O país dos chicos-espertos

Muitos terão no domingo celebrado o voltar de uma página na política portuguesa — o fim de um ciclo e o início de um ciclo novo — tentando enganar-se a si próprios pensando que agora tudo vai ser diferente.

Se é certo que existe um alívio psicológico de não ter o José Sócrates à frente dos desígnios deste país (o que pode motivar mais gente, fazê-los saír da depressão, encarar a vida difícil que se avizinha de forma mais optimista), o certo é que a diferença não vai ser muita. Todos os três partidos mais votados assinaram o acordo com o FMI, o BCE, e o FEEF; todos concordam com as medidas (talvez Passos Coelho seja quem acredite que se deva ir mais longe do que o combinado; logo veremos se tem força política e pessoal para o fazer); seja quem governe de facto o país, para além da questão psicológica, a diferença não será muito grande.

E não será agora nem daqui por 5 ou 10 anos. O problema, para mim, nem sequer é «estrutural», no sentido de termos um país pobre com fracos recursos, e que tem sido sempre a nossa «desculpa» dos últimos 900 anos (por vezes, motivando-nos a «pensar fora da caixa» como no século XV e encontrar outras soluções). O problema nem é a nostalgia. Vivemos sempre no passado e isso dificulta o saber olhar para o futuro. Para piorar as coisas, nos últimos 35 anos olhámos para a economia e vimo-la sempre a crescer. Pouco, é certo, mas as coisas foram sempre a melhorar. Quando era puto tínhamos de comprar leite em pó porque «leite a sério» era muito caro. Haviam duas marcas de bolachas e de chocolates nas prateleiras dos supermercados. Uma televisão a cores era um luxo capitalista e de qualquer das formas só haviam dois canais. Não é fazer a apologia do passado em que éramos «uns coitadinhos», mas apenas relembrar que não foi assim à tanto tempo atrás em que realmente éramos todos muito pobres. Gostamos de relembrar o passado glorioso que é sempre melhor que o presente, mas agora vamos sentir na pele o que é voltar a esse passado que não era nada glorioso e que mais valia ter sido apenas uma memória para esquecer; vamos voltar a beber leite em pó e a comer mais torradas e a só ter dinheiro para fruta de época de má qualidade. Não vamos ficar muito piores do que estávamos entre 1976 e 1983, mas mesmo isso significa um abaixamento dos padrões sociais e económicos a que estamos confortavelmente habituados, e isso vai custar imenso a todos.

Todos? Não. Apenas 99% dos portugueses vão sofrer.

É indecente ser facilitista e simplista e dizer que «a culpa é do Cavaco». O que o Prof. Cavaco Silva fez foi apenas dar o pontapé de saída para um processo que se instaurou na sociedade portuguesa: a ascensão do novo-riquismo e o triunfo do chico-esperto, o novo modelo a seguir. Com os fundos estruturais da UE, o governo de Cavaco criou a ilusão de que os chicos-espertos agora podiam tornar-se na elite aristocrática deste país, substituindo a anterior (pré-1974) elite aristocrática.

E assim aconteceu. Com dinheiro a jorrar de todos os lados, as oportunidades não faltavam. Só uma década depois dos primeiros fundos estruturais entrarem em Portugal é que se começou a ter algum rigor na atribuição dos mesmos. Os primeiros eram a fundo perdido. A minha namorada da altura, alfacinha de gema, «tornou-se» subitamente agricultora assinando uns papéis, o que lhe permitiu obter mil contos a fundo perdido para comprar um terreno algures onde se dedicou à cultura de… caracóis. Claro que nada foi para a frente, mas ela ficou com os mil contos no bolso; e como ela, literalmente centenas de milhares de portugueses fizeram o mesmo.

Em pouco tempo, as classes sociais que tinham sido oprimidas durante a ditadura viram-se de repente com mais dinheiro nas mãos do que alguma vez sonharam. Era melhor do que ganhar o Totoloto (porque o Euromilhões não existia), e ainda por cima, a maior parte dos «investimentos» nem sequer pagavam impostos. Obviamente que muitos tiveram sucesso — isso também é inegável — e que o país ficou dotado de infra-estruturas de luxo de uma ponta à outra (depois faltaram é as pessoas para trabalhar nelas…). Nasceu a banca privada. Criou-se pelo menos uma universidade e um hospital em cada distrito. Ligou-se tudo com auto-estradas. O Alfa (ainda não Pendular) ligava Lisboa ao Porto em 3 horas — e nos finais da década de 1990 havia quase uma dezena de companhias de aviação que faziam a ligação Portela—Pedras Rubras pelo preço de um bilhete de combóio. Nasceu a televisão privada e a rádio deixou de ser pirata. Em pouco mais de uma década, saímos do marasmo de um país paupérrimo e atrasado, para sermos catapultados para o meio do luxo e da tecnologia: inventámos o Multibanco, a Via Verde, os pré-pagamentos nos telemóveis.

O futuro parecia brilhante… tal como parecia aos novos-ricos que eram donos do comércio de especiarias no século XV. Tal como parecia aos donos de minas de ouro e prata no Brasil do século XVIII. Olhando para a história, de vez em quando, o nosso país, devido a uma conjuntura de acasos felizes, entra numa era de prosperidade como nunca antes vista. E depois… reagimos exactamente da mesma forma. É giro ler a biografia do Afonso de Albuquerque ou dos visitantes ingleses da Lisboa barroca. Não mudámos de atitude em absolutamente nada, pensamos e agimos precisamente da mesma forma; se critico Cavaco por alguma coisa, é que não leu suficiente história de Portugal, ou a que leu não referia nada de como é que realmente pensamos.

Não se pode fazer enriquecer os portugueses muito depressa. Temos um «fado» estranho. Podemos aturar séculos de pobreza franciscana, mas quando temos a sorte de ter dinheiro fácil em quantidades estrondosas, parecemos uns putos. Deixamos de ser racionais e passamos a comportarmo-nos como os mais perfeitos idiotas.

Voltando a Portugal de 1985, o problema é que esta nova pseudo-elite — os «novos ricos» que são donos de bancos, jornais, e… militam no PS e no PSD — troxeram consigo um novo conjunto de valores morais para a nossa sociedade: a noção de que ser espertalhão, mentiroso, ladrão e vigarista era aceitável, desde que se enriquecesse o suficiente (e depressa) para se tornar «intocável», o que neste país pouco mais significa do que ascender a um cargo político ou a dirigente futebolístico. Está ao alcance de qualquer um. Logo, esta nova elite aristocrática é muito maior — e consome muitos mais recursos — do que a anterior. Com a diferença fundamental que não tem quaisquer escrúpulos.

Mais uma vez a história nos deveria servir de guia. Volto ao Afonso de Albuquerque; as suas descrições da pequena nobreza subitamente enriquecida, que só ia à Índia para saquear tudo o que podia e para armar intrigas com El-Rei para se prejudicarem todos mutuamente, mostram exactamente a mesma mentalidade. Loucos com o dinheiro fácil, descartaram todos os valores morais — deixaram de ser «nobreza» — para se comportarem como patifórios, escória que seria rejeitada na mais deprimente taverna. Mas eram políticos. Eram ricos e tinham as costas quentes na Corte. Por isso, sentiam-se impunes. O resultado? Em 1580 lá se vai a independência, sem ninguém a defender.

O século XVIII ainda é mais colorido. Quando o Marquês de Pombal verificou que este «povo de marinheiros que deu mundos ao Mundo» já não tinha sequer uma armada — nem sequer uma marinha mercante — mas que estava tudo nas mãos dos ingleses, ficou pasmado. Não é que os nossos Mais Antigos Aliados tivessem sido uns malandros oportunistas; havia, pura e simplesmente, dinheiro a mais, e já ninguém se queria preocupar em construir e manter barcos — era muito mais fácil e cómodo alugá-los aos ingleses. Mas também data do século XVIII a invenção do turismo sexual: as «idas aos conventos» substituíram a prostituição nos bordéis, porque era muito mais luxuoso ter sexo com as fidalgas num local mais limpo, mais arejado, e com melhores condições… vinha gente de toda a Europa «aos conventos portugueses». Qual Fátima, qual carapuça… os autos-da-fé eram espectáculos populares com o mesmo nível de assistência e entusiasmo que as touradas feitas no Terreiro do Paço. E este espírito passava-se de geração em geração e auto-perpetuava-se…

Já nos finais do século XX as coisas não foram lá muito diferente. Quando esta classe de novos-ricos e chicos-espertos se viram no poder, chegaram à conclusão que o melhor seria auto-perpetuar a sua descendência: mudou-se o sistema de ensino, mudou-se a educação, mudou-se o sentido cívico e social. Agora ensina-se às criancinhas que não é preciso estudar porque já não chumbam na escola; que podem cabular e fazer o que lhes apetece porque os professores não têm poder algum; e que quanto mais cedo militarem no PS, no PSD ou no PP, mais depressa enriquecem sem esforço. Isto não sou eu a inventar; conheço justamente jovens acabadinhas de saír do liceu em que, quando lhe perguntam o que querem fazer — após uma vida de ócio sem dificuldades financeiras, em que tudo em seu redor se centrou no seu ego e na busca do prazer, sempre insatisfatório — a resposta é invariavelmente «ser militante do PS(D)». E não estamos a falar de gente pouco inteligente, pelo contrário: é uma camada da população que sai do liceu e vê todos os licenciados no desemprego. Esta é a primeira geração para a qual a educação não é garantia de emprego, antes pelo contrário: sabem perfeitamente que quanto mais estudarem, mais anos estarão fora do mercado de trabalho já de si tão difícil de entrar. Com que motivação, pois, enfrentarão o sistema de ensino, especialmente o superior, sabendo de que nada lhes serve? Mais vale em vez disso juntar-se a um partido dos que têm possibilidade de formar governo; mais cedo ou mais tarde, o «tacho» aparecerá… e com mais de 11 mil institutos por aí, criar-se mais uma centena ou duas «ninguém nota», e sempre se «absorvem» mais uns chicos-espertos sem qualquer educação mas com o cartão de militante

Ora para o resto da população, enquanto se mantiverem estes valores como sendo os fundamentais da sociedade portuguesa, é irrelevante votar PS, PSD ou PP. Todos estes partidos defendem a mesma coisa: a auto-perpetuação do novo-riquismo e do chico-esperto que «se vai safando». Não se podem ajudar os milhões de portugueses na sua totalidade; então quem é «esperto» fará tudo por tudo para entrar directamente nos 1% de militantes que não vão ser afectados por qualquer crise. E a próxima geração de políticos no poder ainda vai ser pior, porque virão directamente das fileiras das juventudes partidárias que desde criancinhas que aprenderam estes valores e que os integraram na sua forma de pensar e agir. Nem sequer conseguirão conceber outra forma de sociedade que não seja a da valorização pessoal à custa de todos os outros.

Ora isto não se muda com FMIs, nem sequer com bancarrotas do país, nem com uma crise que afecte 99% da população. Mesmo que viesse aí a revolução, os seus líderes, seja de que ideologia forem (ou mesmo que não tenham ideologia alguma) vão defender esses mesmos valores. Podem estar pintados de azul, amarelo, rosa, laranja ou vermelho que é irrelevante: a geração actual e a próxima estão irremediavelmente contaminadas pelo facilitismo e pela aspiração de enriquecer rapidamente à custa de terceiros.

Não se mudam mentalidades com eleições. Mas também não é com revoluções. Muito menos com propaganda política. Muda-se com educação, mas temos pelo menos uns 20 anos para desfazer — uma geração inteira. Pessoalmente, só acredito que quando eu morrer é que vai haver uma nova geração que tenha já sido educada de acordo com uma noção de civismo, de dever social, de honestidade e de trabalho. Por isso, lá para 2050 estaremos no bom caminho. Antes, não.

Ora eu não sou moralista; sou, em vez disso, funcionalista, se é que essa palavra existe. Uma sociedade assente em aldrabar o próximo para obter benefícios pessoais não vai muito longe; há um limite de quanto é que se consegue extorquir das vítimas. Sócrates conseguiu sangrar-nos até à última gota, mas Passos Coelho não terá outro remédio senão ainda ir mais longe. Preocupa-me sinceramente que hajam já centenas de milhares de portugueses que têm de optar entre comer todos os dias ou tomar medicamentos para manterem a sua saúde; já não há dinheiro para ambas as coisas. Por isso, morrerão à fome ou da doença; a esperança de vida em média vai decrescer. Isto, do ponto de vista dos chicos-espertos no poder, é a forma ideal de manter o Estado Social, que foi desenhado para que as pessoas morram pouco depois de se reformarem. Mas hoje em dia, em que é perfeitamente possível reformar-se aos 55 anos e viver até aos 95, significa que os portugueses, até recentemente, passavam mais tempo da sua idade adulta reformados do que a trabalhar. Claro que não há sistema de segurança social que aguente isto; matar prematuramente a população envelhecida é a melhor forma de organizar as finanças públicas.

Estas palavras são muito bonitas de se dizer quando se fazem discursos políticos de uma bancada, sabendo-se que se tem quatro ou cinco cargos de administrador acumulados com duas ou três reformas; soam a falso. Ora eu desde meados de 2004 que vivo mesmo no limiar de pobreza definido para Portugal (há meses melhores e piores, claro). Como eu vivem milhões de portugueses e cá nos vamos safando. Temos um tecto por cima das nossas cabeças; temos um carro velho mas que anda; temos computadores e Internet; podemos não ter telemóveis da última geração, mas temos telemóvel. Temos TV (eu não tenho por opção) e frigorífico; temos refeições todos os dias, e até se calhar temos um seguro de saúde que nos permite o acesso a hospitais onde não nos matem com a «cura». Tudo isto pelo valor definido como «limiar de pobreza». O que temos também é um enorme risco constante: qualquer despesa extraordinária remete-nos imediatamente para as maiores dificuldades. Um frigorífico que se avaria é uma catástrofe; se o carro pifar, significa meses e meses sem dinheiro para o arranjar; férias é para esquecer, claro, e os Natais ainda existem porque felizmente por 1 Euro compram-se prendas nas lojas dos chineses — de onde, aliás, provém toda a nossa roupa. Estraga-se depressa mas é barata. Não vamos ao cinema ou a concertos, e um livro é lido e relido centenas de vezes porque não há dinheiro para comprar mais; a música, essa, pirateia-se da Internet. Temos educação, cultura, e estamos informados sobre os nossos deveres e direitos enquanto cidadãos. Pagamos proporcionalmente mais impostos do que qualquer outra classe; e como raramente temos dinheiro para os pagar a tempo e horas, significa as inevitáveis multas, processos em tribunal, penhoras, e consequente perda de rendimentos. Perder o emprego significa deixar de comer e de ter um sítio onde morar — não apenas «um contratempo» em que se fica em casa sem fazer nada às custas do Estado.

Esta é a imagem da «falsa pobreza» — pois externamente não se distingue da chamada classe média — mas mesmo assim é uma classe altamente privilegiada. Em 2005, haviam dois milhões de portugueses que nem isto tinham — e a situação desde então só piorou. E isto tudo porquê? Porque nos últimos vinte anos este país pura e simplesmente não conseguiu suportar os custos dos novos-ricos. À medida que mais e mais pessoas resvalavam para as margens da pobreza, mais se tornou necessário à classe no poder assegurar os seus privilégios. Este grupo cresceu — cada vez tem mais gente que sabe perfeitamente que abandonar o seu «poleiro» é ser lançado nas margens do limiar da pobreza — com a consequente e inevitável redução de rendimentos por parte da maioria dos portugueses. Alguém tem de pagar a factura do crescimento do número de chicos-espertos, e não serão eles de certeza a fazê-lo: quanto mais elevada for a sua posição na hierarquia de poder, menos impostos pagarão! E acreditem que é facílimo fazê-lo de forma legal — basta ter dinheiro suficiente para ter contabilistas a fazer magia com os números, e advogados para os defenderem em tribunal. Quem é pobre não tem acesso a nada disto.

Ora isto para mim é literalmente um travesti de uma sociedade. É verdade que existe igualdade de oportunidades neste país: qualquer pessoa pode tornar-se um chico-esperto, independentemente da sua raça, religião, educação, ou militância política (desde que seja nos partidos certos…). Qualquer pessoa. Escuso de relembrar que um filho de um gasolineiro de uma terra perdida no Algarve é actualmente Presidente da República — o American Dream não existe nos EUA, onde tal coisa jamais seria possível, mas existe por cá. A diferença é que nos EUA (como em qualquer país civilizado…) o American Dream conquista-se primeiro com trabalho árduo, e depois, eventualmente, com alguma corrupção e tráfego de influências. Mas é o trabalho árduo que vai fazer a diferença. Por cá somos muito mais sofisticados e avançados: passamos logo para a fase do tráfego de influências sem passar pela do trabalho. Aliás, o trabalho é muito pouco gratificante: quem trabalha tem de pagar impostos, e lá se vai tudo o que se ganhou a trabalhar. O Prof. Medina Carreira acredita que em cinquenta anos se consiga «endireitar» o país, desde que se faça um esforço aqui e agora. Acredito nele: é mais ou menos o tempo que irei precisar, com os frutos do meu trabalho, a pagar as dívidas que tenho pelo facto de ser parvo, trabalhador e honesto.

Não admira, pois, que a via do chico-esperto seja tão apelativa. É tão fácil! Não é preciso absolutamente mais nada do que não ter escrúpulos e pensar única e exclusivamente no benefício pessoal. Não requer qualificações, esforço, ou qualquer educação. Pelo contrário, requer apenas que se descartem todos os valores que tornam uma sociedade funcional: ao fazê-lo, garante-se a prosperidade, o conforto, e, para quem a queira, a fama e a glória. Claro que se vão «ganhar» outras coisas também — por exemplo, o constante pânico de se ser «apanhado» e tornado em bode expiatório — mas para a maioria dos chico-espertos, compensa.

Não é com coisas externas que se mudam as mentes das pessoas 🙂 Elas têm de querer mudar por si próprias, e isso só o farão quando tudo colapsar à sua volta. E isso é muito difícil de acontecer. Basta olhar para os países ditatoriais da África Central, para a Arábia Saudita, para a Coreia do Norte, entre tantos outros maus exemplos, para ver durante quantas gerações se consegue oprimir o povo de tal forma que este já nem tem força para protestar e aceita tudo de bom grado. Os nossos «brandos costumes» farão com que iremos apenas lamentarmo-nos na privacidade das nossas casas. Não votamos porque não vale a pena. Não reclamamos porque não vale a pena. Choramos pela nossa situação miserável, mas não fazemos nada para a mudar. Olhamos para os outros que ainda estão piores do que nós e consolamo-nos porque afinal de contas ainda temos muita sorte. E entretanto ficamos colados à TV (porque é o único entretenimento estupidificante quase de borla), à garrafa de vinho (porque também é barata), e acendemos umas velinhas à Nª Srª de Fátima e ao Stº António, e jogamos no Euromilhões à espera de milagres.

E entretanto dizemos aos nossos filhotes para não serem totós como os pais, e que se inscrevam na primeira oportunidade no partido político mais próximo de casa. Dizemos-lhes que a vida é dura, e que quanto mais cedo descartarem os valores tradicionais, mais depressa se irão «safar». A maioria da juventude nem precisa de encorajamento: já são educados para fazerem o mínimo de esforço possível nas aulas, porque não têm qualquer consequência (lembram-se dos «100% de aprovações» exigido pela Srª (ex-)Ministra?), e aprendem rapidamente como fazer o mesmo na vida «profissional» (no sentido de ter um emprego, não um trabalho) — ou ficarem agarrados à TV sem hipóteses de saír do ciclo vicioso, da espiral destrutiva em que os pais se encontram. Os filhos de chicos-espertos, esses, aprendem muito melhor: se não forem parvos, começarão a sua «carreira» de chicos-espertos ainda mais cedo que os pais, de forma a se estabelecerem no círculo de poder o mais depressa que conseguirem, enriquecendo a um ritmo ainda mais alucinante que o da geração actual…

Isto é mesmo muito, muito difícil de contornar. José Sócrates ficará para a história como o exemplo do apogeu do chico-espertismo. Mas Passos Coelho não lhe ficará muito atrás; relembro que após a saída de Santana Lopes os media diziam que «ao menos Sócrates é um homem honesto» e essa foi a imagem que passou. Eu sei que sou esquisito, mas pelo menos o Santana Lopes nunca se fez passar pelo que não era — «toda a gente» sabia perfeitamente o que ele era ou deixava de ser. O que ninguém se recorda é que dos 9000 (!) pontos que tinha para implementar no seu governo durante o seu mandato conseguiu implentar mais de 4000 em apenas 9 meses, antes de ser corrido a pontapé; o seu «erro» principal foi ameaçar a banca de que lhes ia cobrar 12% de impostos. Não o levaram a sério até que saíu uma portaria a fixar inicialmente o valor de 9% (entretanto revogada), com promessa de continuar o processo. Foi demais para os poderes instituídos, que pura e simplesmente o correram a pontapé.

Sócrates também foi corrido a pontapé pela banca — não foi pelas manifs do 12 de Março e constantes greves, que, aliás, graças ao facto de não existir imprensa independente em Portugal (excepto talvez o «Correio da Manhã», que, no entanto, não goza de muita credibilidade, o que em certa medida é pena…), puderam ser «abafadas» com facilidade pela máquina bem oleada do Gabinete de Propaganda do PS. Não, o problema foi que o «arranjinho» entre o Estado português e a banca estava na iminência de deixar de ser tão chorudamente lucrativa. Emitindo dívida pública a taxas de juro cada vez superiores, os chicos-espertos da banca viram aqui um negócio fabuloso: compravam dinheiro a 1% ao BCE com que investiam em dívida pública paga a 6 ou 7% (agora a 10%…). O problema foi quando as agências de rating — essas entidades privadas, com interesses financeiros em todo o lado, que manipulam os valores de forma a garantirem-se a si mesmos as melhores rentabilidades — baixaram o rating da banca portuguesa (pois até à data os ratings só eram baixados ao Estado português=, e estes passaram a só poder financiar-se a 3% junto do BCE, ou seja, reduzindo a sua margem de lucro a metade. No dia seguinte, Sócrates demite-se e pede ajuda ao FMI. Coincidência? Naaaah…

Enfim. Num país de chicos-espertos, cada qual salva-se como puder. Mas o legado dos chicos-espertos vai levar pelo menos uma geração a reverter, e a crise de valores vai ser muito mais dramática do que a crise financeira ou política, e muito mais difícil de resolver. Nos próximos anos, os chicos-espertos vão querer um retorno a uma economia despesista que os favoreça — e querem esse retorno o mais depressa possível. Logo, para já, estarão alinhados os interesses nacionais. Mas uma marca do chico-espertismo é terem pouca paciência para esperar. Vão querer muito dinheiro, e querem-no já — não daqui a 5, 10 ou 20 anos. E este país esgotou a capacidade de os sustentar. Se a União Europeia nos correr a pontapé antes disso, vamos passar a ser uma espécie de Angola, mas sem o dinheiro do petróleo para nos sustentar (a não ser que o Joe Berardo lá encontre alguma coisa que valha nos seus terrenos… na Ota. Digo, Alcobaça. É mesmo ao lado. Coincidência?)

A alternativa para mim é não confiar mais nos chicos-espertos. Por muito me custe admitir, esta classe política não presta para governar este país. Precisamos de uma classe política que não seja de chicos-espertos — e isso não existe em Portugal. Teremos de a ir buscar lá fora. E isso significa muitos anos de FMI seguidos depois de inspectores (alemães, de preferência…) que se mantenham por cá a controlar o que o Governo anda a fazer. A ideia é tornar a vida dos chicos-espertos tão difícil que estes se reduzam à insignificância — emigrando para o Brasil, por exemplo, que é o destino privilegiado dos chicos-espertos que fogem de cá (coitados dos brasileiros, que não os merecem… e que já têm a sua dose!).

Mas para já não sei se os actuais tipos do FMI têm o perfil correcto. Espero estar enganado, mas achei-os demasiado bananas. Dizem-me que não, que eles estão habituados a lidar com países com uma mentalidade de Terceiro Mundo, e que sabem perfeitamente como resolver estas situações: a maioria dos países que pede ajuda ao FMI está na bancarrota porque sucumbiu ao poder dos chicos-espertos. Espero que sim, mas também me pergunto a mim mesmo se estão a contar com a vastíssima experiência dos chicos-espertos nacionais. É que não são propriamente amadores: andam por cá há quase 900 anos…

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10 pensamentos sobre “O país dos chicos-espertos

  1. Ola lms, sou o netshark, antigo cliente da esoterica, que volta e meia lê o teu blog. 🙂
    A tua opinião vem basicamente de encontro aquilo que acredito.
    Estes políticos e os que por eles são alimentados e os alimentam (boys, interesses de grandes grupos económicos, etc) habituaram-se a um estilo de vida, que foi proporcionado pela entrada de Portugal na então CEE.
    Desde cavaco ate hoje, deixaram rombos um pouco por toda a economia. A solução para os problemas por eles criados é simples, concentrar o dominar a economia na esfera de influencia deles e aumentar as receitas, para financiar este estilo de vida.
    Estamos a chegar a um ponto que o estado pode estar a violar a própria constituição, aplicando impostos (e impostos de impostos) em excesso.
    Pessoalmente para mim, como portuense, vi ainda estudante, nos anos 90, a ser destruído grande parte do tecido empresarial nortenho, para concentração de esforços na economia de Lisboa. Alias, o próprio Cavaco, disse que essa era a única região que teria hipótese de ser competitiva com a Europa. Afinal parece que nem essa.
    Chegados à década passada, o pessoal (que podia) daqui e de outras regiões optou por duas hipóteses: foi alimentar a maquina da capital que agora deu o “tilt” ou emigrou, primeiro, timidamente, agora fortemente (a chamada geração X).
    No meio disto tudo, fiquei impressionado como há gente que, qual Alice, parecia viver num pais das maravilhas. Ficaram muito indignados por não terem o seu campeonato do mundo de futebol, têm o descaramento de pedir ao estado uma indemnização pelo TGV não avançar, quando deveriam estar presos pela sua responsabilidade na crise, insistem em projectos faraónicos de utilidade duvidosa para o pais…etc,
    Enfim, é caso para perguntar, não vivemos todos no mesmo pais? Ou existem dois países, os dos boys que gastam, e dos sacrificados que pagam?

    Um Abraço,

    Alex

    • Oi Alex 🙂 É sempre fixe ver gente «antiga» por estas bandas…

      De «chico-esperto» a «boy» não vai um grande passo, mas há muitos mais «chicos-espertos» do que «boys»: muitos preferem ser apolíticos para se poderem dar com todos os partidos que estiverem no poder, mas esta estratégia dava melhores resultados há 10, 15 anos. Hoje em dia há um gentleman’s agreement entre os partidos no poder. Por exemplo, um administrador da CGD não é «despedido» quando há rotatividade democrática: é apenas passado para outro gabinete mais pequenito, continua a ter as mesmas regalias, o mesmo salário, mas não tem função atribuída. Fica «a repousar» durante 4 ou 5 ou 6 anos até o seu partido voltar ao poder. É por isso que a CGD precisa de ter aquele edifício gigantesco no centro de Lisboa, para acomodar «administradores adormecidos». Isto não é treta, pode-se ir lá e ver… espero que alguém do FMI faça o mesmo. E como estes existirão de certeza muitos mais.

      Pior que os «boys» é este tipo de acordos entre todos os políticos, seja de que partido forem. Seria como pensar que os dirigentes dos maiores clubes de futebol se juntassem todos a uma mesa e combinassem quais seriam os resultados a garantir nos próximos jogos para ganharem as apostas todas no Bet’n’Win. Parece uma loucura…? Bem, foi precisamente o que aconteceu nos campeonatos de sumo japoneses…

      Não acho que existam dois países. Há um país único, cujos cidadãos existem com apenas um propósito: serem sangrados até (literalmente) à morte pelos chicos-espertos. A carneirada lá se vai reproduzindo e sustentando a camada de chicos-espertos. Talvez o problema em períodos de crise profunda é que o número de chicos-espertos aumenta, mas a quantidade de dinheiro disponível para todos não. Isso cria pelo menos temporariamente a necessidade de melhorar a economia para benefício dos chicos-espertos, e, indirectamente, também do resto da população. Sem outra fonte de rendimento fácil (tipo as especiarias na Índia, a prata e ouro do Brasil, ou os diamantes e petróleo que nunca chegámos a explorar em Angola…) só há a população para extorquir dinheiro, e essa infelizmente não é a fonte mais rentável: o sistema funciona melhor quando têm, de facto, algum dinheiro para extorquir.

      • Em relação ao teu primeiro paragrafo o que falas é bem verdade. Na Portugal Telecom também há licenciados em filosofia e historia, quais mobílias da casa, que ninguém sabem muito bem o que la andam a fazer (fazem lembrar um certo Rui Pedro Soares, com as suas golden shares de bolso).
        Relativamente ao segundo, houve uma deputada do BE que publicou um livro recentemente, intitulado “Os donos de Portugal”, que aborda a influencia das famílias ricas históricas na politica e economia Portuguesas. Ainda não li, mas as jogadas de bastidores devem andar por lá descritas. Sem falarmos na maçonaria, que dizem ser neutral e apolitica, mas que anda sempre de mãos dadas com as personalidades politicas mais influentes.
        Em relação ao 3º, acho sinceramente que não precisamos desta corja. Podíamos bem por os administradores do FMI, uma meia dúzia de Strauss-Kahns a governar o pais nos próximos 30 anos. Até podiam receber salários mais elevados, mas no final, até ficávamos mais bem servidos.

  2. Não é certo que todos os partidos sejam iguais — ainda só experimentámos três. E também não é substituindo o D. Sebastião pelo FMI que conseguiremos mudar alguma coisa.

    • E nunca iremos experimentar nenhum dos outros. Mas isso não invalida o teu comentário: os partidos pequenos sem lobbies estabelecidos não são assim tão maus como isso. Bem, alguns são, mas nem todos. Mas é irrelevante: nunca irão atrair votos, isso pura e simplesmente não acontecerá. Mesmo que um dia um desses partidos seja uma excepção (tipo Bloco de Esquerda quando arrancou em força, com dinheiro para campanhas que nunca se saberá de onde veio, e forte apoio mediático, que esse sim, sabe-se de onde veio), quando chega ao poder… lobby-iza-se a uma velocidade espectacular, e depois, sendo «um partido igual aos outros», perde votos, como se viu nas últimas eleições…

      D. Sebastião!? Qual D. Sebastião? Eu quero é o Marquês de Pombal, esse sim, um ditador temível, de punho de aço, que meteu ordem na confusão… o D. Sebastião era um totó sonhador 🙂 Na ausência de ditadores competentes que estejam disponíveis, fico-me pelo FMI e por um destacamento de inspectores alemães…

  3. No entanto Luis, continuas a cometer o mesmo erro dos sebastianistas que é estar à espera de um salvador (seja ele um puto imberbe, sifilitico ou um proto-ditador) quando a solução passa não por salvadores ou ditadores mas pela responsabilização dos cidadãos pelas decisões que tomam e pelo aumento da participação dos mesmos na vida pública

    • Quem é que responsabiliza os cidadãos pelas decisões que tomam? Quem é que incentiva o aumento da participação dos mesmos na vida pública?

      Concordo que a solução passe exactamente por aí. Aliás, vou-me citar:
      «Não é com coisas externas que se mudam as mentes das pessoas Elas têm de querer mudar por si próprias.»

      Ora como isso não acontece de livre e espontânea vontade, é preciso essa tal «solução». O que vimos nos últimos 15, 20 anos foi o resultado de haver um conjunto de chicos-espertos no poder (e nos media) a darem o exemplo a seguir, com os seus valores deturpados. Como é que se desfaz isso? Qual é a solução?

  4. Bem meu caro, capacidade de reflexão e sentido vritico de exclência não lhe faltam, mas, gostava de lhe vêr um artigo com a mesmo pormenor a evidênciar soluções.
    Qaunto ao artigo obviamente que ninguem de bom senso poderá discordar substancialmente, porem ele não deixa de ser um canto por muitos repetido.
    Soluções meu caro, soluções no quadro da democracia com o povo e os politicos que temos, é são a verdadeira caixa de pandora que continua por abrir.

    • As soluções estão entre linhas. 🙂 Deliberadamente: porque é bem mais fácil apontar porque é que as coisas não correm bem do que aceitar as soluções. E também bem sei que o texto é longo e cansativo, o que tende a fazer que não se percebam bem as soluções (mas os problemas saltam à vista).

      Problema: durante 35 anos convencemos os portugueses de que o chico-espertismo — e não o trabalho — conduz a resultados. Esta tese até é fácil de comprovar na prática: elegemos chicos-espertos para os mais altos cargos políticos, e temos chicos-espertos à frente das maiores empresas (e clubes de futebol!). Portanto, ser-se chico-esperto é algo de desejável. Mas infelizmente conduziu à situação actual…
      Solução: criar uma campanha educativa nacional — destinada principalmente a adultos — para mostrar os malefícios do chico-espertismo. O objectivo primário é de identificar chicos-espertos e fazer reconhecer aos eleitores que eleger chicos-espertos não é uma boa ideia (a não ser, claro, que apoiemos os valores dos chicos-espertos… e então as consequências são termos o país que temos).
      Mas esta solução leva tempo (como referi no texto). Pelo menos uma geração. Hoje em dia, as criancinhas saem do liceu já a pensar de como vão enganar o resto da população para trabalhar o menos possível e ganhar o máximo que conseguirem sem esforço — pois é esse o exemplo que têm dos políticos, dos empresários, e possivelmente dos pais também. Reverter isto leva muito, muito tempo pela via educativa.
      O que se pode fazer até lá?
      Bem, há estratégias do tipo shock and awe. Imagine-se uma legislação que obrigasse a publicar os curricula vitae de todos os políticos e de todos os presidentes de conselhos de administração de sociedades anónimas online. Isto não é tão “horrível” como possa parecer: por exemplo, no meio académico, os cientistas são obrigados a publicarem, com bastante detalhe, os seus próprios curricula, para efeitos de avaliação da sua carreira por parte dos seus pares. Ninguém é obrigado a seguir uma carreira académica — mas se o fizer, terá de se sujeitar ao escrutínio público da sua própria carreira.
      Se existissem sites públicos — privados há muitos, mas a sua validação é sempre dúbia — onde cada deputado, cada ministro, tivesse listado que “tem apenas a 4ª classe, nunca trabalhou na vida, é actualmente vogal do conselho de administração de oito empresas, ganha 50.000 por mês e aos 45 anos já tem três reformas”, isso permitiria, pelo menos, a serem publicamente “julgados” por quem os elege. Da mesma forma, as sociedades anónimas (ao contrário das sociedades por quotas) são obrigadas a publicar os seus resultados financeiros (mas é difícil de saber onde estão), mas não é fácil encontrar a lista dos seus corpos gerentes e os respectivos curricula. Nos Estados Unidos até o equivalente das sociedades por quotas tem de publicar os resultados financeiros.
      Acabamos por saber destas coisas através dos media — a legislação que obriga as sociedades anónimas a publicar os salários dos seus quadros superiores já foi uma excelente ajuda nesse sentido — mas ainda não há uma visão global da classe que está no poder (seja este poder público ou privado). Noutros países, por exemplo, quem é eleito para cargos políticos tem de declarar publicamente os seus interesses privados. Toda essa informação tem de estar disponível.
      Conhecendo a perversidade nacional, provavelmente teríamos ainda de publicar os cargos desempenhados pelos cônjuges dos políticos… e dos filhos, sobrinhos, afilhados, pais, sogros… mas pode-se começar por algum lado.
      É certo que alguns políticos honestos (devem existir algures…) usariam isto em seu benefício: “Tenho a 4ª classe, trabalho como estivador, e a minha mulher lava escadas, mas tenho tanto direito a representar os portugueses e a ser eleito como qualquer outra pessoa.” É verdade! Cavaco Silva é filho de um gasolineiro de Boliqueime, e isso não o impediu de ser PM durante 10 anos e PR durante outros tantos. O actual PM consta que ainda tem a hipoteca a pagar do apartamento onde reside em Massamá e isso não é “vergonha” (apesar de ter sido vogal de não sei quantos conselhos de administração…). Mas observar Francisco Louçã, economista, professor universitário, que ganha a vida a publicar livros de economia (em inglês…) que são referência obrigatória (lá fora, não cá…) e a dar conferências, estar depois a defender os pobrezinhos é, no fundo, ridículo.
      Será que isto chega? Duvido. Mas o problema actual é que nem sequer achamos que estamos a eleger (ou a ser dirigidos) por chicos-espertos. Nem achamos que isso seja sequer mau!
      Para o poder político há depois formas de restringir a forma como afectam o país. A primeira medida é de estabelecer a filosofia de “servir o país” e não “ser servido pelo país”. Isso significa reduzir-lhes as benesses — especialmente depois de exercerem um cargo público. Se fosse possível de proibir legalmente desempenhar um cargo de direcção em qualquer empresa 5 ou 10 anos depois de exercer um mandato; se só tivessem direito à reforma aos 67 anos; se fossem obrigados a exibir publicamente o seu IRS durante o período em que exercem um cargo público e 5-10 anos depois; se se acabasse com a imunidade parlamentar (já se começa a fazer algo nesse sentido), talvez isso “arrefecesse” o desejo dos chicos-espertos de irem para a política. Infelizmente em Portugal não é permitido restringir a liberdade de profissão sem uma compensação (ou seja, se fossem proibidos de exercer um cargo de direcção durante 5-10 anos, teria de ser o Estado a pagar-lhes uma compensação — o que é má ideia). O resto é mais plausível: há a noção de “figura pública” que tem regras próprias no enquadramento da nossa legislação, e isso poderia ser expandido: quem quer ser uma “figura pública”, terá de se sujeitar a menor privacidade (não se pode ser famoso e anónimo ao mesmo tempo), e isso tem enquadramento jurídico válido.
      O argumento contra estas medidas é que, se elas fossem implementadas, ninguém queria ser político, pelo que a qualidade dos políticos ainda diminuiria mais. Além disso, «estão todos no mesmo barco», e, nesse sentido, defendem-se mutuamente: é muito difícil conseguir que os deputados votem em leis que os prejudiquem a todos!
      Imagine-se também o modelo da Suíça aplicado a Portugal. A Suíça não é um bom exemplo, porque é uma democracia quase-directa, o que leva a um conservadorismo de direita excessivo. Mas tem algumas características engraçadas. Uma delas é que qualquer legislação aprovada pode ser revertida pela população, desde que se consigam 100.000 assinaturas. Isto faz com que os partidos sejam um pouco populistas — ou seja, só permite passar legislação que faça a maioria dos suíços contentes — ou, se tiverem de passar medidas demasiado impopulares, têm de as explicar muito bem. Nós temos apenas o método inverso: se um número suficiente de cidadãos se juntar, podem constituir uma iniciativa legislativa de cidadãos, que tem de ser (pelo menos) discutida na AR. Infelizmente, até hoje, só se conseguiu fazer isto uma vez (relativamente a confusões na Ordem dos Arquitectos); a segunda iniciativa legislativa de cidadãos a ter «pés para andar» tem por objectivo a abolição do acordo ortográfico. Infelizmente são colocados tantos entraves burocráticos que tem sido difícil reunir todas as assinaturas necessárias. Uma medida concreta é, pois, agilizar a forma como as ILCs — e o método suíço de permitir à população «vetar» legislação que vai contra os interesses dos eleitores — funcionam.
      Finalmente, deixaria ainda à consideração mais algumas ideias… todas elas deram resultados nos países em que foram aprovadas, da forma abaixo expressa ou de outras formas semelhantes:
      – responsabilizar criminalmente os partidos que aprovam um projecto de governo diferente do projecto apresentado em campanha. Somos o único país que permite a um partido propôr um projecto em campanha, mas aprovar em AR um completamente diferente
      – permitir a população, através de ILC, substituir deputados (esta seria engraçada!) ou mesmo governantes. Isso obrigava-os a terem mais cuidado com o que andavam a fazer (até porque os portugueses são imprevisíveis nas coisas que por vezes aprovam!)
      – institucionalizar o lobby mas obrigando à divulgação dos dinheiros recebidos para votar de determinada forma. Este é basicamente o modelo americano: praticamente todos os representantes são comprados pelos vários lobbies, mas sabe-se exactamente quem é que os comprou e por quanto. Na altura de os re-eleger, o público sabe perfeitamente quem é que está por trás deles. Pelo menos elimina-se a hipocrisia! O modelo actual «proibe» que empresas financiem partidos políticos, mas (penso) nem sequer exige que os partidos apresentem listas dos seus apoiantes financeiros (excepto à Comissão Nacional de Eleições e ao Tribunal de Contas). Claro que isto se teria de alargar a todo o tipo de coisas colocadas em nome dos governantes e deputados e respectivos familiares próximos — com o apoio dos notários e do IMTT (ex-DGV) pelo menos controlar-se-iam casas e carros publicamente, com o apoio de galerias de arte e joalheiros podia-se também apanhar bens de luxo. Neste país, as Finanças «investigam» quem receba transferências bancárias «de origem incomum» em montantes superiores a €10.000 (salvo erro). Para os políticos e governantes, seria obrigatório esses montantes serem públicos em todas as suas contas e dos seus familiares mais próximos
      … ou seja, em resumo, tudo o que fossem medidas de transparência ajudariam, em muito, a que a população soubesse perfeitamente o tipo de classe governante que tem. E significaria também que qualquer pessoa que visse a política como uma forma de trabalhar pouco sem qualquer qualificação e ganhar muito à custa disso pensasse duas vezes. Felizmente para nós, apenas metade da classe política pensa desta forma (infelizmente são também os que estão mais expostos publicamente); quando se começa a descer nas hierarquias partidárias e a chegar a humildes sub-secretários e sub-directores-gerais, começamos a apanhar pessoas esforçadas, honestas, formadas e inteligentes que se afastam do chico-espertismo, trabalham 16 horas por dia, 6 ou 7 dias por semana, e que colocam a «máquina» a funcionar — e que nem sequer têm a expectativa de um «obrigado». Alguns, claro, ao fim de 20 ou 30 anos poderão ascender nessa hierarquia, mas a maioria não tem sequer essa expectativa: faz apenas o seu trabalho e mais nada. E ainda bem. Estaríamos bem pior se todos os políticos fossem chicos-espertos…
      Talvez o maior problema esteja em «expôr» os grandes grupos empresariais que manipulam a classe política a seu bel-prazer, porque têm muitos mais mecanismos subversivos para não estarem sob escrutínio. Mesmo assim, a publicação (livremente acessível) dos dados financeiros das sociedades anónimas e dos curricula dos seus directores já ajudaria um pouco.
      O resto, infelizmente, é muito mais difícil de transformar a curto prazo. Um problema complicado de resolver é o de vivermos num país comparativamente pequeno, onde os principais sectores de actividade comercial estão em cartéis e oligopólios. Só há um mercado verdadeiramente livre quando existe multiplicidade de agentes económicos: por exemplo, na hotelaria e restauração (por isso é que o nosso turismo é, comparativamente, tão bom), no retalho, no comércio tradicional, nos serviços (desde as lavandarias aos canalizadores…). Quando começamos a chegar a áreas como a energia, a banca, as telecomunicações, os media e a indústria de entretenimento, os hipermercados, o cimento, ou mesmo a construção civil, deparamo-nos com oligopólios, onde tudo é «combinado» por um grupo muito pequeno de agentes que se apoiam mutuamente, e não há espaço para novos agentes com ideias irreverentes e modelos de negócio mais interessantes e mais de acordo com as reais necessidades (e capacidades financeiras!) dos consumidores. Nos Estados Unidos, qualquer pessoa com US$15.000 pode abrir um banco. Isso tem desvantagens, mas também significa que não há barreira para entrar — e que um banco pequeno, com aspirações, pode afastar-se do «modelo» dos gigantes financeiros e prestar serviços alternativos. Da mesma forma, ainda existe muita imprensa livre — enquanto que por cá, como gosto sempre de repetir, o último jornal independente é O Diabo, cuja credibilidade é muito baixa. Isto não são coisas que se possa mudar por decreto — são consequências inevitáveis do facto de sermos, na realidade, um país muito pequeno. Para isto não tenho solução.

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