WordCamp Lisboa 2011 — Um resumo

Todos os resumos serão necessariamente incompletos, pessoais e muito parciais. Esta é apenas a minha percepção do evento!

Mas antes de mais, um resumo do evento em imagens 🙂

Em primeiro lugar devo referir a perfeição da organização. Graças à Ana Aires, que fez a coordenação geral, o evento começou a horas, as sessões tiveram a duração prevista, e a pontualidade foi levada ao extremo. Nada de atrasos e de «quinze minutos académicos» ou semelhantes desculpas para a falta de pontualidade: o evento decorreu com maior precisão cronográfica que o sincronismo por NTP 🙂

Em segundo lugar, a surpresa generalizada foi o número de participantes. O Zé Fontaínhas, fundador da Comunidade WordPress em Portugal (ele próprio funcionário da Automattic, empresa que desenvolveu o WordPress) confessou que teria ficado satisfeito com «umas sessenta pessoas». Pediu à Universidade Lusófona, onde decorreu o evento, «uma sala com capacidade para pelo menos 120 pessoas» não fosse acontecer um «milagre». O evento esgotou, uns dias antes da data, a capacidade total do auditório — 180 pessoas! — e ficaram pessoas em lista de espera. É certo que depois no dia não apareceram as 180 (mas umas 160-165) mas mesmo assim isso significou «casa cheia», o que não é mau para o primeiro WordCamp em Portugal.

A audiência, informalmente contactada, compunha-se talvez de um terço de web designers, um pouco menos do que isso de developers, e o resto não foi identificado (muitos eram consultores de social media). Cada qual evidentemente tinha expectativas diferentes quanto ao evento, daí talvez a razão da organização de escolher como apresentadores um mix de oradores, desde produtores de temas, end-users, alojadores de serviços que incluem WordPress, e alguns funcionários da Automattic. Foi, pois, um evento muito ecléctico. Em futuros WordCamps, se houver ainda mais inscrições, fará sentido dividir a conferência em vários tracks — um para web designers, um para developers, um para empresas de alojamento, um para consultores de social media, etc. Mas para primeiro evento fez sentido misturar tudo.

Notei que as apresentações foram feitas essencialmente por um «grupo de amigos» mais os seus sponsors. Dado que ninguém prevera o sucesso da adesão de tanta gente ao WordCamp Lisboa 2011, penso que esta opção foi a mais «segura». O «grupo de amigos» faziam essencialmente parte da equipa mais activa presente nas discussões da tradução do WordPress para português; já se conheciam de anteriores MeetUps e sabiam, pois, o que contavam em termos de apresentações; dois deles (portugueses) fazem parte da Automattic pelo que isto facilitou grandemente os contactos e permitiu trazer oradores também da empresa e de alguns seus parceiros principais (como a WooThemes, que conta entra os seus colaboradores também um português). Para alguém na audiência isto pode ter parecido um pouco estranho: quase todos os oradores conheciam-se pessoalmente e tratavam-se por tu e faziam referências mútuas de forma informal. Os oradores que não eram já «amigalhaços» faziam parte dos sponsors, como é o caso da Microsoft que insistiu ter uma apresentação extra-calendário, demonstrando como, ao fim de vários reboots, crashes, e erros no écrã, é mesmo possível ter o WordPress a correr em Windows em 20 minutos. Foi o momento catártico do WordCamp, que permitiu a todos rirmo-nos imenso — não há apresentação em Windows que não crashe, afinal de contas, mas o orador esteve à altura dos acontecimentos.

O mix de oradores também trouxe vários estilos e tipos de pessoas para o palco — desde o orador da WooThemes que admitiu publicamente que era a primeira vez que fazia uma apresentação em público (e safou-se razoavelmente bem), até «veteranos» como o Hugo Baeta (o outro português da Automattic) que se nota que faz apresentações de olhos fechados na língua que lhe pedirem. Também a profundidade das apresentações foi uma mistura: desde histórias pessoais de uma blogger (Ana Silva) que contou como foi «forçada» a tornar-se numa geek para tentar meter o Joomla a funcionar com o template que queria, e, não o conseguindo, passou a usar WordPress; passando por banalidades sobre a importância de um site Web ser visível também em telemóveis; instruções práticas sobre alguns tipos de sites que são possíveis de fazer em WordPress e quais os plugins necessários para o mesmo (para mim, uma das apresentações mais úteis, especialmente como selling point do WordPress como um CMS capaz de tudo); até às explicações técnicas hard core do Sérgio Carvalho da blog.com mostrando como é que se implementa uma infrastrutura capaz de lidar com um milhão de page views diárias do WordPress. Embora acredite que 2/3 da audiência se tenha perdido ou adormecido, para mim, que ainda tenho sangue de systems & network engineer a correr nas minhas veias, achei a explicação deveras útil, e curiosamente, fiquei também estupefacto com a simplicidade da solução capaz de escalar tão bem até esses níveis de performance. É preciso muito menos do que julgava, mas o mérito é todo do Core Team que fez um bom trabalho com o WordPress — o Sérgio apenas soube implementar uma solução robusta dadas as características da aplicação que «ajuda» a desenhar modelos escaláveis. Também achei interessante a explicação técnica da PTisp.pt, outro sponsor da conferência, sobre o seu sistema de cloud, embora tenha sido muito menos detalhada e menos específica ao WordPress.

Sei que ficaram muitos oradores de fora (eu fui um deles 🙂 ) o que é positivo: para o ano, o WordCamp pode se calhar ter vários dias ou tracks separados e ser ainda melhor. O que fica na memória é ver que, afinal de contas, existe uma enorme quantidade de gente em Portugal a trabalhar profissionalmente em WordPress, cobrindo toda a cadeia de valor: desde o alojamento de servidores pensados para sites criados em WordPress, passando pelas soluções de hosting WordPress (para quem não goste do wordpress.com e prefira uma solução made in Portugal), chegando aos criadores de plugins, templates e mesmo core developers, aos web designers e aos consultores de social media. Não estamos mal servidos de todo, o que pode ser uma enorme surpresa: há seis meses atrás, pediram-me para fazer um levantamento de todas as empresas nacionais que estavam a dar «suporte a instalações em WordPress» e foi mesmo muito difícil encontrar algumas (poucas), o que me frustrou bastante; depois do WordCamp fiquei com a nítida ideia de que existem dezenas (centenas?), uma das quais — a Widgilabs — sendo uma das nove empresas europeias com a classificação de Code Poet, muito difícil de obter, especialmente porque um dos requisitos que é analisado pela Automattic é a capacidade de contribuir código e templates para a comunidade (que se calhar até conta mais para eles do que propriamente o portfolio de sites criados com WordPress!). Também foi excelente ver que existem vários portugueses associados a empresas de reputação internacional no panorama WordPress — até trabalhando na própria Automattic — pelo que, ao contrário do que julgava há seis meses atrás, Portugal até não está mal representado na comunidade global de utilizadores WordPress…

Ficou lançado o desafio de expandir a comunidade portuguesa WordPress e eventualmente de criar o nosso próprio directório de empresas e serviços, talvez de forma mais informal e com menos rigor que o Code Poet, para que futuros levantamentos de mercado como o que eu fiz não retornem zero (ou quase zero…) hits no Google. E entretanto a mensagem que fica para as centenas de empresas portuguesas que continuam a insistir em manter os seus próprios CMS, queimando pestanas e fazendo noitadas para que os consigam actualizar constantemente e mantê-los a par das últimas necessidades e novidades tecnológicas, é a seguinte: esqueçam o «reinventar da roda». A vossa roda não é melhor que as outras. É uma perfeita estupidez continuar a desperdiçar recursos, tempo e dinheiro a manter um CMS que mais ninguém senão vocês e os vossos escassos clientes vão usar. Apostem todos esses recursos, tempo e dinheiro, isso sim, a desenvolver plugins para o WordPress para que este faça exactamente o que pretendem. Um dos oradores — Drew Strojny, The Theme Foundry — ilustrou bem esta mudança de tipo de negócio — a passagem do «desenvolvimento à medida» para o «produto» cuja venda é repetível indefinidamente. Uma empresa nacional especializada em construir sites para clientes, e que aposte num CMS que ninguém conhece e ninguém usa, pode simplesmente redireccionar os seus recursos para criar plugins altamente especializados (que façam o WordPress comportar-se exactamente como querem) — que depois podem vender à parte num mercado mundial. Existem inúmeras empresas que vendem plugins comerciais dessa forma: começaram por fazer sites para clientes e o inevitável backoffice num CMS criado às 3 pancadas; depois chegaram a um ponto em que os custos de manutenção desse CMS, usado só para uma dúzia ou duas de clientes, eram estratosféricos (especialmente porque certos updates para falhas de segurança requerem desenvolvimento e deployment gratuito…), e desistiram: passaram a usar WordPress e a criar apenas um conjunto de plugins e themes que se adequassem exactamente ao que o cliente precisa. E depois de satisfeito o cliente, vendem o plugin e/ou tema, e têm uma fonte de receita adicional.

É o que faz sentido hoje em dia. O negócio de «criação de sites Web» é demasiado competitivo para qualquer outra alternativa. As margens são escassas. Os clientes exigem demasiados features por baixo preço. A minha experiência pessoal é muito simples: normalmente quando sei que vou ter uma reunião com um potencial cliente que queira também um site (ou um redesenho de um site existente), perco uma tarde no dia anterior a fazer um «protótipo» usando um tema adequado e já com as cores, logotipo, etc. do cliente. Então a discussão deixa de se fazer em termos de «listagens de features» mas sim em olhar para o dashboard do WordPress e a ver como é que se modifica tudo. A oradora Ana Silva ilustrou esta mesma técnica para «vender» internamente uma ideia de corporate blogging — em vez de «diagramas» ou listas intermináveis de características, que os decision makers depois tinham de imaginar nas suas cabeças, mostrou pura e simplesmente como se actualiza um site usando WordPress. É completamente diferente.

Quebrou-se com este WordPress uma barreira em Portugal, que é mostrar que há centenas de pessoas aptas a trabalhar profissionalmente em WordPress; isto para mim é um selling point crucial para muitos clientes que «desconfiem» quando lhes digo que se cria um site num instantinho. Talvez para mim falte cair a última barreira: o de que o WordPress é uma ferramenta para criar blogs. Penso que esta «nódoa» na reputação do WordPress se vai manter durante muitos e muitos anos, e vai ser difícil de «apagá-la»; já encontrei muitos casos de empresas que optaram, por exemplo, pelo Joomla ou Typo3, porque achavam que o WordPress «só serve para blogs» — e depois, ironicamente, usaram um template de blog no seu site com Joomla/Typo3 🙂 Nos raros casos em que voltam a falar comigo, quando lhes mostro sites de comércio electrónico e/ou redes sociais ficam depois espantados por saber que foram feitos em WordPress… mas é certo que esta «discriminação» vai continuar durante muitos anos, e há que saber lidar com ela.

Afinal de contas, estou habituado a essas «discriminações»: o Linux era só para geeks e só servia para servidores low-end; o Mac OS X só serve para designers e é «muito caro» (1); o Second Life «é um jogo». Não sei porquê, mas passo a minha vida empresarial a lidar com preconceitos deste tipo 🙂 Como sempre, culpo os media que adoram inventar estas coisas para lixar a vida dos profissionais…

(1) No WordCamp Lisboa 2011, 90% dos oradores e participantes usavam produtos Apple. Hum. Não admira, pois, que a Microsoft insistisse em fazer uma apresentação e que sorteasse uma Xbox 360 para mostrar que o Windows ainda não morreu, e que a Microsoft pode já não ser a maior empresa do mundo, mas que ainda está viva, inovadora, e que hoje em dia é forte apoiante de software open source… como os tempos mudam!

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4 pensamentos sobre “WordCamp Lisboa 2011 — Um resumo

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