As Novas Bruxas

Dark Moody Beautiful Witch Child por D. Sharon Pruitt

Dark Moody Beautiful Witch Child por D. Sharon Pruitt (licensa Creative Commons by Attribution)

O século XVIII autodenominou-se «O Século da Iluminação». Os grandes pensadores da época acharam que o futuro da Humanidade estava na substituição gradual da mitologia e das superstições pela Razão. Esperava-se que o progresso científico, assente na experimentação empírica, que tão bons resultados tinha dado no início do período barroco, com gigantes como Isaac Newton, continuasse a progredir e que se alastrasse a todas as áreas do conhecimento humano. Esperava-se igualmente que um dia todas as pessoas (bem, pelo menos na aristocracia…) soubessem ler, escrever, fazer contas, e aprender a pensar pela própria cabeça, usando a lógica e a razão.

Se bem que seja certo que muitas destas ideias eram excessivamente optimistas, modelaram o pensamento educativo do século que se lhe seguiu, em que as escolas públicas cada vez mais se espalhavam pelos países ocidentais — e, em breve, até no distante Japão, após a revolução Meiji. Foi preciso chegar ao século XX para a instituição da escola pública obrigatória e universal nos países mais desenvolvidos, mas os alicerces para esta revolução do pensamento racional tinham já sido lançados dois séculos atrás.

É verdade que surgiu muita ciência «errada», como a eterna procura do Éter ou do Filogisto. Mas aos poucos, a razão, a lógica, o método científico trouxeram uma nova perspectiva à aquisição de conhecimento; e, aos poucos, a superstição e a mitologia foi «empurrada» para um canto, descartada, e ignorada como não sendo capaz de fornecer explicações ou soluções para os problemas da Humanidade.

Também é certo que a superstição não «morreu» rapidamente. Os movimentos espiritistas no virar do século XIX para o XX mostravam que continuava bem viva, e que gozava de popularidade nas classes sociais mais abastadas, como forma de diversão — mas muitos, como Sir Conan Doyle, juravam a pés juntos que «era tudo verdade». Hoje podemos olhar para esses tempos remotos com um sorriso nos lábios e ver quão ridículas eram essas ideias.

Olhando para a Histório, penso que o «pico» da Era da Razão deu-se no pós-2ª Guerra Mundial. Talvez justamente por ter sido o primeiro conflito à escala mundial em que o domínio da tecnologia e da ciência chocou a mentalidade prevalecente; lembremo-nos de como na 1ª Guerra Mundial ainda se acreditava em ideias «míticas» — como a noção de que meramente por serem mais «bravos» que o inimigo, os soldados de alguma forma ganhavam um poder mágico contra a artilharia ligeira e pesada… pretensão essa que ironicamente os Polacos ainda tinham mesmo no início na 2ª Guerra… mas que depois ficou claramente estabelecido, de uma vez por todas, que não há pretensões mágicas que vençam combates militares. Ficou o pânico (com ou sem fundamento, dependendo do historiador que se leia) de que a Alemanha Nazi, detentora de armas «miraculosas» (que não eram mais do que sofisticações tecnológicas), até poderia ter uma bomba atómica, fruto da mais avançada tecnologia que se tinha na altura. Quando a guerra terminou, ficou evidente que tem tinha os melhores cientistas, a melhor tecnologia, e a maior capacidade de produção iria vencer a guerra — não quem tivesse a maior «bravura mística». Penso que isso moldou claramente o pensamento do pós-guerra, que abandonou — pelo menos nos meios citadinos — qualquer pretensão ao «misticismo». Mesmo a literatura neorealista que surge no pós-guerra reflectiu uma forma totalmente diferente de encarar o que nos rodeia. Passámos a olhar para a realidade tal como ela é, e não como aparenta ser.

Pelo menos durante uma década ou duas. O misticismo retorna, em força — e talvez com ainda mais força! — durante os loucos anos sessenta, em que gurus indianos (e pseudo-indianos) invadem o Ocidente com invenções estapafúrdias (a esmagadora maioria das quais nem sequer estruturadas no pensamento filosófico oriental). Subitamente, o espiritismo, a magia, o misticismo voltam a ganhar força. Os historiadores das décadas posteriores tendem a comentar que este «volte-face» foi uma reacção ao realismo duro dos anos 1950: ao abandonar os valores morais antes da guerra, a frieza dos novos valores e do pensamento neorealista «assustou» muita gente, que se entregou ao movimento New Age como «compensação» da ausência de misticismo.

O movimento New Age não morreu. Tem é novas formas de expressão.

Em meados dos anos 1980, lembro-me perfeitamente de ver a minha mãe chegar apreensiva a casa. Tinha acabado de estar em casa de uma amiga de família de há longas décadas, que morava na rua de trás. Esta, por sua vez, tinha uma vizinha que estava a ser «vítima» de uma bruxa que habitava a mesma rua.

Para mim, isso foi fascinante. Em pleno final do século XX, no meio de Lisboa, vivia uma bruxa? E era uma bruxa «a sério»? Bom, pela descrição que a minha mãe tinha dela, parecia ser justamente algo retirado de um romance medieval — uma senhora de idade, sempre de preto, deformada fisicamente, mal encarada, cheirando mal, usando roupas velhas e sujas, e que passava o tempo a «lançar feitiços» a toda a gente da vizinhança que não gostasse dela. E as senhoras mais de idade, como era o caso da vizinha dessa nossa amiga, ainda conservavam bem vivo o medo que se tinha das bruxas. O dilema da minha mãe era como combater esse medo e fazer ver à vizinha da minha amiga (com a qual não tinha assim tanta confiança) de que as bruxas só têm «poder» porque as pessoas crédulas acreditam que têm «poder». Este racionalismo é fruto da educação que nos foi dado ao longo do século XX, mas a verdade é que não é universal. Para a vizinha da nossa amiga, a bruxa tinha poderes reais. E como acreditava nesses poderes, estava sob sua influência. Tinha verdadeiramente medo do seu mau-olhado e dos seus feitiços. E não havia argumento realista, lógico e racional que a demovesse desse medo.

Não sei muito bem como a história acabou, mas, olhando para trás, penso que a bruxa em questão não devia pagar a renda há meses, ameaçando de enfeitiçar o proprietário se este lhe fosse exigir renda, mas chegou a um ponto que este de alguma forma a conseguiu expulsar de lá. A bruxa desapareceu do nosso bairro, e nunca mais se falou no assunto.

Lembro-me contudo de que o meu fascínio perdurou durante bastante tempo. Como seria possível a pessoas no final do século XX ainda acreditarem no poder das bruxas? Como conseguia uma pessoa fisicamente repulsiva adquirir tanto poder sobre as pessoas, apenas infundindo-lhes medo? Como é que eram capazes disso? Como é que tinham capacidade de vencer um debate de ideias racionais e lógicas? Na altura, a minha mãe apenas me relembrou que o «poder» não estava nas bruxas, estava nas pessoas que acreditavam nelas. Mas não conseguia perceber como é que se podia acreditar numa coisa tão parva assim!

Claro que na altura era mesmo muito ingénuo!

Mas a verdade é que também não haviam assim tantas bruxas em Lisboa que estivessem «à vista». Apareciam, de vez em quando, em bairros mais degradados, ou habitados por pessoas mais simples e que ainda se recordavam das bruxas das aldeias de onde vinham. Viviam mais ou menos escondidas, mais ou menos em secretismo — quem as queria consultar, sabia onde ir — mas não eram muito visíveis.

Depois, nos anos 1990, passámos a ser invadidos nas nossas caixas de correio (físicas!) por cartões de visita de Professores Zandingas e de todo o tipo de astrólogos, videntes, e médiums, que garantiam, por um preço modesto, livrar as pessoas de todos os problemas.

Deixaram de ser pessoas escondidas da sociedade: começavam a fazer publicidade abertamente dos seus «poderes». Tinham um número de telefone para marcar consultas, e por vezes até davam uma morada do «consultório».  Mas também foi a altura das Donas Brancas e de semelhantes «esquemas» mais ou menos ilegais para extorquir dinheiro a uma população crédula que passou a ter um nível de vida como nunca antes na nossa história, e demasiado dinheiro disponível, sem saber o que fazer com ele. There is one born every minute, lá dizem os anglo-saxónicos a respeito dos idiotas. E nessa altura, o que não faltavam eram pessoas a explorar a idiotice!

Mas é justamente nesta altura que as coisas começam a mudar um bocadinho.

Precisamente como aconteceu no final dos anos 1890, em que o espiritismo passou a ser «moda» entre a aristocracia e as classes altas, certas «bruxas» começaram a aparecer junto dos novos ricos, que, apesar do seu dinheiro, tinham (inicialmente) muito pouca educação. Cem anos depois do espiritismo, começa a ser moda consultar cartomantes e astrólogos para «prever o futuro», e algumas tornam-se mesmo estrelas da rádio, dos jornais e da TV! Não há publicação diária ou semanal neste país que não tenha a sua coluna de «horóscopo» — e como a partir de certa altura os jornais passaram a ter que pedir facturas por serviços prestáveis, surgiram rapidamente «astrólogos profissionais», com capacidade de passar recibos verdes, que passaram a ganhar alguma credibilidade (em termos financeiros). Passaram a ter número de contribuinte!

Mas também deixaram de ser velhas asquerosas com roupas a cheirar mal. Em vez disso… sofisticaram-se. Para frequentarem as casas dos novos ricos — e rapidamente do resto do Jet Set português — tinham de se modernizar, tanto em aparência como em sociabilidade.

Nasce então a «Bruxa Tia». É elegante, tem boa aparência, tem educação, fala à vontade de qualquer assunto, veste nas melhores casas, e sabe estar socialmente em ambientes das classes altas, sem cometer gaffes. E deita umas cartas ou consulta uns oráculos. É «bem». E também «é bem» ter-se o seu personal trainer, personal stylist, e… personal witch. Rapidamente escrevem livros, são entrevistadas na TV, e passam a ter escritórios onde atendem discretamente toda a aristocracia portuguesa.

Depois são imitadas por outras, que também apostam numa excelente imagem pessoal, mas que se dedicam às classes médias. Ironicamente, não às baixas: é que são ambiciosas, e as classes baixas têm pouco dinheiro para gastar em «bruxaria». É justamente nas classes médias e altas onde há dinheiro para isso. Por isso, as bruxas do virar do século passam a ser indistinguíveis de qualquer outra pessoa da classe média (ou mesmo alta). Na realidade, a maioria até tenta esforçar-se por ter um ar culto, sofisticado, e sempre, mas sempre, com muito boa apresentação.

A início, os serviços mais procurados eram os de adivinhação do futuro. Penso que há uma boa razão para isso. Uma boa astróloga, especialmente se tiver uma formação em psicologia, consegue ser muito convincente e persuasiva. Aliás, tal como as manchas de Rorschach, que têm pouca credibilidade científica mas não deixam de servir como um «foco» para que o paciente fale de si mesmo, ajudando o psicólogo a perfilá-lo, muitos psicólogos preferem usar a astrologia. As manchas de tinta são demasiado abstractas. A astrologia, pelo contrário, apresenta-se com um ar «científico» — as regras «fazem sentido» porque não parecem aleatórias. Dois bons astrólogos, usando a mesma técnica, chegam à mesma conclusão — o que reforça a ideia de que a astrologia pode ser uma coisa «séria». No entanto, pode ser aborrecida, e por isso popularizam-se toneladas de outros métodos e variantes, consoante o gosto do freguês.

Mais ou menos na mesma altura, surgem também os tratamentos de estética, os ginásios, as massagens «relaxantes». É todo um novo mundo que aposta no bem estar físico, no bom aspecto do corpo, e que coloca a imagem e os sentimentos em relação a essa imagem no centro das atenções. As «Bruxas Tias» aproveitam-se desta moda e prometem o bem estar mental, ou espiritual. Mens sana in corpore sano — mas às vezes, para «sanar» a mente, é preciso um empurrãozito.

E as Novas Bruxas estão cá para isso. Subtilmente, dão conselhos, manipulando a vida das pessoas na direcção que mais lhes convém — a do estabelecimento de um laço de dependência. A diferença para as «Bruxas Velhas» é que as Novas Bruxas fazem-no de forma muito mais subtil. Inspiram-se nos métodos e técnicas do movimento New Age, e aos poucos tornam-se indistinguíveis detes. Usam muito palavreado que vem do meio da psicologia, re-interpretando-o de acordo com os seus interesses. Misturam tradições antigas com métodos inventados (para serem originais!) para ir buscar a imagem de «credibilidade» (taças tibetanas? Claro que sim, pois tudo que vem do Tibete só pode ser mágico e bom — quando na tradição tibetana nunca existiram «taças tibetanas». Agora, claro, vendem-se em todo o Tibete porque há sempre turistas totós).

São muito habilidosas. E tiram partido de outros «habilidosos» que começam a surgir por todo o lado. Por exemplo, os professores de Yoga, ou daquilo que fazem por passar por Yoga. São escolhidos a dedo os alunos que tenham uma melhor figura, depois dá-se-lhes um cursozito básico de «pseudo-ginástica indiana», e pronto, lá vão mandar fazer uns exercícios físicos com sabor oriental. Escusado será dizer que o resto da tradição hindu é descartada; o aspecto físico — as asanas — são apenas uma minúscula parte do difícil caminho espiritual do praticante de Yoga hindu. Basta dizer que se as aulas de Yoga no Ocidente começassem a explicar que todos os alunos têm de ser vegetarianos e abster-se de qualquer contacto sexual, que a moda do Yoga não pegaria. Mas no Ocidente, descarta-se tudo o que é incómodo, aborrecido, ou difícil, e fica-se apenas com uma pálida miragem. Mas que imagem! Vende-se que nem ginjas!

Um dos fenómenos do movimento New Age, que herda do movimento teosofista de cem anos atrás, é o desejo intenso de «misturar tudo» para que surja algo de novo. Mistura-se Hinduismo com Cristianismo, dá-se-lhe uma pitada de misticismo oriental, um pouco de Sufismo, um pouco de Cabala, um pouco de astrologia… e chama-se qualquer coisa ao resultado final. O argumento é que haverá «um fundo de verdade» em todas estas tradições, portanto, se se misturar tudo, o resultado só pode ser «muita verdade concentrada» (é precisamente o contrário). E depois, há modas.

As bruxas adaptaram-se a isso tudo. Começaram por ser astrólogas e cartomantes quando era isso que estava na moda. Depois começaram a fazer taças tibetanas e yoga. Hoje, fazem Reiki e constelações. Se amanhã aparecer algo de novo que esteja na moda, as bruxas vão também oferecer isso. É que a ideia que querem passar é que estão bem informadas quanto ao que por aí anda de «novidades mágicas», e elas, como são supostamente as peritas em magia, têm de estar atentas aos tempos que correm. E estão. Basta ligar para a TV por cabo para ver a quantidade interminável de programas sobre fantasmas, espíritos, médiums que existem por aí. Parece que nunca houve tanta magia como agora no século XXI!

E porque é que as pessoas «caiem na conversa»? Levei muito tempo para perceber isto, e realmente só quando se conhece gente próxima de nós que «caiem» no conto do vigário, é que nos apercebemos de quão fácil é «cair» nestas coisas. E as razões para isso até são bem… racionais.

Imagine-se a seguinte situação: uma pessoa sente-se deprimida. Sabe que há medicamentos que a podem tirar da depressão. Vai ao psiquiatra que o encaminha para o psicólogo, que lhe diz: para tomar estes medicamentos, e estes terem efeito, tem de fazer terapia. Isto vai levar 2-3 anos, com 2-4 sessões mensais, até que consiga «curar» a sua depressão.

Rapidamente as pessoas fazem as contas: curar-me de uma depressão custa X e leva Y tempo.

Eis que uma amiga nos conta como foi a uma bruxa, que lhe resolveu tudo em poucas sessões. Quando se está deprimido, o nosso raciocínio não é dos mais lúcidos e claros. Estamos mais dispostos a encontrar uma solução por desespero. E nisto temos uma «Bruxa Tia», toda simpática e com excelente apresentação, que nos segura na mão com um lindo sorriso no rosto, e que nos diz: «Oh, querida, que estupidez, não está nada deprimida, isso são coisas que os médicos inventam para ficarem com o seu dinheiro. Não, o que acontece é que a minha amiga tem um dom, um dom muito raro, e por inveja de si, há espíritos que lhe querem mal. Pode não acreditar neles, mas descanse, eles fazem-lhe mal à mesma! Por isso o que lhe vou fazer é uma limpeza — leva pouco tempo, basta uma sessãozita, faço-lhe um desconto porque é a amiga de X, e vai ver que se sente lindamente depois!»

Uma chávena de chá de ervas e uns paus de incenso mais tarde (e menos €40 na carteira), e realmente a pessoa repara que se sente, de facto, muito melhor. Que estupidez ir ao psicólogo, com a sua conversa fiada de vendedor, a querer extorquir centenas, senão milhares de Euros, e a dizer que leva anos a tratar-nos! Quando se está deprimido, quer-se sair da depressão , não ao final de anos. Ora a simpática bruxa, pelo contrário, percebeu imediatamente o que estava de errado, afinal isto não é depressão mas sim espíritos sabe-se lá de onde, que me andam a fazer mal, sim, porque eu sou uma pessoa especial, sempre soube que era, felizmente a bruxa notou isso imediatamente, ao contrário do burro do psicólogo que só me vê como mais uma fonte de receitas para comprar um carro novo…

E daí à pessoa ficar completamente entrançada na teia da Bruxa é apenas um instantinho.

Não se pense que as Novas Bruxas apenas enganam ingénuos com poucos conhecimentos. Pelo contrário: são extremamente hábeis em manipular subtilmente qualquer tipo de pessoa (e também sabem imediatamente descartar aqueles que não são manipuláveis). A pessoa que vai consultar uma bruxa já tem imediatamente uma desvantagem: o mero facto de aceitar entrar no seu consultório já mostra, no mínimo, que tem curiosidade em ouvir o que a bruxa tem a dizer, mesmo que faça parte de uma associação de cépticos (quem não tem o mínimo interesse jamais sequer se aproximaria de uma bruxa!). Uma bruxa hábil vai saber o que dizer. Pode aperceber-se de uma certa dose de cepticisimo, e, por exemplo, numa sessão inicial apenas sugerir o chá («são ervas que vêm da Índia, servem para relaxar») e um pouco de incenso («vem do Tibete, onde a medicina deles cura qualquer doença, e, além disso, cheira lindamente!»). Criam um ambiente propício e deixam as pessoas falar dos seus problemas. Podem escutar apenas no início e oferecer conselhos simples. «Sabe, não é que a pessoa X não goste de si, mas já deve ter reparado de certeza que há pessoas que têm maior capacidade de nos cansar… sugam a nossa energia.» — conselhos esse que podem ser banais e com os quais nos podemos identificar.

Depois, aos poucos, com sessões sucessivas, vão aprendendo o que devem dizer para persuadir as pacientes de que é melhor continuarem a consultá-las. Se a «armadilha» dos «espíritos que lhe fazem mal» não está a «pegar» com um cliente céptico, podem sugerir, em vez disso, uma aula de Yoga ou uma sessão de Reiki ou de constelações. Estas últimas, porque ainda por cima são usadas em terapia de grupo, têm um ar «científico». Mas há muitas mais coisas, como a «terapia quântica», que têm um ar científico, e que se destinam àqueles que não estão preparados para acreditar em espíritos e energia a fluir entre deuses e humanos (sempre mediados pelas bruxas, claro). Dada a vastíssima diversidade de coisas que por aí andam, uma boa bruxa saberá o que aconselhar, e, aos poucos, conquistar a confiança dos seus clientes.

É importante também perceber que a maioria destas Novas Bruxas nem é sequer fraudulenta, no sentido de estar a tentar deliberadamente enganar os clientes. Muitas, na realidade, começaram por consultar outras bruxas, que lhes disseram o quão especiais eram, e como tinham um dom que não estava desenvolvido o suficiente, mas que fazendo uns cursozitos (a um preço módico), poderiam libertar esse dom e, por sua vez, ajudar outras pessoas a fazer o mesmo. Muitas realmente acreditam que têm o dom de magicamente usar os outros e por isso é que se tornam bruxas. O que têm, na realidade, é uma característica muito comum em quase todas as pessoas: o desejo secreto de manipular outras pessoas, e o terror profundo de serem manipuladas por outros. Tornar-se bruxa significa lidar com os dois aspectos — a magia protege-las da manipulação de terceiros, e dá-lhes uma «ferramenta» para manipular outros. Como em quase tudo na vida, aquilo que fazemos de mal aos outros é aquilo que mais tememos que nos façam a nós. As bruxas exploram este sentimento ancestral na perfeição.

Também são peritas em lidar com os cépticos. Usam o velho argumento criacionista, que é simplesmente dizer que os cientistas são hipócritas e que não têm abertura de espírito para conhecer novas coisas. Também podem fazer-se de vítimas, dizendo que o status quo não gosta das bruxas porque resolvem em pouco tempo aquilo que a ciência leva anos a curar (e que por vezes não cura), logo, estão a fazer concorrência aos médicos e hospitais, pelo que são «discriminadas». E avançam com um argumento que (parece) muito forte: há vinte ou trinta anos atrás, a acupunctura, a fitoterapia, ou a medicina chinesa e/ou ayurvédica não eram aceites pela ciência; hoje já são; um dia as práticas de bruxaria também serão aceites, é uma questão de tempo; aliás, a Organização Mundial de Saúde já anda a estudar muitas «terapias energéticas» e é uma questão de tempo.

O que não dizem é quais foram os resultados desses estudos. Basicamente nem como efeito placebo funcionam. Alguns cientistas, fartos de estudar estas «terapias energéticas», até publicam relatórios sugerindo que não se perca mais tempo e dinheiro com estes estudos, pois o financiamento para a investigação científica é limitado, e consideram «desperdício» estar a estudar estas coisas. Pessoalmente não concordo: a ciência não se deve opor a estudar tudo. E a bruxaria, a magia, as terapias energéticas e outras que tais, afectam milhões de pessoas no mundo ocidental, afastando-a dos processos de cura efectivos disponíveis através da psicologia, da psiquiatria, e da medicina ocidental (ou mesmo da oriental!). Logo, trata-se de uma questão de saúde pública. E como tal merece ser investigada. Mas merece igualmente que seja regulamentada e controlada: não estou a advogar uma «inquisição moderna» que queime as bruxas em estacas, mas uma campanha de educação e sensibilização que explique porque é que estas coisas não funcionam, e, pior que isso, porque é que, apesar de não funcionarem, continuam a existir.

Porque aqui o problema é que a nossa sociedade, embrutecida pelas Casas dos Segredos e Big Brothers e Ídolos, perdeu a capacidade de pensar de forma crítica. Porque as bases de filosofia, de ciência, do método científico são cada vez pior dadas na escola (ou mesmo não são dadas de todo), as pessoas cada vez menos sabem pensar pela sua própria cabeça. Na realidade, os Iluministas tinham razão: uma melhor educação faz com que as pessoas sejam mais críticas e mais racionais. À medida que a educação piora, as pessoas voltam a ser crédulas e supersticiosas.

Que fazer? Penso que a «proibição» é algo que só iria fazer com que as bruxas se tornassem underground, e ainda seria pior. Numa primeira fase, o que propunha era taxação. A esmagadora maioria das bruxas não paga impostos, mas tem consultório aberto. Umas inspecções da ASAE e da AT, bem seleccionadas, por pessoas que não tenham medo de bruxas, seriam extremamente eficazes: a palavra espalhar-se-ia rapidamente, pelo que isto pelo menos seria um sinal de alerta.

Depois é preciso educação. Hoje em dia, se as pessoas perdem tempo a ver telenovelas, então as telenovelas têm de ser o meio de divulgação. Poderiam apresentar a imagem das «Bruxas Tia», giras e sofisticadas, mas cheias de problemas pessoais (que realmente têm) e psicológicos (que também têm, não diagnosticados). Podiam mostrar exemplos, tirados de casos verídicos como conheço, de gente que estava tão convencida que via espíritos à sua volta que tiveram de ser internados em hospitais psiquiátricos. Devem apresentar tanto as suas bruxas como pacientes como co-vítimas de ignorância. Podem apresenta histórias em que os pais da bruxa, ou irmãos, a ajudam a passar por um processo de tratamento e cura.

Também é preciso passar a imagem de que não há conhecimento sem esforço. Tirar um curso superior leva tempo. Ser-se médico leva 10 anos no ocidente, 12 anos na medicina chinesa e ayurvédica. Para efectivamente se aprender a tratar de pessoas, não basta um workshop de fim de semana por €100-200, ou mesmo um seminário intensivo de 6 meses por €1000 ou 2000. É preciso explicar às pessoas, por exemplo, que um atleta olímpico pratica 8 horas por dia. Tal como um músico: passa as 8 horas do dia a praticar o seu instrumento, e à noite dá concertos. As pessoas que achamos serem «talentosas» não o são apenas porque «têm um dom». Até podem ter algumas características — uma voz bonita, um ouvido apurado — mas tornam-se «talentosos» à custa de muito, muito esforço. É essa mensagem que é preciso passar, e porque não fazê-lo com telenovelas?

E depois reforça-se com documentários, com entrevistas a ex-bruxas que, após o acompanhamento psiquiátrico, compreenderam que se estavam a auto-enganar e a enganar os outros. Também é preciso criar um programa nacional de apoio ao voluntariado de acção social. Muitas destas bruxas começam com uma verdadeira e genuína motivação de ajuda. Mas têm aversão às instituições cristãs ou seculares (câmaras, juntas de freguesia) com as quais não se identificam minimamente. Então devem ser encaminhadas para descobrirem a sua vocação a ajudar outros nas milhares de ONGs e IPSS que por aí existem.

Também podem achar que têm mais talento para a ajuda mental e não física. Uma vez que tenham sido curadas e acompanhadas por especialistas da área da psicologia e psiquiatria, talvez queiram, elas próprias, tornar-se psicólogas — um pouco como os Alcoólicos Anónimos, ou Narcóticos Anónimos, que uma vez se curando, têm mais empatia para tratar e curar outros. Isto, claro, teria de ser primeiro muito estudado e analizado…

Depois é preciso ter acções de sensibilização nas escolas, mas também em locais públicos — centros de dia, centros de idosos, creches, etc. Tem de ser desenvolvido um programa de informação e explicação que diga porque é que estas coisas não funcionam. Mas terá de ser feito sem acusar as pessoas de «ignorantes», pois assim não terão interesse em ouvir, e até criarão alguma aversão. Penso que a estratégia melhor é a que foi usada para as campanhas modernas de prevenção da toxicodependência: explicar como é fácil «cair nas malhas» das bruxas, explicar que elas também são vítimas (embora possam haver algumas que tenham realmente a intenção de enganar as pessoas, a maioria realmente acredita que tem dons e poderes mágicos), explicar porque é que é impossível resolver os nossos problemas «por magia» — mas que as boas notícias é que a esmagadora maioria dos nossos problemas pode, de facto, ser resolvida, desde que nos tratemos com especialistas.

Isto será muito difícil de fazer. Afinal de contas, anda-se a tentar desde pelo menos o século XVIII, apelando para a capacidade de pensamento crítico das pessoas, e ainda não se acabou com a superstição…

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