Mensagem de Natal

Normalmente as minhas mensagens de Natal são sempre uma oportunidade para denunciar o comercialismo da época, que pouco ou nada tem a ver com o objectivo inicial do mesmo, e que, além disso, sempre me pareceu estranho — afinal de contas, se a ideia é «portarmo-nos bem para ganhar presentes» nas poucas semanas antes do evento familiar, e termos autorização para nos portar mal o resto do ano, parece-me sempre que esta «institucionalização do Natal» me soava a falso…

Este ano, no entanto, sob a inspiração (e aspiração!) do meu professor, vou desejar uma mensagem de Natal diferente. Devido a constrangimentos financeiros, este ano o Natal de muita gente vai ser menos comercial e mais passar algum tempo junto com a família e/ou amigos. Para muitos, é um fraco consolo — uma espécie de prémio de consolação: já que não recebo prendas, ao menos que coma bacalhau com a família que mal vejo no resto do ano.

Infelizmente, justamente talvez por não estarmos com a família durante tanto tempo como isso, é também nesta altura que os confrontos familiares, normalmente «adormecidos» durante o ano todo, vêm ao de cima. Lá temos de aturar a sogra chata, lá vem a lambisgóia da nora com o decote até ao umbigo, lá vem o tio gagá que se baba enquanto murmura coisas incompreensíveis, lá vêm os putos traquinas a fazer uma barulheira ensurdecedora, excitando os cães a correr à volta da casa, e, pior que isto, este ano a reclamar que a PlayStation prometida transformou-se magicamente num par de peúgas quentinhas e que o televisor de plasma esperado, que finalmente iria ser a inveja dos vizinhos, foi substituída por uma caixa de bombons comprada no Lidl. A frustração vai ainda causar mais berreiro, mais erguer de vozes, mais estalos, mais gente furiosa, que depois regressam a casa com um «Uf! Este já está, agora felizmente só aturo isto de novo para o ano!»

Não é, de todo, a atitude certa para que tenhamos todos um feliz Natal. E não vou vir com «moralismos» baratos e despropositados, pois nesta altura em que todos os valores foram há muito descartados, e finalmente até mesmo os valores comerciais irão ter um menor impacto na «felicidade do Natal» este ano, que mais nos resta?

No passado, um conjunto de sábios cujo único propósito era desejar que todos nos déssemos bem e que fossemos felizes, deixaram-nos uma (aparentemente) simples instrução para nos guiar, que é conhecida como a «Regra de Ouro». Surge um pouco por todo o lado, mais ou menos na mesma altura — há 3000 ou 2000 anos atrás — e é formulada mais ou menos da seguinte forma: «Ama o próximo como a ti mesmo». As palavras exactas podem variar consoante a tradição, a filosofia ou a religião que se apropriaram desse ditado; e obviamente que a interpretação também varia consoante o gosto e a cultura e os tempos. Mas esta Regra de Ouro contém profunda sabedoria que encerra o segredo para a felicidade, não só para nós próprios, mas para todos os outros. Infelizmente não é fácil de compreender, e muito mais difícil de colocar em prática: no entanto, isso não quer dizer que não se possa tentar fazer um pequeno esforço, e que melhor oportunidade do que este período natalício para experimentar?

Para os que se dizem cristãos, mesmo que meramente simpatizantes, ou inspirados culturalmente, esta frase é atribuída a Jesus de Nazaré, e consta que é o seu segundo mandamento (só deixou dois), de igual importância. Para os que preferem abandonar a religião e encarar a filosofia, Sócrates exprimiu o mesmo pensamento uns séculos antes. Mas em todas as religiões e filosofias principais a mesma ideia foi universalmente exposta. Mesmo no secularismo humanista é a base para documentos como a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se há alguma ética que transcende países, culturas, filosofias, religiões, e o próprio tempo, é esta Regra de Ouro universal.

Talvez o problema seja em como aplicá-la, e aqui as interpretações variam um pouco consoante a cultura. Por exemplo, a regra é commumente descrita como «não faças aos outros o que não queres que estes te façam a ti». Isto é apenas metade do esforço que é preciso fazer, mas já é um bom princípio.

Ora então como é que se aplica esta Regra de Ouro à nossa vida e à interacção com os outros? A primeira coisa a observar é que a frase não diz simplesmente «Ama o próximo» ou «faz o bem aos outros», pois é preciso, primeiro do que tudo, saber o que é este «amor» ou o que significa «fazer o bem». Algumas filosofias ou religiões moralistas gostam de colocar uma longa lista do que se deve fazer e o que se não deve fazer, prometendo torturas horrendas, neste mundo ou no próximo, sobre as consequências de não seguir a lista. Mas nenhum dos grandes mestres e professores do passado exprimiu as coisas desta maneira, especialmente aqueles que não tinham qualquer intenção de criar uma «religião organizada». O que eles propõem, isso sim, é a segunda parte da frase: «conhece-te a ti próprio». Essa é a chave da Regra de Ouro: para sabermos o que fazer aos outros, primeiro de tudo, temos de nos conhecer a nós próprios.

E a primeira coisa que temos de fazer, libertos de «moralismos», pretensões espirituais, regras, ou mesmo ideias pré-concebidas que nos tenham sido ensinadas, ou que tenhamos lido algures, é aplicar algum esforço para obtermos nós próprios a resposta. O que fazemos é simples: o que queremos nós nesta vida?

Podemos fazer longuíssimas listas intermináveis — quero ter fama, sucesso, glória, respeito, carradas de dinheiro, uma mulher boa, uma casa enorme, um carro fixe, montes de amigos, muita saúde, um país com políticos honestos — e assim por diante, mas podemos resumir tudo a uma única coisa: queremos ser felizes, e queremos evitar o sofrimento. Qualquer acção ou ideia que temos em mente assenta nesses princípios. As nossas sociedades laicas assentam igualmente na teoria de que uma sociedade melhor é aquela onde as pessoas, de alguma forma, são mais felizes, e onde temos métodos e mecanismos para lhes aliviar o sofrimento (seja o medo de que as coisas corram mal, seja  a doença e a velhice… o sofrimento pode ser físico ou mental, as sociedades procuram aliviar ambos os tipos). Mesmo as sociedades que não assentam em princípios cristãos têm exactamente os mesmos objectivos, quer sejam mais ou menos corrompidas; no pior dos casos, são construídas para criarem a felicidade de alguns (os que estão no poder) e tentar evitar-lhes o sofrimento.

Então pouco interessa o que é que nos faz feliz, pois vai ser diferente de pessoa para pessoa. Para alguns, felicidade é ver o Sporting ganhar. Para outros, é uma jantarada com os amigos. Para muitos, é ter uma família, uma casa, conforto material, saúde. Para os religiosos é entrar em comunhão com o seu deus. Não importa o que é que nos faz feliz a cada um de nós individualmente; o que importa é que reconheçamos aquilo que nos faz feliz a nós. Muitas vezes temos ideias completamente erradas do que é felicidade genuína, e por isso esta parte da Regra de Ouro é, para muitos, a mais complicada. Se pensamos, por exemplo, que fama, glória e riqueza é aquilo que nos faz feliz, basta abrirmos uma revista cor-de-rosa para ver todo o tipo de escândalos em que os «famosos» estão envolvidos: traições, divórcios, zangas com os produtores e os fãs, droga, acusações de sexo com menores, e tudo o mais. Se o nosso caminho é atingir aquilo que os nossos ídolos atingiram, então vamos também estar potencialmente sujeitos a isso. Mas o ascetismo e a pobreza também não criam lá muita felicidade: as mesmas revistas podem mostrar criancinhas a morrerem de SIDA e de fome em África, e não nos parecem lá muito felizes. E se não quisermos ir tão longe, basta passearmos pelas ruas de Lisboa e ver os sem-abrigo a tiritarem de frio nas ruas, com apenas uma garrafa de vinho como próxima refeição: serão eles assim tão felizes como isso?

No entanto, se reflectirmos um pouquinho sobre isto, há certas coisas que começamos a reconhecer com sendo universais. Pobres ou ricos, ninguém gosta de ser insultado — especialmente porque reconhecemos que nós também não gostamos. Não gostamos que nos tirem as coisas que custaram a adquirir, porque perdemos imenso tempo a trabalhar para as obter. Não gostamos que interfiram com a nossa família — ou que alguém tenha um «caso» com o nosso cônjuge. Não gostamos de ser enganados. Podemos continuar aqui a lista durante mais um tempo e acrescentar inúmeras coisas que vamos imediatamente reconhecer como nos fazendo felizes ou infelizes. Então o objectivo da segunda parte desta Regra de Ouro é justamente isso: fazer a nossa própria lista, e começar a compreender como é que ela se aplica a toda a gente, incluindo os nossos próprios animais de estimação — também eles gostam de conforto, de serem alimentados, de receber festinhas, e não gostam de levar pontapés, de que se esqueçam deles num canto, ou mesmo que sejam abandonados ao frio.

Não precisamos sequer de ir abrir livros de filosofia, ou de ir buscar inspiração aos grandes mestres do passado que nos deixaram as suas sábias palavras. Basta perguntarmo-nos a nós mesmos. A resposta está lá, quer a gente a reconheça, quer não. O esforço é só na compreensão de que aquilo que nos faz infeliz, também faz infeliz os outros; aquilo que nos faz feliz, também faz os outros felizes.

O meu professor costuma dar o exemplo de que isto não quer dizer que, lá porque eu goste de bacalhau com natas, agora todo o mundo tem de comer bacalhau com natas para ser feliz. Não: o que temos de compreender é que ficamos felizes quando comemos o que gostamos, e ficamos infelizes se não temos a nossa comida favorita. Toda a gente é assim, incluindo os nossos animais de estimação. É claro que cada um de nós tem a sua comida favorita (e se calhar não conseguimos compreender como é que pode haver alguém que goste de escaravelhos fritos com piri-piri…), mas isso é secundário: o que importa, isso sim, é reconhecer que as pessoas ficam mais contentes quando podem comer aquilo de que gostam.

Se conseguirmos compreender que aquilo que nos faz feliz é a mesma coisa que faz feliz os outros, então a primeira parte da Regra de Ouro pode ser agora colocada em prática. Após a fase de auto-conhecimento, então devemos criar circunstâncias e condições para que os outros, também eles, possam ter acesso às coisas que os fazem felizes, e tentar evitar que estejam em contacto com as que os fazem infelizes. «Amar», neste sentido, é reduzido à mais simples e elementar forma de relacionamento com os outros: é meramente comportarmo-nos de forma a tentar fazê-los mais felizes e a evitar que fiquem infelizes na nossa presença. E isso está ao alcance de todos nós.

Por exemplo, embirrar com algum membro da família durante a ceia de Natal vai fazê-lo infeliz. Como sabemos isso? Porque se embirrassem connosco, ficaríamos chateados. Então meramente abstermo-nos de embirrar com os outros já é um passo importante. Não se trata aqui de olhar apaixonadamente para alguém, vertendo lágrimas de paixão, e carinhosamente lhes dizer, cheio de emoção: «Amo-te, por isso não vou embirrar contigo, e espero que reconheças o meu enorme esforço e que me agradeças por isso». Isso é sentimentalismo bacoco em troca de alguma coisa (reconhecimento). A palavra «amor» no contexto da Regra de Ouro é altruista no sentido em que não estamos à espera que nos dêem medalhas. Mas não precisamos. Apenas por não embirrarmos com alguém vai fazer não só que essa pessoa fique mais contente, como nós próprios vamos evitar uma discussão desagradável na consequência desse embirramento. Portanto vamos evitar uma situação desgradável para nós também e evitar ficar chateados. Ganham ambos — é essa a consequência do altruismo.

Mas decerto haverão situações em que é «impossível» lidar com a fúria e raiva que nos inflama quando vemos um dos outros membros da família — seja porque se vestem de forma que não gostamos, seja porque nos lembramos de como nos lixaram com a herança do tetravô, seja pela forma como educam (ou deseducam) as crianças que andam por aí numa correria, seja por algo que nos disseram que nos magoou há 30 anos atrás e ainda guardamos ressentimento disso… temos milhares de razões para nos chatearmos com os outros, e é impossível, para alguém que seja meramente humano, «conter» essa raiva.

É certo que sim. Mas para isso é que serve esta quadra natalícia: é para, pelo menos durante um bocadinho, aprendermos a contermo-nos um pouco. Talvez seja só durante umas horas — depois podemos dar largas à nossa raiva e agressividade, e, no dia 26, dizer o que pensamos… o que o espírito da época nos pede não é que nos tornemos nuns santos de um dia para o outro, nem que sejamos uns hipócritas com sorrisos delicodoces para com as pessoas que odiamos.

Não, o que precisamos apenas de fazer é um pequeno esforço. Em vez de embirrar com as pessoas, ficamos calados e não damos a nossa opinião sobre o que pensamos delas. Não é preciso fazer grande alarido disso. Não precisamos de apontar para os nossos peitos e dizer: «olhem como me estou a portar bem! Nem disse ainda nada ao avô!» Ficamos apenas calados e restringimos a nossa conversa com as pessoas que mais odiamos a um mero «Boa noite» ou «Feliz Natal» na altura adequada. Se nos sentirmos especialmente motivados, podemos relembrarmo-nos de que, apesar de detestarmos a nossa mãe, a verdade é que ela vai ter depois de lavar a louça toda, e já está velha e cansada, e obviamente que não deve ser uma tarefa agradável para ela — porque também não é para nós. Sem uma palavra, dirigirmo-nos para a cozinha e lavar um copo ou dois é o que basta. Sim, se calhar vai aparecer por aí a mãe odiada aos berros a dizer «O que é que estás a fazer?! Ainda me partes os copos todos, que foram caros!» Nessa altura, retiramo-nos da cozinha e murmuramos apenas a desculpa de que só queríamos ajudar, mais nada. Nem vale a pena sorrir, se acharmos que isso só seria considerado hipocrisia.

O que vamos descobrir é que, mesmo fazendo este mínimo dos mínimos, vão acontecer duas coisas. Uma delas é que chegamos à conclusão que afinal de contas os nossos familiares não são as pessoas horrivelmente cínicas e moralmente depravadas que pensamos que são. A nossa sogra pode ser desagradável connosco, mas na verdade ela apenas está a exprimir o seu próprio desejo de ser feliz, e não sabe como fazê-lo. A nossa nora veste-se daquela forma provocante que tanto nos irrita porque isso a faz feliz, gosta de ser admirada — não faz de propósito para nos chatear, nós é que nos chateamos com isso. Os putos aos berros apenas estão a mostrar a sua insatisfação por não terem tido as prendas que queriam; são desagradáveis e irritantes, claro, mas só o fazem porque estão a exprimir o seu desagrado. O tio gagá que tão mau aspecto dá, sempre a babar-se, na realidade é um coitado que já não tem capacidade para fazer melhor que isso: um dia vamos estar na mesma posição que ele, quando tivermos a mesma idade. A prima que nos lixou com a herança na realidade acha que é feliz se for mais rica, por isso faz tudo para conseguir mais riqueza, à custa dos outros — pode ser uma pessoa horrível, mas no fundo só anda à procura da felicidade, tal como nós. Quando começamos a observar isso tudo, e a perceber que as pessoas todas da nossa família, por mais horríveis que nos pareçam, na realidade só andam à procura de felicidade como nós, mas não sabem como o fazer, e andam a tentar evitar a infelicidade, mas também não o sabem fazer. É só isso. Se sairmos da ceia do Natal a pensar um bocadinho que os outros não são as pessoas horríveis que pensamos ser, mas que apenas andam à procura do que nós também andamos, então já tivémos uma excelente ceia.

Mas a segunda coisa que acontece é no sentido inverso. Os restantes membros da família, já antecipando que nos iremos chatear com a mãe, a sogra, a nora, o pai, as crianças, o tio gagá e a prima, vão achar estranho que este Natal não tenhamos sido tão agressivos para com toda a gente. Alguns até vão pensar se não estávamos doentes. A mãe vai comentar, já mais calma, que nunca tinha lavado um copo na vida. A prima gananciosa, que sempre levara comentários àcerca da herança, vai chegar a casa a pensar, «Olha, este foi o primeiro ano em que ele (ou ela) não me chateou por causa disto! Afinal de contas, não é tão má pessoa como pensava.» Ou seja, todos voltarão para as suas respectivas casas a pensar que, afinal de contas, as coisas não foram bem iguais à tortura habitual dos outros anos. Se isso não é exactamente motivo de grande felicidade, pelo menos evitou que fosse uma fonte de grande infelicidade. E isso já não é mau!

A Regra de Ouro tem esta particularidade de prometer uma win-win situation em que todos ganham. Não é apenas para uns totós fazerem uns sorrisos patetas e serem escravos dos outros, dizendo que os «amam» muito e que por isso fazem tudo o que lhes mandaram, mas guardando por dentro enorme ressentimento por não serem devidamente apreciados. Na realidade, é uma regra extremamente funcional, cujo único objectivo é fazer com que as pessoas, compreendendo o que as motiva e o que não gostam de sentir, se abstenham de se prejudicar mutuamente, alimentando ainda mais o ódio mútuo que sentem — que nasce essencialmente da incompreensão de que os outros, no fundo, querem exactamente o que nós queremos.

Por isso desejo a todos um Feliz Natal em que não só não façamos a vida negra aos nossos familiares e amigos, mas que compreendamos um pouco que eles, no fundo, só querem ser felizes, são é pouco hábeis para o fazer sem nos irritar; mas nós também somos pouco hábeis, e por isso é que os irritamos tanto. A «habilidade» nasce de colocarmos a Regra de Ouro em prática, independentemente do que acreditarmos. Laicos e ateus, cristãos, budistas ou new agers, a Regra de Ouro é válida universalmente e está acima de qualquer filosofia, moral, ética, religião ou ismo, e todos a podemos seguir para ter um Natal mais feliz.

Isto foi o que aprendi com o meu professor e que tenciono pôr em prática 🙂

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