolha — para si, para os portugueses, para Portugal?

É difícil de tomar uma decisão? Este artigo é para si!

Qual é o melhor partido para mim?

A maior parte dos portugueses escolhe o partido em quem vota por uma questão de «clubismo» — é como se fosse uma equipa de futebol. Gostamos das cores, dos sorrisos dos políticos, das gravatas que eles usam. Ou se calhar já os nossos pais votavam assim. Ou os nossos amigos recomendam-nos o político X ou o partido Y, «porque claramente é o melhor». Uma coisa é certa: em Portugal, o primeiro-ministro está sempre a mentir, e a oposição tem sempre razão. Mas os partidos sucedem-se no poder: como é possível que isto seja verdade?

Mas votar num partido não deve ser uma questão emocional. Deve ser uma escolha feita com convicção, baseada em informação e factos, e não apenas naquilo que pensamos sobre os partidos e os seus políticos.

Assim, a primeira coisa a fazer é alinhar as nossas convicções políticas com os programas dos respectivos partidos. Se somos contra o aborto, não devemos votar em partidos que são a favor dele — mesmo que o tenhamos feito durante anos. Se queremos menos imigrantes, não devemos votar em partidos que sejam a favor da imigração. Se queremos um Estado menor e mais eficiente, não devemos votar em partidos que apostem no Estado como máquina motora da economia. Se queremos mais dinheiro no bolso e não queremos pensar no futuro, então não devemos votar num partido que prefira primeiro equilibrar as finanças públicas. E assim por diante.

Talvez uma forma simples de fazermos esse alinhamento de convicções seja usar a Bússula Eleitoral. Trata-se de um site que resume a essência dos programas de governo dos vários partidos e nos coloca um simples questionário para responder, baseado nas grandes questões políticas. É um site internacional, com muita experiência a fazer este tipo de questionários, e que contempla também as eeleições legislativas portuguesas de 2015. Experimente. No final vai ter um quadro mais ou menos assim (o marcador vermelho indica a minha posição pessoal, face às perguntas colocadas):

Bussula Eleitoral

Como se pode notar, não existe nenhum partido político que contemple as minhas convicções políticas. E notou uma coisa no quadro? Em Portugal praticamente só existem partidos progressistas de esquerda. Temos um partido conservador ao centro (o PNR, um partido nacionalista), e a coligação Portugal à Frente, único partido que é ligeiramente de direita, mas que é essencialmente conservador, embora não muito.

Se é como eu, significa que não tem uma escolha ideal: as minhas convicções políticas daquilo que acho melhor para os portugueses e para Portugal não se encontra devidamente representada pelo vasto espectro de partidos. Bom, também não é tão vasto assim: na realidade temos milhares de partidos de esquerda (todos muito parecidos entre si no que defendem), uma coligação que é de centro-direita, e um partido nacionalista. Realmente não há muito por onde escolher. Terei, pois, de escolher o partido que está mais próximo das minhas convicções, baseado noutros factos que não as perguntas colocadas pela Bússula Eleitoral.

As três vias para Portugal

Podemos tentar resumir a essência dos programas dos vários partidos e ver que modelo de sociedade desejam eles para o futuro — pode ser uma boa forma de os comparar. O Insurgente fez este trabalho de casa, e obteve o seguinte resultado (hilariante):

alternativas

Então vamos tentar explicar um bocadinho este quadro. Mas antes é preciso um enquadramento histórico para o perceber melhor.

Vamos recuar para o período 1974-1985. Nessa altura, a maioria dos partidos era fortemente ideológica e sabia muito bem o modelo de sociedade que pretendia. Havia mais partidos de direita e de centro, cujas propostas não coincidiam. A própria esquerda propunha modelos radicalmente diferentes entre si. Havia, pois, mais escolha.

Em 1986 entramos na Comunidade Económica Europeia. Isto foi o início de um processo de progressivo alinhamento com as directivas europeias: uma nova realidade. Deixámos de estar «orgulhosamente sós», capazes de livremente traçar o nosso destino, como Oliveira Salazar tinha feito ao longo de meio século; em vez disso, a opção foi alinharmo-nos mais com a Europa politicamente, com o objectivo de obtermos o mesmo nível de vida e as mesmas condições que a maioria dos europeus. Isto implicou uma mudança de filosofia política. A Europa é essencialmente social-democrata (não no sentido que o PSD lhe dá, mas no sentido original da palavra) com uma visão neoliberal para a economia. Isto significa que a margem de manobra para um grande desvio desta visão central europeia é relativamente pequena. São países como o Reino Unido — menos «integrados» na União Europeia — que se podem dar ao luxo de se afastar mais do pensamento europeu. Países na Eurozona, como Portugal, têm comparativamente muito menos margem de manobra.

Daí que, em 2015, a questão política principal já não seja bem a escolha da ideologia — se está mais ou menos alinhada com as nossas convicções pessoais — mas sim o modelo que se pretende na relação entre Portugal e a Europa. Aqui existem essencialmente duas opções viáveis.

A primeira, claro, é seguir o alinhamento europeu e aceitar os valores e as políticas da Europa. Essa é a visão da coligação PàF (PSD-PP). Estar na Europa de pleno direito significa aceitar imposições. Mas a contrapartida, claro, significa segurança, estabilidade, um gigantesco mercado — o mercado mais rico e de maior dimensão do mundo — e garantias de fundos e apoios dos restantes estados-membros. Mas a contrapartida é ter de seguir escrupulosamente as regras, mesmo que não gostemos delas (por convicção política).

A segunda alternativa, obviamente, é fazer precisamente o contrário. Esta é uma alternativa viável, apesar de muita gente (incluindo eu!) a rejeitar profundamente, e de vir com bons argumentos para a rejeitar.

A esta alternativa eu chamo a «albanização» de Portugal. Lembram-se da Albânia? Sim, faz parte da Europa. Sim, continua a existir, não é um estado falhado, apesar de todos os anos milhares de albaneses tentarem emigrar para a Grécia. Está ali escondida sabe-se lá aonde, mais ou menos ao lado da Grécia (nunca a sei apontar no mapa), e não chateia ninguém, não aparece nas notícias, não tem qualquer relevância no plano europeu e muito menos mundial. Ninguém se lembra do nome do primeiro-ministro. Não deve haver uma notícia sobre a Albânia na comunicação social europeia há meses ou anos. Mas a União Europeia ainda manda para lá dinheiro — uns 600 e tal milhões de Euros de 2014 até 2020. Uma gota de água comparado com o que recebem os estados-membros.

Numa albanização de Portugal, passaríamos a ter moeda própria, que não valeria nada. Como o gráfico indica, para poder oferecer salários razoáveis na função pública e educação, saúde, transportes públicos gratuitos, os impostos teriam de disparar — muito à semelhança do que acontece nos países escandinavos (dos quais só a Dinamarca e a Finlândia pertencem à Eurozona… e a Noruega e a Islândia nem sequer estão na UE). Com a diferença, claro está, que não temos a economia que eles têm. No entanto, pelo menos numa primeira fase, seria provável acreditar num aumento ligeiro das exportações e do turismo (devido a uma moeda fraquíssima e preços baixos). A médio prazo, claro está, seria o colapso económico, e o retrocesso do nível de vida dos portugueses justamente para o nível da Albânia (ou talvez de Cuba, se tivermos sorte). Com a consequente diminuição de fundos e de capacidade financeira, e a impossibilidade de importações (por não termos dinheiro para isso), aos poucos isso significaria fechar as auto-estradas (já não teremos dinheiro para as manter) — diminuir as infra-estruturas públicas ao seu essencial — e começar a ver as lojas estrangeiras e as empresas estrangeiras a desaparecerem todas do nosso país. Algumas, atraídas pelos salários baixos, provavelmente se manteriam cá. A Auto-Europa talvez se mantivesse. Teríamos muitas empresas com empregos de baixa qualificação, e uma fuga generalizada (ainda maior que a actual!) de cérebros para fora de Portugal. Mas não quer dizer que fossemos o paraíso dos cabeleireiros e dos supermercados: as pessoas não teriam dinheiro para nada que fosse supérfluo.

No entanto, não morreriam de fome, nem de doenças para as quais não tivessem dinheiro para pagar medicamentos — o Estado iria suportar isso tudo. Aliás, o Estado tornar-se-ia o maior empregador, nacionalizando as maiores empresas que iriam desistir de apostar em Portugal, e, na maior parte dos concelhos e distritos, provavelmente o Estado seria mesmo o único empregador (directo ou indirecto).

Isto não quer dizer que o governo de esquerda fosse «comer criancinhas» ou instituir o modelo de sovietes. A esquerda, hoje em dia, já pensa de forma diferente. Provavelmente continuaríamos a ter eleições legislativas de quatro em quatro anos, como dantes. O problema é que mesmo que voltasse a ganhar um partido que não fosse de esquerda, este pouco ou nada poderia fazer: voltar a integrar-nos na Europa, depois de termos saído dela, seria tarefa praticamente impossível, já que seria implausível acreditar que, com uma economia totalmente colapsada, alguma vez voltássemos a chegar aos critérios de convergência. Não aconteceria de certeza na nossa geração. Não nos podemos esquecer que só conseguimos cumprir os critérios de convergência (em especial os da Eurozona) graças a uma enorme injecção de capital a fundos perdidos durante o final da década de 1980, e graças ao boom económico mundial dos anos 1990, do qual também beneficiámos. Ou seja: quando se tem muito dinheiro, é fácil atingir esses objectivos.

Mas estamos em 2015 e ainda não recuperámos da crise (basta ver que o PIB português ainda não chegou aos valores pré-crise, embora para lá caminhe). A economia está num estado completamente diferente, e não é provável que a situação mude. Ou seja: temos de estar conscientes de que não podemos fazer uma «experiência» de albanização e, se não gostarmos, podemos voltar atrás. Não podemos. Uma vez escolhido este caminho, não há retorno. Pelo menos não durante umas duas ou três décadas. É evidente que aqueles que fortemente desejam a albanização de Portugal pretendem precisamente isto, e estão conscientes de que não querem, de forma alguma, voltar atrás. Mas os indecisos podem não gostar da brincadeira. Normalmente, gostamos de ter opções que nos permitam voltar atrás se achámos que cometemos um erro. Neste caso, não podemos voltar atrás. A saída do Euro, da União Europeia, seria irreversível. A não ser que se encontrasse petróleo ou ouro ou diamantes em vastíssimas quantidades (nota: até estamos a exportar ouro, que é uma substancial fatia das nossas exportações; e o maior valor em termos de exportações é precisamente produtos refinados do petróleo — que não temos, mas importamos para o refinar. Nada mau! Mas não chega, nem de perto, nem de longe, para sustentar a nossa economia presente).

Então e não há uma terceira via?

O Partido Socialista está aqui «perigosamente só» procurando propôr uma terceira via — uma via sem austeridade, com crescimento apenas do consumo interno, mas sem avançar para uma «albanização» de Portugal. Há uma década atrás talvez fizesse sentido uma proposta destas. Mas vamos a ver que neste momento já não é bem assim.

Como é sabido, o PSD tem tido quase sempre a tarefa inglória de «corrigir» os desiquilíbrios orçamentais de governos anteriores do PS. Isto desgasta a imagem do partido, porque no fundo tem de colocar sempre propostas desagradáveis na mesa, que atraiem o ódio dos portugueses, e é quando finalmente as contas públicas estão em ordem e a economia «endireitada» que o PS ganha as eleições e volta tudo de novo atrás. Por vezes a governação PSD — em governos mais fracos — não é suficiente para «endireitar» o País, e isso serve então como argumento para a oposição os derrotar, acusando-os de «não terem feito o suficiente». E, em certa medida, é isso que muitas vezes acontece (o governo Barroso é uma bom exemplo disso — não fez o suficiente. Santana Lopes tentou fazer muito mais, mas foi logo corrido a pontapé).

Nesta crise financeira, que já se adivinhava, o PSD pelo menos não tinha quaisquer ilusões. José Sócrates começara as primeiras medidas de austeridade, mas não queria ir muito longe: haviam muitos lobbies para agradar, havia muita população cujos votos era preciso angariar. Era preciso cautela. Mas uma vez tendo chamado a tróika para salvar o país — tal como Mário Soares o fizera nos anos 1980 — não haviam mais desculpas: o país tinha de mudar. À bruta. Tinha-se de acabar com a ilusão, de uma vez por todas, que temos o «direito» de viver acima das nossas possibilidades. Em vez disso, era preciso corrigir uma série de coisas. Com sorte, a economia voltaria a crescer. Mas à custa do empobrecimento dos portugueses para níveis que a economia era capaz de sustentar. Ora essa visão, obviamente, não capta votos — pelo contrário, afasta-os. Logo no primeiro ano de governação PSD já se dizia que o PSD nunca mais voltaria a ganhar as eleições nos próximos 17 anos — os portugueses não perdoam que lhes vão à carteira e que os espremam até à última gota de sangue. Por isso, o PSD não tinha nada a perder. Era tudo ou nada. «Tudo» implicava ter as contas certinhas, mas ter o ódio dos portugueses durante anos ou mesmo décadas.

Ora o PS tinha forçosamente de se destacar desta visão. Tinha de oferecer uma solução que não passasse por mais austeridade, pelo contrário — aproveitando que as finanças estão agora em ordem e a economia a crescer, pode-se começar a descartar as medidas mais draconianas de austeridade. Mas significava não cair no erro fácil da «albanização» proposta pelos partidos à esquerda do PS, o que afastaria muito do eleitorado tradicional do PS, assim como todos aqueles que ficaram frustrados com a orientação da governação da coligação. Era preciso captar todas estas pessoas com medidas claras, bem explicadas, que fizessem sentido para o comum dos eleitores, sem entrar em demagogias excessivas, sem exagerar no populismo, e demarcando-se bem das soluções radicais dos partidos mais à esquerda.

Assim, é evidente que o PS não podia propor que não se pagasse a dívida, que saíssemos da Eurozona e da União Europeia, e que voltássemos a ser «sós e independentes» como querem os partidos mais à esquerda. Seria um contrasenso, oposto a toda a linha ideológica que o PS tem tido desde que Mário Soares pediu a adesão à CEE.

Em vez disso, António Costa arranjou um grupo de economistas que lhe disse que Portugal era capaz de ter um crescimento sustentado de 3% anuais, nos próximos 4 anos. 3%! Ora isto quando o PS acusa o PSD da economia não estar a crescer o suficiente, nem sequer anda a valores perto da média europeia, e cresce menos que Espanha (apesar do desemprego espanhol) e Grécia (apesar dos problemas todos da Grécia). É verdade que os malabarismos dos números podem ser interpretados de muitas formas, mas uma coisa é certa: especular que Portugal cresça 3% ao ano, durante 4 anos… é muito, muito optimismo.

Talvez isso pudesse ser conseguido (mas nem sequer o PàF acredita nisso!) à custa de um aumento ainda maior das exportações de bens e serviços, que têm sido os responsáveis pelo crescimento até agora. Mas isso implicaria maiores incentivos às empresas exportadoras — ou seja, aquilo que o PSD-PP defende no seu programa de Governo. O PS, pelo contrário, quer uma aposta no consumo interno. Isso significa que esse aumento de 3% seria todo conseguido à custa de ter os portugueses a consumir mais. E para consumir mais, têm de ter mais dinheiro nos bolsos. Como o fazer?

Tradicionalmente, os Governos têm algumas hipóteses para conseguir fazer aumentar o consumo interno. Uma é diminuindo os impostos sobre o consumo — especialmente o IVA — fazendo assim os preços baixar. Outra é diminuir os impostos sobre o trabalho, fazendo assim que o rendimento disponível aumente (com mais dinheiro no bolso ao fim do mês, os portugueses gastam mais). Outra é aumentar os salários, o que também trará aumento de rendimento disponível. Há outras medidas possíveis, mas estamos limitados por estarmos na União Europeia — por exemplo, não podemos valorizar a moeda (fazendo com que a importação de produtos seja mais barata e aumentando assim o consumo interno) nem aplicar taxas aduaneiras excessivas (fazendo com que as importações diminuam e a produção para consumo interno aumento), pois assinámos tratados que nos impedem de fazer isso. Ah, e estas medidas aumentam a inflação. Felizmente esse não é um problema, porque a inflação está a valores historicamente tão baixos, sempre a rondar os 0%, que aumentá-la um bocadinho não faz mal a ninguém.

Os partidos mais à esquerda do PS são bem claros na sua proposta: aumentar os salários mínimos; diminuir os impostos sobre o consumo; diminuir os impostos sobre o trabalho. Com tudo isto aumenta-se o consumo interno. O problema é que também aumentam as importações (porque não podemos mexer no valor da moeda) e destabilizamos a balança de bens e serviços — fazendo sair mais divisas para adquirir bens para consumo interno que não produzimos. Até aí tudo bem, mas de onde vem esse dinheiro todo? Nos partidos mais à esquerda, a solução é simples: saír do Euro e imprimir mais papel-moeda. Isto cria inflação, é certo, mas também vai criar uma espiral negativa que se auto-alimenta: a moeda desvaloriza (e não valoriza!) pelo que a importação de bens e serviços se torna mais cara, para a qual depois se imprime mais papel-moeda, desvalorizando a moeda ainda mais, e assim por diante. Na realidade, em regimes mais de esquerda — não falemos da Albânia, mas dos países escandinavos — a solução passou por aumentar drasticamente os impostos sobre o consumo e sobre o trabalho. Assim há mais dinheiro do lado do Estado. Em compensação, pode-se então sustentar um sistema gratuito de bens e serviços essenciais. Nos países escandinavos há ainda supermercados estatais a preços fixos. Essa é a solução da esquerda mais radical.

O PS evidentemente não quer propor nada disto! Em vez disso, sugere apenas a diminuição dos impostos sobre o rendimento (e uns ajustes no IVA). Espera que, com isso — e assumindo sempre o tal crescimento de 3%! — se incentive o consumo interno. As empresas, essas, serão taxadas mais agressivamente para compensar a perda de receita vinda do IRS.

Parece uma boa solução, mas falha em imensos pontos.

Primeiro, e mais importante de tudo, é assumir que uma economia em que as empresas são progressivamente mais penalizadas vai ter um crescimento de 3% anuais. Digamos que não é impossível, mas também não é provável que aconteça. Quanto mais penalizadas forem as empresas, mais esquemas estas inventarão para fugirem ao fisco. Se lhes for proibido contratar pessoas a recibos verdes, etc. (faz parte das propostas do PS reintroduzir muita da legislação laboral suspensa pela coligação), o que vão fazer é deslocalizar-se — irão passar a capacidade produtiva para países como a Hungria, Bulgária ou Roménia, ou mesmo para os países bálticos, onde os salários são inferiores e as condições de investimento muito melhores do que as que o PS propõe. Isso significa maior desemprego. Para o lado do Governo, como está a arrecadar menos impostos, significa ter menos dinheiro disponível para pagar subsídios. Ou seja: mesmo que se consigam os tais 3% de crescimento, não há razão para supor que isso se traduza em maiores verbas para o Estado.

Mas o PS ainda vai mais longe nas suas «aventuras» perigosas (como lhes chama Passos Coelho). Pretende não apenas prejudicar a actividade das empresas, taxando-as mais, mas também desembolsar mais dinheiro a lançar grandes obras públicas — a mesma estratégia que Sócrates tinha, e Cavaco antes dele (mas Cavaco beneficiava de dinheiro a fundo perdido da União Europeia…). Ora a dúvida é de onde virá esse dinheiro todo. Serão os 3% de crescimento suficientes para isso tudo? Possivelmente sim, se se conseguir taxar as empresas devidamente. Mas como toda a gente sabe, as empresas fazem tudo o que puderem para fugir ao fisco, especialmente se este for excessivo. Podem haver mecanismos reguladores, ex. garantir que só podem concorrer a concursos públicos empresas que provem estar a pagar tudo o que devem e a seguir escrupulosamente as regras de contratação de pessoal — como, aliás, sempre se fez. No entanto, esta aposta é sempre dúbia. Pode acontecer herdar-se um parque gigantesco de infra-estruturas — tal como se fez no passado — que depois tem elevadíssimos custos de manutenção. Cavaco fez isso no passado, mas os subsequentes governos PS só agravaram ainda mais a situação. Passos Coelho e Portas têm agora de resolver o problema criado com a manutenção dessas infra-estruturas todas — as terríveis parcerias público-privadas, em que os privados não arriscam nada e o Governo cobre-lhes os prejuízos que tiveram, em contratos que são quase impossíveis de cancelar ou revogar.

Note-se que o programa da coligação PàF praticamente nem fala de «grandes obras públicas». O que querem é linhas de financiamento às empresas exportadoras. Sim, não foi abandonado o projecto de remodelação de portos e sua interligação ferroviária com a Europa — coisa que agradaria imenso os chineses e que estão dispostos a co-investir, em conjunto com a Europa, que adora esse projecto. Mas não farão muito mais do que isso.

Ou seja, o que se lê no programa de Governo do PS é essencialmente um aumento da despesa pública, para aumentar o consumo interno, sem se ver de onde é que vem a receita. Existe este número místico do crescimento de 3% durante 4 anos, que alegadamente servirá para cobrir as despesas acrescidas que o Estado irá ter. É agarrar todo um sonho, todo um projecto, a um número mágico, que ninguém sabe se é realista ou não. O PàF não acredita nele — muito menos quando se quer colocar um «travão» ao desenvolvimento das empresas, especialmente as exportadoras, mas espera-se mesmo assim um crescimento da economia.

Claro que todos nós sabemos de onde virá o dinheiro: o PS irá estender a mão a Bruxelas e pedir esmolas. Choramingará, como Tsipras choramingou, pedindo dinheiro. Virão, é certo, com argumentos muito melhores: que Portugal já não está nas mesmas condições que dantes (é verdade), que tem muito maior capacidade de pagamento de dívidas (é verdade), que está a recuperar da crise (é verdade), e que se portou admiravelmente bem durante a crise (é muito verdade!). Com todas estas «verdades» irão pedir dinheiro à Europa — noutras condições completamente diferentes, sem troika e sem austeridade. E talvez o consigam fazer. Os países que quase foram à bancarrota, depois da Grécia, Irlanda e Portugal, passaram a beneficiar de medidas de financiamento que não passaram nem pela troika, nem por uma austeridade extremista. Ninguém fala de austeridade na Hungria, nos estados bálticos, na Finlândia — embora todos esses países estejam a passar por uma crise que mete medo e que é muito, mas muito pior que a nossa. Mas como estão a usar outros mecanismos de financiamento da sua economia, ninguém fala neles nos jornais. Não lhes descem os ratings.

O PS também pode estar a contar com uma mudança política fundamental a nível europeu. Como se sabe, David Cameron anda a fazer uma ronda por todos os países europeus a pedir mudanças nos tratados. Tem de o fazer, porque em 2017 os súbditos de Sua Majestade a Raínha Isabel II irão referendar a manutenção do Reino Unido na UE ou a sua saída. Cameron, que é europeísta, quer manter o seu país na Europa. Mas só o conseguirá fazer se mudar os tratados. E terá de conseguir um consenso relativamente depressa.

Uma coisa que pode acontecer com a mudança dos tratados é o mecanismo global de funcionamento do Banco Central Europeu e do financiamento da UE aos seus estados-membros. As propostas mais radicais (curiosamente, afirmadas por Pedro Passos Coelho… e não só, claro, mas desta vez algumas dessas ideias passaram mesmo primeiro pela cabeça dele) incluem a criação de um Tesouro Europeu, dotado de um orçamento próprio, e provavelmente mesmo de um parlamento próprio da Eurozona, para aprovarem esse orçamento. Uma coisa que o Tesouro Europeu poderá decidir é formas de canalizar dinheiro dos países ricos com superavits nos seus orçamentos para os países periféricos com dificuldades em estabilizar os seus orçamentos. Se isso acontecer — e é provável que aconteça, mais cedo ou mais tarde, como passo intermédio para a Europa Federal — então o PS poderá respirar de alívio: qualquer medida que proponham que necessite de dinheiro que nós não temos poderá ser requisitada ao Tesouro Europeu. Na prática, claro, as coisas não são tão simples, mas a ideia pode realmente ser esta.

Porque é que o PSD não faz o mesmo? Mais cautelosos, penso que o PSD-PP suspeita fortemente que o Tesouro Europeu não seja criado até 2017 — vai haver muito debate primeiro, e é certo que toda a esquerda (excepto o PS!) será ferozmente contra. Poderão haver novos mecanismos, talvez mesmo um novo tratado em torno do Banco Central Europeu, que lhe permita livremente comprar dívida dos estados-membros (como tem estado a fazer na Grécia…), mas nada disso é certo. Nada é garantido. Pode acontecer ou não. Pode acontecer daqui por cinco anos… e isso é tarde demais para quem tem apenas um mandato de quatro.

Assim, a estratégia do PSD-PP é «não contar com ninguém» mas apenas connosco. As exportações estão a crescer? Óptimo — não é preciso ajuda de ninguém nesse aspecto. Então, foquemos os nossos esforços naquilo que já estamos a fazer bem. Limam-se umas arestas, dão-se mais uns apoios, mas melhora-se aquilo que está bem. Se vierem Tesouros Europeus, um novo Banco Central Europeu, um Sistema Fiscal Europeu Único, uma Europa Federal… melhor ainda, claro está. Mas se nada disso aparecer nos próximos quatro anos, a verdade é que não precisamos de nada disso. Nem sequer precisamos de renegociar a dívida. Já a estamos a pagar antecipadamente — vendendo dívida caríssima a juros elevados, trocando-a por dívida barata, por vezes a juros negativos (ou seja, ainda ganhamos dinheiro com isso). Essa estratégia pode continuar durante quatro anos sem que ninguém nos precise de emprestar um tostão. Pelo contrário: podemos devolver a maior parte do dinheiro que nos sobrar. Temos superavits em todo o lado… no orçamento, na segurança social, na ADSE. Lucros nas empresas que ainda são públicas. Sim, foi à custa de muita manipulação financeira e muita privatização. Mas a ideia é sermos auto-suficientes financeiramente. E se isso acontecer (e já esteve bem mais longe!), então depois fica-se com dinheiro disponível para fazer outras coisas. Mas aqui o PSD-PP não promete nada, excepto o de devolver aquilo que tem tirado aos bolsos dos portugueses — em quatro anos, não em um ou dois. Não promete mais nada para além disso.

O problema da «terceira via» de António Costa é que ela foi experimentada… e não funcionou. Estou, claro, a falar da Grécia. Vamos a ver no que dão as eleições gregas — antes das nossas — mas o certo é que o Syriza, por muita demagogia que use na sua oratória, teve de capitular perante a Europa em que a Grécia está integrada. A Europa foi bem clara: não há terceira via para ninguém. Ou se fazem as coisas como a Europa quer, ou a alternativa é a «albanização». O Syriza não quis a albanização, por isso capitulou. Agora acusam-nos de traidores. Veremos o que é que as eleições gregas nos trazem. Até lá, para o PS — e outros partidos europeus que seguem a mesma linha de pensamento — a resposta é bem clara: na Europa, a «terceira via» que António Costa gostaria de implementar não existe. Pelo contrário: foi muito dessa «terceira via» — a via da aposta do consumo interno e da busca de dinheiro europeu para financiar esse consumo interno — que fez parte das linhas de orientação de José Sócrates, e que conduziu o país ao colapso financeiro.

Corrigiu-se esse erro e estamos em boa forma (mesmo que os portugueses não achem). Agora a questão é realmente a escolha entre duas realidades plausíveis: de continuar a manter a boa forma, fazendo pequenos ajustes aqui e ali, mas aceitando que as coisas são mesmo assim como estão, e que só assim é que existe futuro para um país na Eurozona; ou saír fora da Europa, seguir a via da albanização, e viver num país onde não haverão Bimbys e SUVs, embora os transportes públicos, a saúde e a educação sejam gratuitos. Essas são as duas escolhas plausíveis.

A terceira via não existe. É uma pura ilusão demagógica. Já vimos que não funciona. Então porque é que o PS ainda insiste nela?

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