MAPAlhaçada

Desde que a Apple lançou o iPhone 5 com o iOS 6 que tem sido a gargalhada geral em torno da sua nova aplicação, o Apple Maps, que vem substituir a aplicação nativa do Google Maps. O Apple Maps é provável que se torne no maior falhanço na história recente da Apple (e mesmo na antiga) e o maior motivo de chacota pública, tendo sido já criado um site no Tumblr só com imagens exemplificativas do mau funcionamento da aplicação. Talvez seja mesmo a pior coisinha alguma vez desenvolvida pela Apple, pior até do que o Apple Newton, que, apesar de tudo, funcionava, mas foi silenciosamente esquecido pela história.

Se o Apple Maps tivesse sido lançado em vida do Steve Jobs, tenho a certeza que não teria aparecido como uma aplicação 🙂 Jobs era um perfeccionista, e não deixaria que uma aplicação «feita às três pancadas» fosse assim lançada publicamente… assim, Jobs deve estar às voltas no túmulo.

Apesar dos erros hilariantes da aplicação de mapeamento da Apple, e de realmente não dever ter sido lançada numa fase ainda tão cheia de bugs, a verdade é que há uma certa «injustiça» para com a Apple. Em primeiro lugar, devido às questões complicadas de licenciamento, e à guerra entre a Apple e a Google pelo domínio do mundo móvel, era evidente que a Apple teria, mais cedo ou mais tarde, de largar o Google Maps e optar pela «sua» aplicação. Portanto, mesmo que prematura, esta aplicação tinha de ser lançada, e tinha de estar «pronta» com urgência. Não é por «malandrice» ou «pura incompetência» que a Apple foi forçada a fazê-lo: foi por pressão da concorrência.

Ora em segundo lugar, é evidente que as comparações estão a ser feitas com o gigante do mapeamento digital, que é o Google Maps. Claro que a comparação é legítima: afinal de contas, os iPhones e iPads usavam o Google Maps antes, e é lógico que os actuais utilizadores comparem o que têm agora — que funciona horrivelmente mal — com uma aplicação que funcionava perfeitamente. Mas a verdade é que é importante perceber porque é que a Google é um «gigante» do mapeamento digital, batendo toda a concorrência — nomeadamente, os fabricantes de sistemas de navegação por GPS. É que para além de aceder a bases de dados públicas e bases privadas, que estão constantemente a ser actualizadas — fontes às quais a Microsoft e o Yahoo também têm acesso, para as suas próprias aplicações de mapeamento — a Google faz mais. Faz muito mais: Alexis Madrigal, no The Atlantic, explica isso muito bem.

Para resumir a questão: a maior parte dos sistemas GIS que por aí andam, e cujos dados são públicos (ou que podem ser adquiridos, tal como os dados cartográficos do Instituto Geográfico do Exército), baseiam-se num misto de cartografia por satélite, por imagens aéreas, e caminhadas no terreno para localizar certos pontos. A Google acrescenta a isso as famosas Google Vans que andam pelas principais cidades do mundo todo a fotografar todas as ruas — as imagens tiradas a partir das carrinhas são depois processadas para extrair uma montanha de dados incríveis, desde localizações de lojas a sinais de trânsito. E, claro, o gigante da pesquisa também extrai informação da localização de sites Web, dos telemóveis com que as pessoas andam na rua, das fotografias que contenham informação de GPS e uma identificação (se alguém mandar para o Picasa uma fotografia da Torre Eiffel e disser, «estou na Torre Eiffel em Paris», a Google pode associar uma coisa à outra e aumentar assim a precisão do mapa…).

Ora tudo isto chega a uma equipa de umas centenas de pessoas que depois validam essa informação e a colocam no mapa final. São centenas! E, para mais, fazem-no há cinco anos, tendo aprendido com os erros do passado. O Google Maps, a início, não era assim tão impressionante como isso; lembro-me de ter usado mais vezes os Mapas do Sapo (com informação geográfica vinda da InfoPortugal) para encontrar algumas ruas nos sítios mais obscuros. Os mapas da Yahoo eram tão bons ou tão maus como os da Google. Foram apenas cinco longos e penosos anos para que a Google se tornasse também no gigante da informação cartográfica que é hoje — apostaram imenso na tecnologia e deixaram praticamente toda a gente para trás.

A Apple, essa, coitada, andou a «namorar» a Tom Tom, ainda não se sabe se a vão adquirir ou não, mas é certo que a informação principal da base de dados que serve para alimentar o Apple Maps vem da Tom Tom. E está visto que nem a Tom Tom, nem a concorrência (em termos de sistema de navegação GPS), têm a riqueza de informação que a Google tem, especialmente no que concerne a imagens em 3D (pois a Google tem a tecnologia StreetView que usa imagens tiradas pelas suas famosas carrinhas, coisa que a concorrência não tem…), mas não só: por muita informação que a Tom Tom tenha (e disponibilize à Apple), não têm um motor de busca gigantesco que indexa o mundo todo. E isso é o que faz a diferença.

A Microsoft podia concorrer com os mapas do Bing, mas não o faz. É pena (a concorrência é boa!), pois os mapas do Bing usam imageologia muito mais recente que a Google, pelo menos na maior parte dos locais de Portugal. Pessoalmente irrita-me que na minha zona a Google ainda esteja a usar imagens de satélite de há uns sete anos atrás: faltam ruas e edifícios monumentais como a Igreja da Boa Nova, entre outras coisas. O Bing há anos que as mostra. Mas se compararmos toda a riqueza de informação que, regra geral, a Google apresenta, está a anos-luz do que quer que a Microsoft possa apresentar.

Mas evidentemente que a Apple também não pode usar a informação da Microsoft — seria ainda mais irónico! Ao ler melhor nas entrelinhas, olhando para as fontes que a Apple usa para complementar a falta de informação da Tom Tom, reparei numa coisa curiosa: também vão buscar dados ao OpenStreetMap.

OpenStreetMap? Eh lá! Eis uma coisa que não ouvia falar desde há uns anos, em que me registei lá no site deles. O OpenStreetMap (OSM), para quem não saiba, é uma espécie de «wiki cartográfica» — por outras palavras mais simples, um mapa do mundo em que todos podem acrescentar informação georeferenciada, editando o que quiserem em colaboração com milhares de outras pessoas. Quinhentas mil pessoas, para ser mais preciso.

A informação submetida ao OpenStreetMap é, como de costume nestes projectos de crowdsourcing, completamente pública e licenciada em modelo open source. Qualquer pessoa — incluindo a Apple! — pode usar esta informação como muito bem lhe apetecer e distribuir sob forma de uma aplicação, mesmo que seja comercial.

Cabe aqui fazer uma pausa para reflectir nisto. Em primeiro lugar, será que vale sequer a pena olhar para este tipo de soluções? Para já, não é a única solução de cartografia crowdsourced; a Waze também permite que as pessoas editem e completem os seus mapas; a diferença é que, neste caso, os direitos ficam todos com a Waze, que explora os mapas comercialmente. Por outro lado, graças às API da Google, qualquer pessoa pode usar a vastíssima informação que a Google colocou no Google Maps, de borla. De borla? Bem… sim… desde que seja para uma aplicação, também ela, gratuita. Evidentemente que a Google não é parva. Não há problemas em colocar um mapazinho num site — isso só dá mais hits à Google, e mais informação para pesquisar — mas empacotar a informação toda numa aplicação comercial (ou numa aplicação que sirva para vender um produto — como, por exemplo, um telemóvel que corra um sistema operativo concorrente ao Android…), é evidente que a Google não vai na conversa e diz que não!

Ou seja: na realidade não há dados georeferenciados, à escala mundial, que sejam gratuitos e livres de qualquer licenciamento. Com uma excepção: OpenStreetMap. Só isto devia encorajar aqueles que desenvolvem aplicações que necessitam de georeferenciação e que usam informação do Google Maps, mas que têm dúvidas se podem depois vendê-las. Em princípio não podem. Na prática, é pouco provável que a Google «ande atrás» dos pequenos programadores que vendem meia dúzia de licenças por ano. É evidente que «andará atrás» de gigantes como a Apple!

Mas há mais uma pequena coisa que sempre me irritou em todas as aplicações que por aí existem que usem dados cartográficos, que é: como é que os corrijo quando estão mal?

É evidente que esse é o cerne da questão! Se a Tom Tom permitisse que, no mundo todo, as pessoas pudessem corrigir as informações erradas na sua base de dados, o Apple Maps não mostrava os disparates que mostra. Mas não o faz, por razões óbvias (comerciais!), e por isso, dada a quantidade gigantesca de «erros», vai levar anos para corrigir tudo. A Google tem, como disse, uma equipa com centenas de pessoas para corrigir os erros que lhes são submetidos. A Tom Tom se calhar nem sequer tem uma linha de suporte para a qual se possa fazer essa submissão — e se calhar a Apple também não (ainda não fui verificar).

Mas mesmo a Google não deixa acrescenta com facilidade nova informação georeferenciada. É claro que qualquer pessoa pode registar a sua empresa no Google Maps de borla. Para validar que os dados são verdadeiros, a Google manda uma carta com um código para a morada da empresa. Assim evitam-se os dois principais problemas dos sistemas baseados em crowdsourcing: o spam e o vandalismo. Tenho uma vaga memória que, muito a início, a Google deixava as pessoas acrescentarem pontos e localizações no mapa, que eram «votados» pela comunidade, e que se tivessem votos suficientes, passavam a fazer parte do mapa. Mas isso acabou; ou se não acabou, não descobri como é que se faz. Também é possível, com o SketchUp e uma ferramenta baseada em browser, acrescentar novos modelos 3D ao Google Earth. Mas lembro-me de ter contribuído com bastantes modelos, há uns dois anos atrás, que nunca foram aceites/aprovados pela Google (nessa altura já deviam estar com as carrinhas na rua e a desenvolver o StreetView…). E isso é sempre desencorajador para quem não se importe de contribuir gratuita e voluntariamente com informação, que depois é descartada e esquecida. Essa é a razão principal pela qual não contribuo com informação para a Wikipedia: na altura em que o fiz, há muitos anos atrás, perdi semanas a escrever artigos, que foram depois todos rejeitados pelos Wiktators que administram a Wikipedia. Foi demasiado frustrante. Nunca mais contribui com nada para a Wikipedia!

Em compensação, o OpenStreetMap é totalmente diferente. Tal como todos os outros sistemas de cartografia online, usa várias fontes — públicas — para a informação «inicial». Por exemplo, a maioria dos rios em Portugal vem da Yahoo. A maioria das estradas vem do Bing. Noutros países obteve-se informação de fontes públicas semelhantes. Ao fim de uns anos, o OpenStreetMap estava mais ou menos ao nível do Yahoo, do Bing, ou mesmo dos Mapas Sapo: tinha a informação essencial — linhas costeiras, rios, estradas, e nomes de localidades — para a maioria dos locais do Planeta Terra.

Depois chegou a vez dos voluntários. O OpenStreetMap não tem dezenas de carrinhas a fotografar as ruas. Mas tem quinhentos mil voluntários a passearem por aí com os seus telemóveis com GPS — mesmo nos confins de África! — a recolher dados: nomes de ruas, tipos de edifícios, lojas, etc. Depois chegam a casa e metem essa informação no OSM. Mais do que isso: na realidade, nem toda a gente anda pelas ruas. Muitos fazem apenas a mesma coisa que eu: conheço bem a minha redondeza, e que me custa acrescentar informação sobre tudo o que conheço à minha volta?

No site do OSM existem várias formas de acrescentar informação aos mapas. Pode ser com uma aplicação externa que depois exporte para a base de dados central do OSM. Ou então com uma aplicação em Flash chamada Potlatch que é muito fácil de usar. Sobrepoem-se as imagens de satélite (que vêm do Bing, mas podem-se usar outras…) e toda a cartografar! Ao fim de umas horas, a cache do OSM já contém os novos dados, que são visíveis por todo o mundo. E há mesmo muita informação que se pode colocar — muito mais do que aparece na maioria das aplicações de cartografia digital que são publicamente acessíveis.

O princípio funciona — porque as pessoas conhecem as suas redondezas, e muitas pessoas a colaborarem podem efectivamente «preencher» muitas redondezas! Ademais, quanto mais alguém estiver frustrado com a falta de informação da sua redondeza, mais se sente encorajado em preenchê-la com informação, que é o que me acontece a mim! É por isso que o OSM tem, por exemplo, o mapa mais completo de Bagdade — os iraquianos estavam fartos de serem ignorados pelas empresas de georeferenciação, e por isso mapearam a sua cidade ao pormenor e ao detalhe.

Vamos a alguns exemplos. Eis o que a Microsoft pensa da zona onde vivo:

Ok, tem as ruas e pouco mais. De notar que a Rua do Monte Leite, onde vivo, está interrompida logo a meio do mapa. Mas a imagem de satélite que o Bing tem mostra a rua completa! E há umas ruas no canto inferior, ao centro, que estão por ali sem se perceber o que são. Na realidade não são ruas públicas: fazem parte de um condomínio de luxo que há por aqui, e não são acessíveis ao público. A norte, também ao centro, estão as ruas (sem nome) de um bairro social que outrora foi a zona mais temível do concelho — o Bairro do Fim do Mundo. Fazendo o zoom out, a Microsoft coloca correctamente o nome do bairro, mas não acha que vale a pena cartografar com mais detalhe um bairro social…

A Microsoft não tem mais informação nenhuma para estas paragens. Mas também não estaríamos à espera de melhor de um produto Microsoft 🙂

A Google, no entanto, não é muito melhor:

A ironia é que as imagens de satélite do Google mostram a rua interrompida, mas o mapa está correcto! De notar como as ruas parecem diferentes e às vezes até com menos nomes — embora na realidade, ampliando-se o mapa, há mais ruas com os nomes correctamente identificados. E, claro, começa a aparecer informação de empresas e pontos de interesse no mapa. Uma coisa que há muitos anos que aparece no Google Maps é a «Dolce Vita Guesthouse», que nunca percebi onde ficava, pois nunca a vi na minha rua!! (Já vou esclarecer o mistério mais abaixo).

Infelizmente não tenho nenhum produto Apple que corra iOS 6, pelo que não faço a menor ideia de como isto aparece no Apple Maps. Mas deve ser hilariante!

Contrastem isto com a riqueza de informação produzida pelo OpenStreetMap:

À partida, parece que há menos nomes de ruas, mas isso é apenas uma questão de ampliação — na realidade estão lá todos os nomes. Mas está muito mais. Por exemplo, percebe-se que há ali vários condomínios privados (na minha rua são dois, e há mais um abaixo) — quem conheça a legenda dos sinais topográficos do OpenStreetMap saberá distinguir entre estradas públicas e caminhos de acesso privados. Estão marcados passadeiras de peões, as zonas verdes, e até os percursos pedonais nos jardins! E, tal como nos mapas da Google de «cidades importantes», também aparecem os edifícios todos. Mas está lá muito mais ainda, que não se vê no mapa: os edifícios são classificados conforme sejam residências familiares, blocos de apartamentos, etc. Não se vê neste nível de ampliação, mas os edifícios principais têm também os números das portas. Os ícones podem apenas dizer que são ATMs, mas dizem também que são do Multibanco. Um símbolo de um banco diz que banco é que é. Podem-se ver não apenas as escolas, mas também os edifícios que pertencem à escola, os parques de estacionamento, e até os campos de futebol!

E toda esta informação está disponível para todas as aplicações que usem o OSM.

E resolvi finalmente o mistério do «Dolce Vita Guesthouse»: nunca o tinha visto na minha rua porque está num edifício dentro de um condomínio fechado ao qual não tenho acesso! Obrigado, OpenStreetMap, pelo esclarecimento de algo que me andava a fazer confusão há anos! Imagino a centenas de turistas confusos que andaram às voltas à procura do tal guesthouse sem saber onde ficava… 🙂

Ora mas a esta altura do campeonato vão-me dizer que é batota, porque é óbvio que fui eu quem lá colocou essa informação toda. Claro 🙂 Mas esse é o objectivo deste artigo. Na realidade, esta zona é um pedacinho de um trabalho de cartografia digital feita essencialmente por duas pessoas ao longo de dois dias. Não faço a menor ideia de quem seja a outra pessoa. No início da semana passada, o mapa do OSM estava igual ao do da Google, excepto com mais uma ou outra correcção que tinha feito há uns anos atrás. Mas reparei que havia um voluntário que estava a «encher» o lado leste da freguesia com casinhas, assim como a zona das praias. Então eu comecei a fazer o mesmo do lado oeste e norte, e corrigi alguns pormenores na zona das praias (não se vê nesta imagem). Ao fim de dois dias, praticamente mapeámos toda esta parte da freguesia, onde vivem 18.000 pessoas: S. João do Estoril tem neste momento no OSM mais informação cartográfica do que qualquer outra aplicação do mundo. E isto graças apenas a dois voluntários com insónias em dois dias. Imaginem isto multiplicado por quinhentos mil voluntários.

Ora claro que é fácil de acrescentar informação quando se conhece muito bem o sítio onde se mora, ou onde se trabalha, etc. Eu não conheço muita coisa assim tão bem em Portugal, por isso fui dar um saltinho aos mapas do Funchal, onde vivi mais de meio ano, e sabia que podia contribuir com alguma informação. Para meu espanto, vi que a cidade do Funchal tem já tantos voluntários a mapear aquilo tudo, que até fiquei vesgo com tanta informação!! Na altura em que vivia no Funchal, o Google Maps tinha apenas uma superfície toda branca para a Ilha da Madeira, com uma bolinha a dizer «Funchal». Hoje em dia claro que não é assim, mas a Google tem talvez um centésimo da informação que o OSM tem. Porquê? Porque não há Google Vans no Funchal. Mas há provavelmente algumas centenas de voluntários a cartografar tudo.

Ao ver nos sites das piadas dos mapas do iOS 6 que tantas universidades tinham desaparecido, ou que pelo menos os seus edifícios já não estavam lá, fui ver se a UTAD já estava no OSM. Claro que está. E com o mesmo nível de detalhe que a Google coloca nos seus mapas. Devem haver também alguns voluntários em Vila Real que fizeram o mesmo que os funchalenses fizeram à sua cidade, pois o nível de informação sobre Vila Real em geral é igualmente impressionante.

É evidente que os mapas no OSM são muito assimétricos em termos de informação: só aparece informação detalhada quando há voluntários nessa zona para fazer a cartografia. No entanto, os mapas «comerciais» também não têm o mesmo nível de detalhe — concentram-se primeiro nas zonas mais densamente povoadas, e deixam os subúrbios e as cidades de menor interesse para o fim. A ideia é que serão zonas tão remotas e despovoadas que não passará por lá ninguém.

Claro que eu acho que é justamente nos sítios mais remotos e despovoados que a cartografia faz mais falta, porque é precisamente aí que não se encontra informação em lado nenhum! Então, num impulso, decidi cartografar a Vila de Fonte Arcada, Concelho de Sernancelhe, Distrito de Viseu — pop. 270 (terra onde nasceu o meu pai):

Ok, é pouco provável que os turistas estejam interessados em visitar uma aldeia histórica (mais de dois terços dos edifícios têm mais de um século; alguns tem um milénio!) perdida na Beira Alta, mas se o fizerem, e usarem alguma aplicação que use dados do OSM, vão encontrar a Aldeia Com Mais Informação Cartográfica de Portugal™. Embora a ampliação acima não dê para ver, estão indicados todos os monumentos (e não são poucos), todas as ruas com nomes (nem todas as têm), e todas as casinhas que existem num raio de 10km, com os principais percursos pedonais assinalados, assim como os miradouros — e os dois únicos cafés e as fontes públicas que existem na redondeza quando for preciso beber água.

No Google Maps pelo menos fica-se a saber o traçado das ruas e os nomes das mesmas; os Mapas do Sapo têm até alguma informação adicional (excelente trabalho!) que muito me surpreendeu. Já não é nada mau, mas não conseguem competir com O Poder do Crowdsourcing™ do OpenStreetMap. Heh!

Ora isto tudo para dizer o quê?

Se a Apple tivesse usado uma das várias aplicações para iOS que usam OpenStreetMap em vez do Tom Tom, não teria havido tanta gargalhada geral. O que teria acontecido era que as pessoas reparavam que as coisas estavam todas mal e iam ao site do OpenStreetMap corrigi-las. É certo que iriam colocar imagens dos disparates que por lá encontraram, mas quem visse essas imagens, após se rir um bocado, se as fosse consultar no seu iPhone ou iPad, veria que já estavam corrigidas. É que com milhões de pessoas a actualizar o que está mal, o Apple Maps, em pouco tempo, deixaria de ter os problemas que tem.

Ironicamente, porque a Apple também usa informação do OSM, embora só para as zonas não mapeadas pela Tom Tom, vão ser justamente nas zonas menos povoadas e mais remotas que a informação do Apple Maps vai estar mais correcta e mais completa do que o Google Maps! Isto vai ser divertido de ver. O OSM publica imensa informação estatística sobre a sua utilização, e é giro de reparar que, desde que o iOS 6 foi lançado, que a utilização do OSM disparou. É natural que assim seja. Eu já me tinha esquecido de que o OSM existia, apesar de ter lá um login há anos. Foram justamente as piadas todas em torno do Apple Maps que me motivaram a ir lá acrescentar informação, mesmo sabendo que a Apple usa pouca informação do OSM. Mas usa alguma, e, pelo menos, para as dezenas de aplicações que usam, de facto, informação do OSM, todas estas ficaram mais enriquecidas com mais e melhor cartografia.

Há quem discuta o interesse da existência do OSM. Eu quando era puto era fascinado por mapas. Dizem-me os meus pais que aprendi a ler sozinho olhando para plantas de cidades e mapas porque queria saber os nomes das terras por onde passávamos quando andávamos de carro (já não me lembro nada disso). Na minha adolescência, perdia horas a fazer mapas imaginários para os meus jogos de role-play (na altura em que isso significava papel, lápis, dados, e jogadores humanos à volta de uma mesa). Sempre adorei mapas e cartografia. Obviamente que uma forma de contribuir com informação cartográfica é algo que me estimula. Inclusive parte do meu trabalho académico tem a ver justamente em descobrir formas de automaticamente encontrar percursos, e tudo o que tenha a ver com percursos de alguma forma atrai-me a atenção. Sei que há meio milhão de pessoas como eu, que estão registadas no OSM.

O argumento contra o OSM é que «dilui esforços». É verdade: se esse meio milhão de pessoas estivesse a contribuir para o Google Maps, este seria infinitamente superior. Mas a Google não está interessada nessas contribuições, não quer saber delas para nada (e porque provavelmente receia o vandalismo e o spam). Tal como a Microsoft, o Yahoo, a Tom Tom, etc. Provavelmente nem sequer o pessoal formidável dos Mapas do Sapo quer saber disso. E de certeza que o Instituto Geográfico do Exército, fonte da melhor e mais exacta informação georeferenciada neste país, deve odiar sistemas de crowdsourcing cartográfico, porque a venda de informação georeferenciada é uma fonte de receitas para o Exército Português, que bem precisa delas. E, finalmente, as dezenas de empresas em Portugal que trabalham em GIS também detestam esta ideia de ter centenas de milhares de voluntários a cartografar o mundo todo de borla. Estragam-lhes o negócio. É que uma coisa é ter duas ou três pessoas a fazer isso — naturalmente, cometerão erros, e os profissionais da cartografia farão mais e melhor, de forma consistente. Mas outra coisa é ter milhares de pessoas, a actualizar e a corrigir-se mutuamente. Tal como aconteceu com a Wikipedia, em relativamente pouco tempo — alguns anos — superaram qualquer outra enciclopédia do planeta.

Imaginem agora o que seria ter um funcionário de cada câmara municipal deste país dedicar, por exemplo, duas horas por semana a cartografar partes do seu concelho e a meter no OSM. Nem seria preciso mais do que isso. Ao fim de um ano, a informação cartográfica que existe para o país todo seria incrível — batendo toda e qualquer empresa ou aplicação existente. Mesmo o Exército Português, que tem mapas topográficos com um detalhe assustador (identificam árvores individuais e pedras que rolaram para o meio de caminhos florestais!), poderia beneficiar desse trabalho colaborativo. E duas horas por semana não é nada: é talvez o tempo que um funcionário camarário, em média, perde a ir à casinha e a tomar café 🙂 Mas o benefício será incomensurável, e, mesmo que cometa erros, mais tarde haverá quem os corrija. A Google pode ter centenas de pessoas para cartografar todo o mundo, mas Portugal teria centenas só para cartografar este país — e são pessoas que vivem no sítio que estão a cartografar, e sabem muito bem o que é importante e o que não é. Isso traduz-se na vantagem que a aplicação da Apple, em contraste, não tem: apresentar uma visão do território de acordo com a importância que as pessoas lhe dão.

A Apple jamais irá «apanhar» a Google em termos de informação cartográfica. Os meninos da Google têm cinco anos de vantagem, têm Google Vans, têm o maior e melhor motor de pesquisa do mundo. Em termos de tecnologia e capacidade de recolha e processamento de informação à escala global, a Google é imparável e imbatível. Talvez a Microsoft conseguisse fazer o mesmo, se fosse uma prioridade para eles, mas parece não ser. A Apple não tem um motor de pesquisa (tem o Siri…), e mesmo que contratasse centenas de pessoas e alugasse carrinhas, precisaria dos mesmos cinco anos para chegar ao mesmo nível da Google.

No entanto, aquilo que a tecnologia super-sofisticada da Google faz automaticamente pode ser replicada rapidamente — e com mais precisão — com centenas de milhares de voluntários. Como a própria Google sabe, há certas tarefas que os humanos desempenham muito melhor do que sistemas informáticos. Durante anos que a Google usava voluntários para fazer a classificação de imagens; de forma inteligente, até criaram um jogo em torno disso, para motivar as pessoas a classificar imagens. Isso criou-lhes uma base poderosíssima para terem imagens pesquisáveis de forma útil para os humanos (por isso é que o motor de pesquisa deles é tão bom a classificar imagens! Foram humanos que as classificaram!). Se a Google não o faz, a Apple nunca apoiará um modelo baseado em crowdsourcing para melhorar a qualidade do Apple Maps: não faz parte da sua cultura empresarial. O que isto significa é que, durante pelo menos uns cinco anos, vão continuar a ser o alvo da chacota universal dos utilizadores dos seus caríssimos produtos tecnológicos, que podem ser muito bons em imensos aspectos, mas que têm agora uma aplicação de cartografia digital pouco útil — ou mesmo totalmente inútil em muitas áreas do mundo.

No entanto, se forem espertos (não costuma ser o caso, na Apple…), poderão usar mais e mais o OpenStreetMap, e menos e menos o Tom Tom, e, «como por magia», a aplicação deles parecer-se-á mais e mais com o Google Maps, até finalmente o ultrapassar. Isto, claro, é fazer batota, e da grande. Mas as empresas espertas usam o que for de borla da melhor forma possível, se o objectivo for bater a concorrência. A Apple não consegue bater a concorrência excepto se usar informação crowdsourced — pelo menos a curto prazo.

Nos tempos do Steve Jobs, a Apple fazia este tipo de coisas com mais frequência. Toda a gente sabe que a Apple não desenvolveu o Mac OS X de raíz: foi buscar uma versão do FreeBSD e adaptou-a. Toda a gente sabe que não fez um browser de raíz: absorveu o projecto WebKit (que ironicamente a Google também usa) e deu-lhe apenas um nome novo. Eles fazem isso constantemente: encontram um produto open source estável e desenvolvido, e re-utilizam-no sob um novo nome, «vendendo-o» como se tivessem sido eles a inventar (a comunidade nem se importa, porque depois a Apple também contribui com algum desenvolvimento que fica depois disponível para todos de forma gratuita. É verdade!).

Nesta altura do campeonato, se fosse eu, tomava uma atitude de humildade (coisa que a Apple nunca faz!) e pedia desculpa aos milhões de utilizadores de iOS 6 que têm mapas inúteis. Lançava um patch ao iOS 6 com a mesma aplicação, mas a «puxar» dados do OpenStreetMap. E anunciava aos fãs todos da Apple em todo o mundo que, se quisessem melhorar os resultados dos mapas, podiam fazê-lo imediatamente, sem esperar pela Apple: bastava irem ao site do OpenStreetMap e corrigir o que está errado. Mas a Apple não é humilde e nunca pede desculpa pelos erros que comete. Por isso vai sofrer a gargalhada geral da humanidade (principalmente do campo Android!) durante muitos e muitos anos!

Dirão os anti-Appleianos: é muito bem feito! Estão a ser castigados pelo pecado do orgulho! 🙂

Entretanto, a única coisa que posso dizer é: não gostam dos mapas da vossa aplicação de mapeamento favorita? Fixe. Deitem-na fora. Usem uma aplicação que use os dados do OpenStreetMap e corrijam o que não gostam.

Será que o pessoal do Sapo está a ouvir? 🙂

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7 pensamentos sobre “MAPAlhaçada

    • Força nisso, vizinho! 🙂 Se realmente requeresse uma enorme aptidão intelectual e grande capacidade gráfica e imenso tempo de trabalho, então nem sequer eu (que não tenho nenhuma dessas capacidades) estaria disposto a «perder algum tempo» a pintar casinhas. Mas realmente a ferramenta que usei (Potlatch 2, embebida no browser via Flash) é estupidamente fácil de usar e desenhada para atrasados mentais como eu. Só tive de consultar uma página do manual para perceber como é que se fazia uma coisa menos óbvia 🙂

  1. Ironia das ironias: pouco tempo depois de ter acabado este artigo, a minha amiga Sacha, jornalista da RTP, apontou-me para uma notícia onde a Apple pediu mesmo formalmente desculpa pelos problemas causados pela aplicação de mapas deles e até sugere aos utilizadores que instalem outra aplicação! Coisa nunca antes vista!

    E ao voltar a «rever» as imagens que publiquei no artigo reparei que… elas mudaram no OSM! Foram corrigidos nomes de ruas, acrescentados mais sentidos únicos, etc. Ou seja, se forem confirmar por vocês próprios estas localizações no OSM, quanto mais tempo passar desde a data em que este artigo foi escrito, maior é a probabilidade do aspecto do mapa ser completamente diferente! Mas é isso a vantagem dos sistemas de crowdsourcing com centenas de milhares de utilizadores

  2. Caro Luís Sequeira,
    Antes de mais, adoro o seu blog! 🙂
    Embora acompanhe as suas divagações à cerca de 10 anos, esta é a primeira vez que ‘ganho coragem’ para deixar um comentário. (Finalmente alguém reparou que o Apple Maps está ‘virado ao contrário’). 🙂

    Sou utilizador de Macintosh à já algum tempo, tendo deixado ficar para trás vários anos a tentar ‘suportar’ o sistema operativo Windows. Pertencendo à área artística, e usando o computador com frequência cada vez que necessito de realizar alguma tarefa gráfica, fiquei farto da lentidão e frequência com que o Windows ‘bloqueia’. Reiniciei muitas vezes o computador por desespero, mesmo sabendo que ao fazê-lo estava a condenar todo o trabalho que estava por guardar…

    ‘Ainda sou do tempo’ em que a Apple era conhecida apenas pelos Macintosh e respectivos periféricos. Com a chegada dos iPad e iPhone, sinto que a Apple começou (de uma forma perfeitamente comercial) a depositar menos atenção no sistema operativo.

    Gostava de partilhar consigo (e restantes leitores) uma pequena experiência pela qual passei recentemente e que penso que serve de exemplo de como a Apple se esquece de respeitar os clientes com frequência:

    Cada vez que uma nova versão do sistema operativo é editado, espero algumas semanas (ou até mesmo meses) antes de fazer a actualização: afinal, é perfeitamente natural que tenha alguns bugs; prefiro esperar até estarem disponíveis actualizações que corrijam essas falhas.

    A versão do sistema operativo que estou a utilizar (10.7) foi editada em Agosto de 2011. Ora, como deve imaginar, andei ansioso por actualizar o meu Mac! Chega ao Natal desse mesmo ano e decido oferecer-me de prenda a nova versão do sistema (disponível na altura como download – mais barato – ou através de uma drive usb – mais cara e que optei por comprar, pois na época as ligações de internet na minha área de residência não estavam muito bem e por vezes, os downloads eram interrompidos).

    Após o período de férias natalícias, decidi formatar o computador e instalar a nova versão. Na época, já estavam disponíveis três actualizações, que, como deve imaginar instalei imediatamente! O computador estava uma bomba (no bom sentido). Como em qualquer versão do sistema operativo, escusado será dizer que algumas aplicações foram descontinuadas. Como me faziam falta, criei uma partição no disco rígido e toca a instalar por lá a versão 10.6 do sistema operativo! Até aqui tudo bem. Quando precisava de alguma coisa muito específica, toca a ligar o computador na partição com o 10.6; quando queria todo o resto, toda a ligar a partição com a versão 10.7.

    E é aqui que a minha história começa:

    Cerca de um mês, após comprar o novo sistema operativo, estou a pesquisar a página oficial da Apple e dou-me conta que, discretamente (ao estilo do pedido de desculpas pelo fracasso inicial do Apple Maps) somos avisados que em ‘breve’ vai estar disponível uma nova versão do sistema operativo (10.8). A minha primeira reacção foi surpresa… a segunda foi de espumar pela boca!!! Gastei cerca de 50 euros numa drive com o sistema operativo e um mês mais tarde sou informado que vai haver outra versão?! E, a Apple ainda por cima, não a fornece gratuitamente a quem comprou a versão 10.7?!!!

    [No caso de não saber, a nova versão do sistema operativo, denominada ‘Mountain Lion’ é classificada como um upgrade da versão 10.7 ‘Lion’, logo, não é classificada como um novo sistema operativo!!!!!]

    Escusado será dizer que ainda não a adquiri: primeiro porque ainda possui alguns bugs e segundo porque metade daquilo que a Apple promoveu ainda não funciona (só lá mais para o final do ano é que vão surgir novidades através das actualizações…). Enfim…

    A minha pergunta é: não era melhor esperar um pouco mais e, agradar os utilizadores – conheço quem gaste fortunas por ano com a Apple – em vez de simplesmente pôr os produtos nas prateleiras (agora digitais)?

    No que diz respeito ao iPhone: admito que nunca fui um grande fã de telemóveis! Sou o tipo de pessoa que compreende o porquê da sua existência! Mas se der para fazer telefonemas e enviar mensagens… basta! É mais que suficiente! Acho que esta situação é mais um exemplo de como o pessoal da Apple não é infalível… apenas acham que são! 🙂 E de como os iPhone não são assim tão extraordinários (no dia em que eles cozinharem, falamos melhor…). 😀

    [Admito que continuarei a ser utilizador de Macintosh! Não por achar a Apple é o verdadeiro Vaticano, mas, por achar que estou no caminho certo! Só não faço questão de parar em todas as barracas para comprar todos os seus produtos!]

    Obrigado por ter disponibilizado algum do seu tempo a ler o meu comentário!
    Votos de sucesso para si e o seu blog.

    José

  3. Eu também conhecia há algum tempo o OpenStreetMap, mas nunca lhe liguei nenhuma… Hoje vim parar aqui, já não sei bem porquê… e lá fui eu dar uma olhada…
    Vim morar para Maputo, Moçambique recentemente, e rapidamente descobri que havia muitas coisas atrasadas em relação a Portugal (e Europa no geral).
    As que mais me fazem confusão, é mesmo a internet (velocidades de acesso, limite de downloads e preços) e os mapas digitais/ GPS. Estava bastanta habituado em usar o meu Android para navegar alegremente por Portugal, e de repente perdi isso! Tenho mapas sim, mas não tenho turn-by-turn… e a maioria das ruas já nem têm o nome actual bem catalogado.

    Hoje editei o nome da minha rua no OSM, e meti alguma info básica. Quero aos poucos ir adicionando o que puder, para, em vez de me queixar da má qualidade dos mapas… contribuir para aumenta-la!
    Também, como tenho feito com o Linux (sou sysadmin Linux/OSS), já comecei a “espalhar a palavra” pelos meus colegas e amigos…
    Pode ser que um dia Moçambique tenha mapas digitais de que se possa orgulhar!!! 🙂

    Cumprimentos e obrigado pelos teus artigos!

    • O problema do OpenStreetMap é que é… muito viciante!!! 🙂

      Devo confessar que nos «tempos livres» — coisa rara, mas que de vez em quando acontece — tinha uma tendência para os «desperdiçar» a seguir pessoal no Facebook. Mas desde que a crise começou que só há divagações sobre a crise, e a certa altura, isso cansa. Em vez disso, perco uns minutos a actualizar o OSM das zonas que conheço bem das redondezas. Como não podemos «copiar» mapas, tenho de fazer tudo de memória; logo, tenho treinado a mais a memória, prestando atenção às coisas. Às vezes tomo notas. Se estou num café à espera de alguém, posso sempre usar o ILOE para acrescentar o nome do café no OSM. Ou confirmar que os nomes das ruas estão bem. Depois em casa posso sempre corrigir e melhorar o que fiz.

      Volta e meia, dou uma espreitadela aos mapas da Google e do Bing só para ver a diferença. Neste momento é perfeitamente avassaladora: mais ou menos a mesma diferença que notaste ao ir de Lisboa para Maputo! Mesmo nas grandes cidades, agora espanta-me a pouca informação que na realidade os gigantes da cartografia digital têm. Sim, é verdade que têm aí 95% ou mais ruas, quase todas com os nomes correctos (mas em discussões com outros fãs do OSM percebi que muitas vezes os erros nos nomes das ruas são propositados, para poderem processar facilmente quem os andou a «copiar»…), mas se não fossem os motores de pesquisa a ir buscar informação adicional à Web, seriam mapas extremamente pobres…

      Agora o que faço, nos sites que administro, é mandar o Google Maps ao lixo nas páginas de contactos e usar em vez disso OSM. Se o cliente/amigo estiver numa zona qualquer pouco mapeada, basta ir acrescentando coisas até o OSM estar repleto de informação que não existe em mais lado nenhum — o cliente/amigo fica contente porque tem um mapa maravilhoso que não se pode encontrar noutro sítio, e ainda por cima tem a certeza de que não apanha com um processo da Google ou da Microsoft ou do Sapo 🙂

      Neste momento, há zonas aqui do concelho que têm mais informação cartográfica no OSM do que o centro de Nova Iorque no Google. É verdade. E isto apenas acrescentando uns minutos de cada vez, tipo quando estou à espera uns minutos para jantar, e se começo algo «sério» a minha mulher passa o tempo todo a berrar comigo 🙂 Assim, o que fizer não me pode ocupar tempo. No OSM, pelo menos usando-se o Potlatch 2, não há problema qualquer em deixar coisas «a meio» — posso sempre continuar mais tarde, ou noutro dia qualquer.

      Agora o que falta por aqui é umas sessões de cartografia intensas 🙂 Por exemplo, ter uma turma de geografia a bater o terreno à volta da escola, para aprender como se faz: olha-se para tudo, tomam-se notas, tiram-se fotografias, e depois é um divertimento imenso meter a informação toda no OSM e corrigir os colegas. Ainda por cima consta que hoje em dia as criancinhas andam todas com iPads e portáteis e Magalhães. Fixe! Descarregam a zona que vão mapear, vão para a rua, acrescentam tudo o que viram, e depois quando tiverem ‘net, fazem o upload dos dados. Com algumas iniciativas assim, e com a batelada de escolas neste país, mesmo em locais remotos, isto criavam-se mapas num instantinho, que deixariam o Instituto Geográfico do Exército a espumar de raiva.

      Mas depois podia-se fazer o mesmo com o pessoal que anda nas câmaras municipais. Ou com a polícia, que anda por todas as ruas. Pôr todo o pessoal a acrescentar informação à escala nacional. Mesmo que fosse pouco de cada vez… depois pode-se sempre melhorar. Nesta altura do campeonato, este tipo de informação é recolhida em aplicações GIS caríssimas que a maioria das organizações não tem capacidade para comprar. O Ministério da Agricultura precisa de cartografar as vinhas para controlar as zonas demarcadas? No problem. Metam-se nos jipes, tirem medidas aproximadas, depois podem ir ao Potlatch 2 e confirmar com as fotografias aéreas do Bing. Tudo de borla. E depois vão aperfeiçoando, acrescentando mais detalhes…

      O que é mesmo assustador é voltar a uma zona ao fim de umas semanas… e reparar que entretanto já houve quem acrescentasse toneladas de informação. Os mapas do OSM aqui neste artigo agora parecem quase tão más como olhar para os mapas do Google — e eu já achava que na altura estavam óptimas! Entretanto foram melhoradas e já nem sei quais é que foram as coisas que lá coloquei, e quais foram colocadas por outras pessoas.

      Outro dia precisei de confirmar um local em Cascais, e reparei que Cascais no OSM está tão mal mapeado como no Google. Resolvi acrescentar uns nomes de ruas aqui e ali. Depois voltei ao mapa uma semana mais tarde. Alguém já tinha acrescentado centenas de coisas novas! É isso que de facto é giro!

      É tão absorvente como um jogo de computador. Ainda por cima até tem rankings: uma lista das pessoas que mais cartografam. Pode-se criticar o modelo, dizendo que muitas das informações estão erradas ou incompletas. Não importa! É sempre melhor isso do que não ter «nada». E pode-se depois sempre corrigir mais tarde. Diverti-me outro dia a tentar acertar umas rotundas com as ruas respectivas, que estavam lá, mas estavam mal. É um desafio perceber como é que as coisas devem «encaixar». E, graças às imagens aéreas, até já coloquei uma estrada que está em construção, mas que ainda não foi aberta ao público (mas será dentro de dias). Quem usar um software de navegação baseado em OSM, poderá, no dia da inauguração, imediatamente usar essa estrada. Quem use um software comercial vai ter de esperar dias, semanas, meses, ou mesmo anos…

      É giro. Faz-me realmente lembrar os tempos em que a Wikipedia não tinha nada 🙂 e que era divertido acrescentar artigos (hoje em dia, a Wikipedia é tão rigorosa e tão controlada pelos wiktators que não tem piada nenhuma contribuir). Além disso, há aquela sensação de estar a combater com os gigantes do GIS e da cartografia digital e estar a fazer um melhor trabalho que eles, apesar da sua tecnologia, recursos humanos ilimitados e recursos financeiros ilimitados. Vão ser precisos muitos anos para mapear o planeta todo no OSM de forma a que faça diferença. Mas acredito que daqui por uns anos as pessoas passem a ter duas aplicações nos seus telemóveis, uma comercial, e uma baseada em OSM quando a solução comercial não encontrar nada de jeito…

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