Mensagem de Natal

Nesta época natalícia é tradicional mandarmos uma mensagem mais ou menos lamechas a desejar a todos os amigos um Feliz Natal, com muito amor, saúde, e prosperidade, no entendimento que ao fazê-lo, estamos a ser bem educados.

Resolvo, pois, ser mal educado, e deixar em vez disso uma mensagem que penso ser bem mais interessante. É retirada do livro “O Que Não Faz de Ti Um Budista” de Dzongsar Jamyang Kyentse, praticante budista e realizador de cinema, que tem sempre um tom irónico e provocador em tudo o que escreve e faz. A tradução livre é da minha autoria (só tenho a versão inglesa do livro), e qualquer gralha descuidada é da minha inteira responsabilidade. As minhas desculpas antecipadas por transcrever o excerto abaixo sem permissão explícita do autor, mas também acredito que não ficará chateado comigo 🙂

A visão é o ponto de referência último

A visão está no cerne de todas as religiões. Em conferências inter-religiosas, podemos não ter outra hipótese senão sermos diplomáticos e concordar que todas as religiões são basicamente a mesma coisa. Mas na realidade têm visões muito diferentes, e ninguém para além de você mesmo pode julgar se uma visão é melhor do que outra. Só você enquanto indivíduo, com as suas próprias capacidades mentais, gostos, emoções e educação, é que pode escolher a visão que funciona para si. Tal como num buffet abundante, a variedade de opções é que oferece algo a toda a gente. Por exemplo, a mensagem jainista sobre ahimsa é tão bela que  é de espantar como é que esta grandiosa religião não floresce como as outras religiões. E a mensagem cristã de amor e salvação trouxe paz e harmonia aos corações de milhões de pessoas.

O aspecto externo destas religiões podem parecer estranhas e ilógicas a pessoas externas às mesmas. Muitos de nós somos compreensivamente apreensivos em relação a religiões arcaicas e superstições aparentemente desprovidas de razão. Por exemplo, muitas pessoas ficam confundidas com os mantos bordeaux e cabeças rapadas dos monges budistas, porque isto parece ser irrelevante para a ciência, a economia e a vida em geral. Não posso deixar de me perguntar o que essas pessoas pensariam se forem transportadas para um mosteiro tibetano e expostas a imagens de divindades iradas e mulheres nuas em posições sexuais. Poderiam pensar que estavam a observar alguns aspectos exóticos do Kama Sutra ou ainda pior — provas conclusivas de depravação e de veneração de demónios.

Observadores externos também poderiam ficar chocados com praticantes jainistas passeando completamente nus, ou hindus venerando deuses que se parecem com vacas e macados. Alguns consideram muito difícil compreender porque é que os muçulmanos usam a sua profunda filosofia de proibição de veneração de ídolos como justificação para destruírem os ídolos sagrados de outras religiões, mas depois, em Mecca, um dos locais mais sagrados do Islão, a Ka’aba, Hajre-Aswad (a pedra negra sagrada), é um objecto físico de veneração e o local de destino anual de milhões de peregrinos muçulmanos. Para aqueles que não compreendem o cristianismo, pode ser inconcebível porque é que os cristãos não escolhem uma das histórias do apogeu da vida de Cristo em vez de escolherem o mais lúgrube episódio na cruz. Podem achar incompreensível porque é que o símbolo central, a cruz, torna o salvador aparecer tão desamparado. Mas tudo isto são aparências. Julgar ou avaliar um caminho ou religião apenas pelas suas aparências não é sábio e pode fomentar preconceitos.

Uma conduta rígida também não pode ser usada para definir uma religião. Seguir as regras não é causa para uma pessoa ser boa. Acredita-se que Hitler era vegetariano e muito cuidadoso com a sua higiene pessoal. Mas a disciplina e as roupas impressionantes não são, por si só, sagradas. E quem é que determina, afinal de contas, o que é que é «bom»? O que é saudável para uma religião é nocivo ou doentio ou apenas inconsequente para outra religião. Por exemplo, os homens sikh nunca cortam o cabelo ou a barba, enquanto que os monges nas tradições orientais e ocidentais geralmente rapam o cabelo, e os protestantes fazem o que muito bem entendem com o cabelo. Cada religião tem profundas explicações sobre os seus símbolos e práticas — porque é que não comem carne de porco ou camarões, porque é que são obrigados a barbear-se ou a nunca cortar a barba. Mas por trás dessa infinita lista de «mandamentos», cada religião deve ter a sua visão fundamental, e é essa visão que é o mais importante.

A visão é o ponto de referência final para determinar se uma acção é ou não justificável. A acção é avaliada de acordo com quão adequada é para complementar a visão de alguém. Por exemplo, se viver em Venice Beach na California, e tiver a visão de que é bom ser-se magro, a sua motivação é de perder peso, irá meditar na praia sobre quão bom é ser-se magro, e as suas acções poderão ser no sentido de evitar o consumo de hidratos de carbono. Agora imagine que é um lutador de sumo em Tokyo. A sua visão é de que é bom ser-se incrivelmente gordo, a sua motivação é de ganhar peso, e irá meditar sobre como é impossível ser-se um lutador de sumo magricelas. A sua acção será comer a maior quantidade possível de arroz e doughnuts. O acto de comer um doughnut é, portanto, bom ou mau, dependendo da sua visão. Logo, poderemos erradamente considerar alguém que se abstenha de comer carne como sendo uma pessoa compassiva, quando na realidade a sua visão é simplesmente que comer carne é mau porque aumenta o colesterol.

No fundo, ninguém pode julgar as acções de outras pessoas sem compreender completamente a sua visão.


E com isto me retiro, desejando um Feliz Natal a todos, quer estejam a celebrar o aniversário de Jesus de Nazaré, o solstício de Inverno, ou apenas a terem uma jantarada cheia de colesterol e imenso divertimento com as vossas famílias. Abraços e beijinhos a todos.

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