Regresso ao passado

Cifrão

Como sabem, não tenho muita pachorra para ideologias, mas isso não quer dizer que não ouça o que as pessoas com outras ideologias políticas digam. Lembro-me de que há anos que os meus amigos comunistas (sim, tenho amigos de todos os espectros políticos, desde anarquistas, libertários de esquerda e direita, comunistas, socialistas, sociais-democratas, algures qualquer coisa pelo centro, democratas-cristãos, e nacionalistas. Dou-me bem com todos 🙂 ) insistiam que Marx tinha razão e que o capitalismo desregulado precisava de expandir constantemente os mercados para sobreviver, senão colapsava por si só.

Isto era difícil de engolir no período entre 1980-2000, onde claramente o que estava a funcionar era justamente a desregulação a todos os níveis. Quanto mais o Estado tirava as patas da economia, mais esta crescia, e melhor viviam as pessoas. Em países cronicamente pobres como Portugal, nascia uma nova geração de «novos-ricos», self-made men (e women) que, do nada, geravam riqueza com facilidade — porque o mercado estava ávido de consumir mais e mais, e qualquer ideia parecia «pegar» porque havia tanto dinheiro em circulação e tanta vontade em gastá-lo. Parecia haver bons argumentos, pois, que Marx andava iludido e que os seus defensores estavam alienados da realidade.

Uns trinta anos mais tarde, estamos numa «crise financeira» que não se percebe porque é que não acaba. Mas a verdade é que também não é conveniente que se saiba como começou. O «período áureo» dos anos 90 terminou, não se sabe lá muito bem porquê, mas na realidade a história começa umas décadas antes.

Todos os «problemas» começaram por volta de 1970 — o final de um «boom» iniciado no pós-guerra, que criou montes de gente subitamente cheia de dinheiro e ávida de consumir, e que criou a ilusão em toda a sociedade (bancos incluídos) que isto podia durar para sempre, à medida em que todos os anos os salários aumentavam… Mas durante este período a produção industrial ainda aumentava mais, mantendo os produtos baratos, e encorajando o consumo desenfreado; mesmo em países retrógrados como Portugal, praticamente só se pode falar de uma «revolução industrial» neste período (portanto, mais de um século atrasado em relação ao resto do mundo ocidental). As boas notícias é que as pessoas tinham cada vez mais dinheiro disponível, pelo que cada vez podiam consumir mais sem preocupações — incluindo casas e automóveis, proibitivamente caros antes da 2ª Guerra Mundial, mas acessíveis agora graças aos salários altos e a hipotecas e empréstimos acessíveis a quem tinha um «emprego para a vida».

A economia crescia exponencialmente, e muito desse dinheiro passou pelos bancos, que  começaram a ter lucros astronómicos — já não apenas dos seus «grandes clientes», mas da vasta massa de cidadãos da dita «classe média» que passaram a ser seus clientes também. Podiam ter menos dinheiro que os multibilionários, mas eram muitos. E tudo isso era somado aos cofres dos bancos. Agora já não se precisavam de limitar a ser bancos de poupança — podiam começar a oferecer produtos bancários a milhões de pessoas em vez de a apenas uns milhares.

A partir dos anos 1970, a crise do petróleo (que forçou uma crise económica), deu-se uma mudança significativa nos hábitos de consumo — o que criou um problema aos bancos. Os salários deixaram de crescer como dantes. As pessoas passaram a poupar mais e a gastar menos. Os bancos, em consequência, ficaram privados do seu rendimento astronómico proveniente da classe média. Mais ainda, a economia atingia o ponto de saturação: deixou de ser possível aumentar «artificialmente» ainda mais os salários para continuar a incentivar o consumo como dantes; mas também não era possível diminuir ainda mais os custos de produção: o factor «salário» (já altíssimo) impedia a elasticidade.

Então os bancos inventaram um sistema fenomenal: o crédito barato e universalmente acessível, sem garantias. Isto permitiria que essa classe média, tão ávida de consumir, deixasse de se preocupar se tinha um «rendimento disponível» ou não. Podia consumir  e pagar mais tarde, em suaves prestações.

Isto não teve um impacto imediato: foi quase preciso passar uma geração até as pessoas se convencerem de que em vez de consumir menos e poupar mais — porque os salários não iriam continuar a crescer exponencialmente — podiam, em vez disso, aceder ao crédito barato, e continuar a consumir como dantes, sem na realidade terem dinheiro para isso. Mas nos anos 1990 a mentalidade finalmente (da perspectiva dos bancos!) mudou: a população, ávida de voltar a um ritmo exponencialmente crescente de consumo, virou-se para este «novo» mecanismo bancário e aderiu massivamente ao mesmo: a possibilidade de, sem ser rico, adquirir o que muito bem se entendesse sem ter uma sólida base financeira para sustentar esse consumo. Os bancos ficavam com todo o risco.

Mas era um risco «aceitável». Mais consumo significava aumento da economia; mais empresas a abrir para fornecerem aos «novos consumidores» cada vez mais e melhores produtos. Para cortar nos custos de produção, inventou-se a deslocalização e depois a globalização: os preços de certos bens industriais ainda desceram mais, as pessoas ainda consumiram mais, a economia ainda cresceu mais… e a base disso tudo era o crédito universal. Se os bancos em 1950-1970 já tinham facturado balúrdios (indirectamente), a partir de 1990 é que foi a festa: pois sem o crédito universal sem garantias, fornecido pelos bancos, não existia economia. E o risco continuava a ser relativamente baixo: enquanto a economia fervilhasse de actividade, haveria emprego para (praticamente) todos, e isso significava que os empréstimos podiam continuar a ser pagos aos juros que os bancos muito bem entendessem — basta ver quanto é que se paga por um cartão de crédito ou por crédito pessoal ao consumo para ver as margens loucas que os bancos tinham na altura.

Se os marxistas tinham levantado o cartão amarelo por volta de 1970, não tiveram outra hipótese senão engoli-lo nos anos 1990. O segredo para a continuação do crescimento da economia era simples: garantir que houvesse dinheiro acessível a uma grande parte da população (ou seja, a classe média e mesmo a baixa), pois esta iria colocá-lo em circulação, e, ao fazê-lo, distribuir riqueza por todo o lado. Donde veio esse dinheiro todo? Foi criado — como já era há quase um século — virtualmente pela banca, através do mecanismo de empréstimos. É simples de perceber isto: se o banco empresta €100 e recebe €110 com os juros, «criou» €10 virtualmente do nada. Mas esse dinheiro «existe», e com esses €10 os bancos podem emprestar mais dinheiro — dinheiro esse que não precisaram de ir buscar a lado nenhum, foi virtualmente criado por eles — a mais gente, obter mais dinheiro virtual, e assim por diante. Isto não é mau. É como o sistema funciona. Duma perspectiva do Estado, é excelente: o Estado não precisa de inundar o mercado com impressão de moeda (causando inflação) para manter a economia cheia de dinheiro, pois os bancos fazem essa tarefa sozinhos. E quanto mais gente «entrar no esquema» — quanto mais gente pedir empréstimos e pagar juros — mais dinheiro virtual entra em circulação na economia, sem interferência do Estado, e mais riqueza circula entre a população.

Este é o esquema quase «perfeito». É melhor que o dos anos 1950, em que o aumento de dinheiro em circulação veio do facto das empresas, graças ao aumento do consumo, poderem produzir mais, ter mais lucros, e aumentar salários — criando assim um maior rendimento disponível nos seus trabalhadores, que por sua vez consomem mais, e assim por diante. O crédito fácil cria a mesma espiral de crescimento, mas vai mais longe: cria mais dinheiro virtual. Mais e mais e mais e mais. Mas por mais que lhe chamemos «virtual», este dinheiro existe verdadeiramente, nas transacções entre bancos — estes cada vez têm mais dinheiro disponível (que não precisaram de «ir buscar» a lado nenhum), e, claro, podem emprestá-lo a cada vez mais gente (e até a juros mais baixos! Desde que haja muita gente a «entrar no esquema», até se pode baixar os juros — criando mais apetência nos consumidores pelo crédito fácil e barato — criando ainda mais dinheiro virtual que pode ser novamente emprestado — e assim por diante).

Já ouvi economistas citarem que o valor da «economia totalmente virtual» era de 70% da economia global. Mas num programa da TV ouvi citar que esta economia virtual era dezassete vezes maior que a «real»! Não faço a menor ideia de qual dos valores está correcto. No entanto, é irrelevante: o ponto em questão é que o «esquema» para aumentar a economia e manter elevados níveis de crescimento passou pela criação de dinheiro virtual através de empréstimos universalmente acessíveis, o que lançou imenso dinheiro para a economia onde antes este não existia, e esse dinheiro, em circulação, fez tudo crescer — salários, empresas, bancos.

O problema destas economias totalmente virtuais é que dependem imenso do factor «confiança». E esse só está parcialmente nas mãos dos bancos e/ou governos. Infelizmente cada vez mais está nas mãos dos media, que, nas sociedades democráticas, escapam ao controlo de toda a gente — e ainda bem que é assim, mas, claro, também permitem o abuso. A sistemática criação um clima de terror em torno da economia — «ZOMG! O mundo vai acabar!» — por parte dos media acabou com esta confiança toda, e começou por gerar a desconfiança de que toda a gente — bancos, governos, indústria — andaram a brincar connosco durante os últimos 40 anos.

Ora é claro que não se pode colocar a culpa toda nos media. Afinal de contas, a maior parte dos media têm accionistas que querem ver bons resultados. Bons resultados significa vender muitos anúncios. Para isso é preciso ter um bom share de mercado. E para o conseguir, precisa-se de notícias que as pessoas leiam. No final do século XX, as únicas notícias que vendem bem são as que criam climas de terror e de desgraça. «Boas notícias» deixaram de ser «vendáveis» (especialmente porque nos anos 1990, só haviam boas notícias; as más eram «novidade», e, como tal, vendiam melhor), e os media tiveram de se adaptar à mudança de mentalidade. Gerou-se, pois, um sentimento de ter prazer e deleite em tudo o que é catastroficamente mau, pois os media viam que isso vendia muito bem. E assim continua. Não haverá fim para a crise actual enquanto os media não mudarem de atitude — ou não tiverem outra coisa para falar senão da crise — mas isso não é provável que aconteça tão cedo: a «crise financeira», tal como o «terrorismo» em 2001-2003, é o tópico que mais vende anúncios nos media, e, como toda a gente, os media têm de sobreviver.

Mas quando acaba a confiança na economia, acaba-se com a economia, quando esta é sustentada essencialmente nessa mesma confiança. O resto são «pormenores» — como a estupidez congénita de depender os «factores de confiança» de entidades que fazem ratings de acordo com a estratégia que mais dinheiro dê aos seus próprios accionistas. Esta cena das agências de rating faz-nos imensa confusão a nós, europeus, porque temos uma tradição em que quem faz análises costumam ser entidades independentes do mercado. Mas nos Estados Unidos há ratings para tudo — até para a ciência! — e todas estas entidades são quase sempre privadas e têm as suas próprias agendas. O colapso do sistema de apostas nos lutadores de sumo japoneses vem justamente do facto de se ter trazido a público a corrupção envolvida entre as agências de ratings de «estábulos» de lutadores (sim, chamam-se mesmo estábulos… e não «equipas» ou «escolas»), que manipulavam artificialmente os valores e pagavam aos lutadores para perder, podendo assim garantir que as apostas funcionavam de forma mais lucrativa para os apostadores.

No mercado financeiro é a mesma coisa. É tecnicamente «proibido» manipular o mercado, mas quanto mais liberal é uma economia, mais essa «manipulação proibida» se aplica exclusivamente ao Estado — os particulares podem manipulá-lo à vontade (ou quase). É verdade que o inside trading nas bolsas de valores é quase universalmente um crime. Mas há muitas formas de dar a volta. Basta pensar que a maioria dos investidores vão ler «recomendações» para saber o que comprar e o que vender. Quando estas recomendações são fornecidas por empresas privadas que ganham dinheiro a vender «boas» recomendações (para manter os clientes satisfeitos!), é óbvio que é no seu interesse «garantir» que as recomendações tenham realmente efeito. E a melhor forma de o fazer é ter os seus próprios fundos de investimento (seja em que modelo for… pode ser meramente um «acordo» com a entidade que tenha o fundo, ou ser realmente proprietário — indirecto ou não — da entidade que emite o fundo). Todas estas coisas colaboram para artificialmente «mexer» no mercado supostamente livre, de forma a maximizar os lucros de todos os que estão envolvidos.

Quando as coisas «correm bem», esta estratégia pode não ser muito má. Afinal de contas, todos querem ganhar dinheiro. Se a estratégia for de artificialmente manipular o mercado para que todos ganhem dinheiro, então óptimo.

O problema dos últimos vinte anos é que esta «manipulação» se fez essencialmente em torno de coisas absolutamente virtuais, baseada na confiança. Bancos emprestam dinheiro sem garantias, criando assim dinheiro virtual onde este não existia. A aplicação deste dinheiro virtual é feita em fundos virtuais, com produtos virtuais, especulando sobre coisas que virtualmente não existem — tal como futuros sobre a produção de arroz no Bangladesh em 2013, por exemplo. É tudo um jogo de apostas. Mas quando os apostadores suspeitam que não se vai ganhar muito dinheiro, manipula-se o mercado. Se o Bangladesh teve uma produção espectacular de arroz, os preços vão baixar, e com isto a «aposta» de que os preços iam subir irá provocar prejuízos em todos os que tinham «apostado». Então o melhor é ir ao Bangladesh e deitar arroz fora, criando artificialmente uma escassez de produto, forçando os preços a subir. Os coitados dos habitantes morrem um pouco mais de fome, apesar de terem colheitas maravilhosas, mas «já estão habituados a morrer de fome», por isso um ano de fome a mais é irrelevante para os «apostadores». Mais vale isso do que ter milhões a perderem directamente dinheiro com a «aposta», e que centenas de milhões — que usam fundos estruturados baseados em futuros — percam também dinheiro indirectamente. Se toda a gente perder dinheiro, então os bancos não recuperam os preciosos juros dos empréstimos (as pessoas deixam de pagar!), e, sem esses juros, não há criação de dinheiro virtual. Sem esse dinheiro virtual a aparecer magicamente nas contas dos bancos, bom, a economia fica com menos dinheiro em circulação — e retrai-se, prejudicando tudo e todos, mesmo aqueles que não têm dinheiro ou investimentos bancários.

Ou seja, mais vale que uns milhões passem fome no Bangladesh do que centenas de milhões (ou mesmo milhares de milhões!) sejam prejudicados indirectamente pela contracção económica. Neste cenário perverso, qual é a solução? Manipular o mercado artificialmente. Queimar arroz — ou petróleo! — para aumentar os preços. Inventar ratings desconectados com a realidade para artificialmente dar a ideia que as coisas estão a correr bem. Manipular os media para que não falem sobre o assunto.

O problema é que tudo isto está interligado de tal forma que é difícil de controlar. Para mim o que aconteceu foi que mesmo o sistema de crédito fácil atingiu um limite. Nos Estados Unidos começou muito mais cedo e por isso atingiu esse limite mais depressa: afinal de contas, a população é um número finito. Quando se chega a um ponto que, por mais que se tente, as pessoas já não conseguem consumir mais — porque atingiram todos os limites de o fazer — por mais apetência que lhes seja artificialmente criada para consumir e por mais acesso ao crédito fácil que se lhes dê, o sistema atinge um bloqueio.

A coisa é ainda mais complicada. Se um banco tem X hipotecas, e sabe que vai receber Y de juros para o ano que vem, pode anunciar que, para o ano seguinte, vai entrar mais Y dinheiro em circulação. Então vende apostas sobre a sua capacidade de gerar Y dinheiro virtual no ano seguinte — futuros, CFDs, FOREXes, e sei lá que mais produtos financeiros são baseados nisso. Mas para todos os efeitos são apostas. E o próprio dinheiro dessas apostas obviamente que contribui para o valor Y. Somam-se todos os valores Y de todos os bancos de um país, e pode-se estimar quanto dinheiro entrará em circulação, sem esforço (ou seja: sem produção industrial, sem serviços), no ano seguinte. Dada a confiança nos bancos em gerar Y dinheiro para o ano seguinte, os governos podem orçamentar baseando-se nesse valor (que vai gerar Z receitas em impostos, por exemplo).

Tudo isto é baseado em X hipotecas, ou seja, na capacidade da população em regularmente pagar o que tem a pagar. E não são só hipotecas, claro — são todos os mecanismos de crédito fácil. Enquanto as pessoas têm empregos e continuam a pagar o que devem todos os meses, os bancos — e todo o sistema financeiro, assim como os governos — sabem muito bem prever quanto dinheiro virtual adicional vai estar disponível nos anos subsequentes.

Quando se atinge o limite é que é o diabo. Em Portugal há mais casas que habitantes; e isso não é anormal, é um caso frequente nas economias modernas. Mas justamente por isso, quando surge uma dificuldade, quem tenha 2 ou 3 casas, vai largar uma, porque não precisa de tantas.

Menos uma casa — menos uma hipoteca. Menor é X, mas menor é também Y. Se houver mecanismos de compensação, tudo bem. A família que largou a sua 3ª casa pode, em vez disso, optar por comprar um carro com um empréstimo — é a mesma coisa (é mau para os especuladores imobiliários, mas não para os bancos e não para a economia em geral). Pode, eventualmente, colocar o dinheiro a render no banco — não é tão bom (pois significa que do valor Y a receber no ano seguinte, parte vai ter de ser pago a quem está a poupar em vez de consumir), mas pelo menos é cash com o qual os bancos podem fazer outras coisas úteis (para eles).

O problema é que muitas casas no mercado significa que os preços baixam…

E o segundo problema é quando já não são pessoas a largar as hipotecas das suas terceiras casas, mas sim das segundas… e depois das primeiras, optando por alugar em vez de comprar

E o terceiro problema é quando os media reparam que os bancos andaram a emprestar dinheiro a quem não tinha capacidade para o devolver.

Ups.

Com o terceiro problema, mina-se a confiança nos bancos. Isto significa que as agências de rating informam rapidamente os seus clientes de que o banco B não vai conseguir gerar Y no ano que vem, e, como tal, «apostar» nesse banco não é seguro. Isto tem a consequência perversa de que os investidores retiram então tudo o que seja investimento na «confiança» desse banco e voltam-se para outro. Agora é que a possibilidade de gerar Y dinheiro virtual começa mesmo a ficar ameaçada. Pior: os consumidores com hipotecas nesse banco, perdendo a confiança neste, retiram as suas hipotecas de lá. Agora o banco não só não vai ver Y magicamente a aparecer no ano seguinte, como mesmo o X que realmente emprestou começa a desaparecer. Nem Y, nem X: o banco colapsa!

Mas como o problema nº 3 é geral à esmagadora maioria dos bancos, o «ups» é muito maior. Afinal de contas não é só o banco B que não vai gerar Y no ano seguinte. São todos! (ou quase todos)

Duplo-ups.

Chegamos então «ao ano seguinte». Não há Y.

Mas ao contrário do que por vezes se pensa, esse dinheiro não «desapareceu» por incompetência ou má gestão dos bancários, ou porque estes «fugiram» com o dinheiro para algum lado. Nunca chegou a existir. As condições para que Y «surgisse» magicamente do nada pura e simplesmente desapareceram: as pessoas, incapazes de pagar os empréstimos que contraíram, deixam de pagar juros, e esse valor Y vem essencialmente dos juros. Ou seja, o dinheiro virtual esperado para determinado ano pura e simplesmente não «apareceu». Fica-se, pois, apenas com o dinheiro «real» que se tinha antes.

O problema é que as contas que tinham sido feitas eram a contar com esse dinheiro virtual. Que agora não «apareceu». Significa que subitamente os bancos deixaram de ter o mesmo lucro que antes — mas que os governos, que fizeram orçamentos baseados em impostos a cobrar sobre esse dinheiro virtual, não têm como o receber — porque não existe.

Criou-se pois um quarto problema. Se o dinheiro desaparece, normalmente é por incompetência ou por crime. Ambos os casos podem ser tratados a nível da justiça — no primeiro caso, enfim, despedindo-se uns CEOs incompetentes; no segundo, obrigando à devolução do mesmo de alguma forma. Temos leis razoáveis para lidar com ambas as situações, e o mercado «equilibra-se» para lidar com ambas.

Agora se o dinheiro esperado na realidade não aparece porque nunca chegou a existir há realmente um problema bem complicado a resolver!

Pode-se «tapar o buraco» indo buscar dinheiro a outro lado. Até aí tudo bem — é o que se faz com os fundos de resgate da UE, ou com as transferências de dinheiro do Fed para os bancos americanos — mas isso só «tapa o buraco». O problema é que não é apenas Y que desapareceu. Ter X — hipotecas, empréstimos, fundos — significa que se tinha «apostado» ter Y num ano, Y’ no ano seguinte, Y” no ano subsequente, e assim por diante — a muito longo prazo, já que as hipotecas são por 20, 30, 40 anos, e os bancos podiam assim prever quanto dinheiro virtual iam criar ao longo de toda uma geração.

Mas agora já não há X. Logo, não há Y, Y’, Y”, Y””””””… não há nada para os próximos 20, 30, 40 anos. Pior que isso: com a descredibilização do sistema de crédito fácil sem garantias, é impossível voltar a ir buscar X aos consumidores. Conclusão: quer a gente goste, quer não, houve uma substancial fatia de dinheiro virtual que não só desapareceu, como não vai voltar a aparecer. Nem é uma questão de «mais cedo ou mais tarde aparece». O mundo mudou. Fechou-se o ciclo do crédito fácil. E isso significa um mundo em que não vai existir Y dinheiro virtual — nunca mais. Ponto final.

Ora isto pode não ser assim tão «terrível» como possa soar à primeira vista. Afinal de contas, «dinheiro virtual» não é a única forma de colocar mais dinheiro em circulação numa economia. É, talvez, a forma mais fácil — e a mais rentável para os bancos, sem dúvida — sem ter o impacto de uma estratégia inflacionista.

O que tem acontecido em Portugal, por exemplo, é que o mecanismo «compensador» tem sido… as exportações. Continuo a pasmar-me com o crescimento das exportações nacionais. Não há mês que não venha um novo relatório a falar de um aumento de dois dígitos — 25% a 30% são os valores normalmente referidos pelos media. Sim, bem sei que quando se parte do «zero» (o que não era estritamente verdade), é fácil ter um crescimento de dois dígitos. Mas a partir de uma certa altura, claro, será difícil manter esse nível de crescimento — nem sequer a China consegue fazê-lo, e os Estados Unidos ficam muito satisfeitos nos anos em que atingem os 8%, quando as economias «estáveis» da Europa lá se contentam com uns 3% de crescimento anual.

Nós cá continuamos com uns admiráveis 25% ou mesmo 30%. E continua. Podia ter sido apenas um «impulso» momentâneo, mas parece não ser o caso. Parece que é uma tendência para continuar por mais uns tempos. E não adianta dizer que é «tudo para Angola ou Brasil». Que importa isso? Parvos somos nós se não aproveitarmos (nota: e não, não é tudo para Angola; é muito mas não tudo) — pois os chineses aproveitam de certeza se nós não quisermos exportar mais para Angola. Mas seja para onde for, o que interessa é que estamos a exportar mais, e isto trás-nos dinheiro que não é virtual (no sentido mais financeiro da palavra), mas sim baseado em bens materiais (ou serviços, que são menos materiais…). Ou seja, o mercado, através do excelente trabalho das empresas privadas que conseguiram vencer o desafio do aumento das exportações num mercado mundial em crise, está a «tapar» parte do buraco do Y que nunca se concretizou.

Claro que isto não chega, a curto prazo, para «acabar com a crise». Não são dois anos consecutivos de exportações aceleradíssimas que vão reverter o processo de duas ou três décadas de crédito fácil. Nem sequer são as medidas de contenção do Estado que vão ajudar, pois está visto que nem Passos Coelho, por mais enérgico que seja, consegue reduzir a despesa do Estado — por mais cortes que anuncie. Se a situação não entrou em colapso em Portugal, é porque as exportações estão de tal forma fenomenais, que mesmo o Estado, por muito que agrave a situação, não consegue «estragar» tudo. Mas precisaríamos de um governo durante uma década a fazer cortes até que se conseguisse equilibrar a balança; e os portugueses parecem ter tão pouca paciência como os gregos, e querem é colocar o governo fora. Mas o próximo, e o próximo, e o próximo vão fazer a mesma coisa. Não há outra alternativa quando se muda drasticamente de paradigma financeiro. Com o fim do modelo de crédito fácil, vamos ter uma nova economia que nada tem a ver com a anterior.

O melhor que temos a esperar, a curto-médio prazo, é o retorno aos anos 1970: uma economia em que o consumo desenfreado era limitada a uma classe muito pequena, embora a classe média conseguisse ter as necessidades básicas para a vida: um frigorífico, uma TV, um carro familiar em 2ª mão, um apartamento pequenito, e férias na Costa da Caparica.

O problema é que, ao fim de algumas décadas a viver, directa ou indirectamente, do crédito fácil, os portugueses recusam-se a «voltar atrás». Não são só os portugueses, claro; os gregos estão ainda piores porque as suas exportações não crescem, e com o colapso do sistema de crédito fácil, não há solução à vista: a Grécia, para além de alguns produtos agrícolas, pouco mais tem do que turismo e a indústria de armadores, que enfrenta feroz concorrência da Coreia e da Rússia, e de certeza que não conseguirá voltar aos gloriosos anos sessenta da família Onassis e restantes multibilionários do negócio da construção naval.

Por cá vendemos as coisas mais espatafúrdias. Não temos uma indústria «completa» — no sentido em que produzimos todos os produtos — mas o que temos parece estar a correr bem. Angola, é sabido, precisa de tudo — não tem nenhuma indústria excepto a extracção de petróleo, e, em segunda linha, diamantes e ouro… — e qualquer caramelo que fabrique o que quer que seja tem um mercado garantido. Fiquei pasmado, em 2005, quando soube que nem sequer se fabricavam azulejos para casas de banho em Angola: era tudo importado! Logo, há muitos anos para vender tudo e mais alguma coisa em Angola, e, para quem esteja um passo à frente, há oportunidade de construir, de raíz, uma indústria em Angola com capitais portugueses. Mas nesta altura compensa exportar tudo e mais alguma coisa; e, sendo assim, mesmo as fabriquetas mais inúteis, que há décadas que enfrentavam concorrência em todo o lado, conseguem encontrar mercados para os seus produtos. E, claro, não é só para Angola que se exporta. Até para os Estados Unidos se exporta. O Ministério da Agricultura intermediou as negociações para se conseguir exportar carne portuguesa para o Japão — um feito notável, sabendo que a melhor carne do mundo é justamente a japonesa (mas absurdamente carga), e que o maior exportador mundial é a Argentina, seguida de países tradicionalmente grandes exportadores como o Brasil, os Estados Unidos, a Irlanda, ou até mesmo Espanha… mas a verdade é que, aqui e ali, há sempre uma firma portuguesa a exportar as coisas mais curiosas (equipamentos de navegação para satélites?! WTF?! Mas a indústria aeroespacial é uma das nossas maiores indústrias, por mais alienígena que isso nos possa parecer…) para mercados que se acharia estarem completamente saturados de produtos melhores e mais baratos.

Mas desviei-me do ponto essencial. Sim, exportar muito é bom. Mas dois anos de exportações não cria milagres (excepto para as empresas que estão a conseguir fazê-lo, claro, e isso por sua vez já não é nada mau!). Não, o problema é que vamos ter todos de voltar aos lamentáveis e tristes anos 1970. Anos de pobreza comparados com o luxo dos anos 1990. É evidente que vai haver uma classe rica não afectada pela crise, tal como existia nos anos 1970. Mas não vai ser como nos anos 1980, em que os «novos ricos» saltavam das classes mais baixas para as mais altas num piscar de olhos.

Vamos ser um país em que, em média, cada português vai viver no limiar de pobreza — em Portugal, cerca de €485/mês, salvo erro. Esse vai ser o novo salário médio (antes da crise eram cerca de €1000/mês) da população portuguesa. A maioria de quem vai ler isto vai ficar horrorizada — «como é que se pode viver com isso??». Bem, 20% da população portuguesa já vive com isso, e não estão a morrer de fome. Falo de experiência própria: desde 2004 que vivo no limiar da pobreza durante a maior parte do ano e ainda não morri 🙂 As pessoas que olham para mim pura e simplesmente não acreditam como isso seja possível e pensam que eu tenho «outras formas de rendimento» sabe-se lá vindas de onde. Mas não tenho. Ocasionalmente, é certo, lá tenho um cliente que me paga o que deve, e dá para gastar um pouco mais — ou para a minha mulher comprar uns óculos novos. Ou para comprar mais memória para um dos PCs de trabalho cá de casa. Volta e meia até dá para comprar uns livros na Amazon.

Mas vivo perto da forma como se vivia nos anos 1970. O meu carro tem 15 anos e é em segunda mão; não irei comprar outro na próxima década. Não tenho TVs OLED, de plasma, ou 3D; nem sequer tenho mesmo TV! O meu telemóvel é de 2007 e foi-me oferecido pela empresa; a minha mulher tem um telemóvel de 2008 que lhe custou €15. Semana passada comprei a primeira caixa de DVDs regraváveis ao fim de cinco anos; desde 2004 só comprei duas pen drives e tenho uma terceira que me foi oferecida. Não tenho nenhum gadget — nada de tabletsiPods, câmaras fotográficas, molduras digitais, ou qualquer outra dessas coisas. Há anos que o almoço cá em casa nos custa menos do que €2; o jantar ainda é mais barato. Jantamos fora uma vez por mês, ou duas, nos dias em que celebramos um cliente que nos pagou uma factura de 2010 ou 2011. Não vamos a festas, discotecas, bares, teatros, ou cinemas. Não fazemos férias pagas — o meu pai tem uma maravilhosa casa (um terço da qual em ruínas) na Beira Alta, que serve perfeitamente para fazer 4 ou 5 dias de férias, e mesmo assim o que é mais caro é a viagem. E a roupa toda que tenho foi-me oferecida como prenda de anos ou Natal; desde 2004 que não me lembro de ter comprado nada para além de dois pares de sapatos (a minha mulher ainda comprou uns dois ou três tops no chinês com o dinheiro dela) e um ou outro guarda-chuva. A casa não é pintada há uma década, tem buracos no tecto (mas felizmente é só no tecto falso), e a mobília mais recentemente adquirida foi… uma tábua de engomar! Mesmo coisas mais «recentes» como um sofá foram oferecidas por pessoas que já não as queriam; com uma manta por cima «parece novo» e já está!

Ora isto não é «horrível». Lavo-me todos os dias, faço a barba de vez em quando, e tenho a roupa limpa; de vez em quando corto o cabelo. Não ando a pedir nas ruas.  Tenho um seguro de saúde privado. Uso a Internet diariamente com uma largura de banda razoável e em casa temos quatro computadores (um dos quais é o servidor de trabalho), todos mais antigos que 2007, excepto o da minha mulher, que «herdou» de uma empresa falida e é de 2008. Tenho alojados mais de uma centena de sites num servidor partilhado, essencialmente pago à custa de anúncios nalguns desses sites. Ou seja, do ponto de vista externo, sou aquilo a que o meu mestre chama pobreza com dignidade. Lá porque não tenha dinheiro para comprar o último Mac Air, não quer dizer que tenha de andar sujo na rua a cheirar mal com roupas remendadas. Não quer dizer que tenha de abdicar de comer três refeições diárias, ou que essas refeições tenham de ser de produtos de pouca qualidade. Não quer dizer que não vá ao médico fazer análises e que não tenha dinheiro para me tratar. E também não quer dizer que ande por aí em depressão a lamentar-me e a chorar porque os outros têm tudo e eu não tenho nada! Em vez disso, até ainda consigo dar cerca de um décimo do que tenho para caridade, e participo ocasionalmente em acções sociais para ajudar quem ainda está pior que eu.

Ora isto não é muito diferente da forma como vivia nos anos 1970. Não haviam luxos nenhuns, excepto muito ocasionalmente — nos anos e no Natal. O meu irmão herdava as roupas que já não me serviam; a minha mãe muitas vezes fazia-me a própria roupa a partir de moldes da revista Burda. É certo que fazíamos mais férias, mas nessa altura o Algarve ainda era um «fim-de-mundo» para onde ninguém ia, e que por isso era barato. O meu pai substituía o carro uma vez por década. Tínhamos poucos brinquedos, mas isso pouco importava, porque com peças de Lego construíamos os brinquedos que queríamos. Em casa bebia-se leite em pó, mas uma vez por semana podíamos comer um bolo (ou um gelado no Verão!). Três ou quatro vezes por ano havia dinheiro para ir ao cinema, e regularmente podíamos comprar uns Tios Patinhas, mas o entretenimento familiar era principalmente ir ao Jardim Zoológico, aos jardins da Gulbenkian, ou ir passear até ao Estoril (a gasolina era barata…). Tudo o resto era desnecessário.

O problema é que a partir dos anos 1980 criou-se a apetência pelo consumo desenfreado de todo o tipo de bens, produtos e serviços — aproveitando a «boleia» daqueles que tinham ficado psicologicamente afectados com a esqualidez da vida simples dos anos 1970. Quis-se, para os filhos, «tudo aquilo que desejámos mas que não havia dinheiro para comprar». Os putos de alguns casais no meu círculo de amigos e familiares recebem um conjunto de prendas pelo Natal correspondentes a mais de metade do meu rendimento anual; nos meus tempos de puto, recebia alguma roupa, uns livros, talvez uma caixa nova de peças de Lego, e não me lembro de muito mais. Havia, é certo, alguns anos melhores do que outros. Seja como for, a chamada classe média portuguesa já não quer voltar atrás.

A depressão instaurada na esmagadora maioria da população que faz parte dessa classe média advém do facto de terem percebido que vai ser impossível voltar a ter o mesmo nível de vida que tinham nos anos 1990. Casais que perderam um dos empregos entram subitamente em pânico ao perceber que já não vão conseguir pagar a casa, o carro, e as férias no Brasil; mas nos tempos dos meus pais, praticamente metade da população activa não trabalhava (as mulheres). Entramos em pânico com taxas de desemprego acima dos 15% porque nos habituámos à ideia de que «toda a gente na família tem de trabalhar» para poder pagar os luxos todos, e agora claramente isso não vai ser possível — pelo menos para 15% da população, já não o é, e provavelmente o mesmo irá acontecer a muitos mais. Regra geral, o que estimo é que entre 2010 e 2030, a esmagadora maioria da classe média portuguesa vai ter de se habituar a viver com metade do que ganhava entre 1990-2010, quer goste da ideia ou não. E claro que não gostam, porque isso significa viverem ao mesmo nível que se vivia nos anos 1970.

A verdade é que apesar disso as coisas não estão tão más como nos anos 1970. Basta olhar para as infraestruturas que temos. Faltam médicos, sim, mas nos anos 1970 haviam meia dúzia de hospitais e clínicas em Lisboa; hoje há dúzias de hospitais, e centenas de clínicas. Temos auto-estradas para todo o lado. Temos não só TV a cores (que não havia em 1970!) como Internet e telemóveis em todo o lado — quando nos anos 1970 mesmo um telefone era um privilégio das grandes cidades. Na aldeia do meu pai, com 250 habitantes nos anos 1970, haviam três telefones. Hoje em dia as pessoas ganham tão pouco como em 1970, mas toda a gente tem um telemóvel, televisão, frigorífico, água canalizada, acesso a cuidados básicos de saúde, e sei lá que mais — viagens organizadas pela Junta de Freguesia ou pela paróquia, festas populares, feiras… e as ruas estão limpas, bem cuidadas, com as casas arranjadinhas. Nos anos 1970 era um chiqueiro, lembrando a Índia ou a Nigéria…

Por outras palavras: vamos voltar aos anos 1970, mas a uns anos 1970 muito mais arranjadinhos, mais limpinhos, mais organizados, com maior acesso a civilização e cultura. Não é assim tão horrível como isso. Claro que é apenas um pálido eco do que foram as últimas duas décadas. Mas a verdade é que este país foi pobre durante a maior parte dos seus mais de 850 anos de história. Podem imaginar como se sentiam os portugueses lá para 1660, depois de se ter perdido a maior parte do império que trazia riqueza de todo o mundo, e antes de se descobrir o ouro no Brasil. Foram uma ou duas décadas de pobreza atroz. Depois lá se seguiram duas ou três gerações de luxos e prosperidade artificial, até às guerras napoleónicas, seguindo-se a independência do Brasil, mais uma contracção do império (que o deixou de ser), e mais umas gerações de pobreza atroz. Ao contrário de muitos povos da Europa ou da América do norte, que uma vez tendo descoberto a prosperidade, nunca mais a perderam — tiveram apenas fases um pouco melhores e um pouco piores — nós, portugueses, fomos essencialmente sempre miseravelmente pobres, com ocasionais períodos de prosperidade. A geração que seguiu a esse período de prosperidade passou a eternamente sonhar com o passado glorioso — daí vivermos em perpétua saudade — mas lá teve que se aguentar. O facto é que não «desaparecemos do mapa». Cá continuamos a contar a nossa História.

Agora fechou-se mais um capítulo de prosperidade. Comparado com os anteriores — a maior parte do século XVIII, e o período entre 1430 e 1580 — este foi relativamente curto: pouco mais de uma geração. Voltamos, pois, aos Maus Velhos Tempos de antigamente, que é o nosso «estado natural». Mas devíamos estar habituados a isso: ciclicamente voltamos sempre a esse estado. É como de facto somos: pobres, mas honrados.

Bem percebo que isto não é fácil de aceitar. Acreditamos que uma milagrosa intervenção do BCE, ou uma mudança de governo (hah!), poderá restaurar-nos os gloriosos anos da economia virtual dos anos 1990. Mas isso é sonhar acordado. Esta crise já passou; o seu resultado é deixar-nos no estado em que normalmente estamos quando não criamos prosperidade artificial. Obviamente que é bom ter «sonhos» e objectivos: é graças a isso que se está a conseguir exportar tanto, como nunca antes. É graças a esses sonhos que áreas completamente estranhas à nossa maneira de ser — como a investigação científica ou a indústria aeroespacial — estão subitamente a crescer a olhos nunca vistos, vindos de um cantinho do Mundo do qual ninguém esperava nada (mas não foi justamente a investigação científica e a indústria naval do século XIV que nos levou a uma primeira era de prosperidade? Há que pensar no estranho paralelo…). Não vai chegar para voltarmos aos anos 1990 de dinheiro a rodos — mas será talvez a base para construirmos a nossa próxima era de prosperidade? Não vai acontecer com «o fim da crise decretado para 2013», pois não se «decretam» inícios e fins de ciclos históricos. Constroem-se e destroem-se, de acordo com o que se faz.

Chorar, cheio de saudade, para que «o tempo volte atrás», não serve de nada: é isso infelizmente que é a atitude presente dos portugueses, que, imitando os gregos, acham que é derrubando governos sucessivos que o país avança. Não vai servir de nada. Toda essa energia e vontade de destruir seria melhor empregue em construir o futuro. Como gosto sempre de repetir, a «solução» americana para a crise foi encorajar a população a ser mais activa economicamente — menos greves, mais trabalho; menos impostos, mais circulação de dinheiro; mais protecção social, pois quem tem um salário, por mais miserável que seja, tem rendimento disponível que pode colocar a circular na economia. Nós não somos americanos, e responsabilizamos o governo «paizinho», do qual exigimos que resolva todos os nossos problemas. Essa é a nossa forma de ser. Mas talvez tenhamos de «desaprender» a ser assim. Talvez tenhamos de pensar que temos de arregaçar as mangas e gerar a nossa própria riqueza sem depender de terceiros para o fazer. É certo que é muito mais fácil de o fazer em períodos de boom económico — como aconteceu nos anos 1980 com a explosão de novos-ricos, self-made men — mas os períodos de crise são aqueles que incentivam o thinking outside of the box.

Infelizmente não temos nenhum Kennedy que consiga motivar os portugueses com o seu famoso Ask not, what your country can do for you. Ask, what you can do for your country. Não nos está no sangue. Pelo menos não para todos.

Mas aqueles que efectivamente o estão a fazer — como atestam as exportações! — são aqueles que vão ser a classe alta da próxima geração. A escolha é, pois, nossa: ficarmos agarrados ao passado ou olharmos para o que podemos fazer no futuro. E se esse futuro é um futuro de pobreza honrosa, que assim seja.

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3 pensamentos sobre “Regresso ao passado

  1. Lendo o texto fui tendo a sensação de que escutava os meus próprios pensamentos.
    Tenho partilhado com amigos e amigas, de várias idades, e alertando para que pensem no que aí vem.
    Não é certamente o fim do mundo.
    Bruno Raminhos

  2. Gostei da retrospectiva histórica, do sentido de clareza na análise. Concordo em geral com a sua leitura apenas acho que muitos portugueses nunca aprenderam a pensar e a olhar paea as situações com sensatez e até, diria alguma frieza. É tambem verdade que quem perde muito, e alguns quase tudo, fica desesperado e bloqueado. Eu própria gostaria de acordar amanha e ter uma solução para mim que me desse um sustento razoável, não de riqueza ou de esbanjamento poruqe já tive a minha época de consumismo, mas não acontecem milagres destes sem sermos guiados e ensinados. Por mais que concorde que as mudanças têm que existir e que só com estas nascem novas sociedades e valores, há sempre erros que se cometem que não se devem perdoar, nomedamente na educação. Um povo ignorante não sabe pensar, escolher e como tal entrega-se ao desespero pelo que não pode ter e que julga ser essencial para a sua sobrevivÊncia. Vivemos numa época em que como disse, os pais quiseram dar tudo o que não tiveram aos filhos, mas esqueceram-se de ensinar o valor do trabalho. Vivemos numa época em que temos que voltar a ensinar o valor, o respeito pelo trabalho pois este, sim, cria verdadeiro dinheiro e dignidade. Vivemos numa época em que algumas geraçõrs trocam de telemovel com a mesma facilidade com que se vai ao supermercado comprar leite. Claro nem todos podemos ser ricos, claro que tambem não queremos ser pobres mas no fundo é tudo uma questão de valores.

    Sandra Raminhos

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