A falácia da autoridade

Fonte: Wikipedia

No espaço de mais ou menos 24 horas, li dois artigos sobre o inquérito realizado pela Universidade Católica sobre o número de católicos no nosso país. Embora não citem exactamente os mesmos números, tanto a RTP como o iOnline quiseram, de alguma forma, dar a entender que há menos católicos, apesar de serem quase 80% da população (segundo a RTP) ou 93,3% (segundo o iOnline), e tentam dar, de certa forma, uma imagem pejorativa dos fiéis da ICAR. Depois, ao fazer pesquisa para um outro projecto meu, apanhei uma série de artigos em que se mostrava como uma citação errada, aplicada com intenções maliciosas, tentou «provar academicamente» que padres católicos alucinados tinham enforcado a população de Lisboa na sequência do terramoto de 1755, culpabilizando-os da «ira de Deus» que teria «causado» o terramoto — quando não existem provas documentais sobre o assunto, pelo contrário: todas as provas documentais apontam para precisamente o contrário. Os artigos são interessantes porque mostram como, baseados na «falácia da autoridade» (neste caso, a credibilidade científica de um investigador anti-católico), rapidamente se propagam mentiras sem cabimento.

As interpretações do estudo da Universidade Católica são mais soft mas também assentam em duas falácias cometidas pelos próprios investigadores que realizaram o inquérito.

A primeira falácia é contabilizar como «católico» todo aquele que é baptizado. Ora como na esmagadora maioria dos casos, o baptismo dá-se numa idade em que não temos sequer consciência de nós próprios, isto significa mais um «crente» para as estatísticas. A única forma de sairmos desta «lista» e deixarmos de contar para as estatísticas é assinar uma declaração de apostasia. Isto tem consequências: não poderemos mais casar pela Igreja Católica ou ser enterrado num cemitério católico. Por isso ninguém sai da «lista». E isto significa que a ICAR pode então, com legitimidade, dizer que representa pelo menos 87,9% dos portugueses baptizados.

A segunda falácia é a história dos «católicos não-praticantes» que são contabilizados como «católicos»… embora não pratiquem nada de acordo com os ensinamentos da ICAR. Vou-me debruçar um pouco mais sobre isto.

Eu sou vegetariano não-praticante, desportista não-praticante, abstémio não-praticante, e fã de futebol não-praticante. Quer isto dizer que acho que a dieta vegetariana é mais saudável e mais compassiva (não precisamos de torturar animais para os comer), mas como 80-100g de proteína animal todos os dias. Acho que o desporto faz bem à saúde e deve ser praticado regularmente, a bem da saúde pública, mas não faço qualquer forma de exercício físico. Penso que o álcool é uma droga legal demasiado acessível e que o seu acesso devia ser mais restrito, e que as pessoas deveriam voluntariamente deixar de o consumir, mas bebo meio copo de tinto todos os dias. Não vejo nada de muito mal no futebol, mas não sou sócio de nenhum clube, não vejo jogos, e não leio jornais desportivos.

Se me fizessem um inquérito a perguntar se sou vegetariano, deportista, abstémio e fã de futebol, não podia responder «sim, mas não-praticante». Qualquer investigador sério morria de riso, ou acrescentava uma cruzinha a dizer «idiota chapado». No entanto, estranhamente, é perfeitamente plausível dizer-se que se é católico, mas não-praticante.

Este absurdo baseia-se numa falácia mais subtil (referida no artigo da RTP). É que muita gente até simpatiza com a ICAR, mas não segue os seus ensinamentos. Eu também simpatizo com a ICAR, por variadíssimas razões. Mal ou bem, preservou ensinamentos preciosos para construir uma sociedade melhor, ao longo de 2000 anos (mesmo que poucos os conheçam, e de entre os que os conhecem, ainda menos os praticam). Tem uma acção social incrivelmente vasta e dispersa: se não fosse a ICAR em Portugal a assegurar metade da segurança social e assistência social, os contribuintes teriam de pagar o dobro para o Estado assegurar a acção social. Todos ganhamos — sem suspeitarmos — imenso pelo facto da ICAR existir e estar activa em Portugal. Portanto, a ICAR tem o meu like no Facebook.

Até muitos poderão concordar com alguns dos ensinamentos. Por exemplo, «não matar» parece ser uma forma razoável de levar a nossa vida. Mas o facto de alguém simpatizar com o «não matar» não o torna num católico (não-praticante). O «não matar» nem sequer é copyright da ICAR — faz parte de todas as religiões e filosofias humanistas. Aliás, se quisesse ser mauzinho, até diria que a doutrina da ICAR é mais «não matar excepto quando justificado», e isto se calhar ainda traria mais simpatizantes, que, ao manifestarem-se simpatizantes, tornar-se-iam automaticamente católicos não-praticantes. Seria a mesma coisa que eu comer uma maçã e imediatamente ser registado nas estatísticas como vegetariano.

Outros pensarão (como o artigo da RTP refere) que, bom, cultural e socialmente, são católicos, mas não vão à missa porque não têm tempo (como diz o iOnline), por isso não são praticantes. Mas a missa não é a «prática» dos ensinamentos católicos. É, sim, uma celebração de uma comunidade que está de tal forma feliz por Cristo lhes ter transmitido um caminho para a salvação — e que lhes permite, aqui e agora, construírem o Reino de Deus — que alegremente se reúnem em Seu nome todos os domingos para celebrarem a fortuna de terem recebido ensinamentos tão preciosos. Ir à missa «porque é obrigação» ou «porque é socialmente louvável» ou ainda porque «fica mal não ir, que pensarão os vizinhos?» não tem nada a ver com ser-se um católico praticante. Um católico praticante não acha a missa «uma seca» ou sequer uma coisa que «tem de fazer porque a ICAR diz, e eu faço tudo o que a ICAR diz». Não, vai à missa porque compreende o seu significado, e alegra-se com isso — vai entusiasmado, bem disposto, e contente.

Mas também sabe que não é o «ir à missa» que o torna praticante. Praticante é aquele que pratica, realmente, o que os ensinamentos da ICAR lhe propõem como modo de vida, para que tenha uma vida feliz, e que possa fazer a vida dos outros também felizes, numa sociedade melhor — o «Reino de Deus na Terra». Estas metáforas, alegorias e imagens fazem parte da linguagem religiosa, mas é preciso compreender o que significam. Poucos católicos (mesmo aqueles que se dizem «bons praticantes») sabem sequer qual a essência da mensagem de Cristo — a Regra de Ouro: «Ama o próximo como a ti mesmo» — e, mesmo que a saibam citar, pouco compreendem da forma como se coloca este precioso ensinamento em prática.

A parte mais complicada da Regra de Ouro é o «conhece-te a ti mesmo». Implica introspecção cuidadosa e prolongada. É difícil de fazer, e os métodos propostos pela ICAR são complicados e por vezes incompreensíveis. O retiro monástico permite, por exemplo, o afastamento das tarefas mundanas do dia-a-dia para contemplar, em relativa calma, a importância de se conhecer a si mesmo, e, efectivamente, conhecer-se. Isto é muito difícil de fazer. A maior parte das pessoas nem quer pensar no assunto: têm medo de olharem para si próprias e verem como realmente são. Mas não podem ser «praticantes» dos ensinamentos preciosos de Cristo se não seguirem a Regra de Ouro.

A outra parte da Regra de Ouro é mais fácil, e há muitas dicas para como a colocar em prática. «Ama o próximo» — primeiro de tudo, amar. Amar é meramente desejar a felicidade de outro, sem esperar absolutamente nada em troca: é um amor totalmente altruísta. Isto também não é fácil de conseguir fazer, mesmo que seja fácil de compreender intelectualmente. Normalmente, desejamos que os nossos amigos e familiares estejam felizes, porque ganhamos algo em troca — seja favores, sejam mesmo bens materiais. Mas na mensagem de Cristo o amor é para ser praticado livre de expectativas de ganhos pessoais: é um amor desinteressado, no strings attached. O «próximo», no entendimento da ICAR, são todos os seres humanos à face do planeta. Não são apenas os familiares, vizinhos e amigos — é por aí que se começa o treino, claro, porque é mais fácil, mas depois tem de se progressivamente alargar aos desconhecidos, estranhos, e mesmo aos nossos inimigos. Sim, até aos políticos no poder, aos terroristas que matam católicos na Irlanda do Norte, aos pedófilos e sociopatas. Isto é muito difícil de fazer.

Por isso é que a ICAR tem imensos métodos para ajudar, aos poucos, a chegar lá. Começa-se, por exemplo, por uma conduta ética correcta. Os Dez Mandamentos são uma boa base. O evitar «cair no pecado» continua o treino. E depois pode-se ir sofisticando mais e mais esta prática de «amar o próximo». Mas não é meramente um seguir de rotinas pré-estabelecidas dogmaticamente, como dizem os anti-católicos. É preciso entendimento e auto-conhecimento. Porque é que não devemos matar outras pessoas? Porque elas sofrem horrivelmente quando morrem, assim como os seus familiares e amigos. Então, abstermo-nos de as matar porque as amamos — queremos que sejam felizes e que não sofram. Porque é que não roubamos? (E no roubar também está implícito o «tomar algo que não nos pertence». Um político corrupto «tira» dinheiro que não é seu para o seu próprio interesse pessoal, e isto vai violar um mandamento sagrado) Pela mesma razão: as pessoas ficam tristes quando ficam sem algo a que têm apego e que consideram seu. E podemos ir por aí em diante, para todos os mandamentos, regras, preceitos, e sugestões que fazem parte da vasta literatura acumulada em 2000 anos pela ICAR.

Ora quem chegou a este ponto já vai dizer: «mas isto é impossível de colocar em prática!» Basta pensar que só nos apetece é dar um estalo ao empregado das Finanças que nos aplicou uma multa; ou que um pontapé num vadio que nos tenta roubar é perfeitamente justificável; ou que berrar com pessoas para as convencer de que nós temos razão e elas não é plausível. Reverter esses hábitos é ser um «totó», um palhaço, que vai ser gozado e abusado toda a vida. Talvez. Mas nunca ninguém disse que ser-se católico praticante era «fácil». Tudo o que se diz é que, se se seguirem estas regras, podemos criar o «Reino de Deus na Terra», aqui e agora — uma comunidade de pessoas felizes que não anda a lixar-se mutuamente — e que isso garante aos praticantes a Salvação, que é a vontade divina. Podemos cortar com a parte da «vontade divina» se nos fizer sentir desconfortável, mas se analisarmos a proposta da prática sugerida por Cristo, podemos ver que uma sociedade onde todas as pessoas não se matam nem se roubam mutuamente, mas que genuinamente se preocupam em fazer os restantes membros da sociedade felizes, sem esperar nada em troca, é uma sociedade ideal.

Ora um «católico praticante» não é — ainda — um santo: alguém que colocou os ensinamentos de Cristo em prática e que os realizou perfeitamente em todos os seus actos e pensamentos, em todos os momentos da sua vida. Mas a aspiração de santidade faz parte da doutrina católica. Um praticante é alguém que tem consciência de que ainda não é santo mas faz um esforço para o ser. Santo aqui significa apenas um ser humano perfeitamente vulgar que coloca a Regra de Ouro em prática a todos os momentos, que o faz espontaneamente, sem precisar sequer de pensar duas vezes no assunto — fá-lo porque se treinou mentalmente para que essa forma de pensar, falar e agir lhe seja perfeitamente natural. Um praticante é quem está a treinar-se igualmente para ser assim.

Colocadas as coisas desta forma, a dúvida é: mas será que há gente assim? Claro que há. E até são muitos! Não quer dizer que se transformem em santos de um dia para o outro, mas têm profunda convicção e confiança de que um dia o serão, se continuarem a agir de acordo com os ensinamentos de Cristo, interpretados pela ICAR. E ao longo dos dois mil anos de história da ICAR, há sem dúvidas muitos que se tornaram santos, justamente porque levaram a sua prática a sério — e não ocorreu num «passado distante» mas continua a acontecer todos os dias da actualidade. Depois existe um grupo muito mais vasto de pessoas que, embora ainda não sejam santos, estão genuinamente a trabalhar nesse sentido.

Quantas serão em Portugal? Talvez mmmh… 6 ou 7%. Mas como foi citado pela RTP Notícias, o que interessa é a qualidade, não a quantidade. Mil católicos genuinamente praticantes são melhores do que nove milhões de pessoas a pendurarem crucifixos, acenderem velinhas a Nª Srª de Fátima, e a devorarem banquetes depois de um casamento na Igreja. Isso é superstição e crendice; faz parte do «folclore» associado a uma religião; mas nada tem a ver com a prática de um católico praticante que segue os ensinamentos de Cristo. Mesmo um católico genuinamente praticante faz a diferença: olhe-se para a Madre Teresa de Calcutá, para dar um exemplo recente. Ou veja-se o que fez um S. Francisco de Assis. São exemplos para os católicos porque mostram até onde pode levar a sua prática, quando levada a sério. Mas também são exemplos para o mundo: apesar de não possuírem nada, apesar de terem uma mentalidade completamente diferente do resto da sociedade onde vivem, apesar de seguirem modelos incompreensíveis para a maioria de nós, são respeitados e reverenciados por toda a humanidade como exemplos a seguir. Aqueles que menos glória quiseram para si próprios, que nenhuma aspiração mundana tinham, e que colocaram constantemente a felicidade dos outros acima dos interesses pessoais são depois estranhamente reverenciados mundialmente como seres nobres e bondosos e cujo exemplo deve ser seguido.

Ora nestes inquéritos — ainda mais estranhamente por virem da Universidade Católica! — minimiza-se completamente a parte essencial do que é «ser um católico praticante». O inquérito apenas dá a entender que a ICAR é uma espécie de clube de futebol, com muitos membros, mas que a maioria nem sequer paga quotas ou vai à assembleia geral, e que nem sequer concorda lá muito com a direcção do clube. Mesmo assim, penduram cachecóis nas paredes, sem saberem lá muito bem porquê. Ora tal como é ridículo contabilizar como sócio do Sporting alguém que nunca se inscreveu no clube, nunca pagou quotas, não percebe nada das regras do jogo, não sabe o nome dos jogadores, não vê jogos na TV, não sabe quem é o presidente do clube ou o melhor jogador da equipa… é perfeitamente ridículo contabilizar como «católico não-praticante» alguém que percebe tanto dos ensinamentos de Cristo e de como os meter em prática como eu percebo de futebol.

O inquérito releva curiosamente que, noutras práticas religiosas, o número de crentes que se considera efectivamente «praticante» é extraordinariamente mais elevado. Porquê? Porque talvez tenha sido feito um esforço nessas religiões de explicarem melhor qual a sua própria visão e de como a colocar em prática, e de qual o seu objectivo e porque é que esse objectivo é importante — não apenas para o praticante, mas para toda a comunidade de seres humanos neste planeta. Se essa visão nos diz alguma coisa, então sentimo-nos motivados para nos empenharmos na sua concretização — especialmente se nos é dito que está ao nosso alcance. Basta não sermos preguiçosos e realmente empenharmo-nos.

A visão da ICAR — a construção do Reino de Deus na Terra — está associada à prática constante, a todos os momentos, da Regra de Ouro. Quem esteja verdadeiramente empenhado em fazer um esforço em concretizar essa visão — tornar-se santo — leva a sua prática a sério. Ir à missa nem é assim tão importante — é apenas algo que se faz com prazer, regozijando-se com os restantes praticantes por terem a mesma visão e a mesma prática. Um católico praticante pode não ser ainda santo, mas tem a aspiração de o ser, e conhece os métodos para lá chegar, porque acredita que uma sociedade construída sobre esses princípios é uma sociedade melhor — e que esse é o Plano Divino e a razão pela qual Cristo se deu ao trabalho de explicar o método para lá chegar. Mesmo que não sejamos crentes em absolutamente nada, e que nem sequer acreditemos em Deus, Cristo, ou nos ensinamentos da Igreja (seja ela qual for), penso que a esmagadora maioria dos seres humanos reconhecerá que um mundo onde todos colocam os interesses dos outros antes dos interesses pessoais é um mundo melhor, onde todos saiem a ganhar. Construir isso é legítimo. Católico praticante é quem está a trabalhar genuinamente nesse sentido, sem desesperar com as dificuldades — porque não é fácil ser-se radicalmente oposto à mentalidade vulgar, que promove justamente os valores contrários — mesmo que saiba que tem um longo caminho a percorrer. Mas é a vontade e o empenho de percorrer esse caminho que o torna num católico praticante genuino.

O resto são simpatizantes. Não é mau fazer inquéritos sobre o número de simpatizantes. As agências de marketing também fazem estatísticas sobre o canal de TV ou o programa de TV favorito. Ou a marca de biscoitos de cão com a qual as pessoas simpatizam mais. Mas «simpatizantes» não são católicos praticantes. Não há, realmente, «católicos não-praticantes» — segundo o dogma da ICAR, não há salvação fora da ICAR, portanto ou se é católico praticante, ou não se é nada. Este artifício de colocar o rótulo de «católico não-praticante» a milhões de portugueses que simpatizam com a ICAR mas que não têm a menor intenção de praticar os ensinamentos que a ICAR disponibiliza é uma falácia intelectual, e quem promove um estudo académico alegadamente científico com este tipo de classificações não está a ser intelectualmente honesto. Está apenas a justificar a importância desmesurada dada à ICAR enquanto instituição e a diminuir a importância, essa sim válida e genuina, daqueles que colocam os seus ensinamentos em prática. E está a perpetuar a imagem de uma instituição cheia de simpatizantes mas que não são realmente «membros», e que, por gozar de tantas simpatias, merece, de certa forma, um papel de destaque — o que tem implicações políticas, que por sua vez pouco ou nada têm a ver com a mensagem de Cristo («A César o que é de César»).

Ora eu sou meramente um simpatizante da ICAR e por isso a defendo pela dignidade que merce; mas respeito muito mais aqueles que são genuinamente católicos praticantes. Nada tenho contra os simpatizantes, claro, mas um simpatizante não é um praticante. É apenas isso: um simpatizante.

Também nada tenho a opôr que se procure estabelecer academicamente, sem sombra de dúvida, que a nossa sociedade é de inspiração católica. Não deveriam haver dúvidas a esse respeito.

Agora dizer que 80-90% da população se empenha, de alguma forma, a colocar os ensinamentos de Cristo em prática (mesmo que não vá à missa todos os domingos) é uma afirmação ridícula. Se fosse assim, já teríamos o Reino de Deus na Terra. Basta olharmos à nossa volta para ver que assim não é.

Anúncios

4 pensamentos sobre “A falácia da autoridade

  1. Duas notas: primeiro, recomendo que a leitura dos artigos publicados pela agência Ecclesia sobre o inquérito da Católica (um pouco confusos e a necessitar de ruminação), onde se podem encontrar alguns “interstícios” informativos bem interessantes e esclarecedores da prática religiosa em Portugal. Segundo, como católica “praticante” (ou simplesmente católica) corrijo a afirmação feita sobre a frequência da Missa. Para os católicos é mesmo fundamental frequenta-la, não só pela alegria da comunhão com os irmãos mas sobretudo pela comunhão com o próprio Cristo, através do Seu corpo consagrado na hóstia. De certa forma, um cristão até poderia ir à Missa apenas para a comunhão consagrada, o “tomai e comei”. Os protestantes celebram a palavra sem comunhão de espécies (corpo e sangue) e procuram fazer o bem e “treinar-se” para o Reino (como refere o texto) quanto muito através da comunhão espiritual e com os irmãos. Pelo contrário, para os católicos nenhum dos seus esforços de bem-fazer tem sentido real nem cria alicerces duradouros se não se fundar em Cristo e esta comunhão tem de ser realmente corpórea – o próprio Cristo instituiu a Eucaristia (dá-se em corpo e sangue) precisamente porque ao tomá-lO (num acto voluntário, consciente e de coração aberto), o cristão alimenta (literalmente) a sua relação com Cristo. É dessa relação que nasce toda a obra do Reino. Por isso mesmo Cristo encarnou – em-“carne”, tornou-se homem, teve corpo, por inteiro – e se mantém vivo, continuando a dar-se, na Eucaristia. Sem isso, por melhores que sejam, todos os esforços de bem dos seres humanos serão finitos e facilmente levados pelos “ventos” (da história, da sociedade, da fragilidade humana).

    • Muito obrigado pela clarificação e pela «dica» — estive a ler também os vários artigos no site oficial da Agência Ecclesia. Noto que os números são um pouco diferentes e fica mais claro que se tratou efectivamente de um estudo encomendado pela Igreja Católica portuguesa, e não meramente uma iniciativa dos investigadores da Universidade Católica. Num dos artigos é explicada a utilização da «definição» de «praticante observante» como «ir à missa todos os domingos e dias santos».

      Não era propósito deste meu artigo estar a aprofundar a discussão doutrinal/teológica da ICAR ou sequer de «justificar» a interpretação feita pela ICAR do significado de certas passagens da vida de Cristo registadas nos textos considerados sagrados; mas sim explicar que existe um conjunto de práticas de base que conduzem efectivamente a uma mudança de mentalidade e atitude, buscando como objectivo final o estabelecimento de uma comunidade de seres humanos que sigam uma conduta ética irrepreensível que os faça felizes. Embora doutrinalmente isto possa ser encarado como sendo apenas possível mediante a realização de «rituais sagrados» e, como tal, ter de ser aceite dogmaticamente por quem se intitule praticante, a construção do «Reino de Deus na Terra» não se faz pela diligência à ida dominical à missa, mas pela transformação da mente do praticante de acordo com a Regra de Ouro, seguindo as várias metodologias ensinadas directamente por Cristo e, mais tarde, interpretadas e acrescentadas pela própria ICAR. Não queria, no entanto, estar a elaborar muito sobre este aspecto doutrinal. Basta-me registar que alguém que coloque diligentemente em prática os ensinamentos de Cristo, e que efectivamente mude a sua atitude mental para estar em conformidade com o «Reino de Deus na Terra», se sentirá naturalmente satisfeito por se juntar, em assembleia de fiéis, com aqueles que seguem os mesmos princípios (independentemente dos rituais sagrados que existam nessa assembleia). Em contraste, o mero «ir à missa porque tem de ser, e porque caso contrário de nada serve», sem o menor interesse pessoal em empenhar-se na construção do «Reino de Deus na Terra», acaba apenas por servir de medida para definir um número estatístico de «fãs» da ICAR, mas nada revela sobre a efectividade com que os ensinamentos de Cristo, nessas pessoas, estão a transformar as suas mentes.

      Por outras palavras, se 90% da população portuguesa vai à missa sem a atitude correcta, isso de nada serve, do ponto de vista da construção do «Reino de Deus na Terra». Se nove milhões se empenharem em colocar os ensinamentos de Cristo em prática, tal como são expostos e interpretados pela ICAR, independentemente de irem à missa ou não, este país não teria o aspecto que tem 🙂

      Seja como for, este artigo não era sobre a importância de ir à missa para os católicos praticantes. Era sobre a importância de não contabilizar como católicos aqueles que não são praticantes mas meramente simpatizantes…

      • Os filhos de Deus se conhecerão pelas suas obras… 😉 e eu não contradisse nada do expresso no texto sobre a contabilização de católicos como aqueles que são somente “simpatizantes”. Limitei-me a clarificar uma afirmação generalista “Ir à missa nem é assim tão importante — é apenas algo que se faz com prazer, regozijando-se com os restantes praticantes por terem a mesma visão e a mesma prática”.
        De certa forma, o que escrevi reforça o argumento invocado no primeiro texto, ou seja, realmente os que verdadeiramente agem como católicos, mais do que somente baptizados, são relativamente poucos (cerca de 20% da população, se a memória não me falha). Aproveito para acrescentar agora que, para um católico (sério) a construção do Reino de Deus e o seu papel nela é mais uma consequência (fruto) da relação que mantém com Cristo do que um objectivo em si mesmo. Daí a centralidade da Missa e, particularmente, da Eucaristia, sem as quais a intimidade dessa relação e o seu desenvolvimento no tempo se tornam muito mais complicados. Mas esse é outro tema diferente.

  2. Um pequeno disclaimer: muitas das ideias presentes no meu artigo não são da minha autoria, mas do meu professor — apenas elaborei sobre o assunto, seguindo as minhas próprias reflexões, e inspirado pela apresentação do inquérito referido e das «conclusões» que procuraram tirar do mesmo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s