Opus Magnus

A maior obra (em termos de construção civil e planeamento urbano) do século XXI em Portugal deve estar a ocorrer… sob a minha janela.

Primeiro convém frisar a localização. Não vivo no meio de África ou na América Latina ou nas zonas mais subdesenvolvidas do subcontinente indiano. Pelo menos, penso que não. Vivo na mesma zona que o Exmº Presidente da Câmara de Cascais — a talvez uma centena de metros ou duas de distância, numa zona que não tem nome e que foi em tempos idos palco de experiências de integração sociais. Dependendo de quem perguntam, isto é “Estoril” (pois está na freguesia do Estoril; o Mercado do Estoril e sede da Junta é a dois passos daqui, e uns 60 metros mais abaixo), “S. João do Estoril” (pois é onde fica a estação de combóio mais próxima), ou “Galiza” (pois o centro histórico do povoado com o mesmo nome fica a umas centenas de metros daqui — mas, por outro lado, o centro histórico do Estoril, com o Casino, o Jardim, as Arcadas, e o Tamariz também fica à mesma distância). Os locais chamam-lhe isto a “encosta poente do Vale de Santa Rita”, que tem uma paisagem parcialmente protegida e que é muito bonito, no fundo do qual fica o dito Mercado do Estoril — tradicionalmente, o vale separava as paróquias de “Santo António do Estoril” da de “São João e São Pedro do Estoril” (uma igreja para os dois povoados).

Há uns quinze anos atrás, no entanto, isto tinha um nome bem diferente: Fim do Mundo. Pois do alto deste Monte Leite (um dos locais mais ventosos do concelho, a umas centenas de metros da praia mas já com um cheiro a Sintra, que se vê no horizonte curto a apenas seis quilómetros) via-se um imenso bairro de lata que quase cobria uma parte do vale. Era uma das zonas mais degradadas e problemáticas do concelho.

O anterior presidente da câmara, José Luís Judas, teve um plano malandro. Estes bairros de lata geralmente eram tratados como verdadeiros guetos pelos concelhos limítrofes de Lisboa — e hoje são foco de conflitos sociais graves. As barracas desapareceram, dando lugar a habitação social, geralmente degradada. Mudam-se as paredes, mas não as pessoas.

Judas foi um bocadinho mais inteligente. Em vez de apostar na guetização, resolveu fazer uma integração social. Assim, na larga avenida que passa por trás do edifício onde moro, temos sucessivamente bairros de classe média, um condomínio de luxo, bairros de classe baixa, habitação de custo controlado, e habitação social. Tudo muito verdinho e arranjadinho — alguém que desça a avenida a correr mal se apercebe da diferença. Afinal de contas, quando se vê a roupa pendurada da janela, não é fácil perceber que do lado direito de quem desce estamos a ver Prada ou Cartier nas janelas, e do lado esquerdo roupa da feira de Carcavelos. O ajardinamento, a pintura, e a conservação são as mesmas: não há graffitis, e se bem que se vejam Jaguares novos num dos lados, no outro temos Mercedes muito velhos mas em bom estado de conservação. No supermercado do bairro as Tias de Cascais metem-se com os africanos bem dispostos sempre prontos a mandarem um piropo — e depois a darem-lhes uma mãozinha com as compras se lhes pedirem. E em certos dias quentes de Verão, à noite, temos algazarra entre a comunidade cigana muito divertida a encher as ruas de música — enquanto que o pequeno campo desportivo acolhe o tradicional basquetebol entre os africanos.

Em 8 anos que vivi aqui, houve apenas dois incidentes. Uma família cigana que se descuidou com o gás, houve uma fuga, e um pequeno incêndio. Lamentavelmente faleceram no acidente. E há uns meses atrás um grupo de bêbados partiu um vidro do nosso prédio. De resto isto é monotonamente pacífico. Os vizinhos conhecem-se mais ou menos, seja qual for a sua origem: africana, brasileira, indiana, chinesa, cigana, ou continental. O supermercado africano é, por exemplo, propriedade de um chinês. Nada de estranho nisto.

Não vou ser ousado ao ponto de dizer que é tudo uma maravilha e um paraíso na Terra. Não é. É coexistência pacífica num ambiente limpo e ordenado. E algures no sítio onde ficava o tal bairro de lata está a nascer um megacomplexo social financiado pela Igreja Católica, que há anos e anos que trabalha com as famílias mais pobres da zona. Agora vão ter um espaço de luxo, com ginásios e formação profissional.

Bom, mas nem tudo são rosas…

Ter a vontade de construir bairros de habitação a custo controlado, e megacomplexos sócio-religiosos, é muito positivo. O problema… são as infrastruturas, que foram pensadas para pacatas e semi-abandonadas ruazecas com vivendas com 60 anos, que era o pouco que o Vale de Santa Rita tinha na década de 1950.

Em 2000, quando me mudei para aqui, falava-se em finalmente pavimentar uma rua aqui por trás, cheia de casinhas típicamente saloias (todas ilegais na altura, mas que entretanto foram “oficializadas”). Levaram dois anos.

Em 2005, altura em que deve ter sido aprovado o tal megacomplexo sócio-religioso, resolveram abrir uma rua nova — um trecho de cerca de 50 metros, não mais, permitindo carros passar do bairro de habitação de custo controlado para a rua onde fica o edifício onde moro. Fazia todo o sentido — o trânsito é um caos nesta zona onde faltam as ruas, mas não os edifícios — pois só se podia fazer a travessia a pé entre duas casas. E seria um pretexto para meter esgotos pluviais (que não havia) e talvez mesmo reformular as restantes infrastruturas (luz, água, telefones, e, quem sabe, gás natural, prometido desde 2000 e que cá nunca chegou).

Começa a obra

Li ontem que o Metropolitano do Porto, com 44 km de extensão feitos numa década, ia antecipar prazos para a próxima linha, que iria continuar a ser construída à mesma velocidade: cerca de 4,5 km por ano. Não me parece mal, para um país desorganizado e pobre como o nosso. Não faço a menor ideia do tempo que leva a construir um metropolitano noutro país qualquer, numa cidade assente em granito com ruas estreitas e dificuldade extrema de planeamento urbano. 4,5 km parece-me bem bom!

Cinquenta metros, num sítio pacato, deveria levar uns meses. Talvez menos se fosse bem feito. Mas “uns meses” seria aceitável.

Primeiro foi preciso demolir uma casa que estava incomodamente no meio do traçado da rua. Isso até levou pouco tempo, e sempre se aproveitou o entulho para encher o espaço. Estando no alto de um monte, para se ter uma rua plana, é preciso muito entulho. Mesmo para uns metros.

Levou talvez… uns dois ou três meses. Os vizinhos achavam que estava tudo a correr bem.

Mas havia muito pela frente. As coisas avançavam, centímetro a centímetro… às vezes no entanto parecia que andavam metros para trás. Como, por exemplo, as eternas “aplanadelas”. Faz-se um buraco um dia, lá ficou a terra aos altos. Aplana-se. No dia seguinte, alguém tropeça numa pedra. Aplana-se. Deita-se um pouco de gravilha. Aplana-se. Na semana seguinte a escavadora dá meia volta. Aplana-se. Um ano a fazer isto: aplanar, aplanar, aplanar…

A dada altura parecia não haver mais nada para aplanar. Seria agora?…

Não!

A obra parou, e mais semanas e meses se passaram. Via-se agora claramente que haviam uns problemas…

Esta imagem na realidade é muito mais recente… em 2006 não havia asfalto (ou o que passa por isso…). Mas já se nota o problema principal: postes no meio da rua, assim como uns muros semi-demolidos que ninguém sabe para que servem.

Mas na altura nem havia os lancis dos passeios. Os moradores da vizinhança começaram a preocupar-se. Afinal de contas parecia que a obra estava para durar. Eram apenas uns 50 metros, mas que ninguém se empenhava em coordenar nada. Onde estavam os esgotos? Onde estava a EDP, os SMAS, a Portugal Telecom? Estranhamente ausentes, um dia até apareceram uns ou outros, olharam para o estado da obra, e fugiram.

Chegava o Outono. Começava a época de chuvas, difícil para as obras. A esperança de ter tudo pronto antes do Natal de 2006 era pouco plausível. De vez em quando lá se ouviam os motores do bulldozer, e eis que exclamávamos em satisfação: “Recomeçaram as obras! É desta que isto vai!” Mais uns aplanamentos. Uns dias depois lá desistiam. A estrada mantinha-se fechada e as obras não tinham continuidade.

Foram assim… meses. Em Junho de 2007, ou coisa parecida, afixaram um cartaz informando que aquela obra era uma “variante” (pelo menos ficámos a saber, um ano e tal depois, de que a obra estava registada algures…) e de que tinha um prazo de conclusão previsto para… Março de 2007. Era irónico, o cartaz era lá colocado depois da obra teoricamente ter terminado. Depressa essa indicação desapareceu. Em meio ano, afinal de contas, só se fizeram aplanamentos. E era uma semana ou duas de trabalho… e dois meses sem nada acontecer… para mais uma semana em que finalmente lá fecharam mais um troço da rua, cortaram um muro a um vizinho, reconstruiram-no para se adequar ao novo traçado. Mais aplanamentos, e silêncio por outros meses.

Também não foi no Natal de 2007 que a Câmara nos brindou com estes 50 metros de estrada. Em 2008 apareceu um autocolante por cima do cartaz dizendo que o prazo de conclusão era Junho de 2008. Mas o que efectivamente aconteceu foi esburacarem tudo de novo. Chegou a altura de construir os esgotos pluviais! Levaram semanas, pois não bastavam fazer 50 metros: era preciso ligá-los aos colectores mais abaixo na rua, talvez uma centena e meia de metros abaixo. Em média, fizeram dez metros por dia, às vezes mais, às vezes menos. Mas as boas notícias foram a abertura do troço — em terra batida, sem alcatrão — permitindo a passagem de viaturas. Sempre ajudou ao trânsito!

A partir desta altura as obras redobraram de intensidade… mas sem lógica aparente. Era evidente que começavam a aparecer equipas diferentes, que provavelmente correspondiam aos vários serviços públicos. Por exemplo, num dia, um bulldozer da construtora consegue demolir um muro inteiro, ou meia casa. Mas para partir um murete de meio metro em betão para passar um cano, com um martelo e escopro… levou a um funcionário dos SMAS uma semana de barulheira infernal! (E depois tudo foi refeito quando se chegou à conclusão que estava mal). A dúvida que se coloca é: então porque é que as duas equipas não falaram uma com a outra? O bulldozer demoliria o murete em dez minutos talvez; são umas máquinas impressionantes de operar, e nestes últimos anos tenho andado fascinado com o que conseguem fazer.

Mas não. Em Portugal as obras não se processam assim. É o Sr. Fulano dos SMAS que tem de fazer a obra toda de ligação de um cano, e enquanto o Sr. Fulano — e o seu martelo comprado no AKI há meia hora porque se esqueceu do dele em casa — não terminar, mais ninguém pode trabalhar. Nem os 4 funcionários do SMAS (transportando, a saber, o alicate, a chave de fendas, o livro com as folhas de obra, e o coordenador da obra), nem os trabalhadores da construtora a quem foi adjudicada a rua. Nem mais ninguém. Assim, o Sr. Fulano lá pacientemente picaretava, um centímetro de cada vez, o murete de betão — com um magnífico bulldozer e um jeitoso bobcat estacionados a meio da rua, a metros de distância, pacatamente aguardando um melhor dia.

Para cada centímetro desta rua o mesmo aconteceu repetidas vezes. Uns dias eram SMAS, outros EDP. A Portugal Telecom apareceu um dia e meteu uma caixa no que depois veio a ser o meio da rua, e nunca mais voltou. Os SMAS têm sido os mais activos, estão cá semana sim, semana não, a picaretar muretes de betão com um martelo e escopro; a EDP foi de longe a mais eficiente, fez o seu trabalho num dia, tivémos um corte de minutos, e nunca mais apareceram.

A Portugal Telecom é agora a mais hilariante de todas. Como é bem visível nesta foto mais recente, tem postes no meio da rua! Nada menos do que três. O poste em betão, em primeiro plano, do lado direito, pertence à EDP: foi mudado de sítio em finais de 2006, salvo erro, numa altura em que parecia ainda haver esperança para esta rua! Os telefones e telecomunicações é que nem pensar: não havia maneira de fazer com que a PT mudasse os postes de sítio. Por isso lá os deixaram estes anos todos, até recentemente.

Mas o problema nem é só da PT. Também aparecem uns pequenos muros a meio da rua. Têm tubos metálicos (e recentemente “plantaram” uns de PVC a saír destes) e quem mexe neles são os SMAS. Mexem muito, e mexem há muitos anos, mas os muros a meio da rua permanecem assim há anos. Parece que lhes falta a vontade de acabarem o trabalho. Ou, mais provavelmente, o martelo e escopro já não chegam para remover aquilo (assim de repente, parece-me que levariam um mês e meio para o fazer), por isso lá o deixam estar. “Afinal de contas a PT ainda não retirou os postes,” pensará decerto o Sr. Fulano, encolhendo os ombros.

Há umas semanas atrás vieram finalmente pavimentar a estrada, ou pelo menos parte dela (como de costume, fizeram dois terços do trabalho, e depois cansaram-se e foram para casa dormir). Uma vizinha minha perguntou se era agora que a obra ia acabar. O comentário do chefe de obras na rua, bem audível no meu quarto andar, com um ar trocista, respondeu: “Oh minha senhora… talvez lá para 2012!” Eu sorri nos confins da minha sala com vista para a rua. Claro que era um exagero, mas a verdade é que… pode ser possível!

Dois anos e meio depois de demolirem a casa que estava a meio do traçado da rua, temos uma película escura que passa por asfalto a cobrir parte da rua, e os carros transitam. Temos três postes e dois muros no meio da rua. Um terço da rua até já foi calcetada. O resto mantém-se mais ou menos na mesma: buracos no chão (não se vêem nas imagens) que mostram tubos de PVC ligados a lado nenhum, pedaços de betão correspondentes a condutas e caixas de esgoto espalhadas pela obra deixadas no mesmo local onde foram colocadas há anos atrás.

E na 6ª feira inesperadamente chegou a PT.

Colocaram efectivamente o primeiro poste…

Até subiram a um dos postes para ver que tal estavam as ligações…

Depois, como isto claramente era areia de mais para a camioneta deles… desistiram. Não se fazem coisas destas à 6ª feira da tarde.

Até porque alguém teve uma ideia brilhante: e se escavássemos isto tudo e metessemos os cabos de telecomunicações por baixo da terra em vez de ser pelo ar? Oh Jaquim, tens aí o berbequim? (Sim, porque a PT tem berbequins — e não martelo e escopro — para abrir buracos)

Todos felizes e contentes por terem contribuído para mais um atraso monumental na obra — provavelmente agora irão abrir mais um buraco com 50 metros e tal de comprimento para passar os cabos subterrâneos — lá se foram, deixando os postes onde estavam (agora temos dois no mesmo sítio!). Já têm com que se entreter. Depois faltará derrubar os postes e mudar a caixa de rua (que está no meio da rua) que tem um autocolante a dizer TV Cabo e é novinha em folha: especialmente construída para a ocasião, ou seja, rodeada de asfalto por todo o lado.

A saga continua, claro. Eles não vão desistir. Há ainda muito que fazer — e diriam as más línguas que há ainda tudo por fazer — por isso a obra pode continuar, pachorrenta e pasmaceiramente como até hoje, no meio de muito barulho, trapalhadas, confusões, e equipas que não falam umas com as outras nem emprestam material uns aos outros.

E assim continuará, provavelmente… até 2012.

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