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(Source: I'm a ladyy @Tumblr)

There are 10 kinds of people: those who know how to count in binary, and those who don’t.

Como qualquer geek que se preze, o número 42 sempre me fascinou desde que li o Hitchhiker’s Guide to the Galaxy do saudoso Douglas Adams: era supostamente a resposta dada à pergunta “Qual é o significado da vida, do universo e de tudo o mais?” por um super-hiper-computador ao fim de milhões de anos de processamento. Sendo a resposta pouco satisfatória, o computador sugere então que se calhar a resposta esteja correcta, mas que o que na realidade queriam saber era qual era a pergunta. Isto leva o super-hiper-computador a criar um novo mega-super-hiper-computador para conseguir obter a pergunta, e supostamente — segundo Adams — a própria Terra seria um elemento desse computador. Ou seja, os seres que habitam neste planeta evoluiriam para obter a pergunta cuja resposta, 42, fizesse sentido. Infelizmente para as espécies inteligentes do Universo que aguardavam ansiosamente por esse momento, por um lapso burocrático, a Terra é demolida para se construir um acesso a uma super-auto-estrada espacial, antes que alguém formule a pergunta adequada à resposta, e nós, leitores, ficamos sem a saber.

A série é um dos clássicos da ficção científica humorística britânica, e “42” ficou na mente de todos os geeks como a resposta adequada a dar em situações em que a pergunta é demasiado ousada e esotérica para que se possa dar uma resposta com sentido. Mas a verdade é que Douglas Adams introduziu três elementos quase sérios no texto (provavelmente não foram deliberados). Um é que de alguma forma a informática estaria associada à descoberta do sentido da vida. Outro é que tanto a pergunta como a resposta, se existirem, estão já dentro de nós, nós é que não as sabemos formular. E o terceiro é que apesar da pergunta poder ser muito elaborada, a resposta é tremendamente simples, desde que a consigamos compreender.

Obviamente que passei toda a minha vida a rir-me destas ideias do Douglas Adams, e como bom geek que se preze, a gozar com a ideia, e a ser muito irritante quando me perguntavam coisas muito profundas e a responder “42”. Tal como todos os geeks. A pergunta, afinal de contas, tem sido feito por todas as filosofias e religiões desde tempos imemoriais e alegadamente nunca foi respondida de forma satisfatória, porque não é suposto fazer sentido. É quase como perguntar “o que havia antes do Big Bang” ou “o que é que está fora do Universo”, mas ainda faz menos sentido do que isso. A mera noção de que “tem de haver um sentido” é uma concepção vulgar que serviu, ao longo da história, para queimar pessoas em fogueiras e declarar guerras entre povos e nações.

O que não estava de todo à espera é que chegasse aos 42 anos de idade e realmente tivesse encontrado a resposta para o sentido da vida, do universo, e de tudo o mais, e, se bem que não seja bem 42, é na realidade algo de tremendamente simples. Se calhar Douglas Adams, radical ateu (como ele se intitulava), afinal de contas tinha razão: a resposta está realmente em nós, desde que saibamos formular a pergunta.

Agora apenas posso aspirar a que um dia seja capaz de inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Porque é que a pergunta não faz sentido?

Não tenciono, de forma alguma, dar a resposta assim sem mais nem menos numa bandeja, porque encontrá-la é um processo pessoal; estar a “ouvir conversa da tanga” não ajuda absolutamente em nada, ou pode, pelo contrário, desviar a atenção da procura da resposta, por desagrado para com a pessoa que nos impinge as “tretas do costume”. Mas talvez, tal como o mega-super-computador do Douglas Adams, possa dar umas dicas de onde procurar as perguntas de forma correcta; depois caberá a cada um escolher como proceder.

Olhando em torno de nós, podemos se calhar dividir as pessoas em vários grupos. A maioria não se preocupa com as questões filosóficas, desde que seja mais ou menos feliz. Outro grupo agarrou-se a uma religião, que lhe dá a pergunta e a resposta, e orienta a sua vida no sentido de achar que é o que faz sentido e que lhe trará a felicidade, mesmo que seja depois da vida. Finalmente, um terceiro grupo olha para a pergunta, rejeita-a por não fazer sentido, olha para o que as filosofias e religiões lhes dizem, rejeita ainda mais intensamente por as respostas não fazerem qualquer sentido, e segue a vida sem qualquer “sentido” imposto por terceiros, e não é por isso que é mais infeliz.

Mas pelo menos encontramos uma coisa comum a todos estes grupos. Todos, de certa forma, andam à busca de uma coisa apenas: felicidade. Esse conceito, para uns, pode ser profundamente filosófico. Para outros pode ser apenas uma bejeca na praia rodeado de amigos — prazer. Entre os dois extremos, a resposta, no entanto, parece ser comum: quero orientar a minha vida de forma a ser mais ou menos feliz, durante o maior período de tempo possível. Logo, a primeira resposta à pergunta parece muito simples, e penso que todas as pessoas concordarão com ela: o sentido da vida é tentar ser feliz.

Então a pergunta afinal de contas parece não ser totalmente desprovida de sentido. A resposta — “42” — quer apenas dizer: “quero encontrar alguma felicidade, algum prazer”. Agora a forma como o fazemos é que pode ser muito diferente. A maior parte de nós quer coisas muito concretas: família, um emprego, respeito dos outros, amigos, borga, sexo. Alguns, mais espirituais, preferem descartar isso tudo e achar que o “prazer” afasta da verdadeira felicidade, que é “mística” e não está ligada com essas coisas. Mas acho que a maior parte discordará desta abordagem ultra-radical: os pseudo-místicos que por aí andam acabam por ser pessoas invejosas cheias de rancor, proselitistas, e dão a entender que andam furiosas com o resto do mundo por não seguirem as mesmas ideias. Não me parece que sejam lá muito sucedidos na sua busca pela felicidade. Outros são pura e simplesmente intrujões: vendem livros e cursos sobre felicidade, e se calhar graças a essas vendas até se tornam eles próprios mais felizes, mas os que compram os livros e assistem aos cursos nem por isso. Alguns talvez fiquem temporariamente mais contentes, é possível. Mas mesmo assim prefiro as bejecas na praia: são mais baratas, não requerem grande filosofia nem compreensão, e dão também algum prazer temporário. Para quê estar com grandes conversas? Mais vale seguir uma vida que me crie as oportunidades de poder estar a beber mais bejecas com os amigos…

Mas aparentemente não conseguimos controlar as condições para nos mantermos felizes…

A verdade é que bebemos a nossa bejeca, e até ficamos contentinhos, e depois lá temos de voltar para casa, para no dia seguinte ir trabalhar, aturar clientes chatos e colegas sacanas, e suspirar pelo próximo fim de semana para beber outra bejeca. Como seria muito mais feliz a nossa vida se não precisássemos de trabalhar e pudéssemos passar o tempo a beber bejecas com os amigos!…

Mas quando olhamos melhor para esta imagem, vemos que também não é bem assim. Há um limite de quantas bejecas conseguimos beber de seguida (no meu caso, ao fim de uma e meia, já tenho a minha dose…). E os amigos nem sempre estão bem dispostos: há dias que, malvados, quando o que mais queremos é divertirmo-nos, estão eles a contar histórias lamechas do que lhes aconteceu no emprego ou como a mulher os anda a enganar com outros. Há dias em que a bejeca com os amigos sabe-nos a amargo; íamos com a intenção de nos divertirmos, e apanhámos mas é uma grande seca. Pensamos se afinal de contas não devíamos era ter ido arranjar outros amigos com quem sair, porque estes decididamente são uns neuróticos depressivos e só nos dão secas. Mas a verdade é que até podemos substituir os amigos por outros mais divertidos… e mais cedo ou mais tarde estes também terão os seus maus momentos, altura em que os substituiremos por outros, e assim por diante.

A verdade é que tudo é assim. A mulher com que nos casámos ao fim de uns anos já não nos entusiasma. A casa nova, ao fim de dez anos, precisa de ser reparada. O vizinho que nos parecia simpático resolveu levantar um muro no quintal, e agora passamos os dias no tribunal a ver se lhe lixamos a vida e arranjamos uma providência cautelar ou coisa parecida que nos permita derrubar-lhe o muro. Os colegas no emprego novo, que eram todos atenciosos nas primeiras semanas, andam a falar mal de nós ao chefe; os clientes com ar mais honesto subitamente deixaram de fazer pagamentos; e as Finanças caiem-nos logo em cima com multas. O nosso irmão favorito, com o qual sempre nos démos bem, resolveu embirrar com a partilha da herança. A nossa sogra, sempre um amor de pessoa, tornou-se inaturável agora que entrou na menopausa. Nem o carro que era uma maravilha quando o comprámos se porta bem: agora deu-lhe para estar a avariar-se todos os dias, e o mecânico já não sabe o que fazer (mas lá vai cobrando as horas de trabalho). Tudo muda, por mais que nos esforcemos por evitar a mudança; e ainda por cima, parece que muda para pior. Claro que de vez em quando até muda para melhor: uma coisa que se resolve, uma tia rica que nos deixa uma herança, um amigo que nos vende um carro novo impecável a um preço incrível (e não somos enganados!). Mas isto acaba por ser temporário. Ao fim de uns anos, a herança gastou-se — em multas de estacionamento… ou porque o banco perdeu o nosso dinheiro — e o carro, esse, de tanto uso começa a avariar-se também. Aí recomeçamos todo o nosso ciclo de buscar coisas novas que durem, seja o emprego, seja um casamento, seja um grupo de amigos, seja uma casa, seja qualquer outra coisa. Não haverá nada que dure??

Quando olhamos à nossa volta, e se estamos com atenção, o que vemos é que isto não nos acontece só a nós. Está constantemente a acontecer a toda a gente. Não há ninguém que tenha uma felicidade duradoura (e os poucos que dizem que sim revelam-se mais tarde uns mentirosos e hipócritas). Os poucos que a têm parecem depois apanhar com coisas piores ainda — tipo, os milionários jogadores de futebol que se metem em escândalos e divórcios e tudo da sua vida íntima é publicamente revelado da forma mais escabrosa possível. E mesmo aqueles que até conseguem evitar os escândalos acabam, mais cedo ou mais tarde, por perder o seu momento de glória — os futebolistas deixam de jogar futebol, as actrizes envelhecem e deixam as telenovelas quando nem a cirurgia plástica consegue salvar a sua aparência.

Ou seja, há realmente coisas que nos fazem felizes. Mas são temporárias, porque tudo acaba por mudar. Pode levar mais ou menos tempo — pode até durar ao momento da nossa morte! — mas a verdade é que nada “dura para sempre”. Mesmo o amor eterno que existe entre certos casais (sim, ainda existe entre muitos) que se sabem adaptar constantemente à mudança de ambos e que por isso conseguem uma relação de muito longo tempo acabará quando pelo menos um dos dois morrer.

Ora isto parece ser profundamente injusto: tudo o que andamos à procura é de um pouco de felicidade. Tudo o que fazemos é tentar acabar com os momentos de insatisfação que nos assolam, mesmo nas mais pequenas coisinhas. Passamos a vida toda a estudar, a ter um emprego honesto, uma relação perfeita, uma família ideal, e somos um modelo de virtude e de conduta ética com amigos e colegas — mas para quê? Mesmo isso tudo de nada nos serve. Nunca conseguimos ser completamente felizes de forma duradoura, porque não há nada que dure: as coisas e pessoas envelhecem, estragam-se, partem-se, separam-se, desaparecem. Podemos substitui-las constantemente por novas coisas, novas pessoas, mas estas inevitavelmente serão sujeitas ao mesmo ciclo de deterioração e destruição ou desaparecimento. Aprendemos isto desde pequeninos: o gelado que nos sabia tão bem acaba-se, e depois temos de esperar pela generosidade dos nossos pais para que nos ofereçam outro. Ficamos insatisfeitos ou mesmo aborrecidos quando essa expectativa não se torna em realidade.

Mas como adultos fazemos a mesma coisa: planeamos a nossa vida para que seja uma sucessão de momentos de felicidade. Estudamos, trabalhamos, constituimos uma família, com o objectivo de chegar, um dia, a esse momento de felicidade. Mas aparentemente nunca chega. Quando chega, “sabe a pouco”, como a bejeca que temos de abandonar na praia porque são horas de voltar para casa. O melhor que conseguimos fazer é contentarmo-nos com o que temos, suspirar pelo que não temos, e fazer com que isso nos sirva de algum consolo.

Mas então não há maneira de dar a volta a isto?…

A maioria das pessoas nem sequer pensa sobre o assunto. A p*** da vida é mesmo assim; como diz o velho ditado, “Life is a bitch, and then you die”. Aprendemos com os nossos paizinhos — que por sua vez aprenderam com os avós, e assim por diante — que as coisas são mesmo assim, e que a “vida” é uma coisa séria, cheia de obstáculos, mas que quando os transpomos, ficaremos contentes por ter alcançado alguma coisa. E em certa medida é verdade: transpor obstáculos dá-nos alguma alegria. Mas depois há novos obstáculos… nunca pára. Alguns dirão que a vida é justamente estar constantemente a lidar com esses obstáculos: fortalece-nos a personalidade, e isso deve tornar-nos mais fortes e robustos para lidar com o que der e que vier.

Outros, descontentes com a situação, metem-se nos copos. Ou nas amantes. Ou nas duas coisas. Ou arranjam um hobby, um escape que torne as coisas mais tragáveis. Ou tornam-se criativos. Alguns passarão a vida a mudar constantemente de sítio, de emprego, de companheiro/a, na expectativa de encontrar finalmente uma forma de vida “que funcione”. Mas são comparativamente poucos que o façam: meter-se nos copos é mais fácil, ou estupidificar frente à TV “para não pensar muito nos problemas” é ainda mais fácil, mais barato, e causa menos problemas ao fígado. Seja como for, encontrar “distracções” é uma solução frequente. Mas essas distracções também não duram muito tempo; podemos andar satisfeitos quando estamos distraídos, mas depois temos lá de voltar à “vida real” e esquecer esse momento de alegria.

Outros ainda procuram explicações filosofico-religiosas para justificar tudo isto. Dizem uns que foi um deus qualquer que nos predestinou a esta vida; rezando fará com que tenha piedade de nós, e que nos mande uma benesse de vez em quando, tipo uma vitória no Euromilhões. Outros dirão que não é um deus pessoal que faz isso, mas o “universo”, ou a “energia do universo”, que nos irá beneficiar permanentemente se fizermos X ou Y ou comprarmos o livro Z ou fizermos ofertas e doações a K. Talvez assim seja. Mas olhando para essas pessoas o que vejo é que são tão neuróticas como eu. Também passam por problemas de divórcios, de perdas de emprego, de colegas que os enganam. Também têm de pagar impostos como todos nós. E se ganham o Euromilhões, não vejo que haja uma percentagem maior de crentes a ganhá-lo do que não-crentes. E, no fundo, todos irão morrer: crentes ou não-crentes, todos adoecem, envelhecem, e morrem. Alguns podem morrer felizes porque vão encontrar o Criador numa vida melhor, mas depois pergunto-me a mim mesmo que vida melhor será essa. Um jardim com virgens em que não haja nada mais que fazer do que sexo todo o dia e toda a noite? Sim, será decerto giro durante umas semanas, ou talvez mesmo meses, mas… e depois? Estamos a falar de uma eternidade. Qual é o limite de virgens que conseguimos aturar durante esse tempo todo? E mesmo a alternativa cristã de passar o tempo numa nuvem a louvar o Senhor para toda a eternidade não me parece particularmente atractiva. Algumas seitas prometem uma casinha com jardim e um barbecue. Parece giro, até começar a pensar que se calhar ao fim de uns milhares de anos a fumarada que vem do barbecue da casa do vizinho começa sinceramente a chatear-me, e vou mas é levantar o muro, pois aqui no Paraíso pelo menos não há advogados e RGEUs e ninguém me pode impedir de o fazer… e começa a briga com o vizinho!

Por outras palavras — lá porque exista a promessa de uma “vida melhor” no “além”, onde quer que isso seja, porque é que esse “além” haverá de ser diferente, se as pessoas são as mesmas? Ou tornamo-nos automaticamente “santos” ao passar a fronteira da morte? E o que é um “santo”? Sinceramente, se o que me esperasse no “além” era uma lavagem cerebral para que subitamente achasse que a melhor coisa do universo era estar a cantar “Hossana” todos os dias, 24h/dia, então sim, é que teria pânico de morrer!

Há esta noção de que de alguma forma o descartar deste corpo físico e deste mundo onde estamos rodeados de filhos da p*** que nos lixam a vida irá automagicamente transformar-nos em Seres Perfeitos, cheios de carinho e amor e sentimentos bonitos. Mas porquê? Mesmo assumindo que tal fosse possível, porque é que no “além” o meu vizinho subitamente se tornaria numa pessoa infinitamente agradável, se neste momento é tudo menos isso? (Estou a formular uma pergunta retórica; na realidade, gosto imenso dos meus vizinhos e dou-me bem com eles!)

Portanto, não me parece que esta linha de pensamento tenha grande saída.

Os que rejeitam a filosofia e a religião apostam noutra estratégia (que no fundo não deixa de ser filosófica). Só temos esta vida, então o ideal é fazer o melhor possível que conseguirmos, e tentarmos lixar menos a vida dos outros, na expectativa de que eles, em retrospectiva, nos lixem também o menos possível. Se todos tivermos uma atitude de nos lixarmos menos uns aos outros, pode ser que nos consigamos dar bem. Pode não haver aí uma “eternidade” de tempo para, depois da morte, nos consigamos dar bem uns com os outros, mas haverão em média várias décadas desta vida bem concreta em que podemos começar a trabalhar nesse sentido. Ok, é uma visão um pouco mais razoável. Se assumirmos que os problemas estão nas relações com os outros (e com as outras coisas), e se conseguirmos que todos adoptem a mesma conduta ética uns para os outros, então parece-me razoável de assumir que o resultado será uma sociedade onde as pessoas se lixem menos umas às outras, e todos beneficiarão disso. Podem não ser mais felizes, mas serão menos infelizes. Parece-me bem!

Só que isto, mesmo assim, parece-me tremendamente insatisfatório. Não haverá um método qualquer para que em vez de ficar-me apenas por ser “menos infeliz” não possa ser “mais feliz”? Argumentar-se-á quem me seguiu até este parágrafo que à partida isso não é possível, porque não podemos manipular os objectos à nossa volta — não os podemos tornar em objectos que não nos causem insatisfação. E, assumindo que não existam poderes telequinéticos e percepção extra-sensorial (são boas premissas!…), não há como mudar a mente das outras pessoas para que deixem de nos chatear. Posso forçá-las a deixarem de me chatear a cabeça, mas para isso teria de ser nomeado ditador absoluto e ter uma polícia secreta que mandasse para a cadeia todos os que me chateassem. Infelizmente, isso não está ao meu alcance. Felizmente, também não está ao alcance da esmagadora maioria das pessoas que me rodeiam.

Então qual é a forma de lidar com “os outros” e as coisas que me rodeiam?

Um senhor muito sábio deu uma vez um exemplo simples de que gosto bastante. Imaginemos que andamos pelo mundo fora de pés descalços e constatamos que tudo nos magoa: pedras na calçada, o asfalto demasiado quente, os cardos e picos nos campos, e assim por diante. Para onde quer que vamos, há sempre qualquer coisa a magoar-nos os pés. Então pensamos que se calhar o que era fixe era ter uma quantidade ilimitada de cabedal macio e fofinho, e forrar o chão de todo o mundo. Assim podíamos ir para onde quiséssemos sem magoar os pés. Ora obviamente que isto é impossível; não há cabedal suficiente para forrar todo o mundo! Isto é justamente como tentar transformar a mente das pessoas que nos rodeiam e os objectos e circunstâncias que surgem de forma a não nos incomodarem mais. Mas este sábio sugeriu uma alternativa muito simples: que tal cortar apenas um pedacinho de cabedal e enfaixar os nossos pés nele? Assim podemos ir para qualquer parte do mundo e nada nos irá magoar. (Que eu saiba, este sábio não era um industrial do calçado.)

A resposta na altura surpreendeu-me por ser tão simples e óbvia. Pois claro, não posso mudar o mundo; mas posso mudar-me a mim. E isso deu uma volta de 180º na forma de encarar as coisas: em vez de arreliar-me porque não consigo controlar o mundo, que tal apenas controlar-me a mim mesmo? À partida é mais fácil — a minha mente está sempre presente e sempre disponível, e não custa dinheiro nenhum mudá-la 🙂

Agora a questão é obviamente como fazê-lo de forma correcta. Voltemos ao exemplo dos sapatos. Sem o pedaço de cabedal, o “truque” não funciona. Ou seja: se eu andar pelo mundo fora descalço, mas andar a repetir-me a mim mesmo “isto não dói, eu não estou a sentir dor, estou apenas a imaginar coisas”… estou apenas a enganar-me a mim próprio. Claro que dói. Repetir mentiras a mim mesmo — uma coisa que se conhece do meio como pensamentos positivos — não serve de nada. Ou por outra… serve para ficarmos com os pés em sangue, e depois vai doer muito mais quando descobrimos que teria sido muito mais fácil usar um par de sapatos. Se calhar pelo preço do livro ou curso de “pensamento positivo” podia mas era ter ido aos saldos da Seaside. Ou seja, há claramente métodos errados para mudar a nossa mente que não conduzem a resultado algum, excepto, eventualmente, o de chegarmos à conclusão que andámos mas é a perder tempo, e de ficarmos ainda mais furiosos que antes.

Então qual é o “truque”? Infelizmente é de tal forma simples (como o 42) que é muito difícil de encarar. A primeira coisa é olhar para o nosso interior, e, despido de preconceitos políticos, sociais, religiosos, filosóficos, éticos, ou de qualquer forma de intelectualidade profunda, tentar perceber porque raio pensamos como pensamos. Quando um vizinho nos insulta, o que acontece? Ficamos furiosos. Mas porquê? Porque o malandro do vizinho está a dizer palavrões e a envergonhar-nos em público. Por isso ficamos furiosos, e ripostamos — seja com mais palavrões, seja dando-lhe um estalo, ou, se formos cínicos e tivermos dinheiro para isso, processando-o por calúnia e difamação.

Mas porque é que é isso tão importante? Palavras são apenas palavras. Se ele nos insultasse em chinês ou servo-croata, não nos importaríamos, porque não percebiamos o que nos estava a dizer. Ou seja, não são as palavras em si que são “insultuosas”: somos nós que atribuímos a capacidade às palavras de nos insultar. As palavras em si são apenas ondas mecânicas transmitidas pelo ar. Nós é que temos no nosso cérebro um conjunto de ligações neuronais que disparam sempre que captamos essas ondas mecânicas e que nos fazem reagir de certa forma. Mas porquê? Bem, em muitos dos casos, porque fomos ensinados — por pais, professores, amigos, ou descobrindo por nós próprios — que aquela sequência de ondas mecânicas corresponde àquilo que damos o nome de “insulto”, e que a reacção apropriada é ficar furioso e irritado. Mas porquê? Bem… “porque é assim”. Ou “porque em sociedade não se anda a insultar as pessoas, e diz-se que quando estas são insultadas, têm o direito a retaliar”. Mas porquê?

Estão a ver que isto é o dia dos “porquês”. Esta é a atitude de profundo cepticismo a aplicar a tudo o que nos rodeia. Porque é que tenho de me “sentir insultado”? Quem é que me “manda” reagir assim? Indo mais longe: se me “sinto insultado”, fico furioso, respondo na mesma moeda, e depois fico eu e o meu vizinho chateados. Ganhámos alguma coisa com isso? Bem, dirão alguns, há a satisfação de ter “vencido o argumento” e isso traz-nos alguma felicidade temporária, por isso é que insultamos as outras pessoas e respondemos aos insultos na mesma moeda. Mas isso não faz sentido algum. Primeiro, se há de facto “alguma” felicidade, reconhecemos que é temporária: é um momento apenas de alegria por termos vencido uma discussão. Depois passa. Mas continuamos chateados com o vizinho. E ele connosco. E ele vai voltar a insultar-nos no futuro, e voltaremos a responder, e ficamos mais chateados. Ou seja: por causa de uns pequenos momentos de alegria temporária, que desaparecem logo a seguir, estamos dispostos a passar o tempo todo chateados com outra pessoa e a insultá-la para o resto das nossas vidas; algumas pessoas mais obsessivas passarão as noites a pensar no assunto e a contar aos amigos como têm um vizinho insuportável… mantendo-nos num estado de permanente chateação. Isso fará sentido?

Qual é a alternativa? Receber um insulto com um sorriso parvo, mas ignorar o insulto. Isto se calhar ainda deixa o vizinho mais irritado da primeira vez. Se calhar vai então redobrar os esforços a tentar insultar-me ainda mais violentamente. Mas quando vir que os insultos não têm qualquer efeito, acaba por desistir. Pode apelidar-nos de totós e contar aos amigos como tem um vizinho burro, que se pode insultar dia e noite, que não se deixa afectar. E depois? Que me interessa a opinião que os amigos deles tenham sobre mim? Se vierem tentar insultar-me também para experimentar se é verdade ou não, respondo com o mesmo sorriso parvo. Ao final de algumas tentativas, vão chegar também à conclusão que sou um totó, mas deixam de me chatear. Tenho eu paz e sossego, porque vão desistir de me insultar; mas também o vizinho e os amigos, porque deixam de se ter de preocupar comigo.

Parece impossível de conseguir? Não é nada. Requer é alguma paciência e esforço. E acima de tudo, uma capacidade enorme de atenção: estar permanentemente a observar aquilo que nos irrita e pura e simplesmente deslargar, não deixar que nos afecte. São apenas palavras.

Mas claro que o argumento contra isto é que a “passividade” não é uma solução. No emprego podemos ser atacados verbalmente, e se não nos defendermos, podemos ser despedidos, e depois ficamos sem emprego, sem dinheiro para pagar a casa, e a mulher pega nas malas e nos filhos e deixa-nos na rua. Tudo por causa de um princípio ético muito bonito, mas que aparentemente não dá bons resultados. É aqui que entra o treino adequado: saber o que responder quando somos atacados verbalmente. Às vezes basta um sorriso; outras vezes terá de ser bem mais do que isso. Agora o que é importante perceber é que não há nenhuma resposta pré-definida, pré-condicionada, que seja aplicável às situações “só porque os outros me dizem para o fazer”. O primeiro treino é não ligar muito às opiniões dos outros, e apenas fazer aquilo que é mais funcional, no sentido de não prejudicar ninguém, mas também de resolver a situação. O segundo treino, muito mais importante — e muito mais difícil! — é nem sequer ligar nada às nossas próprias opiniões.

Este último treino é o mais complicado, porque requer uma observação ainda mais atenta do que se passa na nossa cabecinha. Estamos furiosos, porquê? Porque fomos “educados” para pensar de determinada forma quando algo nos acontece. Mas o que são esses “pensamentos”? Para muitos, são uma espécie de palavras que guardamos dentro do cérebro. Mas se estamos já a dar pouca importância às palavras que surgem como ondas mecânicas externas, porque é que aquelas que estão de alguma forma arquivadas na rede neuronal dos nossos cérebros “mais importantes”? Bem, damos-lhes mais importantes porque são nossas. Temos a propriedade sobre os nossos pensamentos. Mas aqui temos mais uma vez de olhar bem e perguntarmo-nos: mas afinal de contas, “quem” é esta “coisa” que tem propriedade sobre os nossos pensamentos? “Eu” sou esses pensamentos — como dizia o Descartes — ou há “algo” que tem esses pensamentos e a que convenientemente rotulo de “eu”? Chegamos rapidamente a algumas contradições: se digo “eu tenho pensamentos” então “eu” e “pensamentos” são entidades distintas; se digo “eu sou os meus pensamentos” então sempre que passo a ter pensamentos antagónicos — deixo de ser “eu”? Quando durmo ou estou bêbado e não tenho pensamentos, continuo a ser “eu”? Se pensava de forma diferente há 10 ou 20 anos atrás, esse “eu” de 1991 é o mesmo “eu” que o de 2011? Como é possível ser o mesmo “eu” se os pensamentos são diferentes? Sou um “upgrade” do “eu” de 1991, uma espécie de Eu 2.0, improved and expanded with extra features, mas apesar de pensar de forma completamente diferente e de me comportar de forma completamente diferente, continuo a ser o mesmo “eu”? Isto começa a tornar-se complicado de sustentar…

Se observarmos bem durante algum tempo, e assumindo que temos realmente interesse em fazê-lo, o que vamos chegar à conclusão será qualquer coisa mais ou menos como isto: “bem, eu não sou especialista em neurologia ou psicologia; tudo o que posso dizer é que aqui dentro da minha cabecinha, presumivelmente no cérebro, aparecem uns pensamentos e umas emoções — algumas das quais despoletam novos pensamentos. Convenciono chamar a tudo isto, e somo-lhe o resto do corpo para não deixar nada de fora, como sendo ‘eu’. Os pensamentos podem mudar, a forma como reajo às emoções também, mas a verdade é que há ‘algo’ que perdura, o que quer que seja, pois não percebo muito disto, e chamo a esse ‘algo’ simplesmente ‘eu'”. Penso que será difícil encontrar alguém que não pense mais ou menos assim; se tiver formação em psicologia ou neurologia talvez tenha uma formulação mais complicada. O desafio que coloco é então de apontar exactamente onde é que está o “eu” no corpo. Serão as bactérias intestinais também parte do “eu”? E os ácaros? Não, dirão uns, isso não faz parte do corpo. Ok, e as células mitocondriais que nem sequer têm o mesmo DNA que nós mas que estão dentro de todas as células? Erm… pronto, talvez sejam parte de nós. Certo. Então quando corto um braço, o “eu” fica nesse braço? Uhm… nope. Está no cérebro. Fixe! Então se começo a cortar pedacinhos do cérebro até este deixar de funcionar, onde é que está o “eu”? Aqui os mais filosóficos dirão que o “eu” é um propriedade emergente da complexidade neuronal (os outros não saberão o que dizer), que é uma coisa que anda muito em voga em neurologia. Mente, consciência, pensamentos, raciocínios são bem explicados como “propriedades emergentes” — uma espécie de definição científica muito divertida porque não explica nada, excepto que são necessárias certas causas e condições para que “surjam” certas coisas como uma “mente” ou um “eu”.

Porreiro, pá! Por mim fico satisfeito com essa definição: não há uma substância (física ou paranormal) que possamos chamar de “eu”. No entanto, todos temos uma “sensação” de “eu”, mesmo que não saibamos muito bem porquê, ou onde está. Se começarmos a admitir que este “eu” não é mais do que uma “sensação”, uma “convenção” que facilite a comunicação (imaginem se erradicássemos a palavra “eu” do dicionário; como poderíamos comunicar uns com os outros), uma “propriedade emergente” da fantástica máquina biológica que é o nosso corpo, então deixaremos de lhe dar assim tanta importância. Essa tal “propriedade emergência” tem tanta existência intrínseca do que uma palavra a que damos o significado de “insulto” e que nos faz furiosos. Tal como é preciso haver um certo “condicionamento” para que reconheçamos um “insulto” e tenhamos uma reacção violenta a esse insulto, também houve um certo conjunto de causas e condições para que o “eu” surja como uma “propriedade emergente” da complexidade do nosso cérebro. Certo?

Eh pá, mas a esta altura, a malta começará a dizer que uma coisa é o cérebro, que tem propriedades neurológicas muito bem definidas e tal, e a outra é uma palavra, que, pronto, sim, é um conjunto de ondas mecânicas transmitidas pelo ar, e como tal só tem significado quando entra lá na nossa cabecinha e activa uns circuitos que nos fazem reagir violentamente. Ora o “eu” deve ser mais do que meramente isso, é qualquer coisa que está intrinsecamente no cérebro, lá codificado de alguma forma, e mesmo que não se saiba muito bem como é que o cérebro funciona, um dia destes saber-se-á, e nessa altura poderá haver uma formulação científica de onde é que está o “eu”.

Talvez assim seja. Pode acontecer. No entanto, tudo o que sejam “propriedades emergentes” tendem a escapar facilmente da análise científica mais profunda; quando se começa a cortar as coisas aos pedacinhos, reduzindo o número de causas e condições para essas “propriedades emergentes”, estas pura e simplesmente deixam… de “emergir”. Portanto, até que surjam novos desenvolvimentos nesta área, a minha proposta de hipótese de trabalho é que coisas abstractas como “mente”, “raciocínio lógico”, “inteligência”, “eu”, são meramente propriedades emergentes da complexidade da rede neuronal de um cérebro saudável inserido num corpo que o alimenta. E como tal não passam de convenções, conceitos: palavras que facilitam a comunicação, mas que não têm existência por si só, mas sim apenas na dependência de várias causas e condições. Por exemplo, sem cérebro, não há “eu”. Um cérebro de um morto não tem “eu” em lado nenhum (acho que pelo menos com isto toda a gente concordará). Logo, o cérebro por si só não é o “eu”, mas será certamente uma das causas principais.

Aonde é que quero chegar com isto tudo? Bom, basicamente, para mostrar que estar agarrado a esta ideia de “eu” como sendo uma coisa muito importante e preciosa de manter não faz sentido — faz tanto sentido como um bombista suicida fazer explodir um edifício porque acredita nas virgens eternas do paraíso. Esta “crença” num “eu” como sendo uma coisa importante faz com que o defendamos contra tudo e todos, e que cometamos actos terríveis contra outras pessoas. Mas, de uma forma também passiva, é por querermos “agradar” a este “eu” que andamos sempre a saltitar de actividade em actividade a procurar alguma felicidade para gratificar este eu. Ora não há mal algum em fazer actividades agradáveis. O problema está que todas estas actividades não são duradouras, e como tal, precisamos constantemente de ter mais actividades, porque enquanto continuarmos a acreditar no “eu” como sendo a coisa mais importante a preservar, faremos tudo para o agradar. Os crentes poderão dizer que na realidade acreditam que a coisa mais importante que existe para eles é um deus ao qual rezam, mas na verdade, colocam o seu próprio “eu” acima de deus: rezam ao seu deus para que este lhes conceda graças e bençãos (neste mundo ou noutro qualquer) que venham a gratificar esse “eu” de alguma forma. Se forem muito altruistas, pedirão graças e bençãos para os “eus” dos outros, na expectativa de receberem algo em troca, claro (nem que seja noutro mundo).

Eu prefiro “acreditar” que nem sequer este “eu” realmente existe, é apenas uma “propriedade emergente”, e tal como todas as outras, não lhe dou demasiada importância. “Acreditar” é uma palavra muito forte; apenas observo e analiso por mim próprio a ver se encontro alguma coisa de sólida e substancial neste “eu”. Poderão dizer-me que sem maquinaria e conhecimentos de neurologia e de filosofia profunda não chego a lado nenhum, mas isso parece-me ridículo — é dizer que nem sequer tenho capacidade de definir onde é que está algo que me acompanha toda a vida!

Uma vez descartando-me da “sobre-valorização” de uma “coisa” que se calhar tenho dentro da minha cabeça mas que não sei muito bem o que é, passo a encarar o mundo de uma forma muito diferente. Deixo de levar as coisas tão a sério. Trabalho, família, prestígio, poder, glória, tudo aquilo que são expectativas dos meus pais, dos meus amigos, dos meus familiares — só são acções de gratificação do ego, esse tal “eu” que não existe lá muito bem em lado nenhum, mas que acarinho como se fosse um deus pessoal. Em vez disso, o esforço em busca dessas coisas só vai trazer problemas, mais cedo ou mais tarde. Isto não quer dizer que tenha de acabar com o trabalho, a família, ou os amigos. Quer dizer que tenho de lhes dar a devida importância: não é aí que reside a fonte da felicidade, e, como tal, não vale a pena stressar. Preciso de trabalho para comer e pagar impostos; preciso da família e amigos para companhia; mas reconheço que todas estas coisas são momentâneas, não são duradouras, e não tenho grande controlo sobre elas (ou nenhum). Para quê, pois, preocupar-me? Da mesma forma com que não me preocupo com os insultos, também não me preocupo com a fama e glória. Os famosos acabam como rostos na Caras com os seus escândalos e divórcios; prefiro o anonimato. Os ricos andam em pânico por lhes poderem roubar o dinheiro (sendo o maior ladrão o Estado, claro); a mim que já me roubaram tudo, tenho poucas preocupações, excepto o de comer, vestir-me, e de ter um sítio para dormir onde não chova. Claro que isto não quer dizer que queira ser ermita ou monge 🙂 Não vejo grande interesse nisso, especialmente por causa do ponto que se segue…

Onde é que está então a felicidade?…

Se não está na riqueza (nem decerto na pobreza), na glória e fama, nos amigos, na família, no trabalho, nos hobbies, nas coisas que me faço para divertir… onde está então? Aqui as coisas não são imediatamente lógicas, mas o que concluo é que não pode estar em nada de externo — se são coisas sobre as quais não tenho controlo, e são pouco duradouras, então não podem ser fonte de felicidade. Isto é só porque até agora não consegui conceber nada que me dê felicidade duradoura, e, sinceramente, não conheço ninguém que tenha adquirido nada que lhe dê isso. No melhor dos casos, são coisas que duram… até morrermos. Por isso não duram “para sempre”.

Então se não estão em lado externo nenhum, terão forçosamente de estar internamente. Mas aqui as coisas são complicadas de descobrir. Por um lado, sou afectado por tudo o que me rodeia. E isso geralmente são coisas pouco duradouras que causam insatisfação por não durarem para sempre. O que é que tenho “internamente” que seja duradouro? O “eu” não será de certeza: vai mudando com o tempo, e, como vimos, não há lá muita “consistência” nesse “eu”. De certeza que não são os meus pensamentos, as minhas emoções: são também coisas que aparecem e desaparecem. Posso tentar-me enganar e dizer “eu sou feliz!” mil vezes por dia, mas depois de deixar de dizer isso, serei mesmo feliz? Duvido. Quando estou a dormir, serei feliz? Nem me lembro; se o sou, é um desperdício, pois nem sequer me lembro 🙂

No entanto é inegável que este “eu” sente felicidade quando lhe acontecem coisas boas e quando evita coisas más. Ou seja, esta noção de “felicidade” surge na consequência de coisas boas e do evitar de coisas más. O problema está em que normalmente não são duradouras, e que ando à procura de coisas que façam surgir essa felicidade espontaneamente de coisas duradouras, e não as consigo encontrar.

Ora aqui é que as coisas são mesmo difíceis. Se há “algo” que seja felicidade, e que seja duradoura, não pode estar no exterior, onde nada é duradouro. Mas no meu interior há muito poucas coisas duradouras (até o meu “eu” um dia irá morrer e deixa de existir). Será que há então algo mais para além desse “eu”?

Bom, que há “algo mais”, isso é fácil de observar. Se há “algo”, como disse, que pode observar os pensamentos, as emoções e chamar-lhe “eu”, então esse “algo” é distinto dos pensamentos, das emoções, e do tal “eu” que tem pouca credibilidade existencial. O que quer que seja esse “algo”, é muito difícil de descrever, mas todos os sentimos. Podemos chamar-lhe qualquer coisa como “atenção”, ou “vontade”, se não quisermos ser muito místicos (e prefiro evitar misticismos, que isto de olhar para a nossa própria mente não tem nada de mágico, esotérico, ou místico; qualquer pessoa o pode fazer, já que todos temos uma mente 🙂 ). O que vejo é o seguinte: se não fosse a porra dos meus pensamentos pré-condicionados, interligados com as minhas emoções, que me fazem reagir de certa forma (que muitas vezes nem quero…), de acordo com preconceitos, moralidades, ou educação, bem, então se calhar podia ser feliz, porque não seria condicionado por todas essas porcarias que por lá andam na minha mente. Certo? Quantas vezes não pensamos que “se eu tivesse conseguido controlar-me, teria evitado aquela situação desagradável”. Nesse momento tivémos consciência de que podíamos ter feito umas coisas mas fizémos outras por condicionamentos. Dizemos “foi mais forte que eu” ou “perdi a cabeça” ou mesmo “estava fora de mim”. Em todas estas frases está implícita, de certa forma, a noção que até temos consciência de que reagimos de forma condicionada, e que isto nos fez acabar por sofrer com a situação, para além de prejudicar terceiros e lixar-lhes também com o juízo. Mas pronto. “É mais forte do que nós”.

Então o que devo concluir é que esses “condicionamentos”, apesar de estarem presentes de certa forma algures nos caminhos neuronais percorridos pela mente no cérebro, não são realmente “parte” de mim — são apenas lixo que por lá anda. Reajo de forma condicionada porque tenho, digamos, a cabeça cheia de m***a. Mas se limpar a cabecinha de toda a m***a que por lá vai, com que fico?

Bom, fico “descondicionado”. Deixo de ser uma espécie de robot que só sabe reagir às emoções de uma forma previsível. E passo a poder tomar a decisão mais apropriada que melhor se adaptar à situação. Ao fazê-lo, prejudico menos as pessoas, mas também sou menos prejudicado por elas. E isso significa que cada momento é um momento livre de aborrecimentos, chatices, e outras tretas que me lixam o juízo e me dão cabo da cabeça. Numa palavra, é um momento de felicidade.

Mas tenho dois problemas. O primeiro é que tenho muito lixo dentro da cabeça. Ok, para isso, há que empregar métodos para o remover. O segundo é que não consigo, a todos os momentos, estar suficientemente “afastado” dos meus condicionamentos (o lixo) para agir de forma racional e funcional. Ok, para isso há métodos também. Mas se conseguir remover o lixo e agir sempre de forma racional e funcional, livre desses condicionamentos, então não há nada de externo que me possa lixar o juízo. Posto por outras palavras: não há nada de externo que me possa fazer infeliz. Nesse caso nem sequer os meus próprios pensamentos idiotas e as minhas emoções cretinas me podem afectar; posso observá-las, senti-las, usufruir delas, mas não me deixar condicionar por elas. Ora esse estado é duradouro — desde que me treine em mantê-lo. E não é algo que tenha de “fabricar” ou “construir” (não preciso de andar a repetir “sou feliz! sou feliz!” e mandar poemas sobre felicidade aos amigos no Facebook…): é algo que está já presente na minha mente e sempre esteve lá. Eu é que não presto atenção a ele, porque entretenho-me a olhar para o lixo, e achar que é o lixo — os meus condicionamentos, o meu ego — que é importante e válido.

Passei toda a minha vida a achar que o lixo dentro da minha cabecinha era bom, que o meu ego precisava de se fortalecer vencendo obstáculos externos, e que são as condições externas, sobre as quais não tenho qualquer controlo, que me irão dar alguma felicidade. Coloquei imenso esforço durante toda a minha vida nessa atitude. Porquê? Porque toda a gente que conheço fez o mesmo. No entanto, não sou mais feliz que os outros, que também não são lá muito bom exemplo — com as suas neuroses, depressões, idas a terapeutas, e escapismos como TV e bebida e amantes.

Se calhar chegou a altura de questionar se é assim tão fundamental dar tanta importância a esse lixo dos condicionamentos e começar a sério a deixar de depender tanto desse lixo. E, uma vez descoberto o “truque”, tentar explicar ao maior número de pessoas como o fazer, para que sejam também livres do lixo dentro das suas cabeças, e felizes por isso mesmo.

Como o fazer? Bom, isso agora são outros trezentos 🙂 Não sou qualificado para responder a essa pergunta. Apenas posso prometer que farei todos os esforços para me qualificar! Agora desde já aviso que não é fácil. Passei uns quarenta anos a acumular condicionamentos — lixo — e tenho literalmente a cabeça toda cheia de trampa que me impingiram. Lavar a mente da m***a acumulada em quarenta anos não se consegue de um dia para o outro, e tenho consciência de que sou muito preguiçoso — especialmente porque quanto mais trampa se tira, mais difícil fica tirar o resto que cá ficou. É normal: o ego não gosta de ser atacado, e defende-se como pode! Tantos anos de condicionamento não desaparecem assim de repente. A lavagem cerebral a que fui sujeito foi lenta, prolongada, e constante — ao ponto de pensar que a realidade que vejo é mesmo assim. Até recentemente, duvidava sequer da minha capacidade de poder pensar de outra forma, de me poder efectivamente libertar dos meus condicionamentos (“sabe tãããão bem insultar aquele f.d.p. do vizinho que me chateia a cabeça com o berbequim sempre a trabalhar ao fim de semana…”). Agora acho que é possível desde que me empenhe, mas não vai ser fácil!

Então afinal de contas qual é o sentido da vida, do universo, e de tudo o mais?

Acaba por ser simples: fazer com que toda a gente se veja livre de toda a trampa que têm nas suas cabecinhas, e, uma vez livres desses condicionamentos, poderem realmente ser felizes, mas de forma duradoura, e não temporária, dependendo de causas externas que nunca são duradouras. Mas para isso tenho primeiro eu de me ver livre da minha própria trampa. Enquanto continuar condicionado a pensar que o meu ego é que tem razão, estou feito ao bife, e não tenho qualquer capacidade para ajudar um caracol.

As boas notícias é que isto é perfeitamente possível. As melhores notícias é que existe uma série de métodos que efectivamente funcionam. As excelentes notícias foi ter encontrado alguém que generosamente está disponível a apontar-me (e a qualquer pessoa que o queira fazer, claro) quais os métodos mais eficazes para o meu caso. As más notícias é que os métodos são árduos e trabalhosos e que a maioria das pessoas não tem paciência para os seguir 🙂

Mas se houver alguma coisa mais nobre do que livrar todas as pessoas dos seus próprios condicionamentos e torná-las assim felizes, ainda não a encontrei.

Isto é, para mim, 42.

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5 pensamentos sobre “101010

  1. Acho que todos já tivemos uma linha de pensamentos idêntica à que escreve neste blog. E a conclusão que cheguei é que nunca se vai chegar a conclusão nenhuma porque se calhar não há nenhuma conclusão para se chegar e continuando com os porquês… porque é que temos que ter um sentido? Não será a verdadeira felicidade não precisar de dar um sentido às coisas que fazemos ou pensamos?

    São só mais umas ideias para remoer na cabeça enquanto vamos vivendo a nossa vida sem chegar a nenhuma conclusão satisfatória 😉

    Parabéns pelo post

  2. André, sim, isso que descreves é a abordagem niilista; eu pessoalmente não gosto dela pela simples razão de que o niilismo tende a desresponsabilizar os seguidores dessa filosofia: se nada faz sentido, e nada do que fazemos (ou pensamos) tem sentido, então nesse caso posso fazer o que me dá na real gana (inclusive lixar a vida dos outros), pois de qualquer das formas isso também não faz sentido 🙂

    O niilismo é muito apelativo para justificar qualquer tipo de comportamento egóico, independentemente de prejudicar as outras pessoas ou não.

    De resto, eu prefiro o caminho do meio, proposto por Siddharta Gautama há 2600 anos atrás: nem niilismo, nem materialismo. O texto acima é uma tentativa de o expôr de uma forma condensada. Fico muito feliz de ouvir que “achas que todos já tivemos uma linha de pensamentos semelhante”; isso é mesmo muito, muito bom de ouvir. Infelizmente, na minha experiência pessoal, conheço pouquíssima gente que tenha (ou que siga) linhas de pensamento semelhantes: 99% são materialistas, 1% são niilistas, e não há ninguém pelo meio. Mas é mesmo muito reconfortante saber que há gente que tem uma experiência diferente!

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