Temos os políticos que merecemos!

Retrato oficial do Primeiro-Ministro de Portugal Pedro Passos Coelho
Fonte: Wikipedia e Governo da República Portuguesa

Somos um país de treinadores de futebol de bancada e de políticos de café. Sem qualquer experiência, consideramos mesmo assim termos opiniões válidas sobre ambos os assuntos. Mais ainda: as nossas opiniões estão, regra geral, sempre mais correctas do que as opiniões reais dos treinadores e dos políticos.

Em democracia, todos temos o direito a ter opiniões, por mais estapafúrdias que sejam. Temos inclusive o direito de as propagar. Isto é a maravilha do direito à liberdade de expressão que nos é garantido constitucionalmente.

Mas não quer dizer que lá porque tenhamos uma opinião, esta seja válida — mesmo que seja também defendida por muitos dos nossos familiares, amigos, colegas e conhecidos.

Ainda hoje recebi por e-mail mais um texto de protesto contra a corrupção dos políticos, pedido o apoio a mais uma iniciativa para limitar o seu poder e a sua capacidade de acederem a dinheiros públicos para seu benefício próprio. Ninguém poderá discordar deste tipo de iniciativas. Afinal de contas, não é o objectivo dos políticos tomar medidas que beneficiem a esmagadora maioria dos cidadãos, em vez de beneficiarem uns poucos? Não é isso que reconhecemos como sendo uma atitude moralmente correcta, uma atitude honrosa, demonstrando elevados valores democráticos, dignos do nosso respeito — e também do nosso voto?

Ao observarmos a classe política no seu todo, independentemente do partido a que pertençam, o que vemos? «São todos corruptos», diz o povo, e já o imortal Eça de Queirós há 150 anos afirmava que «só os corruptos querem lugares no Governo» — passando a mensagem de que «homens de bem», por justamente terem valores mais elevados, nunca «desceriam» ao nível de aceitarem um cargo governamental ou no Parlamento. Nada mudou em 150 anos: aqueles que são eleitos para governarem o país são moral e eticamente corruptos ou corruptíveis, e atraiem justamente pessoas com a mesma ausência de escrúpulos para o Poder. Aqueles que eventualmente sejam «pessoas de bem», uma vez no Poder, perdem os escrúpulos. Já Lord Acton nos advertia que «o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente».

Isso coloca-nos inevitavelmente a questão: porque é que só temos políticos corruptos, ou potencialmente corruptíveis quando assumem funções, para escolher? Não temos «direito» a eleger representantes com sentido de Estado, que saibam assumir compromissos de honra, e que executem acções para o benefício dos cidadãos comuns, em vez do benefício próprio (ou daqueles que estão próximos de si, incluindo as grandes empresas que vivem do Orçamento do Estado)…?

Bom, a resposta mais sincera é «não». Mas não é assim tão óbvio como isso afirmar porque é que a resposta é negativa.

Em conversas de café, é frequente ouvir cidadãos irados e revoltados contra o Governo (seja este, seja outro qualquer), dizendo que seria «tão fácil» que estes fizessem X ou Y, ou deixassem de fazer Z, para que tudo nos corresse melhor. Na ‘net circulam mails com informação sobre concursos públicos viciados, nomeação de familiares para cargos públicos sem consulta prévia, e todo o tipo de «pequenas coisinhas» onde os dinheiros públicos são empregues para beneficiarem uns poucos. Nas notícias de primeira página encontramos escândalos relativos a esse tipo de «benefícios», sobre reformas triplas antecipadas, sobre distribuições de dinheiro a grandes empresas (como, por exemplo, nos casos BPN ou Freeport…) onde claramente os políticos obtiveram uma parte substancial dessas distribuições de dinheiro. E o povo, claro, pergunta porque é que tem de ser assim. Se, graças à democracia que nos concede liberdade de expressão e uma certa transparência governativa, estes casos são todos públicos, porque é que continuam a acontecer, independentemente da cor política de quem está no Governo?

Mas experimentemos a seguinte abordagem. Com o indivíduo em questão calmo, perguntemos-lhe sinceramente o que faria se fosse eleito para o Governo. Teremos pacientemente de ouvir um longo discurso sobre cortar impostos, aumentar o salário mínimo e as pensões, fixar os preços dos medicamentos, acabar com as propinas e as taxas moderadoras. Mas depois façamos a seguinte pergunta: «É casado?»

Provavelmente a resposta será «sim». Altura em que perguntamos se o cônjuge trabalha: nos dias que correm, é possível que uma em cada três respostas seja «não, por causa da crise». Nessa altura perguntamos: «se fosse eleito, não seria bom que o seu cônjuge pudesse voltar a ter um emprego qualquer?»

Talvez isto confunda um pouco o nosso interlocutor. Sugerimos então que esse emprego poderia ser algo de simples: por exemplo, dirigir uma associação de caridade. Isto geralmente fará com que o sorriso do nosso interlocutor se alargue e que concorde connosco. A seguir fazemos a mesma pergunta relativamente aos filhos. Se forem já adultos também provavelmente estarão desempregados ou terão empregos muito abaixo das suas capacidades. Nesse caso a pergunta será: «E os seus filhos? Não merecem um emprego melhor?» Se houver hesitação — um interlocutor inteligente perceberá onde queremos chegar — talvez diga que sim, que merecem um emprego melhor, mas que não seria legítimo dar-lhes um cargo no Governo como consultor ou coisa parecida, isso é o que os políticos corruptos fazem.

É aqui que temos de intervir com implacabilidade e dureza. O argumento é o seguinte: «Então mas que pai/mãe é que é, que não deseja o melhor para os seus próprios filhos, que tanto andaram a lutar contra um sistema corrupto que não lhes deu oportunidades? Está-me a dizer que, uma vez tendo sido eleito e obtendo a capacidade de corrigir o sistema, a primeira coisa que irá fazer é prejudicar os seus filhos? Diz-me que os políticos actuais não têm qualquer espécie de valores morais e que só pensam no interesse próprio; mas, enquanto pai/mãe, que raio de valores morais são os seus, que nem sequer consegue pensar no benefício dos seus próprios filhos uma vez tendo atingido uma posição no Governo? Como pode abdicar imediatamente dos seus próprios valores morais e abandonar a sua família uma vez eleito? Não é isso que critica abertamente nos actuais políticos?»

Isto já deixará a pessoa em questão desconcertada. Dependendo do seu sentido de ética e civismo, provavelmente conseguirá balbuciar qualquer coisa como «um político honesto colocará o serviço ao Estado acima dos interesses familiares» mas talvez sem muita convicção: na sua mente já estará a imaginar-se nos amplos e vastos quartos de S. Bento deixando o cônjuge e filhos numa barraca a tiritarem de frio e de fome, e não se sentindo muito confortável com essa ideia.

Mas, encorajando-o/a, podemos acenar afirmativamente e louvar o sentido de Estado. Passemos a questões práticas. Os candidatos não «caiem do céu». Precisam de fazer campanhas, precisam de ser vistos pela população, precisam de cartazes e publicidade. Embora provavelmente vociferando contra a corrupção instaurada nos partidos, com um pouco de paciência, qualquer cidadão perceberá que é impossível ser-se eleito, assim vindo do «nada», sem uma estrutura político-partidária a financiar a candidatura. Talvez concordem que as famílias Azevedo, Balsemão, Espírito Santo, etc. pudessem, se quisessem, financiar os seus próprios candidatos fora dos partidos, mas, para o cidadão comum, a única hipótese de ser eleito é através de um partido. E não pode ser um partido qualquer: tem de ser um partido rico (no sentido que consiga montar uma campanha nacional), e, como é sabido, só existem cinco, dois dos quais com a possibilidade de eleger um primeiro-ministro. Portanto o nosso amigo não teria nenhuma hipótese de chegar a primeiro-ministro sem passar por um dos «grandes partidos»·

E agora convém então colocar as perguntas mais embaraçosas. Vamos perguntar ao nosso interlocutor se tem amigos. «Sim, claro!» E já pediu dinheiro emprestado aos seus amigos? Talvez alguns digam que sim, outros vão dizer que nunca pediram dinheiro emprestado (por uma questão de princípio, o que deve ser louvado). Mas se formos mais subtis vamos conseguir perguntar se obtiveram alguma vez «apoio» ou «ajuda» de amigos… seja uma referência bancária (ser fiador de um empréstimo, por exemplo), seja um «contacto» que permitiu aceder a alguém que lhe tenha dado um emprego melhor, etc. De certeza que se recordarão de algum amigo ao qual ficaram a «dever um favor». E depois fazemos a pergunta: «E esse favor, foi pago?» A resposta será de certeza afirmativa. Pode ter sido apenas um jantar ou uma garrafa daquela colheita especial que o amigo gosta. Pode ter sido lembrar-se de que aquele lugar que vagou na loja onde trabalhamos poderia ser preenchido pela sobrinha do nosso amigo, e pedir-lhe o CV. Pode ter sido o nosso mecânico favorito que tenha uma oportunidade de venda daquele BMW novinho em folha, mas que só o fará a um preço absurdamente baixo a «amigos e clientes», e nós, cheios de vontade de «pagar o favor», adquirimos a viatura em nome do nosso amigo. Seja como for, o que todos nós vamos admitir é que, ao longo da nossa vida, recebemos «favores» de amigos que mais tarde pagámos de alguma forma. E até nos sentimos bem connosco próprios por causa disso: afinal de contas, um sinal de amizade é justamente contarmos com os amigos quando precisamos deles, e pagarmos na mesma moeda, ajudando-os quando eles precisam, não é assim?

Quando o nosso interlocutor-candidato-de-café-a-primeiro-ministro concordar que é assim que os amigos devem ser tratados, então perguntamos-lhe como deveremos «pagar o favor» de um partido num montante que se pode estimar ser entre 2 a 3 milhões de Euros nos principais partidos, e mesmo um milhão nos menores, que é o que custa uma campanha para colocar um candidato no mais alto cargo de Governo? Isto são muitos favores a pagar! Não apenas aos restantes membros do partido, mas às empresas que facturam generosamente permitindo aos seus donos também desembolsarem vastas fortunas para eleger candidatos. Não será que todos estes «amigos» merecem, pois, que se pague o «favorzinho» que fizeram?

Isto — espero — irá desconcertar ainda mais o nosso querido interlocutor. Talvez ainda tente «escapar-se» dizendo que os membros de um partido e os seus patrocinadores não são, realmente, amigos, e que só muito abstractamente considerará que tem uma «dívida de honra» para com eles… nesse caso, interrogá-lo-emos sobre o seu sentido de honra que se assume tão «puro», se afinal de contas não pretendemos dar qualquer contrapartida àqueles que colocaram a sua carteira generosa à nossa disposição.

Mas mesmo que o nosso interlocutor consiga obter uma justificação muito forte para não «favorecer» de alguma forma aqueles que o ajudaram a ser eleito, vamos poder interrogá-lo sobre a sua futura carreira política e a forma como tratarão dos seus reais amigos e familiares quando estiver no poder. Quando um amigo de longa data lhe telefonar a dizer que está desesperado, sem emprego e sem idade para se candidatar a um  novo emprego, a considerar o suicídio, e perto do divórcio porque a mulher está desesperada com a falta de dinheiro e o culpa de tudo, o que lhe irá o nosso interlocutor dizer? Vai desligar-lhe o telefone na cara após ter informado que se deve dirigir ao centro de emprego mais próximo? Não estamos a falar de «qualquer pessoa» mas sim de um amigo mesmo muito próximo: aquele que nos ajudou com as cábulas na faculdade, aquele que nos apresentou à futura mulher ou marido, aquele que nos levou para casa quando estávamos com o maior dos «pifões» da história, aquele que nos acolheu na sua própria casa quando perdemos o emprego, não pagámos a hipoteca, e o banco nos expulsou de casa, com mulher e crianças ao colo. Teremos mesmo a lata de dizer a amigos como estes que não temos maneira de o ajudar?

Nem que seja arranjando-lhe um pequeno lugar de consultor num instituto obscuro qualquer, pago a recibos verdes? Uns meros tostões comparado com o que o dito instituto gasta em papel, clips e canetas?

Acredito que haja interlocutores que olhem para nós de forma dura, balbuciem Vade retro, Satanás! e que digam que jamais fariam uma coisa dessas por uma questão de elevado sentido de Estado, etc. Amigos são amigos, sim, mas nunca iriam prejudicar o erário público para ajudar um amigo, por mais próximo que este fosse.

Então é preciso mostrar-lhe a outra face da realidade. Uma vez estabelecido no Poder, o nosso interlocutor irá receber «visitas» de certos representantes do grande capital. Vai ficar inteirado das dificuldades com que estes atravessam: com o cancelamento do aeroporto da Ota, por exemplo, as construturas ficaram sem trabalho, e vão ter de lançar, digamos, 3 ou 30 mil pessoas para o desemprego. Ficará mal nos jornais e na TV, mas ainda ficará pior no orçamento do instituto da segurança social. Em contrapartida, dirá o dito representante, se o Sr. Primeiro-Ministro consentir em marcar uma nova data para a construção de um aeroporto novo, podia-se evitar este «escândalo»… Um PM com experiência «adiará» a decisão, prometendo para já pedir mais umas dezenas de estudos, muitos dos quais serão feitos por empresas detidas pelo mesmo consórcio do aeroporto, permitindo assim ganhar algum dinheiro enquanto se espera o anúncio da construção do aeroporto. Ou poderá sugerir algumas pequenas obras de manutenção nos aeroportos existentes. Qualquer coisinha para evitar o colapso da indústria de construção civil, sem «assustar» muito os contribuintes com as elevadas fatias de dinheiro distribuídas a estes empresários…

Ouvindo isto, o nosso interlocutor vai provavelmente ficar vermelho de raiva, bater com a mão na mesa, e berrar: «Não! É justamente para evitar coisas como essa que eu gostava de ser eleito! É para dizer NÃO a esses tipos todos que sangram o nosso Orçamento de Estado em projectos sem interesse nenhum!»

É aí que devemos colocar o nosso rosto mais angelical e beatífico e fazer um sorriso delicodoce e perguntar se tem filhos. Se eles estão bem de saúde, se tudo lhes corre bem na escola. Se o cônjuge que ficará em casa a cuidar das crianças (já que recusou também atribuir-lhe um cargo qualquer…) vai estar bem durante todas as horas de solidão…

«O que quer dizer com isso?» perguntará, incrédulo, o nosso interlocutor.

Nada, respondemos nós. Apenas que serão esse tipo de «preocupações» que serão mencionadas nas conversas com esses empresários, banqueiros, e mesmo membros do partido. Todos eles mostrar-se-ão extremamente interessados na saúde da sua família. E farão questão de que você, futuro primeiro-ministro, queira assegurar a continuidade dessa saúde. Basta para isso continuar a «apoiar» aqueles que são agora os seus principais «amigos» nesta maratona de quatro anos de legislatura…

Perante a chantagem, o seu interlocutor ficará de novo furioso; chega a altura de mudar de novo de assunto. Vamos imaginar que, apesar de todas as tentativas em contrário, o nosso interlocutor conseguiu, efectivamente, evitar cair nas várias «armadilhas» que lhe colocaram. Tem uma vida stressada mas uma consciência tranquila. Os filhos e o cônjuge estão bem de saúde; os amigos, embora talvez um pouco distantes e desapontados, ainda respondem aos telefonemas; e os colegas de partido e os grandes empresários, embora muito desapontados, pelo menos olham para os media e observam que o povo, em geral, anda contente, e isso significa boas perspectivas para mais uma legislatura. Chega, pois, a altura — talvez a meio do terceiro ano do mandato — em que os colegas de partido vão começar a sugerir a preparação para a campanha do próximo ano. O nosso interlocutor, a início, pode nunca ter pensado em candidatar-se a mais de um mandato. Mas depois também lerá a opinião pública a seu respeito. Verá, que em geral, a sua própria conduta ética e honestidade tem caído nas graças da população. Verá que está a fazer o Bem, e que «o povo está calmo e sereno». Começa a interrogar-se se não vale realmente a pena continuar mais quatro anos no poder.

E aqui vai-se envolver numa nova angariação de fundos. Vai ter de falar de novo com empresários e outros financiadores do partido que apoiou a sua candidatura para obter os fundos necessários para mais uma campanha. Mas é aqui que a porca torce o rabo! Ao fim de dois anos e meio sem verem um tostão ou qualquer outra forma de «retribuição» do apoio que lhe deram, não verão qualquer razão para o apoiarem nas próximas eleições. Dentro do partido começam as manobras para o substituir. Prepara-se um escândalo qualquer — lembra-se daquela tal festa em que o seu amigo o teve de levar a casa, completamente bêbado? Pois, parece que tinham havido drogas pesadas envolvidas e uma filha de um antigo jogador de futebol tinha morrido de overdose nessa festa. O Ministério Público vai investigar (recorda-se agora de que recusou ao actual Procurador-Geral arranjar um cargo de «consultora jurídica» à sobrinha? Pois…). Isto vai ser notícia de primeira página em todos os jornais e aparecer na abertura dos telejornais. O partido já tem um sucessor em mente: aquele tipo asqueroso, mesquinho, corrupto que irá fazer as delícias dos colegas e dos empresários, e contra o qual passou o tempo a lutar para o afastar do poder!

Que fazer? Bom, tudo isto poderá ser evitado… se estiver disposto a fazer algumas pequenas concessões. Talvez possa anunciar o novo aeroporto para meados da segunda legislatura. Ou talvez se faça uma complexa fusão de ministérios e institutos, o que é bom para atirar areia para os olhos dos cidadãos, aproveitando, na «remodelação», arranjar lá um lugarzito para a sobrinha do Procurador-Geral. Talvez se consiga extrair mais impostos sobre a gasolina e deixar assim que a GALP tenha dinheiro para investir em mais uns poços de petróleo no Brasil, fazendo com que alguns empresários eminentes ganhem umas comissões — e a concessão de construção desses poços, assim como mais uns barquitos para a frota petrolífera da GALP. Nada de mais. São pequenas coisinhas. Mas, Sr. Primeiro-Ministro, se concordar em assinar aqui e ali… da nossa parte, somos pessoas de honra, e comprometemo-nos a financiar a sua próxima campanha. Ah, e mande já agora os nossos melhores cumprimentos à sua família. Esperamos que estejam todos bem de saúde, e que assim se mantenham.

É claro que a esmagadora maioria dos nossos interlocutores, políticos-de-café num lugar qualquer deste país, pensará que somos loucos se apresentarmos estes cenários. Muitos dirão que «eu jamais irei agir assim!». Alguns até serão capazes de afirmar, com bastante convicção, de que querem lá saber do dinheiro (ou mesmo da família!), tudo o que importa é meter alguém sério e honesto no Poder, e essas «manobras» todas serão evitadas. Uma pessoa honesta, dirão eles, não se sujeitará a este tipo de chantagens, e estará acima mesmo da lamúria e pedinchice dos «amigos» em busca de um «tacho».

Mas antes de mais devemos pensar se não nos estamos a enganar a nós próprios. Falar da boca para fora num café é fácil. Temos de nos interrogar com honestidade — e só nós somos juízes dessa honestidade, mais ninguém — se estivéssemos no Poder, seríamos capazes de resistir a tudo isto?

Porque apesar dos exemplos serem fictícios, a realidade é precisamente esta. Só sabe quem a observou directamente com os próprios olhos.

Mais de metade das pessoas que exercem um cargo político neste país são éticas, competentes, altamente profissionais, e muito esforçadas e trabalhadoras. Muitas delas trabalham 16 horas por dia e 6 ou 7 dias por semana para servirem o seu país. Têm um forte compromisso de honra e um passado imaculado. Muitos até desempenham funções importantes e/ou críticas — mesmo que não saibamos os seus nomes. Contudo, sobre todas elas paira esta espada de Dâmocles: um dia poderá alguém bater-lhes à porta do gabinete e invocar o «pagamento de favores» para mudar ligeiramente as regras a favor de terceiros (ou pseudo-ameaçar a família…). E uma vez tendo feito isto uma vez que seja, esse político passou-se para a outra metade: aqueles que, por vontade própria ou contra a sua vontade, cometeram actos de corrupção em benefício próprio ou de amigos com dinheiros públicos. Uma vez estando nessa classe de políticos, as formas de chantagem são sempre muito mais eficazes — basta relembrar que esse acto de corrupção pode ser veiculado ao público ou ao Ministério Público se não houver cooperação…

Sejamos, pois, honestos. De entre todos os nossos amigos e conhecidos, quem é que conhecemos que tenha uma honestidade e uma moralidade acima de qualquer repreensão? Quem conhecemos que tenha a força de carácter de não ceder sob qualquer pressão — nem sob o risco da sua própria vida ou da dos seus familiares? Quem é que não é susceptível de ser influenciado pelo orgulho, pela fama, pelo prestígio? Quem é que não liga absolutamente nada ao dinheiro que tenha (ou que não tenha)? Numa palavra: quem é que conhecemos que consistentemente coloca os interesses dos outros acima dos seus?

Se formos mesmo honestos, vamos dizer «ninguém». É que este tipo de pessoas existia talvez no passado — em que haviam outros valores morais e éticos — e mesmo assim não eram perfeitos santos. Mas hoje em dia já não existem. O melhor que conseguimos imaginar é alguém que seja um pouco menos corrupto. Por exemplo, penso que a maioria concordará que Passos Coelho, sem ser um santo, é menos corrupto do que Sócrates: foi uma boa escolha nesse sentido. Mas Passos Coelho dobra perante a Tróika, e dobrará perante os colegas de partido, perante os banqueiros, perante o capital, perante tudo isso… pois tem família e um apartamento em Massamá com hipoteca para pagar. Talvez neste primeiro mandato apenas consiga lá meter uns amigalhaços em institutos obscuros e pouco mais, porque estamos em crise… mas quando se acabar a crise, vai voltar aos aeroportos, aos TGVs, às autoestradas. Não vai ter outro remédio, se quiser que lhe financiem a campanha. O capital está-se nas tintas para quem está à frente deste país: António José Seguro pode subitamente ser uma aposta mais segura (como o próprio nome indica!) por ser, digamos, mais flexível aos desejos daqueles que sustentam financeira e economicamente este país.

Não há candidatos imaculadamente puros e incorruptíveis. Mas não os há porque esse tipo de pessoas não se candidata; é que, na actual sociedade, com os valores todos trocados, esse tipo de pessoas praticamente não existe. O «santo» mais «santo» que possamos conhecer entre o nosso círculo de amigos poderá secretamente em casa fazer downloads piratas. Pode não enganar a mulher, mas se calhar já deu uma «dica» a um sobrinho de como se candidatar a um lugar de professor numa escola cujo concurso público ainda não abriu. Pode não fazer especulação financeira, mas descobriu uma forma de ser pago com PayPal para evitar os impostos, e conseguir assim pagar as propinas da universidade do filho mais velho. Pode não estar metido em nenhum lobby, sociedade secreta, ou grupo de pressão, mas quando é convidado para formar uma comissão de avaliação, vai nomear amigos e conhecidos que o apoiem. Fará isto com uma consciência tranquila: «é o que todos fazem».

Motoristas de táxi, cabeleireiras, empregados de café, caixas de supermercado, ou mesmo electricistas e pedreiros, todos nós não somos diferentes em termos de moralidade, comparados com os políticos que elegemos. Se tivermos uma oportunidade de tirar benefícios pessoais fazendo uma pequena «aldrabice» — que ninguém vai notar! — não hesitaremos. Se hesitarmos, seremos alvos da chacota dos nossos amigos e da indignação dos nossos familiares. Se estivermos à frente de um painel de avaliação de um candidato, e quem aparecer for nosso familiar ou amigo, não conseguiremos evitar dar-lhe uma avaliação ligeiramente melhor do que a que merece. «Todos fazem o mesmo» — e se não o fizermos, como iremos encarar a nossa família e os nossos amigos?

Somos educados, desde pequenos, a sermos competitivos e a contarmos apenas connosco próprios, sem confiar em terceiros. Confiar, sim, apenas se houver benefício mútuo. Podemos ao final do mês dar uns tostões para caridade, mas só em troca de um recibo para abater no IRS. Até podemos ocasionalmente ajudar uma velhota a atravessar a rua, mas qual é o benefício que tiramos por ajudar, por exemplo, um casal de desconhecidos do outro lado do bairro, oferecendo-nos para lhes levar a comida a casa? São desconhecidos. Os nossos familiares estão primeiro. Nós estamos primeiro.

Na rotina do dia-a-dia, todos os nossos actos são, quase inconscientemente, feitos de forma a beneficiarem-nos a nós e aos que nos estão próximos (sejam estes familiares, amigos ou colegas) e a prejudicar, mesmo que subtilmente, os que não nos estão próximos. Não devemos criticar demasiado esta atitude. Afinal de contas, foi o que os nossos pais — com a melhor das intenções! — nos ensinaram. É este espírito que anima toda a nossa sociedade. Quem deliberadamente «confie demasiado» em terceiros, ou cometa actos que não o beneficiem, é visto como um «totó». Quem não tenha aspirações ou ambições ou expectativas é um «banana», ou, se formos mais simpáticos, um «alternativo». Mesmo aqueles que pretendem seguir uma ideologia de esquerda e que falem muito do «bem da comunidade» — ou, pelo contrário, que estejam animados pelo fervor religioso que usa precisamente os mesmos termos! — tendem a cometer actos que beneficiem a sua comunidade e a evitar as comunidades dos outros. Os religiosos quererão proteger os crentes e combater — ou pelo menos converter! — os infiéis; os activistas de esquerda procurarão auto-proteger-se contra o Mal do Capital, que são inimigos a abater. Por isso mesmo estas filosofias e ideologias partem do pressuposto que existe o «grupo dos nossos» a defender e a proteger contra o «grupo dos outros». Faz parte da nossa mentalidade!

E isso é estimulado desde que nascemos. Os nossos pais querem que tenhamos sucesso na escola. Explicam que esse sucesso — o de fazermos tudo por tudo para sermos os melhores alunos, mesmo que isso implique não só sacrifício da nossa parte, como eventualmente «atropelar» os colegas mais fracos nos seus estudos, para que nós possamos «sobressaír» — é a preparação para a vida futura, que vai ser altamente competitiva, e que tem como valores o sucesso financeiro, a fama, a boa reputação, o conforto material e de saúde. Só através da competitividade, do saber escolher bem os amigos e contactos, é que se consegue atingir esses objectivos tão desejáveis. E isto é-nos inculcado pelos pais, depois pelos professores na escola, depois pelos patrões que irão premiar e promover aqueles que se mostrem mais competitivos. Mais uma vez: faz parte da nossa sociedade. É assim que funciona.

E funciona bem. Se não fosse a competitividade na Ciência, os cientistas, motivados pela fama e glória, nunca descobririam as coisas fantásticas que criaram a nossa sociedade altamente tecnológica. Mas se não fosse o trabalho deles, e a energia competitiva das empresas que colocaram essas ideias em prática, e, desejosas de fazer mais dinheiro, as espalharam por toda a superfície do planeta — não teríamos a sofisticada tecnologia que temos hoje em dia a preços irrisórios. Se temos a medicina mais avançada de sempre, é porque a indústria farmacêutica e de imagiologia, assim como os próprios médicos, são ganaciosos e querem ganhar mais e mais dinheiro com melhores e mais sofisticados procedimentos médicos (que acabam por ser cada vez mais baratos e estarem cada vez mais disponíveis a um maior número de pessoas). Não podemos dizer que isto seja «mau» por si só! Ninguém, à excepção de alguns libertários de esquerda mais radicais, quer voltar para as cavernas, tendo apenas uma fogueira e umas peles para se aquecer. As utopias das sociedades primitivas só são apelativas para um minúsculo número de pessoas!

No entanto, não podemos esquecer-nos do que criou esta nossa sociedade em que vivemos. Foi ao progressivamente abandonarmos determinados valores, considerando-os obsoletos, e substituindo-os por outros — competitividade, ganância, desejo de fama e glória — que criámos esta sociedade que temos. E estes novos valores permeiam-nos a todos. É por isso que não vamos encontrar políticos que não sejam ganaciosos. Aquilo a que chamamos de «corrupção» não é mais do que o desejo de favorecer aqueles que nos ajudaram — porque não o haveríamos de fazer quando estamos no Poder, já que os não-políticos o fazem constantemente e não são criticados?

Não podemos esperar que um político, nascido e criado no seio da nossa sociedade onde prevalece a lei do benefício pessoal como imperativo máximo, que «descarte» tudo isto quando assume um cargo público, e que subitamente adopte como máxima a lei do benefício de terceiros (especialmente todos aqueles com os quais o político não tem laços familiares ou de amizade — ou seja, os 10,5 milhões de cidadãos deste país). Acreditar que isto seja possível é ser, pura e simplesmente, terrivelmente ingénuo.

A sociedade que temos cria os políticos que elegemos. É o exemplo que damos que faz com que os políticos sejam um espelho desse mesmo exemplo. Se na nossa vida quotidiana beneficiamos aqueles que estão próximos de nós e prejudicamos os que não estão, porque é que estamos à espera que um político — só por ser político! — pense de outra forma? Se a educação que damos às nossas crianças é a do «sucesso a todo o custo através da competição», então quando essas crianças se tornam em políticos, porque é que haveriam de descartar os valores morais com que foram inculcados pelos pais?

Se hoje estamos a educar os nossos filhos premiando-os sempre que eles têm sucesso na escola, dizendo-lhes para não se deixarem enganar por terceiros, para contarem apenas consigo próprios e não confiar muito nos amigos, para dar um murro de volta quando forem atacados pelos bullies… porque estranhamos que daqui por vinte ou trinta anos os nossos próprios filhos, quando assumirem cargos de importância, façam precisamente o que lhes ensinámos? Estamos a ensinar às actuais gerações de que ajudar o próximo sem contrapartidas e sem benefício pessoal é uma estupidez lamechas; estamos a dizer-lhes que é só vencendo todos os inimigos (os colegas de turma) que atingimos sucesso; estamos a dizer-lhes que só os ricos é que são felizes (quando podemos abrir as revistas cor-de-rosa e ver, nos casos de divórcio e de depressão dos Ricos e Famosos, que estes têm exactamente os mesmos problemas, para além de terem muitos outros); e, mais importante do que isso, estamos mesmo a ensinar-lhes de que «tudo é válido quando o objectivo é beneficiar-nos a nós e aqueles que nos estão próximos».

Tudo, mesmo.

Claro que depois os políticos das gerações futuras vão comportar-se precisamente da forma como foram ensinados. Mas os actuais políticos já foram ensinados também dessa maneira. O Sentido de Estado é muito bonito no papel, mas na prática, o que é que isso significa? Como pode um político, pressionado pelos seus colegas de partido e pelas ameaças do capital que o financia, invocar o Sentido de Estado para tomar as medidas que a sociedade precisa, quando estas claramente não irão beneficiar nem o político, nem os seus amigos, nem os seus apoiantes? É infantil acreditar que isso seja possível.

Todos sabemos que podemos resolver a crise nacional se os bancos fossem obrigados a pagar impostos como qualquer outra empresa; aliás, o próprio Banco Central Europeu tem dinheiro mais que suficiente para acabar com a crise europeia. Mas escudam-se com os «estatutos que não lhe permitem essa acção». Porquê? Se olharmos para quem está à frente dessas entidades, e o tipo de educação que receberam — porque haveríamos de ficar surpreendidos por quererem apenas beneficiar-se a si próprios e aos seus amigos próximos e prejudicarem toda a gente? Nós fazemos isso todos os dias! E ensinamos isso às nossas criancinhas! Então porquê tanta surpresa?

Como podemos ser tão ingénuos e infantis ao pensar que uma sociedade ego-centrada, em que cada um de nós foi ensinado a olhar para o próprio umbigo e a «safar-se como pode», vai produzir, magicamente, políticos imaculadamente puros que só têm o benefício dos outros em mente? Tudo neste mundo é criado a partir de causas e condições. Há gerações que criamos as causas e condições para que toda a gente pense de certa forma — olhando para o próprio umbigo — portanto como podem surgir políticos que não pensem assim?

O falecido Hernâni Lopes, numa das suas últimas aparições públicas na TV, perfeitamente lúcido, disse que a solução para esta (e qualquer outra) crise financeira não estava em despejar dinheiro nos cidadãos. Estava, isso sim, em mudar os valores. Propunha que se colocasse a dignidade do trabalho e o serviço aos outros como prioridades do sistema de ensino. Sugeriu que a preguiça, a indolência, os «esquemas» para enriquecer rapidamente à custa dos outros fossem ensinados como coisas a abandonar; em vez disso, propôs que se ensinasse o valor de dar a palavra, de ser leal, honesto e sincero. E também disse que isso não se fazia em meia dúzia de anos: temos uma geração completamente corrompida e que está a ensinar a próxima a fazer o mesmo. Talvez ainda consigamos reverter o processo para a futura geração, mas esta já está perdida. No entanto, se nada fizermos para mudar os valores morais da próxima geração, então a crise — não a financeira, mas a moral — vai continuar e a auto-perpetuar-se: cada geração sucessiva será mais ego-centrada que a anterior. E, seguindo este rumo, não é provável que surjam, assim do nada, políticos dotados de uma elevada conduta moral e um genuíno desejo de beneficiar toda a população em vez de se preocuparem apenas consigo mesmos.

Então o que podemos fazer? Vociferar e protestar porque os actuais políticos são desonestos e despidos de qualquer sentido de Estado de nada serve. Mesmo pensar que podemos influenciar as gerações seguintes de forma positiva — sem dúvidas que uma aspiração louvável — não chega. O que temos de fazer é começar esse trabalho em nós próprios.

Isto significa olharmo-nos ao espelho. Mas não dando uma pancadinha nas costas a dizer como estamos bem; nem inventando desculpas e justificações para sermos como somos. Isso é o que todos fazemos: inventamos justificações, dizemos que temos o «direito» de ser como somos, e, no pior dos casos, invocamos que «os outros também são assim». É por isso que esta sociedade está como está.

É porque nos olhamos para o espelho e pensamos, «O meu vizinho rouba nos impostos, os bancos fogem aos impostos, o Grupo Jerónimo Martins meteu a sede na Holanda para fugir aos impostos — então eu também tenho direito a fazê-lo!» e que justificamos a ausência de contribuição fiscal.

É porque pensamos «Tenho todo o direito a ter um emprego melhor, os colegas que se lixem, que se safem sozinhos» que justificamos as mentiras que espalhamos no local de emprego àcerca dos colegas para que tenham uma má avaliação e nós uma boa.

É porque pensamos «Os meus filhos têm o direito a ter um emprego melhor que os outros, ou melhor do que o meu, por isso têm que ter boas notas, custe o que custar» que não só os ajudamos a fazer os trabalhos de casa como protestamos nas reuniões de pais contra o sistema injusto e pouco flexível que faz com que todos tenham más notas.

É porque pensamos «O meu sobrinho, coitado, é um bom rapaz, mas não teve sorte na vida como os outros» que metemos o seu CV no topo da mesa do Presidente do Conselho de Administração da entidade onde trabalhamos, cuidadosamente destruindo os outros CVs de candidatos melhor qualificados.

É porque pensamos «Fartei-me de trabalhar a vida toda, assim como a minha mulher, agora mereço também descansar como os outros!» que arranjamos maneira de obter uma reforma antecipada, ou pelo menos justificação para constantes baixas médicas (de preferência em regime constante até chegar à reforma!)

Ou, se temos a sorte de ter um cargo eleito, ainda pior. Olhamos para o espelho com convicção e orgulho e pensamos: «Sou melhor que os outros. Olhem para mim! Fui eleito! Agora tenho direito a tudo o que desejo porque não sou um mero cidadão, sou um representante eleito

Claro que isto são extremos, que se calhar todos nós reconhecemos como não se aplicando ao nosso caso. Mas todos nós, aqui e ali, distorcemos um bocadinho de nada o sistema em nosso favor — nas coisas mais pequenas e subtis. Nem que seja fingir estar a coxear só para passar à frente de alguém numa fila na repartição das Finanças! São justamente estas pequenas coisinhas que justificamos tão habilmente que nunca consideraríamos como sendo «prejudiciais»… mas que vão habituando a nossa mente a um certo tipo de conduta pouco ética. «Ninguém nota» se eu levar umas folhas de papel do emprego para o meu filho, para ele poder usar na impressora lá em casa. Mas isto é apropriarmo-nos de algo que não nos pertence — o valor é irrelevante! Também «ninguém nota» se levar uma maçã a mais na mala — o Pingo Doce já ganha tanto dinheiro, e tem seguro contra roubos, que diferença é que faz? Também «ninguém nota» se hoje me esquecer de comprar um bilhete para o autocarro — no meio da confusão, posso sempre alegar que deixei cair o bilhete ao chão, se alguém perguntar.

Já não falando no «direito» que temos a insultar um funcionário das Finanças ou de um hospital público por não sermos atendidos de imediato. E depois ficamos surpreendidos quando levamos uma resposta torta! Se parássemos para pensar «Se fosse eu que estivesse do lado de lá do balcão, gostaria que me insultassem?» talvez evitássemos a discussão. Mas isso nunca nos passa pela cabeça. Eu tenho de ser servido, imediatamente! Se eu estivesse do lado de lá, seria imaculado na minha conduta! Mas é aquela besta que é incompetente e que está a provocar a minha falta de paciência!

São estes «ninguém nota» e «eu também tenho direito» e «toda a gente faz o mesmo» que são a raíz dos problemas da nossa sociedade. É que quando as coisas são aparentemente pequenas e insignificantes, de facto passam despercebidas. Mas a nossa mente habitua-se a fazer estas coisas de forma repetida, e faz cada vez coisas maiores e menos insignificantes. Consolados pelo facto de que «toda a gente faz o mesmo», vemos o nosso comportamento espelhado nos outros, o que o justifica ainda mais. E assim por diante… até sermos eleitos para o Governo. Aí, claro, este «hábito» que temos vindo a desenvolver vai ser muito visível e estará sob escrutínio público! Mas será tarde demais para a sociedade em geral.

Ninguém tem dúvidas que José Sócrates é um mentiroso patológico. Eu acredito mesmo que em muitos casos ele mentia sem se aperceber! Provavelmente estava tão habituado, desde pequenote, a «safar-se» com pequenas mentirolas, que isso condicionou o seu carácter, ao ponto de ser incapaz de distinguir mentira de verdade. Se calhar ainda hoje se interroga a si mesmo, «mas porque é que estavam tão chateados comigo? Todos os meus colegas de partido mentem com todos os dentes. Toda a oposição ainda mentia mais! Eu não fiz nada de especial. Não fiz pior que os outros». É esse o problema: quando um comportamento se torna tão habitual, tão familiar, que parece ser natural.

Só acho que ainda há esperança porque ainda nos indignamos quando vemos esse comportamento nos políticos e ficamos furiosos. Isso quer dizer que a nossa sociedade ainda reconhece alguns valores éticos e morais. É quando formos completamente indiferentes às mentiras dos políticos — de tão habituados que estamos a elas! — que está tudo perdido. Assim ainda temos uma hipótese.

Mas de nada vale clamar por um D. Sebastião, imaculado e puro, de conduta rectíssima, de elevado sentido de Estado, imbuído de um espírito de altruismo, cavalgando das brumas para o cargo de primeiro-ministro. Podemos clamar à vontade que ele não vai aparecer. Não numa sociedade que está a «treinar» toda uma geração para pensar precisamente o contrário.

«Quem semeia ventos, colhe tempestades» — tudo tem causas e efeitos. Se ensinamos às nossas criancinhas que têm de fazer tudo por tudo para suceder na vida, mesmo que isso implique roubar e mentir («são pequenas coisinhas!») e lixar a vida aos outros («caso contrário, é a ti que te lixam!»), então porque haveríamos de ficar surpreendidos que essas criancinhas — e as dos outros, que são educadas da mesma forma — se tornam em Josés Sócrates?

Porque haveríamos de ficar surpreendidos que cada governante que sobe ao poder pensa primeiro em si, depois na sua família, e a seguir nos seus amigos — estando-se completamente a lixar para o resto da população? Não é exactamente isso que ensinamos aos nossos filhos? Não é exactamente isso que fazemos nós também?

Porque haveríamos de pensar que, se toda a gente pensa desta forma e por isso se justifica que assim seja, os políticos haveriam de ser diferentes? É tipo acreditar em magia: que uma pessoa, uma vez sendo eleita, por magia descarta as tendências habituais provenientes da sua educação e subitamente se torna numa pessoa boa, altruísta, generosa, simpática, pensando primeiro nos outros e depois em si.

Não acreditamos em anjos e santos, mas acreditamos no milagre da transformação santificada dos políticos. Isso não é ser-se infantil? Mas pior do que isso, acreditamos que de alguma forma são eles, os políticos, uma classe degenerada de onde só saiem pessoas corruptas e egoístas. Não reparamos que somos iguais a eles (mesmo que a uma escala em que prejudicamos muito menos gente!) e que estamos a passar os mesmos valores à geração seguinte.

Ora é admissível que um pai extremoso leia isto e que fique consternado. Pois se ensinar às suas criancinhas que devem ser simpáticos com os colegas, ajudá-los com os trabalhos — mesmo que isso implique que os colegas tenham melhores notas! — não responder aos bullies mas apenas encher-se de compaixão por eles, não mentir mesmo que isso os prejudique, e assim por diante… bom, então as criancinhas vão crescer umas choninhas, umas pacholas, sem qualquer ambição, sem qualquer expectativa de sobreviverem neste mundo duro e cruel. Nenhum pai quer isto para os seus filhos. Por isso não há alternativa!

Mas analisemos bem as consequências. Uma criança que é habituada a mentir para obter o que quer; habituada a lixar a vida aos outros para passar à frente de todos; habituada a dar porrada em todos que lhe apareçam pela frente; habituada a lutar e a competir pelo que quer, sem escrúpulos… o que lhe irá acontecer? Bom, é provável que consiga um bom emprego (ou um belo «tacho»), sem dúvidas. Se calhar até consegue enganar gente suficiente no banco para lhe darem uma casa. Irá dar a volta a uma galdéria qualquer (educada da mesma forma) e casar-se. Talvez apareça na capa das revistas. Mas a grande pergunta é: será feliz?

Se formos abrir as capas das revistas, e ler o interior… o que vemos? Casamentos constantemente desfeitos. Depressões. Suicídios. Medo de ser assaltado, raptado. Injúrias e calúnias feitas publicamente. Ameaças em tribunal, risco de prisão. Fotos e vídeos comprometedores a circular no Facebook. Isso é felicidade genuina?

Podemos dizer que isso se aplica apenas a uns poucos, e que o resto vive com fartura sem problemas na maior das felicidades. Apenas pergunto então quantos milionários e famosos é que conhecem realmente (sem ser pelas revistas). Eu tenho o privilégio de conhecer alguns (até já fui rico, em tempos idos). Desiludam-se: não são nada do que pensam. As imagens de glamour nas galas da TV e recepções com o PR são meramente fachada. Em casa é só angústia, intrigas por causa de heranças, chantagens, e esquemas ardilosos para enganar X ou Y e estar constantemente à espera de ser traído ou enganado. São pessoas que sofrem precisamente dos mesmos problemas — e têm a agravante de terem problemas que nós não temos. São tão deprimidas e obsessivas como as outras. Afinal de contas, não deixam de ser seres humanos.

Não estou aqui a fazer a apologia da pobreza atroz — só estaria a dar armas à Tróika e ao Passos Coelho para nos lixarem ainda mais a vida! A pobreza não traz felicidade, ao contrário do que algumas religiões e filosofias gostam de apregoar. Isso é uma treta tão grande — senão maior ainda! — do que dizer que a riqueza traz felicidade. E também só nos apercebemos disso se conhecermos (ou se formos!) genuinamente pobres, pelo menos do ponto de vista material. Nesta actual crise, a esmagadora maioria dos portugueses sofre atrozmente por ser forçada — sem culpa alguma — de viver abaixo do nível de vida que tinha. Isso não as faz mais felizes! (Mas a verdade também é que, apesar de tudo, não vivemos — ainda! — ao nível do que vivíamos durante o Estado Novo: continuamos bem acima disso)

Ora o problema está essencialmente numa sobrevalorização de certos novos valores, descartando os anteriores, acreditando nessa ilusão de que esses valores trazem alguma felicidade que os antigos valores não traziam. Nos tempos do meu bisavô, tudo o que era importante era ser-se honrado e praticar contentamento. Hoje em dia, não se pode comprar nada no supermercado com «honra» (dantes podia-se!), e «contentamento» é visto como significando «resignação» e «falta de ambição». Em contraste, é justamente ambição que é um dos novos valores. É o triunfar em qualquer circunstância, não importa o que se faça para atingir esse «triunfo», que conta. É o sucesso de se ser mais e melhor que os outros (daí serem tão populares os «Ídolos» e a «Voz de Portugal») — ou de se ter mais e melhor que os outros. O meu bisavô apenas «tinha» a sua palavra e «tinha» contentamento. Mas hoje é preciso «ter» casa com piscina, vários carros, uma mulher gira, os filhos no colégio de luxo, um emprego invejável, cinco Playstations, dois écrãs de plasma, e a nossa foto na capa de uma revista. Sem isso, não somos «felizes», e escarnecemos de pessoas como o meu bisavô, que eram uns «inúteis» e «apagados» (ou uns «totós sem ambição») e que não sobreviveriam cinco minutos no mundo de hoje.

Há uma década atrás lembro-me de uma questão psicológica provocadora, que acho mesmo que serviu de base para um estudo académico. A pergunta feita ao grupo de estudo era se fariam uma viagem para um destino de sonho, com tudo pago, se depois fossem terminantemente proibidos de contar a quem quer que fosse onde tinham estado e o que tinham feito (se o fizessem, teriam de pagar tudo até ao último tostão). A esmagadora maioria das pessoas respondeu que não. Preferiam pagar do seu bolso, desde que depois pudessem contar aos amigos onde tinham estado. A conclusão é que as pessoas não viajam sequer para seu próprio benefício e prazer, mas para se gabarem junto dos amigos e provocar-lhes inveja. Não quer dizer que não houvesse excepções, mas eram muito raras.

Imaginem agora que oferecessem um cargo de primeiro-ministro a alguém, mas que lhe dissessem que não podia receber salário nenhum, nem iria ter reforma depois do mandato. Não podia beneficiar ninguém do seu círculo familiar, amigos, colegas de partido, etc. Não iria ter benesses nenhumas, e durante vinte anos após o seu mandato, não poderia sequer trabalhar em lado nenhum (pois caso contrário podia ser susceptíveis de corrupção durante o mandato!), recebendo apenas o subsídio de miséria — perdão, de Reintegração Social. Não poderia sequer dar entrevistas públicas (usaria um representante para os comunicados oficiais) e a sua foto não seria divulgada. Será que alguém aceitaria?

Eu acho que sim. Há uma classe de egoistas inteligentes que se aproveitariam da situação. Como? A primeira coisa a fazer, claro, seria aumentar o Subsídio de Reintegração Social de forma irreversível — digamos, para uns €5000/mês 🙂 — e esperar pacientemente quatro anos. Talvez os detalhes variassem, claro, mas a ideia é simples: se durante o mandato esse alegado primeiro-ministro apenas tomasse medidas que fossem beneficiar enormemente toda a população, então depois de cumprir o mandato, e voltando a ser um «cidadão comum», iria beneficiar dessas medidas também.

Sendo forçado a um quase-anonimato, esse primeiro-ministro teria de pensar em como ser reconhecido pelos seus actos. Então provavelmente decretaria que as criancinhas teriam de aprender na escola a importância do civismo e do sentido de Estado, de colocar o interesse dos outros acima dos interesses pessoais. Quando abandonasse o governo, a geração seguinte iria admirá-lo como um visionário que colocou sempre o interesse pessoal de parte para bem de todos — porque seriam esses os valores a que estariam habituados. E assim por diante: podemos imaginar todo o tipo de medidas tomadas por um egoista inteligente no poder. Como não estaria sujeito a pressões de bancários e grandes empresários, iria provavelmente taxá-los de outra forma — não o poderiam convencer a fazer o contrário, já que durante vinte anos não poderia aceitar um cargo no Conselho de Administração de nenhum deles. Talvez em vez disso lançasse um programa nacional para dotar todos os portugueses de carro e casa, pois caso contrário, ao sair do Governo, poderia ficar sem acesso ao Subsídio de Reintegração Social (se o próximo primeiro-ministro o abolisse!).

Obviamente que no reino do disparate da minha imaginação tudo seria possível (e igualmente absurdo), mas a ideia fundamental é esta: um primeiro-ministro que fosse forçado a ter um comportamento ético e a colocar os interesses de todos antes dos seus não teria outro remédio senão beneficiar colectivamente toda a sociedade, para quando, ao abandonar o cargo, pudesse desfrutar desses mesmos benefícios. Este é o tipo de resultados que o egoismo inteligente obtém: na tentativa de beneficiar o máximo possível dos outros, primeiro tenta beneficiá-los ao máximo. Depois é só desfrutar.

Numa sociedade que perdeu completamente o sentido de Estado e a conduta ética, se calhar só com «tratamento de choque» é que se vai ao sítio. É claro que o meu exemplo é absurdo. Mas talvez seja preciso muito mais responsabilização dos políticos dos seus actos. Mas principalmente, e acima de tudo, é preciso inverter o descalabro dos valores éticos. Pessoalmente, tal como Hernâni Lopes, não acho que haja ainda esperança para esta geração — está demasiado corrompida. Mas talvez se consiga a trabalhar para o futuro da próxima. O problema é que neste momento ninguém quer fazer isso! A esperança, como disse, é que ainda se reconhece a corrupção como um mal, e o abuso dos cidadãos como algo condenável. É algo de frágil porque embora vociferemos contra os abusos dos governantes, a verdade é que praticamos precisamente os mesmos actos no nosso meio (mesmo que o nosso impacto seja muito menor). Isto torna a coisa muito difícil de resolver: é como um cego a conduzir outros cegos à beira do precipício. Se não somos capazes de reconhecer quão distorcida a nossa própria mentalidade já está, como poderemos inculcar valores positivos nas gerações vindouras?

É bom reconhecermos os abusos do Estado. É bom ainda termos liberdade de expressão para acusarmos os governantes de só se preocuparem consigo próprios e de ignorarem o resto da população. Mas é mau não reconhecermos, em nós mesmos, os mesmos defeitos. É péssimo acreditarmos que se estivéssemos no poder seríamos diferentes. É triste acreditarmos que seríamos melhores do que os nossos políticos e não repararmos que fazemos a mesma coisa que eles faziam antes de estarem no Poder e que tivémos a mesma educação que eles tiveram — e que a estamos a auto-perpetuar na próxima geração.

Assim, o caso parece bicudo e complicado. Um país de cegos que elegem cegos para liderar outros cegos.

Em certa medida, até acho que o Passos Coelho foi uma opção interessante: mostrou uma certa dose de coragem. É fácil ser-se político quando o país vai bem, a economia cresce, e se tem mão livre para fazer o que se quiser. Parece-me suicídio político querer aceitar um cargo de governante de uma nação em ruína com as mãos atadas pela Tróika, e ser-se universalmente responsabilizado por tudo o que corre mal, independentemente do que fizermos de bem. Talvez o facto de ter um apartamento em Massamá com uma hipoteca por pagar e os filhos a estudar no ensino público tenha inspirado Passos Coelho a pensar que compreendia um pouco melhor os portugueses, e que era capaz de fazer alguma coisa por eles por ainda não estar completamente corrompido pela ausência de valores vigente. Ou se calhar eu é que sou ingénuo e aquilo é tudo fachada: afinal de contas, Passos Coelho também passou por muitos conselhos de administração, e lá porque eu acredite que tenha sido por mérito, pode ter sido por «cunha». Mas seja como for, foi talvez o segundo político a ser eleito porque tinha fama de ser honesto (o primeiro foi o Rui Rio para a CM Porto). Se de facto é uma pessoa honesta ou não, só saberemos daqui por uns anos. Para já interessa-me mais reparar que os portugueses, apesar de cegos pela sua falta de moralidade, estranhamente ainda conseguem achar que faz sentido eleger uma pessoa que acham ser «honesta». Quer dizer que, apesar de viciarem os trabalhos de casa dos filhos, de roubarem maçãs ao Pingo Doce, de fazerem downloads piratas de vídeos, de darem facadinhas no matrimónio, de criarem intrigas no emprego, de berrarem insultuosamente a funcionários das Finanças, e de «meterem uma cunha» aos sobrinhos, ainda parece apreciarem essa estranha palavra, «honestidade», e não a meteram ainda na gaveta.

Ironicamente, até mesmo os colegas de partido criticam Passos Coelho. Dizem que fala demais. Dizem que é «demasiado honesto» a explicar as coisas. Dizem que, graças à mania que tem de revelar mesmo as piores notícias em vez de as ocultar, está a estragar completamente a sua imagem e a do seu partido — fazem-se apostas sobre quantos anos irão passar até o PSD ganhar de novo umas eleições. As últimas estimativas que ouvi foram 13 anos, mas à medida que o tempo passa, pior vai ser a imagem de Passos Coelho. Só lá para finais de 2013 é que poderá — com sorte! — trazer algumas boas notícias, mas nessa altura será possivelmente tarde demais. Por outro lado, não devemos admirar quem faz o seu trabalho, independentemente do seu interesse pessoal e dos que lhe estão mais próximos? Afinal de contas, Passos Coelho está-se a «enterrar» politicamente, mas também a todo o PSD, tudo muito bem enterradinho por muitos anos, porque Passos Coelho tem a convicção de que está a fazer aquilo que é certo e correcto. Posso não gostar do homem, mas tenho de lhe louvar a coragem política. É raro o político, nos tempos que correm, que deliberadamente se prejudica a si próprio só porque acha que há alguma coisa de mais importante do que o benefício pessoal (e como vimos pelo seu antecessor, não são as mentiras para criar uma imagem maravilhosamente bela que beneficiam em alguma coisa — nem o próprio, nem os outros).

Dizem os mestres do passado que um pensamento virtuoso pode anular éons de actos hediondos; assim sendo, talvez seja este pensamento virtuoso colectivo dos portugueses — o de desejarem que alguém «honesto» esteja à frente dos desígnios do país — pode ser que «pegue». Pode ser que em determinadas circunstâncias, os futuros pais apontem aos seus filhos como exemplo alguém que não se importa de se prejudicar se acha que com isso vai beneficiar muito mais pessoas, e que as deixe a matutar sobre o assunto. Duvido que haja uma revolução das mentalidades, mas, tal como são as pequenas mentiras aqui e ali que transformam uma pessoa num José Sócrates, também são os pequenos pensamentos virtuosos, aqui e ali, que transformam um humilde político num Roosevelt, num Kennedy ou num Atatürk. Se queremos voltar a ter grandes estadistas e modelos a seguir, temos de começar nalgum lado.

Para já, resta-nos olhar ao espelho, e reflectir profundamente: «Em que medida contribuo para que esta sociedade esteja como está?» Se o nosso orgulho for tal que somos incapazes de descobrir a menor falta, então está o caldo entornado. Se começarmos a reconhecer aos poucos que é a mentalidade que temos que conduz a políticos como os que temos, então há uma esperança: a de que comecemos a mudar a nossa própria mentalidade, servindo de exemplo para os outros, que por sua vez também se começarão a olhar ao espelho, interrogando-se igualmente sobre se o que fazem é o mais correcto. Talvez Hernâni Lopes tenha sido optimista a acreditar que isso se possa fazer numa década. Talvez leve mesmo mais do que uma geração. Ou duas.

Mas se não começarmos  é que nunca lá mais chegaremos.

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Um pensamento sobre “Temos os políticos que merecemos!

  1. Relendo isto parece que dá a entender que eu sou «perfeito» e que já não preciso de usar a «técnica do espelho» explicada no final. Antes bem pelo contrário: é justamente por reconhecer que sou tão orgulhoso, ganancioso e corrupto como qualquer um dos nossos políticos que faz parte da minha prática diária usar a dita cuja «técnica do espelho» para me perguntar a mim mesmo até que ponto a minha mentalidade não contribui igualmente para termos a sociedade que temos. E de facto todos os dias encontro faltas. O objectivo deste artigo foi mais delinear um simples método para enfrentar essas mesmas faltas, não andar por aí a remoer-me com sentimentos patetas de «culpa» (o que de nada serve!), mas relembrar-me que é por este país ter gente que pensa como eu que elege políticos como os que temos… se conseguir mudar a minha própria mentalidade, então já estou a dar uma pequena contribuição para melhorar a sociedade. Quantos mais pessoas fizerem o mesmo, maior será a hipótese de alguma deles eventualmente se tornar um político de carreira com uma mentalidade diametralmente oposta à vigente — alguém que acredite profundamente no sentido de responsabilidade de beneficiar o maior número de cidadãos e de ligar pouco aos interesses pessoais.

    Mas eu obviamente que não faço ainda parte desse grupo de pessoas 🙂 Peço desculpa se as minhas palavras possam ter dado a entender o contrário… neste momento, ainda faço parte do problema, embora procure fazer parte da solução. Mas não é algo que se consiga fazer «de um dia para o outro», leva mesmo muito tempo!

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