Os números da manifestação de 12 de Março

A primeira coisa que fiz ao chegar a casa, adoentado e cansado, depois de voltar da manifestação foi procurar nos vários sites dos media quanta gente se calculava que tinha aparecido.

Embora as notícias agora digam «duzentas mil pessoas» (baseado nos números divulgados pela organização), alguns sites sugeriram que a Polícia tivesse calculado apenas umas 50 mil pessoas (agora já dizendo que esse número não é oficial e admitem que possam nem sequer divulgar um número oficial).

Manifestação «Geração À Rasca», Lisboa, 12 de Março de 2011

«Manifestação Geração À Rasca», Lisboa, 12 de Março de 2011 (Fotografia: Homens da Luta)

 

Escusado será dizer que 50 mil pessoas é ridículo — só alguém que não estivesse lá é que poderia avançar com um valor absurdo desses. Portanto fui ao Google Maps e comecei a fazer medições. O percurso do Marquês de Pombal (e não apenas a partir do Cinema S. Jorge) até ao Rossio são 1,7 km. A largura da Av. da Liberdade são 74 metros. O Rossio é mais largo, assim como os Restauradores, mas vou ser simpático e até descontar alguns metros: na Av. da Liberdade andava-se à vontade nos passeios laterais, só a faixa central e a maior parte das faixas laterais é que estavam apinhadas de pessoas. Nos Restauradores, pelo que consegui ver — era mesmo muito difícil — estaria só a ser usada a faixa da direita de quem desce. O Rossio, esse, que é bem mais largo, estava apinhado de gente. Por isso, vou considerar uma largura média de 50 metros, e descontar a Rua do Carmo toda e o Largo de Camões, que não vi (a idade não perdoa e ainda tinha de ir a pé apanhar o combóio no Cais de Sodré…), mas que amigos meus disseram estar também cheio de gente (o Jel e o Falâncio ficaram-se pelo Rossio, e o grupinho com quem fui achou por bem também ficar por lá 🙂 ). Deixando, pois, esta gente toda de fora para compensar eventuais sobre-estimações no percurso principal, temos mais ou menos uns 100.000 m2 completamente apinhados de gente (com a mesma densidade das festas dos Santos Populares). Isto é mais ou menos 6 a 8 vezes a área do Estádio da Luz, que leva umas 60 e tal mil pessoas sentadas, e talvez outras tantas se pudessem estar de pé no relvado. Mas usar isto como referência parece-me exagerado e pouco rigoroso.

Felizmente este problema de calcular a quantidade de pessoas que se manifestam num espaço é obviamente frequente, e, como tal, tem uma solução (pelo menos aproximada, claro). Aparentemente, nos finais dos anos 1960, um professor de jornalismo da Universidade da California em Berkeley chamado Herbert Jacobs criou um método para estimar a quantidade de pessoas em espaços amplos, dada a sua densidade e a área do espaço. Apesar deste método não ser muito rigoroso, é excelente para contestar contagens «à balda» — pode-se definir um intervalo razoável para o número de pessoas que se consegue, efectivamente, colocar num espaço; e, inversamente, refutar com um certo grau de certeza, um número que não seja minimamente realista.

Então vamos a uns cálculos simples. O Prof. Jacobs estima que, em média, uma pessoa ocupe cerca de 0,41 m2 se a densidade for grande, ou apenas 0,23 m2 se for uma massa de gente completamente apertada e mal podendo respirar — tipo Metro à hora de ponta. Ou as festas dos Santos Populares. Ou, bem, a manifestação de hoje. Mas vou ser simpático e assumir que lá porque durante as três horas em que andei a descer a Av. da Liberdade tipo sardinha em lata, e que a densidade era semelhante até ao limite do meu campo de visão, esta não era constante em todo o percurso; já mal se respirava na Av. da Liberdade pelas 16h quando uma das TVs mostrava um Rossio ainda vazio. Sendo assim, podíamos estimar que o número total de pessoas seria, no mínimo, umas duzentas e cinquenta mil, e no máximo umas 450 mil. Posto por outras palavras: uma notícia «oficial» da Polícia (ou do Governo…) de que seriam «apenas uns 50 mil manifestantes, no máximo talvez 80 mil» é completamente ridícula e desprovida de sentido; da mesma forma, seria ridículo assumir que por lá estivesse um milhão de pessoas. A organização calcula 200 a 300 mil pessoas; provavelmente conhecem o método do Prof. Jacobs. É um bom número.

Mas será assim um número tão correcto? Nos tempos em que os meus pais eram mais revolucionários, lembro-me de me terem levado a algumas manifestações quando era miúdo, nos tempos entre 1974 a 1976; e historicamente «toda a gente sabe» que a maior manifestação em Lisboa (e no resto do país…) foi a do 1º de Maio de 1974, com meio milhão de pessoas nas ruas.

O percurso, nesse dia, foi bem diferente. Graças aos arquivos do Pacheco Pereira, consegui descobrir este diagrama do percurso oficial. Desta vez estamos a falar de um caminho bem mais longo, segundo o Google Maps: 3,3 km (cerca do dobro da manifestação de hoje). Mas a maior parte do percurso foi feito ao longo de artérias da cidade que têm pouco mais de 10 metros de largura, excepção feita à Alameda Afonso Henriques, que tem 100 metros de largura e 650 de comprimento, e que pelas fotos da altura, estava repleta de gente — assim como o Estádio 1º de Maio, que assim por alto terá uns 220 x 175m.

Somando isto tudo, temos:

65.000 m2 para a Alameda, ou cerca de 160 a 282 mil pessoas.

33.000 m2 para o percurso da Alameda ao Estádio, ou cerca de 80 a 143 mil pessoas.

Talvez uns 38.500 m2 para o Estádio (as fotos mostram tudo apinhado de gente, mesmo fora do espaço do campo propriamente dito), ou cerca de 93 a 170 mil pessoas.

Total: 333 a 595 mil pessoas. Dado que realmente as fotos da altura mostram mesmo uma enorme densidade de população, é pois bem possível aceitar este número das 500 mil como válido.

Bom… com uma diferença. Supostamente toda a gente se reuniu primeiro na Alameda, e depois foi a pé para o Estádio 1º de Maio. É certo que de certeza que apanharam gente pelo caminho, mas não é garantido que todo o percurso tenha sempre estado completamente cheio durante todo o tempo (incluindo os espaços da Alameda e do Estádio). O mais provável é que tenha começado a «transbordar» da Alameda para a Av. Almirante Reis, «escoando» aos poucos a Alameda à medida que as pessoas se iam dirigindo para o Estádio, até que no final restariam poucas pessoas nas ruas e a maioria estaria no Estádio. Como se pode ver, nunca teria sido possível levar todas as pessoas da Alameda para o Estádio; metade delas estaria a tentar entrar no recinto e a entupir as ruas todas em redor, especialmente se ao longo das ruas tivessem «apanhado» as pessoas que já não cabiam na Alameda. Ou seja: é mais plausível acreditar que apenas metade do «número oficial» (umas 250 mil pessoas) tenha feito essa marcha histórica, e que o resto se refira a pessoas que tenham feito parte do percurso ou que tenham estado noutras áreas da cidade (aparentemente, algumas estiveram no Rossio, que tem 73 x 188 m, ou seja, podia albergar umas 60.000 pessoas; e se calhar houve outras manifestações no resto da cidade, totalizando as 250.000 que faltam na contagem).

Bem. Vejamos a diferença para o dia 12 de Março de 2011. Primeiro de tudo, não houve uma deslocação de um ponto para o outro. Um dos pontos de encontro anunciado tinha sido de facto o espaço à frente do Cinema S. Jorge, mas pelas 15h15 já estava o Marquês de Pombal todo cheio, que tem um raio de 90m (e, logo, podia albergar umas 60 mil pessoas que não estavam ainda muito «ensardinhadas» em lata). Este grupo já estava a descer a Av. da Liberdade, onde encontraram o grupo que aguardava no Cinema S. Jorge; por sua vez, existiam outros grupos mais abaixo também. O que me apercebi é que pelas 16h já estava a Avenida da Liberdade toda cheia — descontando já os passeios laterais que tinham pouca gente, isto seriam 250 mil pessoas — mas as imagens da TV mostram que o Rossio tinha pouca gente (e assumo que os Restauradores também ainda estivessem vazios). Estas 250 mil pessoas seguiram para o Rossio — mas não esvaziaram a Av. da Liberdade. Ainda havia 60 mil no Marquês. E muitas mais que se foram juntando ao longo do percurso. Na verdade, as 250 mil pessoas que estavam à minha frente e que chegaram ao Rossio… começaram a subir a Rua do Carmo e foram para o Largo de Camões (pois o Rossio, como vimos, «só» leva 60 mil pessoas). Olhando para trás quando estava no Rossio… a Av. da Liberdade continuava toda cheia. Até ao topo. Não conseguia ver o Marquês de Pombal, por isso só posso assumir que estivessem outras 250 mil pessoas atrás de mim também!

É claro que tenho de assumir que muita gente fez várias vezes o percurso, por isso os cálculos não estarão totalmente correctos. Não é de todo impossível, por exemplo, que das 250 mil pessoas à minha frente, umas 60 mil tenham ficado no Rossio, outras tantas subiram o Chiado, e o resto tenha voltado para trás para fazer o percurso de novo, sendo, pois, «contabilizadas» de novo; até podem ter feito isto várias vezes (de Metro, pois na Av. da Liberdade não se viam pessoas a subir a avenida, excepto alguns turistas). Seja como for, no mínimo dos mínimos, estiveram de certeza 200 a 250 mil pessoas na Av. da Liberdade (já tendo em conta que na faixa central a densidade era máxima, mas que essa densidade diminuia nos passeios intercalares, até ser perto de zero nos passeios laterais), com ou sem a «batota» de voltarem para trás para parecer mais gente. No máximo, estiveram pelo menos 500 mil pessoas, mas não é impossível nem implausível acreditar que estivessem mais do que isso, especialmente se compararmos com os números de 1974, nunca contestados por ninguém, que assumem, sem qualquer problema, que estiveram meio milhão de pessoas na rua — embora, como as contas mostrem, isso não tenha sido possível de conseguir no percurso «oficial».

Eu não quero ferir as susceptibilidades daqueles que acreditam mesmo que o 1º de Maio de 1974 foi a maior manifestação de sempre em Lisboa, e que teve meio milhão de manifestantes. Vou assumir esse dado como correcto e apenas dizer que hoje foram pelo menos tantas pessoas a protestar pela precariedade do emprego, e que se calhar até foram mais.

E agradeço que corrijam os meus números, se estiverem errados, mas que não se deixem iludir por números «oficiais» de 50 ou 80 mil pessoas. Não há matemática que consiga justificar números tão baixos, e lá porque este Governo acredite que pode mudar as leis da física e distorcer os parâmetros com que o universo se rege, pode-se provar matematicamente que isso não é possível 🙂

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Um pensamento sobre “Os números da manifestação de 12 de Março

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