Repensar os valores de Abril de ’74

É preciso salvar Abril

"É preciso salvar Abril". Foto de Henrique Matos.

Para mim, o 25 de Abril de 1974 não passa de uma memória de uma manhã em que os meus pais me disseram que não precisava de ir à escola. Fiquei todo contente! Queria que houvessem revoluções todos os dias! Liberdade, sim, era ficar em casa sem ter de ir às aulas. Depois levaram-me às manifestações do 1º de Maio, que achei muita piada.

Uns anos depois, isto significou passar a beber leite em pó e a comer esparguete misturado com soja (blargh), roupa em materiais sintéticos (que eu detestava!), e as ruas passaram a estar muito mais sujas. Passaram a haver mais comícios e manifestações (parecia que todos os dias havia qualquer coisa!) e na TV só se discutia política com gente barbuda e sem casaco nem gravata. Éramos mais pobres, mas eu era demasiado novo para ser infeliz. Não percebia porque é que os governos duravam apenas uns meses, depois faziam-se mais uns comícios, elegia-se novo governo. Parecia que a democracia era isto: o pessoal todo andava em polvorosa, dava-se muita importância às eleições, e como era «novidade», elegia-se muita gente com muita frequência. Os jornais publicavam constituições de Portugal. Toda a gente percebia de política e só falava disso, que, para mim como puto (e com um pai PS e uma mãe PSD), era completamente incompreensível. Era tudo muito esquisito, mas pelo menos era assim que as coisas se passavam, e parecia que era bom.

Depois veio a crise, e veio o FMI por duas vezes. Mais leite em pó, mais soja e menos carne, mais horríveis roupas em material sintético, que ainda por cima tinham de durar muito mais tempo. Já não fazíamos tantas férias nem tantos passeios de automóvel; passava-se a andar de autocarro ou de metro em Lisboa, que era barato, especialmente a partir de 1980 com a introdução do passe social.

E finalmente chegou-se ao boom dos anos noventa, depois da entrada na (então) CEE, em que subitamente parece ter sido dada «ordem para gastar», e, da noite para o dia, o desenvolvimento económico catapultou este país pobre para níveis nunca antes sonhados. Parecia finalmente o culminar de um processo em que se largavam as amarras de meio século de obscurantismo político, social e religioso, e que os portugueses podiam erguer a cabeça cheia de orgulho e tomar, uma vez mais, o seu lugar histórico entre as nações mais ricas e poderosas do mundo, que a ditadura lhes tinha roubado.

Continuar a ler

É triste gastar-se tanto dinheiro…

Diariamente os meus amigos computer geeks quarentões atiram-me com links para o Facebook de artigos sobre o dinheiro que se gasta na Administração Pública com software e serviços informáticos neste país que depois até nem funcionam. Geralmente fico sempre chocado, e depois um pouco triste, pois há tantas soluções dispendiosas que podiam ser evitadas com apenas um pouco de bom senso e de conhecimentos…

Não pretendo aqui estar a fazer um «ataque» ao software comercial, dizendo que não presta e que as empresas que o comercializam são umas exploradoras. O mercado é livre: só compra produtos de software comerciais quem quer, ou quem pode. A título particular, nas alturas em que tenho dinheiro, até adquiro bastante software comercial (mesmo que seja de baixo custo). Não é porque não hajam alternativas open source gratuitas — normalmente até há! — mas porque gosto mais da interface, ou porque são mais estáveis, ou porque têm mais opções, etc. Num meio onde as empresas que vendem software comercial têm de concorrer com produtos idênticos open source a custo zero, há pressão para justificar a diferença de preço, porque os clientes potenciais (quando são indivíduos) que não tenham pruridos (leia-se: lavagem cerebral de que só o que é comercial é bom, uma falácia muito bem disseminada) sabem pesquisar na ‘net as alternativas e optar pelo que lhes parece melhor. Chamo a isto tomar decisões em consciência.

Infelizmente, neste país, o mesmo não se aplica à Administração Pública. Aqui o caso é grave, porque a Administração Pública está a gastar dinheiro que é de todos nós. Não seria legítimo, enquanto contribuintes, que esperássemos que gastassem esse dinheiro da forma mais eficaz possível?

Continuar a ler

A falácia da autoridade

Fonte: Wikipedia

No espaço de mais ou menos 24 horas, li dois artigos sobre o inquérito realizado pela Universidade Católica sobre o número de católicos no nosso país. Embora não citem exactamente os mesmos números, tanto a RTP como o iOnline quiseram, de alguma forma, dar a entender que há menos católicos, apesar de serem quase 80% da população (segundo a RTP) ou 93,3% (segundo o iOnline), e tentam dar, de certa forma, uma imagem pejorativa dos fiéis da ICAR. Depois, ao fazer pesquisa para um outro projecto meu, apanhei uma série de artigos em que se mostrava como uma citação errada, aplicada com intenções maliciosas, tentou «provar academicamente» que padres católicos alucinados tinham enforcado a população de Lisboa na sequência do terramoto de 1755, culpabilizando-os da «ira de Deus» que teria «causado» o terramoto — quando não existem provas documentais sobre o assunto, pelo contrário: todas as provas documentais apontam para precisamente o contrário. Os artigos são interessantes porque mostram como, baseados na «falácia da autoridade» (neste caso, a credibilidade científica de um investigador anti-católico), rapidamente se propagam mentiras sem cabimento.

As interpretações do estudo da Universidade Católica são mais soft mas também assentam em duas falácias cometidas pelos próprios investigadores que realizaram o inquérito.

A primeira falácia é contabilizar como «católico» todo aquele que é baptizado. Ora como na esmagadora maioria dos casos, o baptismo dá-se numa idade em que não temos sequer consciência de nós próprios, isto significa mais um «crente» para as estatísticas. A única forma de sairmos desta «lista» e deixarmos de contar para as estatísticas é assinar uma declaração de apostasia. Isto tem consequências: não poderemos mais casar pela Igreja Católica ou ser enterrado num cemitério católico. Por isso ninguém sai da «lista». E isto significa que a ICAR pode então, com legitimidade, dizer que representa pelo menos 87,9% dos portugueses baptizados.

A segunda falácia é a história dos «católicos não-praticantes» que são contabilizados como «católicos»… embora não pratiquem nada de acordo com os ensinamentos da ICAR. Vou-me debruçar um pouco mais sobre isto.

Continuar a ler

Temos os políticos que merecemos!

Retrato oficial do Primeiro-Ministro de Portugal Pedro Passos Coelho
Fonte: Wikipedia e Governo da República Portuguesa

Somos um país de treinadores de futebol de bancada e de políticos de café. Sem qualquer experiência, consideramos mesmo assim termos opiniões válidas sobre ambos os assuntos. Mais ainda: as nossas opiniões estão, regra geral, sempre mais correctas do que as opiniões reais dos treinadores e dos políticos.

Em democracia, todos temos o direito a ter opiniões, por mais estapafúrdias que sejam. Temos inclusive o direito de as propagar. Isto é a maravilha do direito à liberdade de expressão que nos é garantido constitucionalmente.

Mas não quer dizer que lá porque tenhamos uma opinião, esta seja válida — mesmo que seja também defendida por muitos dos nossos familiares, amigos, colegas e conhecidos.

Continuar a ler