Identidade republicana?

Bandeira monárquica desfraldada na Câmara Municipal de Lisboa, pela primeira vez em 99 anos
Apenas para ser provocador, deixo aqui o vídeo dos “31 da Armada“, que numa brincadeira, resolveram reinstaurar a Monarquia em Portugal, usando exactamente o mesmo modelo que, em 1910, levou a um grupinho de republicanos proclamarem a república: hasteando a bandeira correspondente no edifício da Câmara Municipal de Lisboa 🙂

Por lá ficou cerca de 12 horas sem ninguém reparar, até que alegadamente um repórter do I foi perguntar se tencionavam lá deixar a bandeira…

Uma gracinha inocente? Talvez. O mais interessante para mim foi assistir às discussões e aos comentários. Embora qualquer coisa deste género imediatamente atraia todo o tipo de idiotas que se divertem a insultar-se mutuamente, é interessante de ver os três tipos de portugueses que reagiram das seguintes formas:

1) Os republicanos livres de medos e receios, que entendem o acto como uma mera irreverência, com bastante sentido de humor. Riram-se com a brincadeira, aplaudiram a iniciativa pelo seu espírito de divertimento. Penso que os “31 da Armada” se incluem exactamente neste grupo.

2) Os monárquicos convictos, que, independentemente da orientação política dos “31 da Armada”, aplaudiram a sua coragem em desfraldar um símbolo que representou Portugal durante 767 anos, sem temerem ninguém, e anunciando o acto publicamente. Para estes, foi importante ver que falar-se da Monarquia em Portugal ainda “mexe o dedo na ferida”. É uma ferida que tem um século mas que ainda não cicatrizou.

3) Os republicanos (que na realidade nem são bem republicanos…) cheios de inseguranças quanto à sua legitimidade. Estes são os que se ofendem mais e que mais insultuosos se tornam em público. Parece que têm realmente medo que um dia se re-instaure a Monarquia mesmo e que se declare a falência do modelo republicano. São aqueles que invocam razões obscurantistas para se fugir do terror da monarquia (uma monarquia como eles a concebem, claro; o modelo parece ser uma espécie de absolutismo a la Gengis Khan). Usam todo o tipo de argumentos para mostrar que todos os monarcas são tiranos mentecaptos (embora se atrapalhem quando lhes é dado o argumento de que metade dos países mais desenvolvidos do mundo vivem felizes em monarquias constitucionais — será o Imperador do Japão também um “tirano mentecapto”?) e que esta acção rebelde e irreverente deve ser considerada um crime (para além de uma estupidez) e punida da forma mais severa que a Constituição da República Portuguesa o permita (penso que fuzilamento por alta traição esteja fora de moda…).

Claro está que dentro deste grupo também se encontra a CML.

Porquê este tipo de reacções violentas? Sim, os “31 da Armada” gozaram com a CML, como gozaram com o Ayuntamento de Olivenza há dois anos atrás; não consta que tenham sido presos em Espanha. A brincadeira, do ponto de vista de um republicano convicto dos seus valores e da legitimidade dos mesmos, será inócua. Os “31 da Armada” não querem restabelecer subversivamente a Monarquia em Portugal; não são um grupo de guerrilheiros do submundo, convertendo grupos de terroristas armados para deporem Sua Exª o Presidente da República e colocarem D. Duarte no trono; não fazem sequer parte do grupo de seitas obscuras que procura manipular subversivamente os lobbies políticos para mudarem a Constituição Portuguesa para permitir um referendo sobre a forma de Chefe de Estado que devemos ter.

Mas são esses os argumentos justamente levantados. Os “31 da Armada”, assim como todos os que defendem a ostentação de símbolos monárquicos (por piada ou não!) neste país, são inimigos a abater. São perigosos elementos subversivos. Podem ser “idiotas” (no sentido em que todos os monárquicos têm, por princípio, de ser idiotas, pois só um “idiota” quererá viver em monarquia), mas são idiotas perigosos. Por isso têm de ser eliminados. Ou, pelo menos, punidos.

Mas porquê tanto medo?

Só tem medo da re-instauração eventual da Monarquia quem sente que a República é uma experiência falhada; ou que a sua legitimidade está assente em bases pouco sólidas (o que é uma estupidez; toda a história está repleta de exemplos em como a revolução é uma base mais que sólida para legitimar o governo dos que vencem a revolução. Se não fosse assim, Abril nunca tinha acontecido!… ou melhor, Novembro); ou que têm realmente a noção de que o grupo de monárquicos convictos anda por aí já a afiar as baionetas e está pronto a agir logo que se tenham atingido as condições ideiais para o fazer, e depois, zás, é a abolição da constituição, é prender todos os comunistas, é dar títulos a toda a gente, é ter o país gerido por anormais que se auto-perpetuam por casamentos cosanguíneos…

Este tipo de conversa é ainda mais ridícula do que o acto de trepar à varanda da CML para mudar uma bandeira. Os monárquicos comem criancinhas (comunistas, claro) ao pequeno almoço. Mas será que eles acreditam mesmo nisto, ou é apenas uma típica projecção sobre o inimigo que o demoniza?

Mas porque é que é um “inimigo”?

Será que este tipo de republicanos realmente tem medo de que a República está a acabar e que é melhor suprimir já , já, todos aqueles que se regozijam com 767 anos de história sob um Rei de Portugal?

Bem. Para acalmar os ânimos, a verdade é que as coisas são muito mais simples. A esmagadora maioria dos portugueses nem é republicana nem monárquica; é apenas ignorante de que existe sequer uma diferença. Para eles, tanto se lhes dá quem manda no país ou não; nem sequer votam para o Primeiro Ministro (porque não vale a pena!) e não têm qualquer forma de vontade sequer para olharem para “política”, “história”, ou “cultura”. A maioria dos portugueses são apáticos, porque não há motivação para deixar de o serem.

Desses, uma pequeníssima fracção tem realmente alguma consciência cívica, um sentido de história, e um conjunto de valores que são genuinamente portugueses. Estejam à esquerda ou à direita, são aqueles que olham para vídeos como este com um sorriso. Numa sociedade com liberdade de expressão, a irreverência é bem-vinda; há 20 anos todos nos ríamos com o Louçã a pintar ovelhas negras nas paredes da capital; hoje rimo-nos com putos vestidos de Darth Vader a desfraldar bandeiras monárquicas em plena Praça do Município. É a mesma coisa. É liberdade de expressão no seu melhor. Se acreditamos nos valores democráticos, e se essa foi a grande conquista de 1974 (ou melhor, 1975…), então é importante regozijarmo-nos por podermos viver num país onde este tipo de brincadeiras não só é permitido, como se torna notícia nos mainstream media.

Depois temos um grupo muito, muito reduzido de pessoas que olham para a noção de “república” como uma legitimização do seu poder, e para os quais, obviamente, este tipo de actos tem de ser suprimido. Não são toleradas “brincadeiras” que possam, sabe-se lá, colocar a legitimidade do poder actual em questão. E isto é muito curioso, pois são justamente o tipo de argumentos de certos republicanos da Primeira República, e todos sabemos no que é que isso resultou. Infelizmente, aqueles que actualmente estão no poder, pensam assim. Não sentem que a sua “legitimidade” não vem de uma “causa maior”, mas porque o voto popular lhes deu licença para fazerem o que lhes apetece (enquanto for a vez deles). Apontar que há causas mais nobres — a nossa herança cultural e a nossa história, por exemplo — mina os alicerces desta república criada com sangue (como, aliás, todas as repúblicas…).

Claro que isto é uma ilusão — e uma patetice ainda maior do que a da irreverência perpetuada pelos “31 da Armada”. Só quem é profundamente paranóico é que pode acreditar que a República Portuguesa está “sob fogo dos monárquicos”. E, sinceramente, dispenso governantes paranóicos. Numa época de crise, o que precisamos é de gente com calma e serenidade — e que saibam ter sentido de humor! — e que compreendam (e acreditem!) nos valores democráticos fundamentais, como é o da liberdade de expressão. Gracinhas são liberdade de expressão. Ninguém foi realmente prejudicado pela gracinha.

Os “31 da Armada” provavelmente serão indigitados (depois das férias jurídicas) e se calhar condenados (será interessante ver quais as acusações!) com pena suspensa. A suprema ironia seria ver o actual Presidente da República, alguém que é tudo menos paranóico e que não tem qualquer “receio” quanto à sua própria legitimidade, por piada, desfraldar a bandeira monárquica durante 12 horas no Palácio de Belém, só para mostrar que é superior a estas coisas e que não “teme” o retorno da monarquia — mas que nem por isso tenciona abdicar de defender o nosso legado histórico e cultural (como tem feito e muito bem!).

Para quem grite vivas à República Portuguesa (e fazem muito bem!), devem também gritar vivas à liberdade de expressão, e largar os medos, receios, e paranóias sobre a eventual falta de legitimidade da República. A história é sempre escrita pelos vitoriosos; a vitória é toda e qualquer legitimidade necessária para perpetuar a República. Não é preciso mais nada.

E digo isto sendo monárquico, claro está 🙂

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Um pensamento sobre “Identidade republicana?

  1. Olá Luis!

    Não me incomodaria ver Portugal com um rei, mas não me parece que se ganharia muito com nova mudança.

    Mas isto sou eu, que me incluo nos ignorantes. Preciso de um Politics for Dummies urgentemente… 🙂

    Abraço

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