De esquerda ou de direita? Liberal ou conservador?
O texto acima tem alguns cortes deliberados (mas não foi nada re-escrito!) para impedir que o exercício seja fácil demais, identificando logo o partido que o propõe! Pode ser entendido como o «sumo» do programa político: aquilo que, numa entrevista ou num debate, os proponentes iriam provavelmente responder. Sabendo igualmente que as pessoas são desleixadas e não lêem tudo (provavelmente é o seu caso, mesmo na versão «resumida» apresentada!), isto seriam talvez os pontos essenciais que um espectador absorveria de um extenso programa de governo.
Sendo assim, qual é a ideologia do partido? É de esquerda ou de direita? É liberal ou conservador? Sabendo que hoje em dia não há «partidos puros», e que a ideologia está fora de moda, é normal que a confusão se instaure. Por exemplo a protecção do meio-ambiente começou por ser uma preocupação da esquerda, mas hoje em dia não há partido que não o defenda. O incentivo às PMEs e da indústria tendencialmente é uma preocupação da direita liberal, mas até o Jerónimo de Sousa está constantemente preocupado com as PMEs e com a iniciativa privada, apesar de pertencer a um partido de ideologia marxista. Não é, pois, fácil «isolar» um partido pela sua ideologia tradicional.
Talvez algumas dicas para ajudar na identificação:
- Partidos liberais apostam mais na iniciativa privada, na segurança social privada, no investimento no sector privado, na redução do tamanho do Estado, mas também na redução do papel do Estado na economia: tudo deve estar nas mãos dos privados, cabendo ao Estado o papel de «árbitro» e não de «agente económico»
- Partidos conservadores apostam na tradição, na família, na moralidade, no civismo, nos valores, na defesa do património…
- … mas os partidos de esquerda também apostam na cultura, na educação, e, logo, no património; pretendem maior justiça laboral, maior defesa dos sindicatos, melhor segurança social. Gostam de desporto, de actividades extra-laborais, da educação, da tecnologia, e, claro, do ambiente. Em geral, defendem um Estado mais interventivo, uma economia com mais regras e menos abuso, uma participação cívica mais forte
- Partidos de direita querem um Estado pequeno, pouco interventivo mas mais digno, que assegure identidade e unidade nacional, o que normalmente também passa por educação cívica, mais escolaridade básica mas menos escolaridade superior, mais investimento na segurança e menos na inovação e tecnologia, mais na agricultura do que na indústria — mas também melhor segurança social, especialmente nos mais idosos. Querem maior segurança e justiça menos tolerante.
Isto são apenas algumas regras gerais, como é evidente. Mas tendo estas ideias gerais na cabeça, como podemos classificar o partido acima?
Depois poderemos fazer as seguintes perguntas:
- Eu votaria neste partido? Defende as mesmas ideias que eu? Tem soluções com as quais concordo? Sabe o que é melhor para Portugal e para os portugueses?
- Se a resposta for «não», a pergunta então é: porquê? Quais são as medidas que propõe com as quais discordo plenamente?
- Agora vamos mudar um pouco o cenário. Vamos pensar na vizinha idosa de 80 anos que vive com €248 de pensão de miséria. Ela votaria neste partido? E o jovem universitário do andar de baixo? E os meus pais que têm uma vivenda no Algarve e um BMW à porta? Os funcionários de uma fábrica em Oliveira de Azeméis? Os donos de hotéis no Algarve? Os moradores de um bairro social? Ou seja, já não é pensar apenas em nós: é pensar o que é que a maioria das pessoas que conhecemos, que são uma amostra do que pensam os portugueses, pensariam das propostas deste partido, se as conhecessem?
- Finalmente, imaginemos um debate na TV em que vão estar representados os principais partidos que concorrem às eleições. Quais desses partidos iriam defender exactamente a mesma posição? Quais estariam radicalmente contra? Ou, para tornar o exercício mais divertido, imaginemos que pegamos nalguns dos pontos acima, sem dizer a que partido pertencem, e interrogamos os representantes de cada um dos partidos e lhes perguntamos se se identificam com as medidas propostas. Será que concordariam com elas? Se discordarem, em que pontos discordam, e porquê?
No fundo o exercício final é para pensar um bocadinho se os nossos políticos sabem sequer o que é o que os seus próprios partidos defendem! Imaginem, por um momento, que o programa de governo acima era do PCP e que perguntávamos ao Paulo Portas se concordava com essas medidas. Será que ele não concordava com todas, ou com a maioria delas? Se isto fosse o programa de governo do PS, será que o representante do PSD não concordaria também com as medidas propostas? No limite, haveria algum político que discordasse de todas as medidas? Há algum que concorde com todas?
Confuso? Óptimo, era esse o meu objectivo! Vamos à página seguinte…