Festival da Canção 2009: De grunhos para grunhos (de sempre)

Há anos que não via o Festival da Canção (não tenho TV desde 2000 e mesmo antes disso nunca foi algo que verdadeiramente me agradasse). A razão é simples: desde os anos 80, pelo menos, que os compositores nacionais das músicas participantes a concurso ainda não perceberam o que é que “vende” no Eurofestival, e muito menos o que vende música no mundo. Têm apenas uma vaguíssima, muito ligeira noção do que vende em Portugal — e mesmo assim, geralmente por falta de educação musical do público.

O Eurofestival da Canção também não é propriamente um exemplo de erudição musical — mas por vezes lá aparece uma coisinha ou outra que mostra que o compositor até estudou num conservatório e que acompanha o panorama musical internacional. Por cá, infelizmente, os compositores, seja qual a sua formação, acompanham o “gosto musical” de um público sem formação, sem gosto, e sem capacidade de decisão baseada na qualidade. Há excepções, claro. Também há quem ouça música barroca (é o meu caso!) — mas não é para lançar CDs para um mercado de milhões de portugueses.

Posso não gostar pessoalmente da Luciana Abreu. Aliás, na pré-entrevista antes da canção ela própria mostra que não é nenhum Einstein, e que a silicone não está só no peito, também anda por lá dentro daquela cabecinha (alguma coisa há-de encher a caixa craniana…). É verdade que é demasiado “mediática” no pior sentido da palavra. Tem uma carreira que é invejada por muitos, e isso “joga” contra ela, num país onde ser-se famoso é crime de lesa majestade.

No entanto, apanhei esta música (“Juntos Conseguimos Vencer”) por mero acaso. No meu grupo de amigos já estávamos a rir às bandeiras despregadas com a habitual ausência de qualidade dos participantes — afinal, não esperávamos outra coisa, como já não esperamos nada desde os anos 80. Ao menos nessa altura ainda nos podíamos consolar com o rock português, que era de excelente qualidade e uma “novidade” na altura, mas, claro, jamais “saltaria” para um Festival da Canção.

Nisto eis que apanhamos, no meio das nossas gargalhadas e da conversa, uma jovem lá empoleirada no palco, cheia de presença, com uma voz fenomenal, frente a um grupo de marmanjos nuns uniformes alusivos ao Quinto Império, empunhando umas bandeirolas com mapas da Europa e da CPLP (não consegui perceber os pormenores das restantes, aguardo pacientemente os blogs e os vídeos oficiais no site da RTP). E uma música que nada tem a ver com o lixo que normalmente por lá aparece.

“Gostos” não se discutem. É evidente que tanto o juri (composto por “personalidades” nos vários distritos, e que presumo que misturem jornalistas, empresários, políticos, e funcionários da RTP — sempre foi assim, não acredito que este ano fosse diferente) como o público não tem um gosto educado musicalmente. Mesmo entre o meu grupo de amigos, o “gosto” é diferente — nem todos apreciaram a Luciana Abreu. No entanto, uma coisa é, como sempre, o gosto; a outra coisa é a qualidade da música enquanto composição artística e espectáculo de palco.

A música apresentada pela Luciana não tem nada a ver com o que se faz — pobremente — em Portugal. Trata-se de música europeia — mais concretamente, nesta música “Juntos Vamos Conseguir”, a inspiração vem, curiosamente, do metal finlandês, com um cheirinho de Evanescence e dos góticos do século XXI. O que noutras palavras, para os leigos nesta matéria, significa complexidade musical. Claro que levou um pequeno arranjo “eurofestival” para tornar a música mais ao “gosto do festival”. No entanto, a complexidade harmónica, a melodia pouco usual para um “estilo português”, o ritmo (que é bruscamente interrompido a 2/3 da música, retomado de novo após um piano da cantora, ao melhor estilo pós-moderno — outra “ousadia” num palco nacional), aliado a uma interpretação fantástica (que os grunhos apelam de “gritaria” nos blogs e nos comentários do YouTube), tornaram estes 3 minutos memoráveis.

A letra é, como direi… ousada. Talvez tenha sido um pouco “abusadora” a colagem à mensagem de campanha de Barack Obama. Excelente, no entanto, o jogo silábico entre o “Yes We Can” e “Por Tu Gal”. Notável a coragem de apresentar uma música cujo único propósito era mostrar que a Luciana e a sua equipa estavam ali para ganhar com toda a força — com a mesma força que Obama transmitiu também uma mensagem de encorajamento, de não ter vergonha de dizer que consegue, e que de facto… conseguiu. Talvez os meus genes relutantemente adulterados do lado português se sintam chocados com alguém que tenha tanta lata (que os meus genes alemães, no entanto, apenas consideram “coragem” e “vontade” e “desejo de vencer”) de pespegar a mensagem do americaníssimo Obama numa letra de uma música para o eurofestival da canção. Mas não deixa de ser irónico!

Não sei quem é o Carlos Coincas que escreveu a música e parte da letra. Não sigo o panorama musical nacional. Vejo que é alguém descontraído mas que está bem atento ao que é suposto ser uma música digna de participar no Eurofestival. Eis o que ele diz da participação portuguesa nos festivais anteriores:

Acho que nunca fomos à Eurovisão com o objectivo de espectáculo mas simplesmente mostrar a nossa canção e aquilo é muito mais que um desfile de canções!!

Ora nem mais. Pura lucidez.

E quanto à escolha do tema incrivelmente ousado, Carlos apenas diz:

Tema forte que fala da importância que o nosso País devia ter sempre nos nossos corações. Falta orgulho nacional.

Só sei uma coisa: Carlos, abandona este país, és demasiado bom para cá estares. Ninguém te compreende, pá. Não temos orgulho nacional. Isso deve ter sido vendido (ou bem empacotado e arrumado numa gaveta) lá depois do verão quente de 1975.

Ironicamente… a votação do público deu-lhe o primeiro lugar. Talvez sejam os fãs da Luciana (que realmente tem muitos) que tenham votado em massa, de forma organizada, já que blogs e sites de apoio da Lucy não faltam por este país fora.

Mas… o juri (e a RTP) não “gostaram”. 40 anos e picos de Festivais da Canção, já vamos na segunda geração, e ainda não perceberam que as músicas vencedoras não são o resultado de “gostos”. Vencem porque têm complexidade e profundidade harmónica e melódica, porque têm uma interpretação fortíssima, uma presença de palco notável — no fundo, porque são comerciais, porque estão enquadradas no panorama musical contemporâneo, porque têm editoras a apoiar um determinado perfil, e porque são adequadas a um público internacional e não apenas para meia dúzia de parolos e saloios espalhados pelo nosso rectângulo aqui junto ao Atlântico.

Ousadia não faltou à Luciana e ao Carlos. Mas infelizmente tiveram o azar de nascerem no país errado. Este não é o lugar de ser moderno, contemporâneo, forte, ou sequer estar musicalmente seguro. É um lugar de humildade e de dar à parolada aquilo que a parolada mais quer: música de grunhos para um país de grunhos.

Vamos assim provavelmente, uma vez mais, nem passar das semi-eliminatórias em Moscovo, com uma gorducha pseudo-hippie New Age que sabe cantar tão mal como eu (e isso é dizer muito), acompanhada de uma banda mista de caramelos que provavelmente estavam a tocar em playback, que não tinham coreografia, nem sequer para a cantora (como é que ela se chamava mesmo?) cuja única característica foi ter descoberto qual o lado do microfone para o qual se canta (nem sequer sabia dar uma voltinha em torno de si mesma), e que daqui por 4 meses já ninguém se lembra dela.

Mas neste país de humildes lá ficou a ideia de que se devia dar um voto à coitadinha da gorducha, que é tão “típica” e “tradicional” e que “representa aquilo que se faz em Portugal no ramo da música”. “Não à discriminação das gorduchas! Fora com as mamalhudas siliconadas!” dirão uns (e dizem mesmo, vão lá ver os comentários no YouTube…!)

Ironicamente, nem a dita cuja estava a representar uma “música tipicamente portuguesa”. Nem era tradicional, nem sequer “pimba” (e pronto, não há nada mais tradicional que pimba) — não era nada. A letra era de doer — uma coisa tão má, que nem vertida para inglês se safará: os Beatles eram famosos pelas suas letras pindéricas, mas isso foi nos anos 60… E o resto, era tudo mau como sempre: uma melodia sem graça, a harmonia inexistente (será que tinham mais que tónica e dominante), espectáculo zero. Vamos ter uma pseudo-hippie a afundar-se num palco em Moscovo? Duvido. A Bem da Nação, espero sinceramente que por lá o juri a elimine logo e que nem sequer a deixe fazer tristes figuras em público. Vergonhas, que as passemos em casa sozinhos.

Quanto à Luciana, espero que não perca a coragem e a força de continuar pelo caminho que mostrou no Festival da Canção 2009. Provavelmente continuarei a não gostar dela enquanto pessoa. Não me vou inscrever nos sites de fãs dela. Nem sequer a vou elogiar por aí como “o melhor que se faz de música contemporânea portuguesa”. No entanto, verei com algum interesse a sua carreira futura — mas de certeza fora de Portugal. Este “Juntos Vamos Conseguir” está perfeitamente em linha de conta com o que se faz no mundo, e como o nosso Presidente da República gosta de referir, chegou a altura de deixarmos de olhar para o nosso umbigo e darmos palmadinhas nas costas uns dos outros a dizer como somos coitadinhos, e de fazermos alguma coisa — exportando o que temos de melhor lá para fora. São os que estão a olhar para o mundo que vão vingar, especialmente em anos de crise. A Luciana e o Carlos claramente estão no bom caminho.

E se ainda por cima levam uma mensagem de orgulho, mostrando que não têm vergonha de serem portugueses, e a ousadia de mostrarem isso mesmo numa música — então são uns rebeldes, mas uns rebeldes no melhor sentido da palavra: aqueles que não se conformam com o status quo deste “país de coitadinhos” e que procuraram elevar-se acima da Grunholândia. Tiveram os seus 3 minutos de glória.

Os profetas nunca são apreciados nas suas casas. Desejo à Luciana e ao Carlos boa sorte para um futuro melhor. Não é que precisem de que lhes deseje boa sorte: eles já conseguiram (“Yes We Did!”). A Grunholândia apenas merece umas belas bofetadas nessas caras invejosas — talvez quando esta música seja passada algures nos tops em New York como “a inovação musical e o espectáculo de palco made in Portugal“.

Nessa altura já ninguém se lembrará das flores de lis…

Anúncios

3 pensamentos sobre “Festival da Canção 2009: De grunhos para grunhos (de sempre)

  1. Só a título de comparação: vejam o vídeo da canção vencedora espanhola em http://www.youtube.com/watch?v=dYwPvDvsGPM

    E agora vejam como a retratam

    MUSICA arabe + poyeya + vivcancos + chikilicuatre + letra en ingles. DIOS VAYA REMIX ME HAGO CON ESO!

    Somem a isto tudo uma presença de palco exuberante e digam-me lá se uma “Flor de Lis” tem qualquer hipótese sequer contra uma performance destas…

    No entanto, musicalmente falando, a Luciana não fica nada atrás da Soraya espanhola! Um pequeno toque na coreografia para a final, um arranjo ou dois aqui e ali (o minuto final do “Juntos Vamos Conseguir” é o melhor da canção), e posso-vos dizer que a concorrente espanhola iria suar…

    Assim, vai-se rir na cara da florzinha hippie…

  2. Permite-me discordar :-)….

    O grande problema não é os portugueses serem grunhos. Como tu proprio referes eles votaram a canção da Luciana (da qual não gosto em especial) para primeiro lugar. Como votaram para 1º lugar de Grande Português o Dr Antonio Oliveira Salazar (será q o ritmo de marcha da musica tem efeitos subliminais?).

    Portanto as massas têm discernimento, seja ele consciente ou não.

    O problema são as “elites”. Aquelas “elites” tipo Palma Cavalão de quem já o Eça falava. As elites pensantes, tipicamente de esquerda que, curiosamente, gostam muito de se referir ao “povo” e à “sociedade”.

    Essas sim, julgam que a Nação é grunha. E por pensarem isso, selecionam-lhe a musica que “devem” ouvir, produzem as series que “devem” ver. E o resultado é o que se vê: música feita pelas elites para pessoas que as elites julgam que são grunhos.

    Uma vez que muitos se deixam “estupidificar” pelos “bem pensantes” de esquerda (que ironicamente usam a estrategia Fado, Futebol e Fatima para os estupidificar), parece que o geral da população é grunha. Mas não é.

    E no entanto, as elites são precisas. São precisos modelos e líderes (em grande falta em Portugal, como dizia o Sr Presidente da Republica há poucos dias). Num pais normal haveria algum equilibrio nas elites, estando representados os vários espectros politicos.

    Mas em Portugal as “elites” são de esquerda radical ou esquerda “rosa”. Toda e qualquer pessoas que se recuse a não “cantar” no mesmo tom é imediamente sujeita a uma campanha suja nos media (eles proprios de esquerda) e a uma campanha de vilificação junto da população (“fascista!”,”PIDE!”,”porco capitalista!”)

    Mas, como sempre, é de facto o Povo que tem a ultima palavra. Seja nas urnas, num qualquer concurso/sondagem televisiva ou numa votação na Eurovisão. Lá voltaremos, mais uma vez, com um “honroso” 6o ou 7o lugar: as “elites” gostam muito de “relativizar”.

    — MV

  3. Nem estás a discordar muito, Mário 🙂 Na verdade, acho que é exactamente como tu dizes: o “povo” (ou neste caso o fã clube da Luciana) votou em peso no que queria. Mas as ditas “elites intelectuais” (que têm mais de “elite” do que de intelectualidade) acham que o povo grunho precisa de música grunha, daí uma votação para uma coisa como esta nunca poder ser inteira e livremente dada ao “povo” — sabe-se lá, até podiam escolher uma coisa boa para variar…

    Curiosamente ia acrescentar aqui um comentário diferente antes de ver o teu comentário sobre a eleição do Salazar como Grande Português e a polémica em torno dessa decisão — polémica essa que justamente só existia nas mentes da tais “elites intelectuais de esquerda”. Tabu! Cuidado com o povo, que pensa coisas que não deve!

    Claro que tens razão. As elites não querem outra votação noutro Salazar. Bolas, ainda por cima, para grande azar, a Luciana vinha cantar uma mensagem de orgulho, de esperança, de força, até de patriotismo — Cristo nos valha, a miúda se calhar até vota no Portas! — e, claro, uma mensagem de amor sem nexo tem muito mais “neutralidade” e soa melhor aos ouvidos do juri. Amor fica sempre bem. Orgulho nacionalista, nem pensar 🙂

    Mas a Luciana, depois de posar na FHM ano passado, está condenada também por uma outra “elite”, a minoria puritana (ou melhor, católica conservadora) que se chocaria por ver o seu país representado por uma menina com tais, hum, “atributos”. Eis um subtil caso onde a “elite intelectual de direita”, pouco representada nestas bandas, curiosamente se junta à de esquerda (muito mais numerosa) para “boicotar” a vox populi. Ironia do destino, ou só mesmo em Portugal? (Eu na altura achei imensa piada que a Floribella das criancinhas fosse agora uma sex-symbol deixando os adolescentes a babar-se e centenas de lares com a inevitável pergunta do “ó papá, posso comprar o calendário da Floribella para pendurar?…”)

    Ah, e duvido que venhamos a ter um “honroso” 6º ou 7º lugar, Nem mesmo que seja a contar do fim. Duvido que se passe sequer das pré-eliminatórias. Mas a florzinha de lis sempre recebe uma viagem de borla a Moscovo o que é uma excelente “compensação”.

    Já agora, mais algumas correcções ao post. Vendo o vídeo com mais atenção, parece-me que a simbologia, afinal, é mais simples do que pensava. Pelos vistos, cada um dos jovens simplesmente representa um continente (curiosamente, mostrando que existe presença portuguesa em cada continente). Há um momento também simbolicamente forte onde os jovens trocam as suas bandeiras. A mensagem é mais simples: só há uma raça, a raça humana, e esta canção é suposto reforçar essa ideia. As minhas desculpas por tentar sobre-interpretar a estética visual 🙂

    Devo também dizer que se esta canção alguma vez concorresse ao Eurofestival, teria de levar mais arranjos. A parte melhor da interpretação é justamente a final: tanto a nível da actuação da Luciana como do próprio “crescendo” musical, que é muito mais visível no final. A coreografia teria de levar uma afinação; os meninos das bandeiras não mostram grande coordenação. Também não são nenhum corpo de ballet, mas podiam levar umas aulitas. De resto, enfim, duvido que se conseguisse melhor de entre as canções apresentadas no Festival… e eu decerto não estaria à espera de mais 🙂

    Prometo voltar a ver o Festival da Canção em 2020 🙂 A esperança não morre…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s