Política académica…

Como alguns de vocês sabem, recentemente tenho estado a voltar a estudar (sou burro, por isso achei que devia estudar mais…), e apesar de ter passado os últimos cinco anos a fazer uma série de projectos para universidades portuguesas e estrangeiras, não tinha (ainda) muita sensibilidade para o trabalho académico. Uma coisa com que se entra pouco em contacto durante a licenciatura (pelo menos foi o meu caso) é o código de conduta ética dos investigadores científicos.

Seja em que ramo do conhecimento for, é natural que os trabalhos se baseiem uns nos outros — é assim que a ciência avança! — seja refutando trabalhos anteriores, seja aproveitando as linhas de investigação desenvolvidas e apresentando uma nova visão. Neste processo é crucial garantir que seja dado crédito a quem o merece; tudo o resto é considerado plágio, e fortemente penalizado por toda a comunidade científica, sempre que alguém se apropria indevidamente de trabalho de terceiros sem lhes dar o devido crédito. Se se tratou de um lapso honesto — é publicado tanta coisa, que nem sempre é fácil de estar a par de tudo — pede-se desculpa formal, publicamente, e apresenta-se os novos créditos e referências a investigadores que já tinham trabalhado na área. Se foi uma apropriação indevida, há um ostracismo por parte da comunidade, declarando determinado investigador como sendo pouco honesto intelectualmente, e não sendo digno de ser citado ou reconhecido. Este mecanismo estranhamente funciona…

Muito do trabalho de análise das equipas que fazem a revisão científica de artigos de revistas ou de conferências gira em torno de descobrir se houve plágio ou aproveitamento indevido, e se sim, se foi deliberado ou não. No fundo, é fácil — se quem faz a revisão descobre que afinal de contas o artigo contém material de outro investigador, o autor é informado. Se for honesto, vai simplesmente agradecer a quem faz a revisão, ler o trabalho do colega, e dar-lhe o devido crédito. Se não for honesto, pura e simplesmente não é publicado. Como a atribuição de verbas e a progressão na carreira depende do nível de publicações, a maioria dos cientistas tenta manter-se o mais honesto que consegue, por interesse pessoal.

Não é “vergonha” nenhuma citar colegas e dar-lhes crédito. Não torna o trabalho “menos importante” ou “menos sigificativo” apenas porque se usam referências de terceiros que trabalharam na mesma área. Pelo contrário, há um reconhecimento de que o investigador fez um bom trabalho, leu o que devia ler sobre o assunto, e mostrou-se consciente do trabalho que tem sido desenvolvido pelos colegas, fazendo-lhes referência. É isso que se espera que aconteça.

Fora do mundo académico, não é assim. Como a esmagadora maioria dos trabalhos académicos é publicado livremente — com o entendimento de que quem usar esses trabalhos lhes deve fazer referência — é muito simples para a indústria pegar nesses trabalhos e apropriarem-se deles sem mais problemas. A indústria não está “comprometida” com este código de conduta ético, pois não necessita de se preocupar que a atribuição de verbas seja indexada à integridade ética, mas sim apenas à sua capacidade de vender ideias, produtos e serviços. Se há apropriamento indevido de material de terceiros, cabe a estes o recurso aos tribunais. São modelos diferentes de funcionamento.

Para mim isto é todo um mundo relativamente novo, e confesso a minha inocência ao aperceber-me que estes casos são mais frequentes do que pensava. Dentro do meio científico, como há uma pressão (financeira…) para os investigadores se manterem honestos, estes geralmente cumprem os códigos de conduta. Fora do meio científico, pensava que as pessoas não ligassem lá muito ao que os investigadores andam a fazer. Foram sempre para mim mundos mais ou menos distintos.

Nada como sentir na pele como é que as coisas realmente são para ficar mais sensibilizado a estes problemas 🙂

Em 2005, a minha pico-empresa de desenvolvimento de conteúdos 3D em Second Life foi abordada por uma investigadora que precisava de um modelo 3D do edifício da Ópera de Lisboa, construído em Abril de 1755 e arruinado pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. Sabíamos de antemão de que não iria haver financiamento para este trabalho, pelo que o oferecemos generosamente, na expectativa de no futuro eventualmente fazer mais coisas na área da arqueologia virtual, e acrescentar algo mais ao portfolio. O projecto foi muito bem recebido, e pouco tempo depois, tornou-se mais ousado: na área da arqueologia virtual, está fora de moda apresentar objectos arquitectónicos fora de contexto, mas a modelação 3D tradicionalmente foca-se nos elementos isolados. Criou-se então um novo projecto para recriar a totalidade da Lisboa barroca destruída em 1755, com financiamento praticamente nulo, mas constantemente à procura do mesmo, seja por entidades públicas, seja por entidades privadas.

Embora isto me passasse tudo um pouco ao lado, este projecto teve inúmeras apresentações em conferências internacionais. Com base nisto, a minha pico-empresa acabou por ganhar alguma credibilidade no meio, e foi contratada primeiro pelo King’s College London, e mais recentemente pela Universidade de Bristol, para realizar alguns projectos também na área da arqueologia virtual. E também naturalmente se conseguiu fazer alguma divulgação em torno do projecto que começou a ser noticiado aqui e ali pelos media de forma esporádica. Apesar do financiamento ser perto de zero, o projecto tem tido algum impacto no meio científico, e este ano, em Maio, os investigadores do CHAIA acharam que a arqueologia virtual tinha atingido um certo estágio de maturidade, e resolveram fazer um workshop sobre o estado da arte, em espaço gentilmente cedido pela CML para o efeito, no Turismo de Lisboa na Rua do Arsenal, muito perto do local físico onde antigamente estava a Ópera.

Há muitas questões que só interessam aos académicos, nomeadamente a metodologia científica associada aos projectos, de forma que os resultados sejam rigorosos e não apenas uma invenção ao estilo de Hollywood. Ao longo dos anos, têm-se mantido contactos com investigadores desta área, nomeadamente os promotores do London Charter, uma série de normas e métodos para garantir o rigor científico deste tipo de investigação. Mesmo que o público em geral fique satisfeito com qualquer coisita feita por aí, no meio académico, o rigor científico é que conta…

Entre outras entidades nacionais contactadas para procurar apoios, a equipa tinha alguns contactos com o Museu da Cidade, que foi dos primeiros a ser contactado em busca de financiamento, mas eles na altura não se mostravam interessados em apoiar o projecto. É que já tinham alguns edifícios em 3D modelados de forma tradicional, mas penso que não sentiam o interesse (ou não tinham dinheiro…) em fazer algo mais do que isso. Seja como for, foram convidados para virem ao workshop e até fazerem uma breve apresentação do seu próprio projecto, e falou-se de formas de colaboração mútua. Estas foram formalizadas por escrito nas semanas que se seguiram.

Ainda durante o workshop, deu-se no entanto algo de inesperado. Aparentemente eles andavam a gastar centenas de milhares de Euros neste projecto interno com pouca visibilidade, e como a CML fazia parte dos nossos contactos (foram eles que cederam o espaço para o workshop), alguém deve ter-lhes puxado pelas orelhas: como é que era possível que um grupo de investigadores, sem fundos, conseguissem não só fazer um projecto completo que tinha muito maior âmbito do que o super-financiado projecto “interno” do Museu da Cidade, como ainda por cima tinha projecção internacional, com contactos com os maiores especialistas da área, que até vinham a Portugal a pedido do CHAIA? Alguém deve ter ficado com as orelhas a arder, e mesmo durante o workshop, subrepticiamente pegaram num dos investigadores convidados, levaram-no a ver a maqueta de Lisboa que estava no Museu da Cidade, e pediram-lhe que lhes “validasse cientificamente” o projecto de uma reconstrução feita a partir da mesma, mesmo nas barbas dos investigadores do CHAIA também presentes.

Em tempo recorde, o Museu da Cidade obteve uns 200 mil Euros para contratarem uma empresa para, em seis meses, fazer um projecto de raíz precisamente nos mesmos moldes que os do CHAIA. É notável o trabalho astronómico que foi desenvolvido em tão pouco tempo; só mostra que quando há vontade e dinheiro, tudo se consegue. O problema da investigação científica é que, claro, toda a informação é publicada gratuitamente, e por isso foi relativamente inspirar-se em tudo o que tinha sido publicado pelo CHAIA e replicar o projecto usando outra tecnologia. Até aqui tudo bem, faz-se isso em todo o lado no meio científico; é normal os investigadores usarem o trabalho uns dos outros. O único problema é que “perderiam face” se dissessem como é que o projecto deles tinha nascido, pelo que resolveram ignorar a existência do projecto do CHAIA, mesmo que por exemplo nas entrevistas dadas tenham feito copy & paste de textos publicados…

De notar que tem havido comunicação entre o pessoal do Museu da Cidade e os investigadores do CHAIA; a última troca de emails era na sequência de uma proposta de fusão dos dois projectos, em que se trocaria tecnologia, know-how, e credibilidade científica; na altura ambas as partes assumiam que não havia qualquer financiamento, por isso o ideal mesmo era trabalhar em conjunto, “dividindo o mal pelas aldeias”, por assim dizer. O Museu da Cidade tinha já vários modelos criados que não existiam ainda no projecto do CHAIA; era uma estupidez duplicar trabalho. O CHAIA tinha a tecnologia imersiva que permitia que esses modelos pudessem ser visitados no mundo virtual do Second Life® (ou na sua alternativa open source, OpenSimulator) e tinha recriado áreas, como o Terreiro do Paço, que ainda não tinham sido modeladas pelo Museu da Cidade até Maio de 2010. O CHAIA tinha também a recolha de documentação obrigatória para este tipo de trabalhos científicos: gravuras, pinturas, documentos da época, validados por vários investigadores, e que serviriam de base não só à modelação 3D, como também para a música e trajes da época, necessários para a recriação de eventos do século XVIII com rigor académico, e que depois os visitantes teriam a possibilidade de assitir através da utilização de avatares; o Museu da Cidade tem a maquete, e, claro, grande parte dos originais dos documentos históricos à sua disposição. É certo que o projecto do CHAIA tem uma componente de interesse científico pouco relevante para o Museu da Cidade, que é a utilização de mundos virtuais como laboratório para ensaiar hipóteses. Esta área é bastante notável: em investigação arqueológica, quando já não existem sequer ruínas dos edifícios originais, as teses defendidas são descritivas, baseadas em imagens e relatos. Mas é quando se começa a “dar vida” a estes edifícios que depois se pode verificar se as descrições ou as imagens estão correctas ou não; ao longo deste processo, os investigadores do CHAIA puderam descartar muitas hipóteses, commumente defendidas como sendo plausíveis, pelo simples facto de que em 3D se ver que tal não era possível. Isto é igualmente referido em quase todos os projectos de arqueologia virtual que se têm feito lá fora (não são tantos como isso): o interesse da modelação em 3D em ambientes imersivos é que o investigador pode andar com um avatar pelos percursos descritos ou pintados, e comparar notas: por exemplo, será que a torre X é mesmo visível a partir do ponto Y ou não? Na maioria dos casos, as descrições são “embelezadas” e podem não estar correctas; pior ainda são as imagens, muitas vezes baseadas em pinturas feitas a partir de perspectivas “impossíveis”, que o artista criou a partir da sua imaginação após fazer uns esquiços rápidos: mesmo as mais “credíveis” por vezes apresentam absurdidades arquitectónicas. Este trabalho de laboratório é completamente inovador na investigação em história, património, e arqueologia.

Mas o melhor de tudo na utilização de mundos virtuais para arqueologia virtual é que esta vertente “de laboratório” não é incompatível com as vertentes educativas ou mesmo lúdicas, ou simplesmente criação de um vídeo de animação em 3D dos espaços recriados. Fazia pois todo o sentido conciliar os dois projectos num só, pois complementavam-se perfeitamente.

Os investigadores do CHAIA acharam um pouco estranho que na altura acabassem por alegar que “a tecnologia não era compatível” e depois fecharam-se em copas e não disseram mais nada. Lembro-me de ter redigido, a pedido do CHAIA, uma explicação extensa sobre essa alegação de “incompatibilidade tecnológica”; posso não perceber absolutamente nada de história ou de arquitectura, mas pelo menos de tecnologia sei do que falo 😉 A verdade é que não houve resposta. Conhecendo o nosso país e a lentidão a que as coisas se movem, não houve assim muita preocupação pela ausência de resposta — “alguns meses” seria um prazo perfeitamente razoável para que as coisas fossem andando. Afinal de contas, não havia financiamento de qualquer das formas, e isso significa que os investigadores e modeladores teriam de trabalhar nos seus tempos livres, o que leva sempre muito mais tempo…

Depois, no início do mês, soube-se que afinal de contas a razão para o silêncio era simplesmente porque não convinha mesmo nada mostrarem qualquer relação com o projecto do CHAIA… pois hoje o Museu da Cidade anunciou o seu próprio projecto sem fazer qualquer referência ao do CHAIA!

Não se faz. É desonestidade intelectual, mesmo que o Museu da Cidade não esteja “obrigado” ao código de conduta ético da comunidade científica. E foi interessante ver que afinal de contas obtiveram quase 200 mil Euros de financiamento para seis meses de trabalho… portanto havia financiamento! Se ainda fosse para pagar salários da equipa interna, ainda se compreenderia, mas na verdade, dada a aparente “urgência” de fazer alguma coisa rapidamente, o projecto foi adjudicado externamente. Também não há nada de mal nisso — afinal de contas, o CHAIA faz o mesmo com a minha empresa, com a ligeira diferença dos montantes envolvidos no projecto do Museu da Cidade serem, humm, aí umas cem vezes superiores… hehe. Não estou a criticar! Até acho barato 200 mil Euros para um projecto desta dimensão feito em apenas seis meses; lá porque hajam opções bem mais baratas, isso não quer dizer que este montante não esteja perfeitamente de acordo com os preços de mercado. Não é isso que está em questão; as entidades públicas têm todo o direito de gastarem o dinheiro que lhes apetecer na solução que acharem melhor.

O que está apenas em questão é a desonestidade intelectual. Não custava nada ao Museu da Cidade referir, por exemplo, que tinham alterado o âmbito do seu próprio projecto na sequência do workshop para o qual foram convidados e em que aprenderam duas coisas importantes: de que em arqueologia virtual já não se modelam edifícios isolados do contexto, mas integrados num espaço; e de que a arquelogia virtual não serve apenas para fazer vídeos em 3D bonitinhos, mas que pode ser utilizada para a navegação imersiva dos visitantes que escolhem os seus próprios percusos dentro do espaço recriado. Regozijo-me por saber que o workshop valeu a pena para trazer esta nova perspectiva ao projecto do Museu da Cidade; é bom saber que há flexibilidade para aprender com terceiros a forma correcta de fazer as coisas, e dentro do meio académico, essa mudança de atitude é louvável e muito bem recebida. Só é lamentável depois que não se tenha dado crédito a quem lhes mostrou o que fazer e como. É só isso que o CHAIA realmente lamenta.

Não é meramente um “choradinho” de “dor de cotovelo” por uns terem todo o apoio financeiro que querem, assim como grande promoção nos media, fazendo tudo o que lhes apetece sem dar crédito a ninguém. Isso, sinceramente, diz-nos pouco. Há muito para investigar na área, e muitas formas de apresentar o resultado da investigação, e em certa medida, a sensibilização do público em geral para a arqueologia virtual, tanto como laboratório para os investigadores em história e património, como para divulgação científica, como ainda para lazer — tudo a partir da mesma base de trabalho! — é positiva. Os investigadores do CHAIA não vão “desistir” do projecto só porque uns são mais ricos e poderosos e têm a capacidade de “atropelar” aqueles que até os ajudaram no percurso para a fama e glória 🙂 Sem dinheiro e sem promoção fez-se muito, mesmo que levando mais tempo, e não há nenhum problema em continuar dessa forma — continua a haver relevância científica na abordagem escolhida pelo CHAIA, e que pode depois ser aproveitada para a recriação virtual de outras cidades ou partes de cidades “desaparecidas” no nosso país. Há até outros projectos na área dos quais se tomou conhecimento durante o workshop: aparentemente o Banco de Portugal está a patrocinar um projecto para criar um filme de animação 3D com a  apresentação de Lisboa barroca com a perspectiva de atrair turistas. Não sei mais sobre este projecto, mas acredito que eles também sejam beneficiados por se ver na RTP1 filmes de Lisboa barroca e jornalistas a dizerem que é assim que temos de promover o nosso património; há, pois, imensas razões para que esta publicidade à arqueologia virtual tenha um impacto na sensibilização do público em geral para a sua importância. E isto também pode querer dizer que certos mecenas e institutos que foram contactados pelo CHAIA (e se calhar por outras equipas portuguesas de investigadores na área da arqueologia virtual) estejam agora mais aptos a compreender o potencial da tecnologia e do modelo de investigação, e mais susceptíveis a fomentarem este tipo de coisas no futuro. Tudo isto é positivo e o Museu da Cidade merece ser louvado por ter conseguido obter os meios para colocar esta abordagem nas mãos do grande público; do lado do CHAIA apenas se conseguiu marcar posição no meio académico internacional (todos os anos o trabalho é apresentado em 4-5 conferências internacionais) mostrando que Portugal tem a capacidade de desenvolver estes projectos com credibilidade usando know-how nacional. Conjugando a apetência dos media em divulgarem este tipo de projectos com a credibilidade científica a nível internacional só pode ser benéfico para todos os projectos nesta área.

Só é pena que a “política” interfira em tudo…

Restou, pois, ao CHAIA optar então por fazer um comunicado à imprensa que transcrevo aqui na íntegra:

Exmos. Senhores,

Na sequência da divulgação na imprensa da apresentação pública a 25 de Novembro de um projecto de recriação virtual da Lisboa Pré-Terramoto de 1755, realizada pelo Museu da Cidade de Lisboa, a direcção do CHAIA – Centro de História da Arte da Universidade de Évora viu-se na contingência de emitir o seguinte comunicado à imprensa:

O Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), da Universidade de Évora, em colaboração com a empresa Beta Technologies e o King’s Visualisation Lab – King’s College London, está a desenvolver uma recriação virtual da Lisboa destruída pelo terramoto de 1755, através da plataforma de mundos virtuais Second Life®. Este projecto, Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto, constitui-se como um projecto pioneiro em contexto nacional e internacional, pela abrangência do objecto de estudo e potencialidades do formato. Tem sido apresentado com sucesso em várias conferências internacionais.

Através da utilização de um avatar, irá permitir ao visitante a imersão numa realidade arquitectónica, social e cultural desaparecida. O público poderá visitar a Lisboa das vésperas do terramoto, os interiores dos seus edifícios mais emblemáticos e assistir ou participar numa procissão, tourada, auto de fé, ou espectáculo de ópera

http://lisbon-pre-1755-earthquake.org/; http://vimeo.com/17044721

Derivando do sucesso da recriação da Ópera do Tejo de D. José I (http://operadotejo.org/), igualmente em Second Life®, concebida e realizada pela empresa Beta Technologies, em 2005, aquando da efeméride dos 250 anos do Terramoto de 1755, reúne alguns dos respectivos investigadores a que se veio associar uma larga equipa de especialistas da história da cidade, do urbanismo, da arquitectura e da paisagem; da criação de realidades virtuais e da aplicação dos recursos da informática à investigação e divulgação da História.

Porque consideramos que a pesquisa científica deve ser um processo de partilha e de franca comunicação entre investigadores, contactámos no início de 2010, a Câmara Municipal de Lisboa, através da respectiva Vereação da Cultura, propondo uma parceria com o projecto de animação 3D em desenvolvimento pelo Museu da Cidade.

Dada a tecnologia de ponta que estamos a utilizar, que permite a interacção dos utilizadores num espaço comum de fácil construção; a actualização permanente, em tempo real, do objecto de estudo e a imersão do visitante no ambiente virtual, o que não está ao alcance das tecnologias de animação 3D, como a que está a ser utilizada pelo Museu da Cidade, a vereação da Cultura mostrou um efectivo interesse numa eventual parceria, ficando de estudar mais detalhadamente o assunto.

No seguimento deste encontro, convidámos a Vereação da Cultura da CML, bem como a Directora do Museu da Cidade, a estarem presentes no workshop internacional Virtual Historic Cities: reinventing urban research, organizado pelo CHAIA a 21 de Maio do corrente ano em Lisboa e que trouxe pela primeira vez a Portugal Bernard Frischer, Director do Virtual World Heritage Laboratory, da Universidade da Virgínia, e coordenador do projecto de recriação virtual da Roma Clássica, Rome Reborn. Neste workshop, participou ainda Richard Beacham, director do King’s Visualisation Lab – King’s College London, especialista na aplicação das tecnologias de mundos virtuais ao estudo do Património Cultural.

Neste contexto, apresentámos o Prof. Bernard Frischer aos representantes da CML e Museu da Cidade presentes no workshop, Dr. Francisco Motta Veiga e Dr.ª Ana Cristina Leite, e acompanhámos o referido investigador à visita que efectuou ao Museu da Cidade, no qual teve a oportunidade de conhecer o projecto aí em desenvolvimento.

Ainda a aguardar uma resposta da CML, foi com surpresa e profundo desagrado, que tomámos conhecimento da entrevista a Bernard Frischer que consta da edição de Novembro da Agenda Cultural da CML.

Utilizando manifestamente o Prof. Bernard Frischer para a validação científica do respectivo projecto 3D, a CML e o Museu da Cidade de Lisboa não mencionam uma única vez o CHAIA e o projecto Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto, através dos quais tiveram a oportunidade de conhecer este investigador americano. Todas as notícias posteriores sobre o lançamento do projecto no Museu da Cidade, a 25 de Novembro, omitem este facto, utilizando assim de forma abusiva o trabalho científico desenvolvido pela equipa do CHAIA. A ausência de uma resposta à nossa proposta de parceria vem agravar este facto.

A Direcção do CHAIA e a comunidade científica que este representa não pode deixar de manifestar o mais profundo desagrado por esta situação e de denunciar esta atitude pouco ética por parte da Câmara Municipal de Lisboa e do Museu da Cidade.

Os Investigadores coordenadores do projecto Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), da Universidade de Évora.

Alexandra Gago da Câmara

Helena Murteira

Paulo Simões Rodrigues

A Direcção do CHAIA – Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora.

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6 pensamentos sobre “Política académica…

  1. Fui surpreendida com o anúncio sobre o Museu da Cidade, pois sabia da existência deste projecto há algum tempo.
    Porque me interessa profissionalmente, irei ler com cuidado e tempo o seu post, mas gostaria de apenas de tecer um comentário a uma frase sua logo no início:

    “Como a esmagadora maioria dos trabalhos académicos é publicado livremente — com o entendimento de que quem usar esses trabalhos lhes deve fazer referência — é muito simples para a indústria pegar nesses trabalhos e apropriarem-se deles sem mais problemas. A indústria não está “comprometida” com este código de conduta ético, pois não necessita de se preocupar que a atribuição de verbas seja indexada à integridade ética”

    Isto não é exactamente assim. Há de facto um princípio ético, i.e., na sua maioria, os investigadores não aceitariam que fosse de outra forma, mas antes de mais há um princípio legal. Os investigadores podem citar outros trabalhos porque essa é uma das utilizações livres do CDADC. E nenhum investigador pode impedir, legalmente, outro investigador de o citar em contexto científico. (Considero que uma citação obriga sempre à atribuição da autoria, obviamente)
    No entanto, se retirarmos o contexto científico, educativo, crítico/argumentativo, etc (no fundo, as utilizações livres do CDADC) então o uso de trabalho de outros autores necessita de autorização.

  2. “O problema da investigação científica é que, claro, toda a informação é publicada gratuitamente”

    Isto não é obviamente um problema, mas uma vantagem. De qualquer forma, nem toda a informação científica é publicada gratuitamente, muito pelo contrário. Ainda há imensa (e de qualidade) informação científica que é publicada em revistas científicas que têm custos astronómicos, mas que qualquer pessoa que tenha recursos financeiros (ou acesso a uma universidade/biblioteca) pode pagar para ler.

    “pelo que resolveram ignorar a existência do projecto do CHAIA”

    Isto não pode ser. Eu confesso que soube do projecto através do site http://lisbon-pre-1755-earthquake.org, e depois vi o “mesmo” projecto no site do Museu da Cidade e pensei que isto teria surgido no grupo de investigação e que houvesse depois uma colaboração com o museu no sentido de passar o resultado para a comunidade não-científica. (Confesso que não explorei ainda tudo sobre este projecto, tenho-o nas minhas bookmarks para o estudar daqui por mais um tempo)
    De qualquer forma, se o museu usou um projecto existente, tem, pelo menos, de atribuir esse projecto sim.

    “o Museu da Cidade tem a maquete, e, claro, grande parte dos originais dos documentos históricos à sua disposição.”

    O Museu da Cidade não é uma instituição privada. Se o museu tem documentos necessários aos investigadores, o museu não pode negar a sua consulta.

    “É certo que o projecto do CHAIA tem uma componente de interesse científico pouco relevante para o Museu da Cidade”

    Não concordo. Tenho estado a analisar estas questões e existem alguns exemplos (um, uma série de TV, outro, um jogo de computador) que demonstram claramente que, pelo menos nesses casos, o público no geral tem uma grande preocupação pelo rigor histórico. Na minha opinião fazia todo o sentido e mais, seria de todo o interesse para o Museu da Cidade esse trabalho de investigação científica.

    “O que está apenas em questão é a desonestidade intelectual.”

    Pelo exposto no seu post, eu diria que é mais do que isto.

    Por último, queria agradecer este post e lamento ter perdido a visita do Professor Frischer a Portugal. O Rome Reborn é outro projecto (fantástico, se me permite) que está na minhas bookmarks para análise próxima.

    • Talvez “problema” seja uma palavra forte demais; tenho de expandir o meu vocabulário em português! Provavelmente deveria ter usado “questão”. Em inglês, seria a diferença entre “issue” e “problem”.

      O Museu da Cidade já tinha, pelo menos desde 2005, alguns modelos 3D (uma dúzia). Não sei exactamente especificar a data em que ficaram disponíveis online no site; penso que foi depois de uma remodelação que fizeram há uns anos atrás. Do que sei, a “inspiração” para os mesmos veio principalmente da maquete existente no Museu. Não se pode dizer que se tenham “inspirado” no trabalho desenvolvido pelo CHAIA, mesmo que a data de início de ambos os projectos tenha sido muito próxima uma da outra. A questão tem a ver com a mudança de orientação do projecto do Museu da Cidade, no momento em que se aperceberam da existência não só do projecto do CHAIA, como da forma como estes projectos são feitos no mundo académico, e na importância que tem, hoje em dia, a credibilidade científica — não vamos colocar as culpas todas em Hollywood e na indústria de jogos, que popularizou a criação de modelos 3D de um passado fantástico e imaginado, sem qualquer preocupação de factualidade histórica, e apenas com o foco na tecnologia… e no entertenimento.

      Mas isto daria pano para mangas e a Paula se calhar já leu tudo isto e muito mais nos artigos do Prof. Frischer, que está farto de publicar sobre o assunto 🙂

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