Para mim, o 25 de Abril de 1974 não passa de uma memória de uma manhã em que os meus pais me disseram que não precisava de ir à escola. Fiquei todo contente! Queria que houvessem revoluções todos os dias! Liberdade, sim, era ficar em casa sem ter de ir às aulas. Depois levaram-me às manifestações do 1º de Maio, que achei muita piada.
Uns anos depois, isto significou passar a beber leite em pó e a comer esparguete misturado com soja (blargh), roupa em materiais sintéticos (que eu detestava!), e as ruas passaram a estar muito mais sujas. Passaram a haver mais comícios e manifestações (parecia que todos os dias havia qualquer coisa!) e na TV só se discutia política com gente barbuda e sem casaco nem gravata. Éramos mais pobres, mas eu era demasiado novo para ser infeliz. Não percebia porque é que os governos duravam apenas uns meses, depois faziam-se mais uns comícios, elegia-se novo governo. Parecia que a democracia era isto: o pessoal todo andava em polvorosa, dava-se muita importância às eleições, e como era «novidade», elegia-se muita gente com muita frequência. Os jornais publicavam constituições de Portugal. Toda a gente percebia de política e só falava disso, que, para mim como puto (e com um pai PS e uma mãe PSD), era completamente incompreensível. Era tudo muito esquisito, mas pelo menos era assim que as coisas se passavam, e parecia que era bom.
Depois veio a crise, e veio o FMI por duas vezes. Mais leite em pó, mais soja e menos carne, mais horríveis roupas em material sintético, que ainda por cima tinham de durar muito mais tempo. Já não fazíamos tantas férias nem tantos passeios de automóvel; passava-se a andar de autocarro ou de metro em Lisboa, que era barato, especialmente a partir de 1980 com a introdução do passe social.
E finalmente chegou-se ao boom dos anos noventa, depois da entrada na (então) CEE, em que subitamente parece ter sido dada «ordem para gastar», e, da noite para o dia, o desenvolvimento económico catapultou este país pobre para níveis nunca antes sonhados. Parecia finalmente o culminar de um processo em que se largavam as amarras de meio século de obscurantismo político, social e religioso, e que os portugueses podiam erguer a cabeça cheia de orgulho e tomar, uma vez mais, o seu lugar histórico entre as nações mais ricas e poderosas do mundo, que a ditadura lhes tinha roubado.




