Presidência Portuguesa no Second Life®

10Junho2009_BannerSLJá não é novidade para quem tenha estado a seguir as notícias na RTP, Público, SolDiário Economico, MSN News, I-GOV, I Online… e mais umas dezenas de milhares de blogs espalhados por essa comunidade portuguesa que abarca os cinco continentes:

A Presidência da República Portuguesa abriu oficialmente a sua primeira presença no Second Life®; a honra coube ao Museu da Presidência, que tem agora o seu próprio espaço para conferências, formação à distância, exibições (permanentes e temporárias), mas igualmente para apoiar a cultura e arte — como por exemplo o concerto ao vivo do Rodrigo Leão, passado ontem à tarde em simultâneo na vida real, no Convento de Santa Clara, e no Second Life. A direcção do projecto e a sua concepção e produção esteve a cargo da CCV em parceria com o Museu da Presidência.

O vídeo acima é do melhor que se faz neste tipo de produção digital (“machinima”), onde a totalidade da imagem é inteiramente obtida a partir de captura de vídeo directa do Second Life. Não há pós-produção e “digital enhancement”. Estas são as imagens reais que se obtêm — com um computador suficientemente poderoso, claro está 🙂 o que não é o caso de nenhum dos meus…

Mas há mais…

É claro que sou suspeito a mandar opiniões sobre isto. É verdade que a minha envolvência foi marginalíssima, e só o mero facto de o conhecer (e de continuar firme na minha profunda convicção de que o Second Life vai continuar a estar por aqui muitas décadas depois de já ninguém saber pronunciar “Twitter” ou “Facebook”). O projecto vem de trás, faz agora praticamente um ano que o Museu da Presidência e a CCV têm feito o planeamento do projecto. Quinzenalmente, a Presidência tem recebido relatórios sobre o tipo de actividades possíveis e desejáveis de fazer no Second Life. E o Cavaco alegadamente tem o seu avatar desde 2007 — não é exactamente uma “novidade” para o Sr. Presidente (também não será um power user, mas pelo menos tem muito mais visão do que a esmagadora maioria dos meus colegas e amigos). É apenas mais uma coisa a que ele está atento.

O silêncio sobre o Second Life, depois do media hype de 2006/7, fez-lhe bem. No momento em que os media se calaram de falar mal do Second Life (ou bem…), e que todos os analistas, desconhecedores da realidade, estavam a noticiar o “fim em breve” dos mundos virtuais — o Second Life cresceu ainda mais. O número de transacções económicas de conteúdo digital no Second Life ronda os 4% do mercado global (que engloba compra de software e jogos online, de músicas, de vídeos, de imagens, enfim, de tudo o que se possa adquirir em formato digital) — acima, pois, do mega-sucesso da Apple com o iTunes ou agora a App Store para o iPhone. As comunicações via voz no Second Life tornaram surpreendentemente esta plataforma num dos maiores operadores de telecomunicações internacionais — o Skype é o líder incontestado, acima de todos os outros operadores “não-virtuais” e convencionais (sim, o VoIP está a derrotar de vez os operadores convencionais), mas o Second Life não fica muito longe: dependendo da forma como são feitos os cálculos, pode mesmo ser o segundo maior operador global de telecomunicações. Seja qual for o seu ranking, o importante é que o Second Life nem sequer foi criado para ser uma plataforma de telecomunicações! Foi apenas um efeito secundário… que tem sido um (dos vários) “segredos” que têm sido mantidos…

O problema é que em 2006/7 as empresas, ávidas de notícias, desperdiçaram milhões numa tecnologia que não sabiam para que é que prestava. Foi uma burrice que desacreditou completamente a plataforma, quando finalmente essas empresas repararam que o retorno, afinal de contas, não correspondia ao investimento. Isso fê-las abandona a plataforma com desgosto; isso fez com que os media se rissem muito e continuassem viradas para outras áreas das redes sociais, onde a “batalha pelos números” é muito mais feroz.

Em menos de três anos, tudo mudou. Agora, os milhares de empresas, as milhares de universidades, espalhadas por todo o mundo, estão no Second Life com objectivos concretos. Olham para o que estão dispostas a investir primeiro, e medem o resultado mediante a expectativa que têm. No fundo, entram no Second Life com objectivos que não têm rigorosamente nada a ver com “chamar a atenção dos media“.  E ainda bem. Quando começaram a pensar desta forma, passaram a ter projectos de sucesso. Deixaram de estar “condicionados” pelo que os media pensam ou deixam de pensar, e em vez disso, colocaram a tecnologia ao dispôr do que precisavam, as coisas mudaram. E é assim que quase três anos mais tarde o Second Life é um gigante imparável, que cilindra qualquer tentativa de “concorrência” por… mero desconhecimento do que é que as pessoas fazem com o Second Life. Não andam por ali por questões tecnológicas, por gráficos bonitinhos, para brincar às bonecas.

Essencialmente estão lá para interligarem-se com outras pessoas.

A Presidência da República percebeu isso muito bem. Portugal é este país estranho que tem muitos mais portugueses a viver fora de Portugal do que dentro dele. Não é fácil gerir isto. Não é possível pegar em todas as personalidades deste país e fisicamente correr o mundo todo à procura das comunidades portuguesas e manter o elo. Nem sequer sabemos o que fazem, onde estão, o que pensam. Como lá chegar?

Há dois anos que a Presidência Portuguesa anda nas redes sociais. Com moderação e low profile — no Twitter, no Flickr, no Sapo Vídeos, no YouTube. Chegam a pouca gente? Talvez. Mas não custa nada excepto vontade. E respondem a emails. Abrem o site deles a comentários do público. É corajoso. Cá faz-se pouco disto.

Mas há sempre o problema “contrário”. Sim, é importante que o Presidente chegue aos emigrantes portugueses na construção civil e na investigação na Mongólia (sim, há lá alguns!). Mas como se consegue que esses portugueses também cheguem ao Presidente? E de uma forma barata, acessível, e constante. Não é fácil! Longe estão os tempos em que Afonso de Albuquerque tinha de esperar mais de meio ano para receber uma mensagem de El-Rei a partir de Lisboa. Mas… mesmo hoje em dia… Belém não pode estar em todo o lado! É demasiadamente caro!

A solução aparece com o Second Life. Uma coisa que toda a gente vai resmungar é por se andar a gastar dinheiro a “brincar com bonecas” quando o país está em crise. Pois. Mas, para já, a Presidência não tem poderes para acabar com a crise. Por outro lado, este projecto no Second Life é especial: parte da carolice. São mais de quarenta as pessoas que se voluntariaram para o tornar numa realidade. Os custos foram negligíveis — e apareceu um sponsor para cobrir alguns (sim, pronto, foi a minha empresa 😉 mas tudo bem…). Conclusão: é claro que se trabalhou muito — muitos meses de planeamento, de formação; e pelo que me contaram, 10 dias a trabalhar 20 horas/dia, tanto do lado dos voluntários da CCV, como dos voluntários do Museu da Presidência e do Gabinete da Presidência. Não se tratou sequer de “ah, sim, temos de nos matar a trabalhar porque senão o Presidente fica lixado connosco”. Foi mesmo um daqueles raros actos de generosidade espontânea que às vezes dá nalguns portugueses: “temos de fazer isto, porque é importante”. O Cavaco é conhecido por saber criar equipas com esse espírito. É o legado do pessoal que atravessou esses oceanos todos a descobrir novos mundos para dar ao mundo. Ainda não morreu completamente.

O resultado? Um espaço sobre o legado histórico, a cultura, e a alma portuguesa, com a chancela da Presidência, que pode ser visitado por qualquer português em qualquer parte do mundo desde que tenha acesso à Internet. Não quer dizer (ainda) que vá lá encontrar o Cavaco sentado, 24h/dia — achei piada ontem, pelas 3 da manhã, aparecer alguém a perguntar se o Presidente ainda estava ligado e se podia falar com ele. É claro que o Cavaco também dorme 🙂 Mas… o Presidente de todos os portugueses não está só. Tem ali um conjunto de amigos que ainda acredita na responsabilidade que temos, enquanto portugueses, de manter o contacto próximo com todos aqueles para os quais a palavra “Portugal” tem algum sentido.

Costumava muitas vezes gozar com amigos americanos dizendo-lhes que não era patriota, porque normalmente é-se patriota em relação a uma nação, e é difícil de definir Portugal como uma nação convencional. Como é que se define um país quando as suas fronteiras definidas no mapa apenas englobam 20% da sua população? Gosto das palavras que foram usadas pelo Cavaco, e cito, «No século XXI, em que as distâncias diminuem num mundo global, as questões relacionadas com a diáspora não podem continuar a ser tratadas através do tradicional discurso saudosista e passadista, em que se enaltecem os afectos mas se esquecem as realizações concretas». A nossa vocação, enquanto portugueses, não é ficar no rectângulo. É estar em todo o lado e levar Portugal no coração. Não sabemos explicar bem porquê. No estrangeiro, comportamo-nos como nativos por fora, mas guardamos Portugal no coração. Faz parte de nós. Há quase mil anos que somos assim. Não vale a pena pensar que devemos mudar a nossa forma de ser (porque nos trás mais dificuldades que vantagens). Em vez disso, precisamos é de projectos que reconheçam aquilo que nos une enquanto portugueses, e que façam alguma coisa por nos manter em contacto.

Ontem, a mensagem que o Presidente da República lançou às Comunidades Portuguesas, foi virtual. Foi gravada numa sala fechada ao público (vê-se aqui neste stream do Flickr da CCV). O discurso foi breve; 5 minutos apenas — o Cavaco não é homem de monótonos e longos discursos, e não tem a fama de «apelar ao sentimento» ou de estar a olhar para «um passado histórico e glorioso» e lamentar-se pelos tempos que correm. Pelo contrário, é bem claro quando diz: «Não bastam meras palavras de apreço nem simples discursos de ocasião. Não é possível construir uma relação autêntica com as comunidades tendo por base apenas proclamações retóricas sobre os afectos ou os sentimentos».

E por isso não é preciso que o Presidente da República esteja num mega-auditório com milhares de pessoas com um lencinho ao canto do olho dizendo «foi muito bonito, gostei muito». Não serve de nada. Os que andam por esse mundo fora não vão estar no auditório para o ouvir. Em vez disso, estiveram, na realidade, nas suas casas ou locais de trabalho, ligados à Internet, para ouvir, no Second Life, o que é que o Presidente lhes tinha para dizer. E depois comentaram. O comentário mais frequente foi: «mas só isto? foi tão curtinho…» Consta que o Cavaco se riu desta reacção — provavelmente na maior parte das proclamações mais extensas a que tem assistido, as pessoas resmungam do tempo todo perdido a ouvir banalidades. No Second Life, as pessoas queriam mais. Mas o papel do Presidente estava terminado por hoje; seguiu-se uma forma simples e eficaz de levar a conhecer um pouco do que nos une em termos de cultura e identidade, com um concerto do Rodrigo Leão, horas mais tarde, em simultâneo a partir do Convento de Santa Clara… e do Second Life.

Promover a arte, a cultura, a identidade, tudo isso são realmente tarefas que competem à Presidência. Não é fácil de as fazer; e muito mais difícil de levar essa arte, cultura, e identidade aos confins do mundo. Mal ou bem, mas com muita carolice e voluntarismo, o Second Life é crucial para permitir este tipo de coisas. Bem aproveitadinho, faz literalmente milagres 🙂

E qual é o pior cenário possível? O espaço em que a presença virtual do Museu da Presidência está inserido é bastante visitado. Ontem os desgraçados que dão o apoio técnico já lá estavam há horas e horas, e às 4 da manhã ainda lá estavam quatro a dar informações a por quem lá aparecia… é normal haver sempre gente, a todas as horas do dia e da noite. Quantas visitas serão? Provavelmente, tantas quanto visitam o Museu da Presidência de cal e pedra — mas a um custo completamente irrisório. Ou seja: no pior dos casos, duplicou-se o número de pessoas que visitam o Museu, a custos ridiculamente baixos — uns almoços e jantares para a malta da produção (que ainda por cima consta que foram para Santarém fazer o setup todo, a custos dos próprios voluntários). É difícil imaginar algo que seja mais barato e mais eficaz. Se se chegar ao final de um ano com «apenas uma dezena de milhar de visitantes» — já seria muito bom! Não seria vergonha nenhuma. Há imensas iniciativas, substancialmente mais caras, que chegam apenas a dezenas ou centenas de pessoas, e a Presidência nunca deixou de as apoiar, pelo contrário.

Aproveito para deixar mais umas indicações, para quem seja novo utilizador do Second Life. Para entrar usem este link para chegar à ilha de acolhimento Tagus. Este é um espaço de acolhimento e orientação de novos utilizadores, totalmente em português, e encontrarão aí todo o apoio necessário para se familiarizarem com o Second Life.

Para os veteranos do Second Life, basta ir directamente para o Espaço da Presidência da República. Se não conseguirem lá entrar, não se admirem 🙂 Hoje é um mau dia, feriado, está chuvoso, toda a gente leu a notícia e está a cair lá. Mas isto não vai desaparecer, pelo menos por mais uns bom par de anos, e será visitável a qualquer altura 🙂

… e eu ainda por cima sou monarquista 😉 Mas sempre votei no Cavaco 🙂

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Um pensamento sobre “Presidência Portuguesa no Second Life®

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