2012, um ano como os outros

Esta quadra natalícia, e em especial a passagem de ano, foi marcada por uma incrível desconfiança sobre o futuro mais próximo, e grande parte das mensagens que recebi foram variantes do género «Um bom Natal, na medida do possível, e votos de um ano novo que não será nada feliz…». Na verdade, a depressão generalizada que se viu entre os gregos há pouco mais de ano e meio, e entre os irlandeses ano passado, começa a atingir a mente dos portugueses — mesmo antes de sentirem qualquer diferença na sua qualidade de vida.

Aparentemente, nunca como dantes as notícias nos media nos infundem tanto terror sobre o ano que se avizinha como agora. E as pessoas começam realmente a estar aterradas. «Onde há fumo, há fogo», lá diz o ditado popular, e se até o Primeiro Ministro recomenda a emigração, que mais falta para comprovar que estamos na presença dum annus horribilis? Já sem falar nas inúmeras «explicações» pseudo-místicas e New Age que tentam «provar» que há uma série de circunstâncias externas fora do nosso controlo que «conspiram» para que 2012 se torne num ano particularmente horrível, algumas das quais servindo-se de pseudo-ciência para as justificar; nada como ler este reconfortante artigo céptico sobre a desmistificação dos principais disparates que andam por aí a ser espalhados há vários anos ou esta mensagem da NASA …

Passei o ano ao lado de um pobre desgraçado que, enquanto se pronunciavam os dez segundos fatais antes de terminar 2011, rezava desalmadamente, envolto em terror, acreditando provavelmente que o planeta ia explodir (ou coisa parecida) precisamente à meia-noite, e tentando gerar uma «aura de compaixão» forjada ali no momento, a ver se isso ajudava alguém… Foi com alguma relutância que largou o seu posto quando lhe dissemos que já estávamos em 2012 e que o mundo não tinha acabado de todo. Mas a verdade é que ainda há 365 dias para o mundo acabar (este ano é bissexto!), e a data de 20 ou 21 de Dezembro de 2012 é a que reúne mais consenso entre os milenaristas para o fim do mundo, por isso, muitos dos que viram a primeira profecia do «fim do mundo» falhar às zero horas do dia 1 de Janeiro, ainda vão sofrer muitos dias aterrorizados…

No entanto, mesmo alguns dos meus amigos mais cépticos, e que não acreditam — nem nunca acreditaram! — na parlapatice pseudo-mística, não deixam de estar aterrorizados. Os media continuam a encorajar-nos a pensar que está para breve o fim do Euro, o colapso da União Europeia, a destruição do sistema financeiro internacional, e o regresso à barbárie, e que tudo irá acontecer muito depressa, no espaço de meses. Mesmo alguns meus conhecidos, normalmente cépticos, fazem planos de irem para a sua terrinha plantar umas couves se o mundo financeiro colapsar de vez, e tiram cursos de agricultura ou mesmo de permacultura para se precaverem contra o pior. E vão colocando algum dinheiro de parte para a «emergência». Ou se calhar começaram a frequentar de novo aulas de artes marciais para sobreviverem numa Nova Era onde deixarão de haver leis, polícia ou segurança, e será o «salve-se quem puder» quando começarem as corridas aos bancos e depois aos supermercados…

Ora isto não é nada de novo, especialmente para quem anda pela Internet há uns anitos. Em meados da década de 1990, instituiu-se um verdadeiro milenarismo quando se suspeitava de que o «bug do ano 2000» iria fazer colapsar o mundo moderno tão dependente de computadores — pois alguns sistemas mais antigos, nomeadamente o do controle do tráfego aéreo internacional (que usa software desenvolvido nos anos 1960 com poucas adaptações) e do sistema financeiro internacional pudesse, de alguma forma, não suportar a passagem de 1999 para 2000 (interpretando a nova data como 1900 ou qualquer outro disparate do género). O problema não era exactamente uma idiotice pegada — de facto, haviam muitos sistemas informáticos que não estavam preparados para a passagem de 1999 para 2000, pois usavam só os dois dígitos finais para o ano) — mas gerou uma corrida desenfreada e de pânico, muito semelhante à actual, com talvez uma diferença: ainda não havia Facebook e um número relativamente muito mais pequeno de pessoas estava ligado à Internet. Os media, na altura, não estavam tão a par do problema tecnológico e divulgaram-no bem menos do que agora (e com mais erros e inexactidões!). Mesmo assim houve pânico milenarista vindo do sector dos crédulos, claro, mas o impacto pareceu ser menor.

Depois, claro, nada aconteceu — até haviam milhares empresas preparadas para processar os fabricantes de software que não se tivessem precavido contra o bug — excepto que a década de 1990 deu um impulso notável à indústria informática em todo o mundo. Só em Portugal, em 1995 faltavam 150.000 programadores — estimativa baseada na necessidade de alterar todo o software existente para, em 5 anos, prepará-lo para o bug do ano 2000. Isso quis dizer que se investiu descomunalmente em desenvolvimento aplicacional nessa década, quando nos anos 1980 havia uma certa estagnação do sector.

O boom criado pelo desenvolvimento informático teve uma consequência: a dot-com bubble, onde pela primeira vez se começou a investir à doida, a uma escala sem precedentes, em meras ideias sem qualquer modelo de negócios. Os investimentos foram de tal forma brutais que logo após o 11 de Setembro de 2001, quando finalmente os investidores começaram a perceber que tinham investido apenas em ideias e não em negócios, tudo colapsou, quase da noite para o dia. Houve sobreviventes — como a Google, que ficou quase com o monopólio de venda de anúncios em sites Web, uma área nova que tinha centenas se não milhares de empresas no sector, todas elas desaparecendo (ou adquiridas pela Google!) logo a seguir ao 11 de Setembro — mas houve centenas de milhares de empresas que faliram, e milhões de pessoas, especialmente na área informática, que ficaram sem empregos. Em 2001-2003 estava-se em plena crise económica à escala global: os bancos entravam em bancarrota a torto e direito, perdendo o dinheiro todo dos seus clientes, que por sua vez iam à falência e abandonavam as suas empresas, despedindo pessoal. As profissões na área da informática, muito responsáveis pelo enriquecimento à custa do terror (infundado…) do bug do ano 2000, e depois responsáveis por lançarem milhões de ideias completamente absurdas para um mercado ávido em gastar dinheiro em disparates sem nexo, ficaram fortemente desacreditadas. Foi uma razia feita a tudo e todos que assentavam a sua base de enriquecimento pessoal baseada em rumores. E em certa medida os sobreviventes da crise até acharam bem — o mundo ficou um lugar melhor, especialmente para aqueles que aprenderam a sua lição.

Diz-se que os ciclos económicos duram mais ou menos uns nove anos. Se a crise do final dos anos 1980 passou despercebida, já o boom dos anos 1990 (proporcionado, entre outras coisas, pelo bug do ano 2000) ficou na mente de todos como os anos de grande prosperidade económica — uma espécie de era de ouro nostalgicamente gravada nas nossas memórias curtas, em que havia crédito fácil por todo o lado e em que toda a gente, com pouco esforço, muita ardúcia e apostando em rumores falsos, conseguia fazer dinheiro com imensa facilidade. A União Europeia parecia sólida como nunca e capaz de destronar a primazia americana pela primeira vez na sua história depois dos anos 1950; mas mesmo do lado americano, tudo eram rosas. Segue-se a crise da dot-com bubble, uma crise sem precedentes, e os apocalipsistas previam «uma recessão bem pior do que a Grande Depressão» — que, evidentemente, não veio a acontecer. É certo que milhões de pessoas perderam tudo o que tinham — emprego, contas bancárias, casas, carros e principalmente a sua credibilidade pública (eu fui um deles 🙂 ) — mas não houve nenhuma catástrofe especial, seja ela mística, pseudo-científica ou económica. Life goes on.

É no entanto verdade que aconteceram duas coisas importantes, que começaram a tomar relevância em meados dos anos 1990 — por volta da altura em que a Microsoft lançou o Windows 95 e que a Internet passou a ser definitivamente um produto mainstream em vez de ser algo do domínio de uns quantos geeks e académicos nas suas torres de marfim. A primeira foi a noção de que já não são apenas os media que moldam a mente colectiva das sociedades: os rumores e boatos são espalhados agora por cerca de dois mil milhões de pessoas ligadas de alguma forma à Internet e que, sem qualquer filtro, lançam as suas «notícias» e «opiniões» no vasto oceano de informação que é a Internet. É evidente que a maior parte das pessoas não tem uma grande audiência; mas contagiam-se mutuamente. E por vezes contagiam jornalistas, que por sua vez encontram assim a oportunidade de encontrar um público-alvo para certo tipo de notícias de fraca credibilidade jornalística, mas que se assentam em «fontes». Passaram a ser citadas «autoridades» que escrevem blogs (ou, mais tarde, que colocam mensagens no wall do Facebook ou no stream do Twitter), independentemente de quem «certifica» a validade dessas autoridades: na realidade, o legado da dot-com era foi a noção de que «se há muitas pessoas a acreditarem numa coisa, ela deve ser verdade»; as empresas dot-com baseavam o seu sucesso no número de utilizadores que tinham, não na solidez do seu modelo de negócios (que frequentemente não existia). Essa mentalidade perdurou: se muita gente acredita em alguma coisa, essa coisa deve ser verdadeira.

A segunda coisa é, a meu ver, muito mais preocupante. Os próprios governantes repararam que, nos anos 1990, estavam a perder o controlo sobre a informação disseminada. É difícil fazer «política à porta fechada» quando basta que um governante insatisfeito (porque se calhar não lhe calhou o tacho que esperava…) mande uma mensagem para o Twitter (alguns parlamentos europeus proibiram a utilização do Twitter e do Facebook por parte dos deputados em plenário…). Os anos 1990 assistiram a um renascer da liberdade de opinião, que passou a ser expressa fora dos media controlados, e que mesmo assim atingiam uma grande população. Isso cada vez mais se tornou inevitável e difícil de controlar; sites como o WikiLeaks são o legado dessa transformação da nossa sociedade, que passou a ter outras formas de acesso à informação que não as tradicionais.

Mas os governos são tudo menos parvos. Ao perceberem o impacto que os novos media têm em moldar a opinião das pessoas, começaram a aproveitar-se também dos mesmos. Hoje em dia, é rara a organização governamental que não tenha o seu site (ou mesmo página no Facebook…), seja aqui no mundo dito ocidental e desenvolvido, seja em qualquer parte. Foi, pois, preciso desenvolver novos métodos para impingir opiniões às pessoas.

E a primeira forma de o fazer foi graças ao terror — sempre a melhor arma dos políticos para fazerem o que lhes apetece. O 11 de Setembro permitiu que George Bush abolisse liberdades expressas na constituição americana, através do Patriot Act e semelhantes actos executivos que permitem a supressão individual de direitos humanos «em caso de necessidade». Mantendo acesa a «guerra contra o terrorismo», os países ocidentais conseguiram assim, aos poucos, restringir as liberdades individuais e circunscrever a liberdade de expressão quando essa se tornava desagradável — nem que seja espalhando a sua desinformação através das redes sociais. O «perigo islâmico» conduziu a uma resposta «cristã» colocando em questão os valores laicos e tolerantes sobre os quais estão alicerçadas as democracias ocidentais, e o puritanismo começou a despontar um pouco por todo o lado, assim como as restrições das liberdades individuais e de expressão, culminando em iniciativas patetas como o SOPA. Mas em simultâneo, regressou-se ao capitalismo laissez-faire — mais ou menos «abolido» um século antes, quando as consequências sociais se tornaram intoleráveis — e reforçaram-se os laços sempre ambíguos entre aqueles que estão no poder e as empresas mais poderosas. Se o caso russo, onde a fina linha divisória entre o Conselho de Administração da Gazprom e do governo russo cada vez se tornou mais ténue, é apontado como o pior exemplo do que acontece a uma «democracia», a verdade é que no resto do mundo ocidental cada vez se tornou mais claro que o mesmo se passava — sempre se passou, na realidade — embora talvez até agora de forma menos visível e menos transparente, o que se tornou possível de determinar graças à informação espalhada via Internet. Aqui, em certa medida, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro: os órgãos de comunicação social passaram a fugir ao controlo dos governos, justificando-se com as «notícias» e «opiniões» que andavam a circular na ‘net, e embora seja fácil controlar um número reduzido de media — a própria ‘net quase que «matou» o modelo de jornais independentes, tornando esse controlo mais simples; em Portugal, ironicamente, o único diário ainda independente é O Diabo que não goza exactamente de credibilidade… — não é fácil controlar milhões de auto-proclamados opinion makers nos seus blogs com centenas de milhares de seguidores.

Como fazê-lo? No pós-11 de Setembro, a guerra contra o terrorismo começou a abrandar, à medida que mais e mais organizações terroristas foram desmanteladas. O aperto da segurança praticamente acabou com a possibilidade do terrorismo internacional conseguir feitos de primeira página. Hoje em dia, são mais os psicopatas assassinos que gozam desse privilégio do que os grupos organizados, como o caso do norueguês Anders Behring Breivik veio a ilustrar. Na realidade, mesmo os grupos como a ETA ou o IRA perderam o impacto nos media que gozavam antes do 11 de Setembro e nos atentados que se seguiram. A Al Qaeda ficou reduzida a intensificar os actos de terrorismo no mundo islâmico e a abandonar os esforços fora deste. O terrorismo, colectivamente, começou a perder impacto como forma eficaz de manter os cidadãos amedrontados. Está ainda no nosso subconsciente, mas já não é a preocupação principal.

Então tornou-se necessário descobrir uma nova forma de manter as populações aterrorizadas. Felizmente, a estupidez humana e a ganância deram o pretexto necessário: bastou veicular algumas informações sobre a forma como o meio financeiro jogava — há décadas — com dinheiro perfeitamente virtual para abalar a credibilidade do meio financeiro. O problema é que o mundo financeiro é a artéria vital para a sociedade em que vivemos; não há maneira de, em simultâneo, abalar a confiança e a credibilidade bancária ao mesmo tempo que se evita um colapso da economia. Ou por outra: pode-se conseguir as duas coisas, mas só à custa de injectar imenso dinheiro onde este aparentemente não existia, ou só existia virtualmente.

«Injectar dinheiro» é apenas uma forma de dizer: manter o capital a circular. Artificialmente. Mas quando se tornou óbvio de que o capital disponível era insuficiente, os governos surpreendentemente ficaram com uma nova arma de terror nas suas mãos. Talvez muitos nem sequer se tivessem apercebido da sorte que tiveram. Aterrorizando as pessoas que vivem do crédito fácil, das hipotecas e dos empréstimos para comprar automóveis, conseguiram impôr a noção de que não podemos viver mais do que antes e que agora todos temos de sofrer com isso. Tal como durante a guerra ao terrorismo, que serviu de pretexto para abolir algumas liberdades individuais, a crise financeira permite agora a governos ignorarem os direitos dos trabalhadores, justificando-os com a incapacidade financeira de sustentarem economicamente esses direitos adquiridos. Na realidade, esta crise financeira veio levantar a forte suspeita de que o Estado social só funciona em países ricos, e que aqueles que se julgavam «ricos» não eram mais do que dragões de papel. Revelando-se a realidade dessa riqueza fictícia, passou-se imediatamente à acção de dar início à desconstrução do Estado social, de forma acelerada, e de transferir os proveitos dessa redução de custos àqueles que ficaram sem acesso a um sistema bancário com crédito fácil — luz verde às privatizações e às transferências de competências para os grandes grupos empresariais, não sujeitos ao escrutínio popular dos cidadãos: enquanto eleitores, podemos fazer cair o Governo e eleger outro, mas não podemos colectivamente demitir o Presidente do Conselho de Administração da EDP ou das Águas de Portugal. Um Estado mais privado representa uma maior segurança do status quo para além dos inevitáveis sobressaltos políticos quando a população está descontente.

Descontente… e aterrorizada. O plano maquiavélico está a resultar lindamente. Em nome da «falta de produtividade» e da incapacidade de sustentar um Estado social, propõe-se um estrangulamento económico. Portugal e os portugueses deveriam estar habituados: ao longo da nossa história, passámos sucessivamente por Eras de Ouro — os Descobrimentos, o ouro do Brasil — seguidas de períodos de pobreza atroz, num país com escassos recursos económicos mas uma extraordinária capacidade de desenrascanço. Os nossos políticos sabem que os portugueses sujeitam-se a quase tudo e safam-se sempre. E vai haver uma consequência feliz — mesmo que não a entendamos assim! — da recessão económica: o nível do custo de vida vai baixar. Não é o nível de vida que vai baixar, mas o custo que vai baixar.

Isto é simples de entender: nos tempos do Estado Novo, éramos um país paupérrimo. Mas o custo de vida era baixíssimo. Havia pouco para comprar (pouca diversidade de produtos), mas o que se conseguia comprar, era barato, comparativamente aos salários nacionais. Isto, claro, tinha dois benefícios, muito pouco explorados na altura: o turismo era barato e por isso atraente; e a produção, dados os baixos níveis salariais, podia ser feita a custos baratos, e, logo, mundialmente competitivos — daí sermos ainda hoje os principais produtores mundiais de cortiça (e derivados), pasta de papel e moldes de plástico. Mas mesmo a forma de atrair investimento estrangeiro — culminando no «quase-pleno-emprego» dos anos 90 — dependia fundamentalmente de ter profissionais «quase» tão bons como os europeus, a salários marroquinos.

Nos anos 90, essa tendência inverteu-se. Apesar de ser verdade que, em casos pontuais — basta olhar para os salários mínimos, por exemplo — muitos países europeus tenham salários superiores aos portugueses, a diferença já não é assim tão grande. Os quadros superiores nacionais, por exemplo, ganham bem mais do que no resto do mundo. É certo que muitos profissionais licenciados ganham menos — basta olhar para os salários de professores universitários — a diferença já não é abismal como era nos anos 1960 ou 1970, altura de grande emigração. Mesmo muitas vezes vi comparações falaciosas, mostrando que certa profissão X, na Escandinávia, era remunerada há alguns anos com €1700/mês enquanto que por cá só se pagavam uns miseráveis €1000 pela mesma função. Só que esses quadros raramente explicavam que — nessa altura! — os escandinavos eram taxados em 80 ou 85%, enquanto que nós nos contentávamos com impostos a 30%. Claro que os escandinavos têm depois tudo à borla — transportes, saúde, reformas boas, etc. — e nós não, mas a diferença real era na verdade muito mais pequena do que sempre se julgava, e era apenas nos edge cases — por exemplo, a comparação de reformas ou do salário dos agricultores — em que se viam as enormes diferenças. Não quero com isto dizer que a maioria dos portugueses vivessem bem, comparados com os escandinavos; quero dizer que haviam alguns milhões que viviam bem melhor do que na realidade pensavam (ou que lhes fizeram pensar). Isto é comparável a dizer que, por exemplo, em média, os salários no Brasil são metade dos valores dos nossos — mas há mais de 30 milhões de brasileiros (três vezes a população portuguesa!) que vive bem melhor do que o português médio (ou que o alemão médio!). Em média, a Índia é um país paupérrimo com centenas de milhões prestes a morrer de fome todos os dias — mas 300 milhões de indianos vivem melhor que os portugueses. Em média, na China os salários são baixíssimos e uma massa populacional bem superior à população toda da Europa vive na mais desoladora pobreza — mas 300 ou 350 milhões de chineses têm salários bem superiores ao da média dos portugueses (com custos de vida bem mais baixos). E, em contraste, dos 300 milhões de americanos, 100 milhões vivem abaixo do limiar de pobreza — à volta de 400-500 Euros por pessoa por mês, conforme definido para o custo de vida médio americano — pelo que nem tudo são rosas na Obamalândia.

Ou seja: os números são muito enganadores. Hoje em dia, empresas indianas e chinesas contratam empresas europeias e americanas porque os trabalhadores europeus e americanos aceitam sobreviver com salários inferiores aos dos indianos e chineses. Isto parece ridículo, mas com cada ano que passa, cada vez é mais assim. A imagem da fábrica indiana ou chinesa com miúdos de 13 anos a trabalharem 12 horas por dia com um prato de arroz como salário diário continua a ser verdade, mas já não é verdade para a maioria do tecido empresarial desses países. Na Índia, por exemplo, cada vez é mais difícil contratar programadores licenciados — a Índia tem boas universidades; poucas, mas boas — que aceitem salários «de miséria», pois a indústria informática indiana é global e cobra preços globais; os seus empregados sabem isso muito bem e exigem os mesmos salários e direitos que os seus colegas europeus e americanos. Não é por acaso que a China investe em países bem mais pobres que eles próprios para obterem trabalho a salários mais baixos do que os exigidos pelos chineses; não é apenas por amizade com os portugueses (que é um factor que conta!) que estão a estabelecer fábricas cá: é porque sabem que os portugueses com qualificações estão dispostos a trabalhar mais, melhor, e mais barato que os seus colegas chineses, e a China, como fornecedor mundial de produtos a baixo custo com qualidade razoável (ainda não é «boa», mas melhora de ano para ano), já não os consegue produzir de forma tão barata como dantes — mas continua a ter de escoar produtos baratos para todo o mundo. A diferença é que a população qualificada já não vai na conversa de trabalhar por uma tigela de arroz e viver numa cabana de palha.

Se 2012 vai ser um ano «trágico», não sei — mas duvido sinceramente disso. O que sei é que pelo menos os actuais governantes estão a começar a olhar para a realidade tal como ela é, e não como os media e as redes sociais gostariam que fosse. A riqueza desmesurada de que gozámos durante os anos 1990 foi toda artificialmente criada: primeiro, graças a fundos de coesão europeus, desbaratados a torto e a direito, sem qualquer controlo. Isso foi uma lição que a Europa aprendeu, e sobre a qual já me vou pronunciar mais abaixo. Em segundo lugar, graças à ganância especulativa, foi criada riqueza artificial bem para além do suportável — através do crédito fácil. Ainda hoje em dia é difícil, para a esmagadora maioria das pessoas, compreender que o dinheiro não é criado pela Casa da Moeda. Nem sequer é o Banco Central Europeu que cria dinheiro. Até o pode fazer marginalmente. Mas o dinheiro é realmente criado pelos bancos privados: quando emprestam cem euros e recebem cento e dez euros graças aos juros que cobravam, criaram, do nada, dez euros que não existiam antes. Puf. Apareceram magicamente nas contas dos bancos. Não precisaram de adquirir bens, ouro, ou qualquer produto financeiro. Fizeram realmente magia. É assim que «nasce» o dinheiro nas economias ocidentais (e todas as que se baseiam nelas), e sempre foi assim.

É claro que a noção de «crédito fácil» gera artificialmente muito mais dinheiro. Quanto mais for emprestado, mais juros são cobrados, e mais dinheiro aparece do nada. É assim que países como o Luxemburgo (que não produz nada) ou a Suíça (que produz alguma coisa) podem estar cheios de dinheiro sem esforço nenhum: tudo o que precisam é de emprestar dinheiro. Quanto mais emprestam, mais dinheiro surge virtualmente do vazio, mas esse dinheiro virtual é transaccionável. Isto não é nenhuma descoberta! Mais uma vez: sempre foi assim. A maioria das pessoas é que pensa que não…

A diferença é que Portugal, ao fim de meio século de regime totalitário, era um país de avarentos que não gastava um tostão e poupava tudo o que podia. Foram precisos um quarto de século — e uma nova geração de novos-ricos e patos bravos — para mudar esta mentalidade e transformá-la numa geração consumista e despesista. À custa do crédito fácil, os bancos conseguiram mudar a mentalidade, e, ao fazê-lo, geraram dinheiro onde este não existia. Isto não é mau em si: significou mais dinheiro disponível, e com este dinheiro adicional, pode-se investir mais e mais, e obter ainda mais dinheiro — a beleza do modelo capitalista assenta neste princípio.

Só falha, claro, quando a ganância é tal que se cometem dois erros básicos. O primeiro, mais típico de Portugal do que noutros países (e daí a crise poder vir a ser mais profunda aqui), é investir menos e enriquecer mais uma classe privilegiada. Há que encontrar um equilíbrio, que por cá não aconteceu. O segundo erro, claro, é não prever que as pessoas possam não ter a capacidade de pagar os empréstimos até ao fim. Se não conseguem pagar os juros… então esse dinheiro virtual não é criado. E isso é o que faz com que agora, subitamente, pareça ter desaparecido dinheiro em todo o lado, que não se percebe para onde é que foi! Pura e simplesmente o que aconteceu foi só isso: dinheiro virtual com o qual se contava (e sobre o qual, por exemplo, o Governo e a banca pediam constantemente empréstimos) que nunca chegou a existir.

Não sei qual é a «solução para a crise», e nisso pelo menos sou intelectualmente mais honesto do que a esmagadora maioria dos políticos e opinion makers, desde os opinion makers profissionais aos de café ou de poltrona da sala. Sei, isso sim, que o problema fundamental está na mentalidade. E isso não é alterável através de factores externos. Passámos 30 e tal anos a dizer aos portugueses que podem gastar dinheiro muito acima das suas posses e da capacidade real do país de gerar riqueza, porque o crédito era fácil, barato e universalmente acessível. Isso criou uma apetência para o consumo desenfreado acima das reais capacidades financeiras das pessoas. Removendo-se o crédito fácil, desmorona-se tudo — menos o desejo de possuir mais e mais bens inúteis que se transformaram em «necessidades». Os meus amigos comunistas consideram que ter 2 PlayStations, 4 tablets e meia dúzia de telemóveis Android são «luxos justificáveis» que devem estar obrigatoriamente acessíveis à maioria da população. Uma familiar minha, que se inclina mais para o conservadorismo de direita, preferiu oferecer bombons no Natal a toda a gente para poder comprar a 3ª PlayStation para o seu filhote muito amado. Esse tipo de mentalidade não vai desaparecer de um dia para o outro porque levou 30 anos a ser construída. E enquanto continuarmos a não ter a capacidade para aceder a todos os luxos a que estamos habituados, vamos sofrer por isso.

2012 não vai ser um ano de «mudança radical» excepto no reconhecimento de que o modelo actual das nossas sociedades vai ser colocado em questão. Mas as pessoas, por si só, não vão «mudar» – vão, isso sim, sofrer com a mudança. E estão a ser massivamente encorajadas pelos media e pelas redes sociais: nunca o «jornalismo de tragédia» vendeu tantos artigos. De certa forma, até parece que ao mostrar como cada vez mais pessoas se sentem infelizes, nós, ao ler ou ver essas notícias, deveremos tirar algum consolo disso. Se um amigo estiver a chorar, de nada serve chorar também: onde estava uma pessoa infeliz, passaram a ficar duas. No dia-a-dia, o que as pessoas saudáveis e funcionais fazem é passar um braço por cima do ombro do amigo e manter a calma: ao mostrar que nos recusamos a juntar-se à infelicidade do amigo, acabamos, mais cedo ou mais tarde, por reduzir-lhe a infelicidade. Isso é o que os bons amigos fazem. O consolo não está em chorar com ele; está em mostrar-lhe que não vale a pena chorar.

É isso que falta aprender e que vamos ter de enfrentar neste ano de 2012.

A primeira coisa que vai ter de acontecer, algures em 2012, é o reconhecimento de que o modelo actual da Eurolândia estava minado de erros, e que vai ter de ser corrigido, de uma vez por todas, doa a quem doer a realidade. O problema principal foi que se canalizaram centenas de milhares de milhões de euros dos contribuintes — principalmente dos contribuintes alemães, mas não só! — para as mãos de governantes com deficiências sérias de credibilidade e honestidade, sem qualquer controlo. Todos nos lembramos de como os primeiros fundos de coesão, ainda nos anos 1980, foram transformados em Ferraris e Jaguars a fundo perdido — e ninguém foi responsabilizado. Depois a Europa começou a impôr algumas — poucas — regras que eram facilmente contornadas e esses fundos continuaram a ser desbaratados; talvez já não a fundo perdido, mas através de «engenharia financeira» que permitia, no mínimo, a que uma empresa recebesse o dinheiro, o convertesse em Porsches, e depois encerrasse a empresa numa falência antes de pagar o que devia. Os próprios governos começaram a adoptar atitudes semelhantes, mas a uma escala muito superior. Quando se começou a falar em impôr regras orçamentais, só uns poucos — a Espanha, a Irlanda… — é que aceitaram essas regras. Mesmo países como a Alemanha e a França não o fizeram.

A situação agravou-se com a moeda única. Os países da Eurolândia comportaram-se como as crianças cujos pais lhes dão uma mesada para gastar em alimentação e livros na escola, mas que estas em vez disso gastam em doces (e jogos para a PlayStation!). Quando os pais lhes perguntam onde estão os livros de estudo, as crianças encolheram os ombros, não sabendo o que fazer, e pediram mais dinheiro — e os pais acabaram por lhes dar ainda mais dinheiro. Que foi novamente esbanjado em mais doces e mais jogos. O ciclo repetiu-se nesta década de Eurolândia: a única regra é que não havia regras. Quando se gastava todo o dinheiro, «aparecia» mais. Lembro-me sempre de que de 3 em 3 anos, ou de 4 em 4, se avisava que «os fundos de coesão iam terminar e era melhor gastar tudo enquanto se pudesse». Assim se fez… mas depois lá apareciam mais e mais fundos de coesão, ad infinitum. As regras também apareciam mas eram silenciosamente ignoradas.

Ou seja, não deu para criar um modelo económico multinacional em torno de uma moeda única sem impôr regras de utilização da distribuição de dinheiro e da sua utilização. Isso foi uma falácia, uma ilusão auto-gerada pelos membros da Eurolândia, que se acreditava — ingenuamente — poder replicar para sempre. Mesmo que existissem economistas que estranhassem a subsistência a longo prazo do modelo, as suas vozes eram silenciosamente abafadas perante a «evidência» de que se conseguia continuar a deitar dinheiro às pazadas janela fora, porque a fonte do dinheiro parecia inesgotável.

Isto foi uma brincadeira de crianças. Se durou uma década é porque de facto a Europa é mesmo muito, muito rica. Mas essa riqueza não é infinita; é apenas muito grande.

A nova Europa de 2012 não tem outro remédio: terá de ser baseada num modelo federal ou pelo menos confederativo. Isto vai fazer com que os activistas nacionalistas, baseados num princípio arbitrário de que linhas sinuosas num mapa abstracto definem «fronteiras», venham todos para a rua chorar e lamentar a falta de soberania. Todos estes conceitos — soberania, identidade nacional, fronteiras — vão ser colocados fortemente em questão neste ano de 2012. E a transição vai ser violenta e muito, muito dolorosa. Há muitos anos atrás eu previa que não iríamos assistir a uma Europa federal antes lá de 2050, pois seriam precisas mais uma ou duas gerações para nos desapegarmos de valores historicamente obsoletos, mas que estão de tal forma enraizados nos europeus, que há mil anos que lutam ferozmente pelas suas fronteiras, que não seria assim muito fácil de mudar. Teria de ser feito aos poucos.

A Eurolândia parecia ser uma tentativa de agradar a gregos e troianos — uma forma de «confederar» um grupo de países em torno de uma moeda, sem lhes restringir a «soberania» (neste caso, o direito de esbanjar dinheiro dos outros sem restrições) — mas como se viu, o modelo não funcionou: os gregos que por pouco não se transformaram em troianos, ou seja, passaram à história…

A Nova Eurolândia terá — e isso vai ter de acontecer em 2012 — de funcionar no pressuposto de que os países que beneficiam dos fundos de coesão não são entidades nem credíveis, nem honestas, nem sequer responsáveis, mas sim apenas um conjunto de oportunistas gananciosos só preocupados em arrecadar dinheiro fácil sem se importarem com as consequências. Isto não é ser «má língua»; é apenas a realidade, tal como ela é, e mais nada. Escondê-la e fingir que todos são uns anjinhos é ser-se infantil e muito inocente. Chegou o momento de perder a inocência e assumir que os países europeus — todos eles, provavelmente até incluindo a própria Alemanha — não são financeiramente responsáveis. Não se lhes pode meter dinheiro nas mãos sem regras porque o desbaratam todo como se não houvesse amanhã. E a solução passa por impôr regras, mas regras draconianas, não regras «a fingir» que podem ser ignoradas quando os governos ditos soberanos lhes apetece.

Isso será, seja como lhe for chamado, o princípio do federalismo europeu. Para não ferir susceptibilidades, é provável que se lhes chame outra coisa qualquer. Para evitar multidões nacionalistas nas ruas a derrubar governos, é possível que os acordos e tratados assinados em 2012 nunca usem a palavra «federação» ou «confederação» mas usem outra palavra mais politicamente correcta. Mas o que acontecerá é que os países da Eurolândia deixarão de ter autorização para esbanjar dinheiro europeu como lhes apetecer. Passarão a ser controlados, tal como são controlados cada um dos estados federais pelos governos centrais dos EUA, do Brasil, da Índia, da Suíça, ou da própria Alemanha. Nos EUA, a Califórnia contribui com um terço do PIB; os estados do nordeste (a «antiga União») com outro tanto; dos restantes estados, só o Texas é que apresenta uma contribuição positiva significativa para o PIB americano. Os restantes estados — aí uns 30 — não sobrevivem sem a redistribuição de riqueza efectuada pelo governo central dos EUA. Podem odiar profundamente os californianos, os texanos, os novaiorquinos e os bostonianos, mas não têm outro remédio senão aturá-los, pois são eles que lhes pagam as contas e permitem que os EUA, globalmente, seja uma nação de sucesso (se usarmos a economia como padrão de sucesso, bem entendido). Por sua vez, o Estado federal não permite que a Califórnia, o Texas, ou qualquer outro Estado apresente ideias perigosas de secessão: para garantir que 300 milhões de americanos consigam um nível de vida minimamente aceitável sem grandes sobressaltos, os estados ricos pagam pela ineficiência dos pobres, mas a contrapartida é que não «saiem do sistema» — assim, todos ganham. Todos podem queixar-se contra o Estado federal (e não há país onde se proteste activamente mais contra o governo que os EUA) mas a verdade é que são as regras federais que mantém os EUA enquanto uma nação economicamente sólida. Claro que a solidez pode «abanar». Com o colapso da indústria automóvel em Detroit, se o estado do Michigan fosse independente e soberano, teria sido lançado numa espécie de idade das trevas. Assim, lá teve o Estado federal de intervir, buscando fundos da Califórnia e do Texas e de Nova Iorque e do Massachusetts… isso não «destruiu» os Estados Unidos da América. Em vez disso, conseguiu-se evitar o pior (nem que seja porque há mais pobreza real nos EUA que na Europa) e fazer com que os EUA não «batessem no fundo» — não foram precisas medidas draconianas para recuperar a economia americana. Draconianas no sentido das que estão a ser aplicadas à Grécia, à Irlanda, a Portugal e a sabe-se lá quem mais se seguir.

Não estou a dizer que o modelo dos EUA seja «o melhor do mundo» — nada disso. É tudo menos isso. Mas funciona pelo menos neste tipo de crises económicas. Pode funcionar mal, é certo: afinal de contas, a crise começou justamente do lado de lá do Atlântico. No entanto, por lá, existem mecanismos para a saída da crise se processar de uma forma mais suave e menos radical. Quer gostemos do exemplo americano ou o desprezemos profundamente, vamos ter de nos inspirar nele para o modelo da Eurolândia (se não mesmo de toda a Europa).

Vamos ter de ter um Parlamento Europeu que efectivamente possa votar leis que sejam, de facto, aplicadas em todos os países europeus — não meras «recomendações» que os Estados-membros tentarão evitar aplicar sempre que as conseguirem contornar. A Comissão Europeia terá de se tornar num verdadeiro Executivo que possa efectivamente liderar uma solução para a crise de uma forma ágil. O Banco Central Europeu terá mesmo de se comportar como um banco central, não meramente num cofre-forte para guardar Euros e os emprestar a juros convenientes. E a Europa não terá outro remédio senão colocar inspectores em todos os países aos quais emprestou fundos: o princípio da desconfiança generalizada dos governantes dos Estados-membros deverá ser a regra, não a excepção. Ora isto tudo terá de ser colocado a funcionar em 2012, quer a gente goste, quer não. Poderemos chamar-lhe a isto a Nova União Europeia, ou a União Económica Europeia, ou qualquer outro nome, mas o que importa é que será uma federação, ou pelo menos uma confederação, onde passará igualmente a haver uma unificação a nível fiscal e muito provavelmente também a nível social.

É claro que os governantes dos Estados-membros temem isto. Estão aterrorizados (pelo menos a maioria deles), especialmente por causa da reacção dos seus eleitores. O eurocepticismo cresce de dia para dia com o agravamento da crise, mas os eurocépticos não percebem que o problema não está numa Europa unificada, mas sim porque a Europa realmente não está unificada mas pensa que está. Somos uma coisa que nem é carne nem peixe e que por isso mesmo não funciona. Ou melhor: fizémos a experiência. Não funcionou. Agora temos de avançar para o inevitável passo seguinte, quer queiramos, quer não. Podemos «dourar» a pílula para que a população europeia não se revolte, mas o resultado não pode ser outro.

Ou melhor… poder, até pode. Podemos ter a Alemanha e a França a voltar-se para Portugal e a dizer que temos duas opções. Ou fazemos parte da Europa federal, e voltamos ao nível de vida de 1995, ou continuamos como estamos, numa pseudo-união sem regras, e Portugal terá de voltar ao nível de vida de 1970. A escolha é nossa. E é a mesma escolha para todos os países europeus — só com a diferença de que a Alemanha e França, em 1970, estavam a anos-luz de Portugal em termos sociais e de prosperidade económica…

Aqui entra o choque de mentalidade que nos deverá «abanar» em 2012 e fazer com que este ano seja realmente diferente. Se continuarmos a persistir em manter uma «soberania» — ou seja, o direito a que os nossos governantes e as empresas perto do poder possam esbanjar todo o dinheiro que quiserem sem restrições, a custo dos contribuintes — então isso vai ter como consequência passarmos a viver de novo no Portugal de 1970. Um Portugal em que não se morria de fome, é certo, mas em que não havia TV a cores, e mesmo a preto-e-branco não existia em todos os lares. Todos tínhamos frigoríficos, mas teremos de abandonar os écrãs de plasma. A maioria das famílias não tinha automóvel, e as que tinham, tinham apenas um. Nos supermercados vendia-se leite em pó, que era barato. Podíamos ir ao cinema e ir passear ao Jardim Zoológico, mas não havia dinheiro para tirar férias todos os anos, e, quando se tirava, era para alugar uns quartos espartanos num Algarve pré-turístico, pois não havia mais lado nenhum para onde ir. Comprávamos roupa pelo Natal e pelos anos, mas não havia lojas de marca — haviam as feiras (que continuam a haver por essa província fora!) e os alfaiates e modistas de bairro. Comprávamos uns LPs de vinil ano sim, ano não, mas não haviam concertos de bandas «na moda» a que pudéssemos assistir — os preços dos bilhetes seriam incomportáveis. O Portugal de 1970 era pouco melhor do que algumas das cidades mais prósperas dos actuais países em desenvolvimento: talvez mais limpo, um pouco mais organizado, um pouco mais digno, um pouco mais arranjadinho. Mas não se chegava a morrer de fome. Era, pura e simplesmente, um país muito pobre, mais nada.

Se queremos continuar a insistir com a nossa «soberania» fora de uma Europa federal, é essa a consequência da nossa decisão: voltar quarenta anos para trás no tempo e resignarmo-nos ao nível de vida a que o nosso país, isolado, consegue manter para todos os seus cidadãos. Não dará para mais do que isto, a não ser que o Joe Berardo encontre petróleo em Aljubarrota. Temos alguma vantagem relativamente a 1970: em vez de estradas nacionais cheias de buracos e curvas perigosas, passaremos a ter auto-estradas cheias de buracos com curvas um pouco menos perigosas. Haverão telefones e até Internet em todo o país; muitas pessoas, tal como na Índia ou mesmo na Nigéria, continuarão a ter telemóveis. Andaremos mais a pé, de bicicleta e de transportes públicos, e teremos menos poluição nas cidades. Voltaremos à agricultura de subsistência, mas com a vantagem de que os campos abandonados há 30 anos agora estarão repousados e prontos a sustentar uma agricultura mais intensa do que dantes (teremos, é verdade, de abdicar de muita da floresta que cresceu nos últimos anos — mas toda a desflorestração contribuirá para biomassa que podemos aproveitar para produção eléctrica). Como bónus, e até se avariarem os parques eólicos para os quais não haverá dinheiro para manutenção, até estamos bem melhores do que em 1970, pois estamos muito menos dependentes de petróleo e carvão para produção energética (há já dias em que a produção de energia alternativa em Portugal corresponde a mais de 70% da energia consumida, um feito notável).

Claro que os Natais terão mais prendas de roupa e menos PlayStations. Claro que as lojas como a FNAC e a Worten passarão apenas a vender electrodomésticos e acabarão com os écrãs de plasma. Claro que a esmagadora maioria de centros comerciais se irão parecer com os do Martim Moniz, onde as únicas lojas disponíveis serão lojas de chineses, indianos e paquistaneses. Em compensação, com a retracção dos salários, o custo de vida vai diminuir drasticamente, pelo menos para metade, mas possivelmente para muito menos do que isso. Isto, por sua vez, tornará o país de novo atraente para o turismo internacional, mas também para atrair capital estrangeiro que invista numa indústria que  praticamente desapareceu. O «amigo americano» que investia em Portugal nos anos 1950-1970 (a par do «amigo alemão» que abria fábricas de equipamento eléctrico e electrónico, e mais tarde de automóveis) vai ser substituído pelo «amigo chinês» — mas também pelo «amigo europeu» que preferirá abrir fábricas num país de terceiro mundo que fica mais próximo da Europa, do que ir para a China e a Índia (ou mesmo o Brasil!) onde a mão de obra altamente qualificada passará a ser muito mais cara do que em Portugal.

Isto pode não ser tão mau como isso.

Mas normalmente não é o cenário que a maior parte das pessoas querem. O que querem — mais: o que exigem! — é salários alemães, impostos espanhóis, e política social escandinava. Mas para isso temos de fazer parte dum Estado federal. Temos de ter a mesma atitude dos habitantes do Dakota ou do Montana, que sozinhos estariam num país de terceiro mundo, miserável e sem capacidade de sobrevivência, mas, fazendo parte dos EUA, têm acesso aos mesmos produtos e serviços que os ricos californianos (ou texanos, ou novaiorquinos). Não há americano mais «nacionalista» que um texano; no entanto, isso não quer dizer que sejam independentes — têm mais «independência» enquanto membros de uma união do que fora dela. É isso que temos de pensar muito seriamente quando o nosso espírito nacionalista e anti-europeísta se manifestar e nos empurrar para a rua para derrubar governos.

Enquanto esperamos para ver o que acontece — para ver se a Alemanha e a França conseguem, ou não, «impôr» os alicerces de um modelo federal, vejo aqui e ali o prenúncio de uma mudança «forçada» de mentalidades. Um jornalista da TV, entusiasmado, dizia que «o governo, obrigando os genéricos a baixar de preço para metade, estava a forçar a indústria farmacêutica a cortar nas suas margens de lucro». Entre amigos meus, com contactos com o meio financeiro, fala-se de que a banca terá provavelmente de se «adaptar» a margens de lucro de «apenas 70%» neste ano de 2012, e que estavam a avisar os investidores que mais valia pouco (mas seguro) do que nada (mas especulativo).

O que está errado neste cenário?…

Nos tempos da Outra Senhora, tudo o que fosse uma margem de lucro superior a 10% era considerado «usura» e punido pelo Estado. Claro que era um regime totalitário que se estava nas tintas para os direitos dos comerciantes, embora procurasse defender, mais ou menos, alguns direitos dos consumidores — o mercado não era totalmente livre. Mas o princípio subjacente era o de limitar a ganância. E os comerciantes sobreviviam mesmo «apenas» com uma margem de 10%.

Ora evidentemente não estou a sugerir que se «controle» o mercado e se abandone o mercado livre — isso seria uma burrice, só fazendo sentido para uma mente radical. Supostamente, num mercado completamente livre, os preços ajustam-se de acordo com a disponibilidade dos consumidores em pagar o que lhes é pedido. Havendo liberdade de afixação de preços, os consumidores gravitam para aqueles que fornecem o melhor produto ao mais baixo preço. É por isso que um telemóvel custava €5000 em 1980 e hoje em dia é oferecido de borla com uma assinatura de 24 meses — e tem mais capacidades. E cabe no bolso da camisa! A concorrência no mercado livre faz destas coisas.

O problema está quando, em vez de concorrência, temos na realidade cartelização. E quanto mais pequeno for o mercado de um país, e menos agentes económicos existirem, maior será a cartelização. Ou seja: o agente dominante estipula livremente um preço, e os poucos e escassos concorrentes ajustam os seus preços de acordo com quem domina o mercado. Talvez o reduzam um bocadinho, ou ofereçam um pouco mais de qualidade pelo mesmo preço, mas basicamente não irão fazer muito esforço: os consumidores, tendo poucas opções, não poderão fazer escolhas livres.

É assim na gasolina, nas telecomunicações, e na banca. Mas também o é nos supermercados. Embora existam dezenas de milhar de produtores na indústria alimentar, há pouco mais do que meia dúzia de redes de supermercados nacionais, e todos têm mais ou menos os mesmos preços. Estabeleceram-nos uma vez, e todos se ajustaram mutuamente — não há ninguém, por exemplo, a vender batatas a um décimo do preço, apesar de ser isso que custa, mais ou menos, a produzi-las. Vendem a mais ou menos 10% de diferença uns dos outros. Talvez no comércio local possam até aumentar um pouco mais os preços; talvez possam fazer uma super-promoção de fim de stock (com produtos no limite do prazo de validade), mas os preços não vão ter descontos de 90% mesmo nessa situação (um desconto de «leve 2 kg pelo preço de 1 kg» já é muito bom!).

Onde vemos uma maior flutuação de preço, pois há imensa concorrência, é na roupa. Graças às feiras, às redes de ciganos empreendedores que há décadas que tomam o resto de stock das fábricas (por exemplo, no final de época) e adquirem roupa (mesmo de marca) a preço de custo, e, mais recentemente, graças às redes de lojas de chineses, os preços são, em geral, bem mais baixos e mais próximos dos custos. Basta ver que uma loja «de luxo» pode fazer descontos de 70% ou 80% nos saldos e mesmo assim vender com alguma margem; já os chineses raramente conseguem fazer descontos acima dos 30% porque os seus preços são já tão próximos do custo real que dificilmente ganham alguma coisa com esses descontos (claro que há excepções). E à medida que as grandes marcas passaram a produzir na China, a diferença cada vez é menor. Por exemplo, a H&M, que produz roupa na China, Índia e outras economias de baixos custos salariais, vende roupa com qualidade semelhante à dos chineses a praticamente ao mesmo preço que estes. Mesmo assim tem margem de lucro que lhes permite fazer publicidade e adquirir grandes lojas em centros comerciais.

Quando trabalhava no meio editorial, havia uma regra de ouro para calcular os preços dos livros ao público: 40% para o lojista, 40% para o distribuidor, 10% para o autor, e o resto para a editora, que tinha de suportar todos os custos da edição e da sua própria empresa. Isto significava que o consumidor pagava dez a vinte vezes mais pelo preço de custo do livro, simplesmente porque os intermediários todos ficavam com uma fatia enorme do preço final. Hoje em dia consta que as margens ainda são maiores — algumas distribuidoras, por exemplo, ficam com 100% do preço de capa da revista, dão um X aos quiosques, e a editora, essa, tem de se safar apenas com a publicidade. Não é um bom negócio para as editoras.

No regime totalitário do passado, um livro custava na loja pouco mais do que 10% do que o valor de custo — e mesmo assim todos ganhavam dinheiro, suficiente para se ler bastante em Portugal. Este modelo ainda existe: o tabaco, por exemplo, também tem uma margem baixíssima. A Makro, que vende tabaco como retalhista, dá um desconto de 10%, que é tudo o que os quiosques e os cafés podem esperar obter de margem sempre que vendem um maço. E ainda têm de ir gastar gasolina (e tempo) para ir levantar os maços à Makro. A margem baixa não os impede de continuarem a vender tabaco.

Porque é que então os produtos e serviços são tão caros, se é possível sobreviver perfeitamente em modelos com margens baixas? A primeira resposta, claro, é mais uma vez a ganância. Já ninguém quer trabalhar com margens de 10%, com muito poucas excepões: os postos de abastecimento de combustível e os quiosques e bares que vendem tabaco. Também os comissionistas de seguros, de imobiliário e de viaturas automóveis trabalham com margens baixas. Ou os vendedores da Avon e Amway. Até recentemente, os vendedores de computadores (que também têm margens baixíssimas). Mas são excepções. No resto do mercado, a margem mínima é de uns 100%, mas é normal ser de 250% ou mais. Afinal de contas, «toda a gente faz o mesmo», e esta cartelização implícita significa que os consumidores não têm escolha.

A segunda resposta já é mais subtil. Embora tenhamos a impressão que não é assim, os preços dos bens e serviços, ajustados à inflação, estão hoje relativamente mais baratos do que há 30 e 40 anos atrás. Lembro-me de uma longa conversa com o meu pai àcerca disto, que insistia que hoje em dia já não podia comprar um livro por semana, porque eram caríssimos, enquanto que nos anos 60 do século passado, custavam poucos tostões. Fizémos umas contas relativas ao salário do meu pai na altura, e chegámos ambos à conclusão que os livros, hoje em dia, estão duas vezes mais baratos. No entanto, a percepção é que estão mais caros. Porquê? Porque nos anos 60 havia muito menos para consumir, e mesmo algumas coisas como a comida eram muito mais baratas. Logo, não «custava» tanto comprar livros. A mesma analogia pode ser vista em relação aos salários de hoje: para alguém que ganhe o salário mínimo como eu, comprar 4 livros por mês, a mais ou menos €20 cada um, representa 20% do meu orçamento pessoal — está fora de questão. Para o Prof. Marcelo, que ganha talvez uns €10.000 por mês, comprar (e ler!) quatro livros por semana tem um custo negligível. Custa-lhe tanto como para mim tomar uma bica!

Mas há mais efeitos perversos. Nos anos 60 e 70, era normal uma família arrendar uma casa por cerca de um quarto ou um terço do valor do salário (apenas do pater familias, porque bastava uma pessoa trabalhar para sustentar uma família). Os carros compravam-se a pronto e trocavam-se de 3 em 3 ou 5 em 5 anos, quando se fazia uma boa gestão das poupanças, e ainda se ganhava com a venda em 2ª mão; mas muito pouca gente pensava num carro. Poupava-se outro terço do salário, e o resto era para a comida e despesas familiares. Hoje em dia, praticamente todos os casais têm ambos os cônjuges a trabalhar, e um dos salários paga a casa, e o outro divide-se entre o carro, a comida, a TV por cabo e Internet, electricidade, a escola e actividades extra-curriculares dos filhos, e tudo o resto… sobra pouco! As rendas eram comparativamente baratas, mas os proprietários tinham menos regras a que estavam sujeitos: não havia condomínio a pagar, por exemplo, nem a obrigatoriedade de gastar dinheiro em seguros, pinturas regulares, inspecções ao gás, e assim por diante.

Quando as rendas aumentaram, assim como os salários, os comerciantes foram forçados a aumentar a sua margem — porque só assim, vendendo o mesmo que dantes, podiam pagar os custos recorrentes da manutenção do seu negócio. Isto tem vindo a aumentar de ano para ano. As despesas de uma loja num centro comercial são incalculáveis — especialmente quando se comparam com o que gastam muitos lojistas em zonas tradicionais que pagam meramente uns tostões de renda e têm a família a trabalhar na loja (não tendo assim muitos encargos fixos). Há uma enorme discrepância, e alguns comerciantes não têm outro remédio senão cobrir os custos mensais todos com poucas vendas com margens altíssimas. Isto é típico no caso das imobiliárias: têm de vender uma casa por mês, mas o que ganham com essa casa, tem de lhes pagar tudo — renda, impostos, salários de todo o pessoal, custos com publicidade. Se venderem duas casas nesse mês, o dono da imobiliária pode adquirir um Porsche. Três ou quatro casas, e é mais um apartamento na Expo. Este modelo é muito diferente do tradicional: baseia-se no princípio de que poucas vendas com grande margem permitem sustentar a empresa, e tudo o que vier acima dessas vendas é puro lucro que é convertido em luxos.

Este modelo tornou-se tão popular que é raro o comerciante, seja em que área for, que não o adopte. Com o crescimento real dos salários médios, as pessoas passaram a ter capacidade de adquirir bens com muito maior margem de lucro para os comerciantes, embora o seu custo de produção, comparado com 1960 ou 1970, tenha diminuído drasticamente. Não havendo «alternativa» no mercado a este modelo, todos nos habituámos a achá-lo «normal».

Tão «normal» que quando comparamos os preços de bens e serviços em Portugal ou noutro qualquer país europeu vemos que são mais ou menos os mesmos. Por isso «parece estar bem». Mas subitamente reparamos que fora de Portugal os salários podem ser muito mais elevados, e a carga fiscal igualmente pesada. Aí perguntamo-nos a nós próprios como é possível sobreviver assim. Será da tão falada falta de produtividade nacional?

Na realidade, duvido que uma empregada de uma boutique em Portugal seja «menos produtiva» do que em Espanha ou França. Mas ganha metade. O resto vai para os donos da loja, graças às margens altas que estes impõem. Ou seja: apesar de ganharmos menos do que no resto da Europa, o custo de vida é sensivelmente o mesmo, e a diferença está na margem de lucro dos comerciantes portugueses. O resultado? Vê-se no abismo entre «pobres» e «ricos», que parece ser inexplicável para o caso português. A explicação está nas margens de lucro…

Só se nota isto quando se começa a fazer negócios com parceiros estrangeiros e é preciso competir com eles. Graças a um Euro forte, é difícil colocar preços competitivos lá fora e manter as mesmas margens de lucro. É certo que os portugueses ganham menos, e por isso deviam ser capazes de produzir mais barato, mas o empresário português que pensa vender os produtos lá fora não tem interesse em diminuir a sua margem de lucro. Por isso queixa-se de que é impossível concorrer com os chineses, indianos, brasileiros, etc. ou mesmo com parceiros europeus que estranhamente conseguem colocar os mesmos produtos a mais baixo custo. É verdade que até podem ser mais produtivos, e isso faz alguma diferença, mas essa explicação só é válida para os empresários que trabalham com margens baixas e salários altos, que são a excepção, não a regra!

Ora aqui é que eu penso que vai ser forçoso outra mudança de mentalidade durante 2012, e essa, sim, vai doer. Os salários já estão a diminuir — basta aumentar o desemprego, que os salários descem, já que as pessoas preferem ganhar menos a ficarem desempregadas. Isso permite aos empresários despedir toda a gente, fazer falir as empresas, e montar outra ao lado, contratando as mesmas pessoas a metade do salário. Tecnicamente, isto é ilegal, e há casos que até são julgados em tribunal, mas cada vez é mais fácil contornar a lei — por exemplo, recorrendo a agências de trabalho temporário, que servem de «intermediários».

No entanto, o que estes empresários estão a descobrir é que os portugueses já não têm capacidade para consumir tanto como dantes. Ou por outra: têm a mesma apetência — o mesmo desejo — mas pura e simplesmente não têm a mesma capacidade financeira. Isto significa que os empresários que querem sobreviver a médio prazo não vão ter outro remédio senão cortarem nas suas margens. Talvez baixem de 400% para 250% e depois vêem se isso chega para manter o ritmo de vendas. Talvez, como a banca parece estar a querer fazer, diminuam a sua margem para uns «miseráveis» 70% (!).

Se esta «moda» de baixar as margens de lucro pegar, então vai acontecer algo de interessante, que se calhar é o que o nosso Ministro das Finanças quer que aconteça. Neste momento, estamos apenas a sofrer o clima de terror ao pensar que as coisas não podem continuar como dantes. Mas mais cedo ou mais tarde, alguns tímidos comerciantes vão ter de optar entre fechar as suas empresas lucrativas ou baixar as margens de lucro — e por consequência os preços — para sobreviver. Se baixarem ao ponto de acompanharem as quedas reais dos salários médios, então vão encontrar consumidores. Um exemplo estúpido: compro os mesmos livros a €5 e €7 na Amazon que cá custam €20. Se uma editora, em conluio com uma distribuidora e um grupo de lojistas, começar a colocar livros a €5 no mercado, deixo de comprar na Amazon. Não tenho a capacidade de pagar €20 por um livro, mas posso comprá-lo por €5. Se o mercado se «ajustar» para colocar livros a €5 à venda, então isso significa que essas editoras/distribuidoras/lojistas vão todos sobreviver, porque encontram consumidores — aumentam as suas vendas, compensando a diminuição drástica das margens de lucro. O efeito de cartelização vai fazer com que os restantes sejam forçados a fazer o mesmo. Como os salários se manterão baixos, a única coisa que os empresários poderão fazer é baixar as suas margens até encontrarem consumidores — mas isso não é mau. Quer dizer que todos ganhamos — os consumidores continuarão a consumir (mas a pagar muito menos pelo que consomem); os salários, apesar de baixos, vão continuar a ter capacidade de comprar ao ritmos do «antigamente»; e as empresas sobrevivem porque continuam a ter clientes (e, logo, continuam a poder contratar pessoas… que manterão assim o seu poder de compra, etc.). É um círculo vicioso descendente que se auto-ajusta à capacidade dos consumidores de pagarem os preços que lhes são impostos, e, graças ao mercado livre, permite que aqueles que se ajustem sobrevivam.

Claro que isso vai significar que muitos empresários passarão a ganhar muito menos. Mais que suficiente para cobrir os seus custos, mas deixarão de poder comprar dois ou três apartamentos por ano e a oferecer carro novo aos filhos todos os semestres.

Ou talvez não.

Em Inglaterra, que é um país onde tradicionalmente se arrendam casas e estas não se compram, o crédito fácil criou (tal como cá) uma nova apetência para adquirir casas, e o caso inglês, em pouco tempo, se tornou muito parecido com o português. Mas houve uma diferença: quando passou a ser impossível vender casas a valores altamente especulativos, os preços caíram — para um terço. Ou seja: os nossos amigos ingleses também estavam a trabalhar com margens de 200 e 300% sobre o custo das casas. Agora, na esperança de venderem alguma coisa, cortaram os custos para um terço.

O que fizeram os consumidores? Chegaram aos seus bancos e disseram que não iam pagar mais as suas hipotecas. Os bancos ameaçaram imediatamente ficarem com as casas. Os consumidores sorriram: o que eles iam fazer era ir ao balcão da concorrência, comprar uma casa nova por um terço do valor da que tinham, e pedir uma hipoteca a um terço do valor mensal. O banco que ficasse com a casa sobrevalorizada. O banco então entrava em pânico, sabendo perfeitamente que, se ficasse com a casa, teria de a vender a um terço do preço, com o consequente prejuízo. Não tiveram outro remédio senão negociar, mas os consumidores neste caso tinham a faca e o queijo na mão: só vale a pena negociar uma hipoteca para um terço do valor mensal porque é apenas isso que a casa vale! Ou o banco cortava a hipoteca para esse montante, ou podia esquecer o cliente.

Toda a gente está a fazer isto em Inglaterra. Em consequência, acredito que se esteja a assistir a um pseudo-boom imobiliário — mas apenas movimentando um terço do capital — à medida em que as pessoas trocam as suas casas caras e sobrevalorizadas por outras vendidas a um preço real e não especulativo. Os bancos estão cheios de casas que não valem o que pedem por elas, à medida que os seus clientes deixam de pagar as hipotecas. Esta é uma crise imobiliária-financeira nova, que colocou os consumidores na mó de cima: já não são nem as imobiliárias, nem os bancos, nem os especuladores imobiliários que ditam os preços, mas sim os consumidores, que perderam a capacidade de pagar tanto como antigamente. O resultado: as casas em Inglaterra estão a retornar a valores mais reais, mais próximos do custo de construção (com uma margem de 10% e não de 300%), e, assim, estão a ser vendidas. Quem perde são os bancos, que passaram a ter de cortar nas suas expectativas de ganhar chorudos milhões com hipotecas hiper-inflacionadas. Os especuladores passaram a ganhar menos. Mas também passaram a poder adquirir — e a especular — com casas muito mais baratas, para as quais existem clientes, e, logo, não estão a perder tanto como isso.

Segundo o que me contam meus amigos, o mesmo se está a passar na Bélgica e em França, também a larga escala.

Por cá, os especuladores imobiliários baixam os preços… 10%. Ou talvez 20%. Isso ainda não chega. Mas mais cedo ou mais tarde vão ter de assumir que a velha táctica de manter um imóvel «parado» durante uma década, até que os preços voltem a subir, não vai funcionar. É muito provável que os preços não voltem a subir nunca mais. À medida que os especuladores imobiliários começarem a compreender isto, vão ser forçados a baixar os preços das casas. E assim os portugueses com hipotecas vão fazer o mesmo que os ingleses, os belgas e os franceses.

Mas subitamente os coitados dos empresários que viam as suas margens a reduzir-se de forma a não conseguirem comprar tantos apartamentos por ano começam a ver que esses apartamentos, afinal de contas, estão a baixar drasticamente de preço. Então vão voltar a comprar o mesmo que compravam antes. Reduzindo a sua margem de lucro para um terço, se as casas passarem a custar apenas um terço que antes, significa que podem continuar a adquirir a mesma quantidade que antes. E vão começar a ser cada vez mais a perceber isto.

Ora é verdade que este é um cenário optimista, e que não vai acontecer em 2012, mas que se vai desenvolver, aos poucos, ao longo dos anos. Infelizmente, os produtos que têm margens já muito baixas, não vão poder entrar nesta «espiral descendente de ajuste de preços». Os produtos cujos preços de venda são já próximos dos de custo, o que acontece, para uma população que tenha, digamos, apenas um terço da capacidade de compra que tinha antes, é que estes produtos passam a ser luxo. Por exemplo, é pouco provável que vejamos os automóveis a baixar de preço para um terço; as margens são já muito baixas, e mesmo a diminuição de salários para um terço não vai diminuir muito o preço dos carros. Voltará a ser um artigo de luxo como era antes; o que significa também que a gasolina, se se destinar a um produto de luxo, não vai baixar de preço. É certo que em todas as indústrias de trabalho intensivo — onde o custo dos salários é a fatia mais importante dos custos fixos recorrentes — os preços finais vão forçosamente descer, e podem descer dramaticamente. Mas alguns produtos «correntes» de hoje em dia, que são de capital intensivo (e não de trabalho intensivo) ou que recorrem a matérias-primas que já não irão baixar muito de preço, provavelmente não vão tornar-se mais baratos, excepto para alguns ajustes nas margens de lucro que já são baixas nestes casos. Não é provável que automóveis, electrodomésticos, telemóveis e computadores baixem muito de preço — já são desenvolvidos em linhas de produção robotizadas e usam apenas um mínimo de trabalho manual. O mesmo irá ocorrer no mobiliário — a IKEA vai deixar de ser, para os portugueses, uma «loja de produtos baratuchos». Em compensação, vai ocorrer um fenómeno curioso, que é o de que algumas indústrias passarão a ser competitivas, pelo menos no mercado nacional: por exemplo, tudo o que seja artesanal, com recurso a mão de obra barata, poderá competir com produtos industriais que recorrem à robotização e que portanto já dificilmente conseguirão reduzir ainda mais os custos. O que quer dizer que vamos voltar a ter mel de apicultor à venda na mercearia da esquina; que os carpinteiros vão voltar a abrir lojas de móveis fabricados à mão, porque poderão concorrer com a IKEA; que se calhar vão voltar a abrir as fábricas portuguesas de electrodomésticos (que nos anos 70 do século passado tinham a particularidade de poderem fabricar modelos à medida, pois eram feitos de forma artesanal). Isto não quer dizer que se tornem mais baratos: quer dizer que, comparativamente ao resto, poderão concorrer aos preços de agora num mercado de luxo — que é o que irá acontecer aos produtos como electrodomésticos, automóveis e computadores: vão ser produtos de luxo, e vamos poder optar por soluções massificadas, ou soluções artesanais feitas à medida, pelo mesmo preço.

Será isto mau? Acho que é apenas diferente. O que acho é que não será em 2012 que vamos ver isto a acontecer (embora os casos ingleses, belgas e franceses tenham mostrado que, pelo menos no imobiliário, a inversão de tendência de preços ocorreu muito depressa, numa questão de poucos meses). Acho que vai ser um processo, mas não muito longo, de ajuste global para uma nova realidade. Acho que vai haver imensa resistência da parte daqueles que estão habituados há 20 anos — desde os anos 90! — a trabalhar com margens de 300% ou 400% e que agora têm de compreender que só podem cobrar 10% ou 20%. Vai haver imenso sofrimento até que os preços da maior parte dos bens e serviços efectivamente desça para metade ou para um terço do que estão agora — ou seja, para mais perto do valor de custo — e, consequentemente, os salários descerão na mesma proporção também. Podemos olhar para o Brasil como exemplo: os salários por lá são, em média, metade dos portugueses, mas o nível de vida, em média também, é metade do nosso — excepto que alguns produtos, que cá são «correntes», por lá são luxo. Mas é a isso que nos iremos ter de habituar.

Portugal já passou por muitos períodos assim, em que se acabaram as «vacas gordas» e o país teve de se adaptar a viver outra vez de acordo com as suas reais capacidades, e não as capacidades especulativas. Já fomos efectivamente um país-satélite de Espanha, e um pseudo-pais-satélite de Inglaterra, e isso não impediu que mantivéssemos a nossa cultura e identidade nacional, seja o que isto queira dizer para muita gente. Agora estamos prestes a embarcar numa nova aventura: a de fazermos parte de uma Europa federal, em tudo menos no nome, onde será imposto aos nossos governantes o que podem e o que não podem fazer com o dinheiro emprestado, e onde o tecido empresarial terá de aprender a sobreviver numa realidade pós-especulativa. Quanto aos consumidores-contribuintes, esses, numa primeira fase vão ter de se adaptar à mudança, para um país de salários baixos, de custo de vida também baixo, onde o comércio tradicional e artesanal vai finalmente poder voltar a competir com a indústria importada de fora, mas onde infelizmente os écrãs de plasma e as PlayStations vão deixar de ser um «direito» universal mas apenas um luxo para alguns poucos privilegiados — tal como nos anos 60 e 70.

De resto, vai ficar tudo na mesma.

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Um pensamento sobre “2012, um ano como os outros

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