É triste gastar-se tanto dinheiro…

Diariamente os meus amigos computer geeks quarentões atiram-me com links para o Facebook de artigos sobre o dinheiro que se gasta na Administração Pública com software e serviços informáticos neste país que depois até nem funcionam. Geralmente fico sempre chocado, e depois um pouco triste, pois há tantas soluções dispendiosas que podiam ser evitadas com apenas um pouco de bom senso e de conhecimentos…

Não pretendo aqui estar a fazer um «ataque» ao software comercial, dizendo que não presta e que as empresas que o comercializam são umas exploradoras. O mercado é livre: só compra produtos de software comerciais quem quer, ou quem pode. A título particular, nas alturas em que tenho dinheiro, até adquiro bastante software comercial (mesmo que seja de baixo custo). Não é porque não hajam alternativas open source gratuitas — normalmente até há! — mas porque gosto mais da interface, ou porque são mais estáveis, ou porque têm mais opções, etc. Num meio onde as empresas que vendem software comercial têm de concorrer com produtos idênticos open source a custo zero, há pressão para justificar a diferença de preço, porque os clientes potenciais (quando são indivíduos) que não tenham pruridos (leia-se: lavagem cerebral de que só o que é comercial é bom, uma falácia muito bem disseminada) sabem pesquisar na ‘net as alternativas e optar pelo que lhes parece melhor. Chamo a isto tomar decisões em consciência.

Infelizmente, neste país, o mesmo não se aplica à Administração Pública. Aqui o caso é grave, porque a Administração Pública está a gastar dinheiro que é de todos nós. Não seria legítimo, enquanto contribuintes, que esperássemos que gastassem esse dinheiro da forma mais eficaz possível?

Em países como a Alemanha, a abertura de concursos públicos para a aquisição de soluções informáticas tem um pressuposto de base: todos os concorrentes têm de justificar que as suas soluções são mais baratas que as soluções equivalentes gratuitas e em open source. Poder-se-ia pensar que isto implicaria que as empresas que vendem software comercial estavam tramadas: como é que se compete com produtos gratuitos?

Na realidade, a solução informática tem pelo menos dois componentes. Uma são as licenças de software; a outra são os recursos humanos. É necessário know-how para instalar e manter soluções informáticas. Assim, entre duas soluções — uma com software comercial, outra com software gratuito e open source — o que decide é o factor «recursos humanos». A Microsoft, por exemplo, na Alemanha vende as suas licenças ao governo alemão por valores irrisórios, e corta nos custos da instalação e manutenção — porque sabe que vai competir com empresas que vão fornecer serviços idênticos sem custos de licenciamento, mas que eventualmente venham a cobrar mais pela instalação e manutenção. Isto equilibra os preços de mercado das soluções — para baixo. Até nem quer dizer que a Microsoft perca todos os concursos públicos na Alemanha: quer apenas dizer que tem de baixar os seus preços para poder ser concorrencial. O resultado? Os contribuintes alemães pagam substancialmente menos pelas aquisições de soluções informáticas. É que se a Microsoft não conseguir baixar os preços, o governo alemão pura e simplesmente mete Linux em todo o lado. Simples. Quem fica a ganhar são os contribuintes, e esse é o objectivo.

Em Portugal claro que isso não acontece. E não acontece por duas razões: lobbies e falta de certificação profissional por parte dos decisores.

O primeiro ponto é muito fácil de explicar. Empresas como a Microsoft, a IBM, a Accenture, etc. empregam centenas, se não milhares, de profissionais altamente qualificados. Antes de abrir um concurso público para aquisição de soluções informáticas, o responsável do serviço público recebe uma visitinha de um representante destas empresas. Com um sorriso simpático, dão a entender que ou ganham o concurso público, ou vão ter de lançar centenas ou milhares de profissionais qualificados para o desemprego. Isto fará o director-geral do serviço vacilar. Se realmente apostar por uma solução que não venha «dos gigantes da informática», no dia seguinte terá um telefonema do Secretário de Estado da tutela, aos berros, a dizer que o colega da Segurança Social acabou de lhe informar que vão entrar 2000 profissionais de informática no desemprego, e que os media estão aos pulos a babar-se com a notícia. Adeus carreira de direcção-geral.

Por isso, os responsáveis de serviço não arriscam nada. Abrem concursos públicos referindo, aqui e ali, tecnologias «essenciais» (com ajuda dos «gigantes») de forma a que só os «gigantes» possam concorrer. Por exemplo: «o site Web desta instituição deve usar .NET». Pronto, já se sabe que só se pode concorrer com soluções Microsoft. É possível que a Microsoft nem concorra: em vez disso, encoraja 3 ou 4 dos seus parceiros mais importantes a concorrer. Ganham eles um bocadinho e a Microsoft, independentemente de quem ganhar, leva de bónus as licenças todas. Para o próximo concurso público, escolhe 3 ou 4 parceiros diferentes, para ter a certeza que todos ficam contentes.

Isto obviamente que não se aplica apenas à Microsoft, mas a todos os «gigantes» da informática. Por exemplo, há uns anitos atrás, um familiar do governo regional da Madeira conseguiu obter os direitos de exclusividade na venda de Macs na região. Durante uns tempos, todos os concursos públicos para aquisição de computadores pessoais para a administração regional incluíam uma cláusula que tornava bem claro que só seriam aceites propostas com tecnologia Apple. Havendo 3 ou 4 fornecedores que compravam ao distribuidor, este ganhava sempre, e os concursos públicos acabavam sempre por espalhar mais Macs na Madeira. Ou seja, isto não se aplica apenas a um único Evil Empire — dependendo do sítio, da entidade, da região, haverá sempre um lobby qualquer que, mediante a ameaça de que pode despedir montes de gente e/ou lixar economicamente a vida aos responsáveis de determinada direcção, conseguirá retirar benefícios próprios e impedir a livre concorrência.

Estejam descansados, isto é daquelas coisas que não se consegue impedir. Quem anda no meio é «profissional» no sentido em que sabe perfeitamente o que está a fazer. Nenhum advogado ou jornalista conseguirá «provar» isto, seja em tribunal, seja nos media. Todas estas movimentações nos bastidores são feitas de formas extramemente subtis. Nunca fica explícito que está haver, sequer, uma «movimentação nos bastidores». São palavras meio ditas, expressões e olhares usados, telefonemas para «as pessoas certas», mas que depois são impossíveis de provar que realmente aconteceram.

Esse é um lado da medalha.

O outro é mais aborrecido, pelo menos para mim, e tem a ver com a qualificação profissional de quem assina este tipo de projectos (e muitas vezes de quem os avalia, embora na Administração Pública os avaliadores geralmente são qualificados para o fazerem). Passo a explicar. Se uma entidade pública lança um concurso público para uma obra de construção civil, esta tem de ser assinada por um arquitecto e/ou engenheiro civil, ambos membros das respectivas ordens, e que obtiveram licenciaturas nas respectivas áreas que foram sujeitas ao triplo critério de qualidade da entidade onde leccionaram, do Ministério da Educação e Ensino Superior que validou o curso, e das ordens profissionais que acreditaram o curso. É certo que nada impede que um atrasado mental passe por este processo e que obtenha mesmo assim a qualificação profissional necessária para assinar o projecto; mas mesmo que tenha sido um péssimo aluno, pelo menos levou a matéria toda de base. Mais uma vez: não quero dizer com isto que um licenciado seja mais inteligente e melhor profissional do que um não-licenciado. Quero apenas dizer que, do ponto de vista estatístico, alguém que tenha uma licenciatura em engenharia civil acreditada pela OE terá muito maior probabilidade de desenhar uma ponte que não caia do que um trolha das obras (por mais genial que seja). Por isso, o Estado, quando quer adjudicar uma ponte nova, não contrata trolhas para a fazerem. Não quer dizer que o Senhor Engenheiro não seja uma besta, desenhe tudo mal, e que a ponte não acabe por cair à mesma. Quer apenas dizer que a probabilidade disso acontecer é muito mais baixa.

No final dos anos 1980, o Estado deparou-se com uma dificuldade quando começaram a surgir os grandes projectos de informática que obrigavam a lançar também concursos públicos: é que não só não tinha profissionais na área da informática para escreverem o caderno de encargos, como as empresas de serviços informáticos também não tinham profissionais nessa área para darem resposta adequada aos mesmos. Enquanto estes projectos eram de pequena dimensão, não havia grande problema. Quando eram de grande dimensão, eram adjudicados à IBM e/ou semelhante «gigante» da informática da altura (tipo a DEC, por exemplo), que tinham os seus próprios técnicos qualificados. O problema foi que na viragem da década de 80 para 90 começaram a surgir milhares de soluções alternativas propostas por empresas novinhas em folha, que tinham soluções para tudo e mais alguma coisa.

Mas não tinham profissionais qualificados… porque não existiam. O nosso país, nos anos 80, estava cheio de licenciados em Física, que, não encontrando emprego, passaram a dedicar-se à informática. Depois algumas licenciaturas em engª electrotécnica começaram também, aos poucos, a leccionar sobre hardware, e isso pelo menos permitia que se soubesse o que era um computador. Mas mesmo assim haviam pouquíssimos profissionais qualificados: eram apenas amadores altamente entusiasmados e que lá iam aprendendo umas coisitas aqui e ali. Como os avaliadores também eram, eles mesmos, não qualificados, não havia grande problema.

Claro que esta situação não podia durar muito mais tempo, e a partir dos finais dos anos 80, começam a surgir as licenciaturas em informática e engª informática, validadas pelas respectivas universidades que as leccionavam, pelo Min. do Ensino Superior da altura, e (no caso das licenciaturas em engª) também pela OE. Estes profissionais passaram também a ser contratados pela administração pública e a elaborar os cadernos de encargos de forma profissional. E as verbas para a informatização da administração pública aumentaram significativamente — nalguns casos, aproximando-se das verbas da construção civil (pelo menos nalguns casos). Ou seja, passou a ser um negócio muito apetecível!

Ora mais ou menos por essa altura também se começou a pensar que os projectos de informática, à semelhança dos de engª civil, de electricidade/electrotecnia, e demais profissões qualificadas, também deveriam ser projectados e assinados por especialistas qualificados na área. Só que isso iria esbarrar no status quo. Um técnico da IBM, que há vinte anos que assinava projectos de altíssima responsabilidade, embora não fosse licenciado, não podia ser «prejudicado» por uns arrivistas novinhos em folha que saiam das universidades sem qualquer experiência. E as empresas todas que nasciam um pouco por todo o lado e que agora entravam no mercado a concorrer com os «gigantes», não tendo pessoal qualificado, também não queriam que o sistema mudasse. Por isso o sistema não mudou. Assim se mantém a situação até aos dias de hoje.

É certo que a avaliação curricular dos proponentes do projecto faz parte da avaliação do concurso público, e é bastante importante na globalidade do concurso. Hoje em dia também a grande maioria dos funcionários da administração pública que elaboram os cadernos de encargos são eles mesmos licenciados em informática ou engª informática e sabem perfeitamente elaborar esses cadernos de encargos e de fazer a avaliação curricular e do projecto submetido como resposta ao concurso público. Mas podem não ter muito por onde escolher: é que em imensas áreas, o grande problema é que «currículo» pode significar apenas «quantidade e dimensão dos projectos em que participou». Por exemplo, alguém que se apresente num concurso público como «já fez uma centena de sites Web», e como tal é preferido como opção, nada está a afirmar sobre a qualidade dos sites que fez. E essa qualidade não é apenas o aspecto gráfico: é principalmente a solução técnica para dar resposta a questões como fiabilidade, redundância, rapidez de execução, segurança informática, garantia de confidencialidade dos dados, garantia de uptime, e assim por diante. Na esmagadora maioria dos casos, estes conceitos são mais ou menos abstractos para quem elabora os projectos, e recorre-se à publicidade das ferramentas que são licenciadas com o projecto para «justificar» a sua escolha. Claro que a Microsoft vai afirmar que os seus produtos são bons, que são tolerantes a falhas, e que resistem a ataques de piratas informáticos. Mas lá porque afirmem isso não quer dizer que seja verdade para qualquer instalação do Windows. Quando o «especialista» Microsoft se desloca a uma entidade para fazer a instalação, e a única coisa que diz é «basta instalar este CD e seguir as instruções», algo está profundamente errado nisto: é alguém que não tem qualquer conhecimento do que está a fazer. Tenho o privilégio de conhecer alguns administradores de sistema, com duas décadas de experiência, que conseguem montar uma solução em Windows que seja tão segura, robusta, fiável, redundante, e tolerante a ataques informáticos como uma solução em Linux. Mas não «basta instalar um CD» — são precisas semanas de estudo da melhor solução, que requerem uma série de afinações cuidadosas no Windows, para que este se comporte de forma adequada. Os recentes exemplos de ataques ao site do Governo Português e da CM Porto mostram como quem instalou esses servidores não têm qualquer conhecimento (nem qualquer qualificação!) para o fazer de forma adequada (lançando até a suspeita que a culpa é da Microsoft… nem é: a culpa é de quem instala o Windows, assumindo que é «fácil», «trivial», e que não requer qualquer qualificação).

Infelizmente já assisti várias vezes a este tipo de coisas na administração pública (e semelhantes entidades de grande dimensão): o pobre do técnico que vai lá fazer a instalação e configuração segue uma «receita», por vezes ditada ao telefone, e não percebe realmente o que está a fazer. Mas como há uma marca por trás da solução, cria-se a ilusão de que só por se estar a adquirir uma solução comercial de renome, qualquer caramelo consegue montar uma solução informática adequada a qualquer situação. Isto é uma falácia que infelizmente está muito bem disseminada — ainda por cima, com a consequente má opinião que se forma àcerca das soluções informáticas instaladas neste país.

Este é um problema muito mais difícil de resolver. Há depois uma outra «perversidade» associada a isto, e que é uma «moda» difícil de combater.

A moda chama-se outsourcing. Foi «inventada» nos anos 90, altura em que se conseguiu convencer de que era muito mais barato adquirir produtos no exterior do que os desenvolver de raíz «em casa». Regra geral, isto é verdade, mas não sempre. No caso da informática também se propagou a ideia de que a aquisição de serviços de instalação, configuração e manutenção de sistemas informáticos é mais barata e melhor se for adquirida «fora de casa». Mais uma vez: é verdade nuns casos, mas não em todos. Era sem dúvidas verdade na altura em que existiam poucos profissionais qualificados no mercado. Mas à medida que a administração pública contratou profissionais qualificados para os seus quadros, esta «mania» não passa apenas disso: de uma «mania». Faz-se outsourcing porque toda a gente faz outsourcing, independentemente de ser melhor ou mais barato.

Isto criou um certo absurdo em imensas entidades públicas, que em certas situações têm as equipas com o know-how para desenvolverem tudo internamente, a um custo comparativamente baixo (nem seria preciso lançarem um concurso público — seria meramente um desenvolvimento interno), mas por razões políticas (ver ponto um!), prefere-se adquirir essa tecnologia (e os serviços associados) no exterior. Ora o problema é que as empresas que vendem essa tecnologia não são parvas: querem «agarrar» o cliente. Em muitos casos — se não mesmo todos! (tenho o privilégio de conhecer algumas excepções) — o que isto significa é que, se ocorrer um problema (ou se for preciso fazer uma alteração), os especialistas altamente qualificados na administração pública, mesmo que o saibam resolver, são obrigados, por contrato, a chamar um «técnico» da empresa a que fizeram o outsourcing do serviço de manutenção e apoio técnico, que pode ser um tipo sem qualquer qualificação mas que tem um fato bonito e um pin da empresa que pertence, e que depois fica nas instalações da entidade, ao telemóvel com os colegas, a aplicar «receitas» pré-determinadas para resolver problemas. Se não houver solução… manda-se um comercial para negociar com a entidade um contrato para uma nova solução.

Isto é altamente desprestigiante para os profissionais da informática na administração pública, para além de obviamente ter um custo elevado, que é pago pelos contribuintes.

É evidente que não sou «contra» o direito às empresas privadas de venderem as suas soluções como muito bem lhes apetecer. Como disse, e repito, o mercado é livre. Têm todo o direito de «enganar» quem quiserem — no meio privado. Quando se trata do meio público a conversa já é outra! Aqui já sou muito menos tolerante para com a forma como os dinheiros públicos são mal gastos. Especialmente quando há alternativas — os modelos open source, por exemplo — que são do conhecimento dos técnicos qualificados que já trabalham na função pública, e que sabem mais na ponta de um dedo do que milhares de «técnicos» com «formação de fim de semana» de uma empresa XPTO qualquer.

Não queria generalizar demasiado. Claro que há bons profissionais no meio privado, tal como há bestas incompetentes na função pública — isto não é meramente um caso de preto-ou-branco. E claro que há entidades públicas que «não vão na conversa do outsourcing» recorrendo apenas a este quando se justifica, e nos termos que é efectivamente importante: por exemplo, para a transferência de know-how.

Não gosto de falar de casos em que estive envolvido, pois muitos deles podem estar sob segredo profissional. Mas acho que posso pelo menos referir o caso da RTP, sem violar nenhum segredo. Têm técnicos competentes, com décadas de experiência. Quando chegou a altura de montarem uma solução para os seus vastos sites, não quiseram ficar «dependentes» de um fornecedor, marca ou empresa. Mas não se «nasce ensinado» sobre tudo. Por isso o que fizeram foi contratar uma empresa que lhes fornecesse um software open source e que lhes transferisse o know-how de criar aplicações Web usando esse software. Já tinham conhecimentos de administração de sistemas. Instalou-se a aplicação, treinaram-se técnicos e utilizadores, e depois passou-se a fazer tudo internamente. Nunca mais foi preciso «pedir ajuda» externa — a não ser para nova tecnologia, que seria fornecida nos mesmos moldes. Calculo que a RTP não tenha desktops Linux em todo o lado porque infelizmente muito do software de edição profissional de imagem a nível de televisão só existe em Windows e Mac, mas se houvesse, acredito que o utilizariam e deixavam de pagar licenças à Microsoft 🙂 Mas pelo menos a nível dos servidores que asseguram o funcionamento diário da RTP — seja a nível interno, que não é visível do exterior, seja a nível da «face» que a RTP mostra — o know-how foi todo adquirido com o objectivo de tornar a RTP — e os seus técnicos — livres de «amarras» a fornecedores externos, dentro dos limites do possível (a SIC optou por passar o site para o Sapo, e a TVI para a IOL, mas são empresas privadas que têm todo o direito de usar as soluções que acharem por bem — nós, contribuintes, não temos nada a ver com o que as empresas privadas façam).

A RTP não é o único bom exemplo, claro. Há muitos mais. Uma característica infeliz de uma boa solução informática é que nunca falha, pelo que nunca é notícia. Quando um servidor Windows crasha, toda a gente fica a saber; como a esmagadora maioria dos servidores Windows está mal configurada, crasham com frequência. Um servidor Linux, bem mantido — e é mais fácil de o «manter bem» — fica a funcionar durante tantos anos que toda a gente se esquece dele, até o disco derreter e a motherboard ficar um buraco fumegante. Digo isto porque lembro-me perfeitamente de soluções Linux de que o pessoal se tinha «esquecido» de que existiam, e que ao fim de uns cinco anos tinham os discos RAID tipo árvore de Natal, a dizer que já tinham falhado os discos quase todos — mas o servidor não tinha parado. Este tipo de histórias divertidas são muito recorrentes — acontecem todos os dias. E mesmo assim não quer dizer que todos os servidores Linux do universo estejam imunes a falhas. O que acontecer normalmente é que os técnicos que os mantêm têm, de facto, as qualificações necessárias para o fazer, e, como tal, ficam no activo durante muitos e muitos anos.

Provavelmente todos nós já passámos pela experiência de ir às Finanças ou à Segurança Social e os funcionários pedirem desculpa porque «o sistema está lento» ou porque «hoje o sistema falhou de novo», e isso pode afectar milhões de pessoas durante várias semanas. Com os actuais cortes de orçamento, o Estado já não consegue pagar a equipas técnicas pagas a peso de ouro para fazerem manutenção 24/24h. Por outro lado, existem áreas da administração pública cujas soluções informáticas «nunca falham». É certo que podemos atribuir isto também à «sorte», mas é muito mais frequente, ao investigarmos mais um bocadinho, que essas soluções normalmente partilham das mesmas características: foram desenvolvidas por profissionais qualificados, por vezes com transferência de know-how para os técnicos que trabalham na entidade; muitas vezes recorrem a software open source, ou quanto muito por software que foi bem configurado por profissionais na área; normalmente foram soluções muito baratas (o que até evita concurso público!); e muito frequentemente… ninguém fala nelas, porque funcionam sempre bem e não se gastou muito dinheiro com elas.

Isto devia dar que pensar.

Voltando ao início: quando a Alemanha propõe nos concursos públicos que seja encarada uma alternativa ao open source, o seu objectivo não é lixar a vida às empresas privadas que vendem software. É obrigá-las a aumentar o nível de qualidade das suas soluções mantendo o preço baixo. Quem tenha uma solução comercial e que queira um contrato de manutenção a longo prazo em regime de outsourcing, tem de convencer o governo alemão de que o consegue fazer melhor e mais barato do que a solução equivalente em open source desenvolvida pelos técnicos da função pública alemã. E claro que há empresas privadas que estão dispostas a fazê-lo. Claro que há soluções comerciais que são pelo menos tão boas como as open source. Claro que há profissionais na área da informática com qualificações iguais ou superiores aos dos técnicos que trabalham na função pública alemã. Quando isto tudo se conjuga, o Estado alemão sai a ganhar: obtém uma solução melhor e mais barata. Mas o Estado alemão é toda a população: os alemães poupam mais nas suas soluções informáticas públicas, e fica disponível mais dinheiro dos contribuintes alemães para outras áreas.

Num país tão constrangido financeiramente, é importante repensar um pouco a estratégia de aquisição de soluções informáticas. É verdade que os lobbies irão sempre ter um peso descomunal sobre a solução que será adoptada. E têm argumentos de peso para o fazerem. Mas um gestor público inteligente pode fazer um belo truque sujo: optar por soluções de larga escala muito baratas, desenvolvidas pelas suas próprias equipas com soluções open source, eventualmente pagando apenas por alguma transferência de know-how inicial, e justificar a opção junto dos «tubarões» dos lobbies em termos de cortes orçamentais (o que até bem pode ser verdade!). Isto é uma oportunidade de ouro para se dar a volta a este «cancro» que conduz a uma sangria de dinheiro desperdiçado inutilmente e que só dá mau nome à informática, para além de desmoralizar os profissionais da área que trabalham na função pública…

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4 pensamentos sobre “É triste gastar-se tanto dinheiro…

  1. Pingback: Porque é que Portugal precisa de adoptar Software aberto/livre? – adrianoafonso.net

  2. Olá, Não sei se vocÊ trabalha em orgão público.
    Hoje a maior parte da Instituições usam SF”Soft livre”.
    As próprias instituiçõe educacionais estão todas migrando para linux, e faz um bom tempo isso.
    As escolas públicas do Ceará estão usando linux como boa parte do governo.
    ubuntu, Openldap, Zimbra, Broffice, Squid, Iptables e entre outras mais.

  3. Olá Luis Miguel Sequeira.
    Há muito tempo que não tenho noticias suas.
    É muito bom “encontrá-lo” e sobretudo por encontrá-lo empenhando-se em “guerras” de cidadania.
    Eu pelo menu lado, não dispondo de “megafone”, e práticamente já fora do activo, vou fazendo o que posso e é muito pouco.
    Sendo coordenador/formador do INA, no curso de Bases de dados Modelo Relacional, ministro o dito curso sobre software aberto desde, se bem me lembro, 2004.
    Receba cumprimentod do
    Dias Costa

  4. Olá Luis Miguel Sequeira.

    Há muito tempo que não tenho noticias suas.
    É muito bom “encontrá-lo” e sobretudo por encontrá-lo empenhando-se em “guerras” de cidadania.
    Eu pelo menu lado, não dispondo de “megafone” nem de “peanha” ou cátedra, e práticamente já fora do activo, vou fazendo o que posso e é muito pouco.
    Sendo coordenador/formador do INA, no curso de Bases de Dados Modelo Relacional, ministro o dito curso sobre software aberto desde, se bem me lembro, 2004.
    Receba cumprimentos do
    Dias Costa

    P.S.: Como não pude editar, para correcções, o primeiro comentário, corriji e submeto uma nova versão. Agradeço que, se possível, a versão anterior seja removida.

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