Sustentabilidade, não ambientalismo!

Cool it - The Skeptical Environmentalist's Guide To Global WarmingBjørn Lomborg é o “professor maldito”, a voz no deserto que clama contra o eco-terrorismo. Ele próprio ex-ambientalista, o Professor Lomborg largou os movimentos activistas da protecção do ambiente quando foi contratado pelo governo dinamarquês para elaborar um estudo que ajudasse a orientar economicamente as medidas de protecção do ambiente a tomar.

Pasmou-se o pobre professor quando descobriu os dados reais sobre o ambiente, e a forma como os grupos ambientalistas faziam “pressão” para adoptar medidas ruinosas para a economia. A questão não estava já em discutir se queremos mais árvores, mais biomassa e biodiversidade, jardins nas cidades, rios limpos onde possamos nadar, pescar, e beber água, cidades menos poluídas. Tudo isso era obviamente importante. A questão era a forma como o dinheiro dos contribuintes estava a ser empregue em “políticas ambientais” que não tinham qualquer impacto ou qualquer retorno ambiental e cujo único propósito era… de promoverem uma agenda de esquerda dos grupos ambientalistas mais radicais.

Após ter escrito The Skeptical Environmentalist, mostrando que afinal de contas o ambiente não estava assim tão mau como nos queriam fazer pensar, e, mais importante que isso, estava-se a desperdiçar dinheiro em medidas completamente inúteis sem nenhum impacto (para além de muito falatório nos media), Lomborg tornou-se o Inimigo Público Nº 1 dos grupos “verdes” (ex-“vermelhos”). Foi acusado de tudo e mais alguma coisa, começando por estar “a soldo das empresas poluidoras” e passou por uma expulsão da universidade onde leccionava e fazia investigação científica sobre economia e estatística. A sua expulsão foi largamente noticiada pelos ambientalistas, que viam nisso o comprovativo da ausência de peso das suas análises — e que levou o governo dinamarquês a demiti-lo. Lomborg foi mais tarde “absolvido” pelas altas instâncias do academicismo dinamarquês e re-instituído no seu cargo como docente, mas essa notícia não passou para os media.

Por essa altura, começou a ser demonizado. Com efeito, foi considerado uma espécie de Hitler que negava o Holocausto. Figuras públicas e proeminentes vieram propôr a criação de um Tribunal de Nuremberga para executar sumariamente (com julgamentos fantoches)  toda e qualquer pessoa que se recuse a acreditar que o Planeta Terra vá explodir/arder/submergir/tornar-se inabitável devido às emissões de CO2. A situação tornou-se ridícula e hilariante — comparar Lomborg a Hitler é uma estratégia tipicamente americana quando a única argumentação é emocional e não racional — se quem emitisse esse tipo de declarações não fosse… vencedor recente de um Prémio Nobel da Paz.

Neste novo livro, temos um Lomborg muito mais experiente, que sabe perfeitamente com o que conta da crítica mordaz e feroz do ambientalismo de esquerda, e não esconde que a “guerra” gira em torno de política, não o ambiente. Inesperadamente (para quem tenha lido o anterior livro de Lomborg), Cool It é um livro sobre sustentabilidade. Isto é um termo que está na moda para descreverum grupo (felizmente crescente) de pessoas que não quer viver na sombra do terror dos grupos eco-terroristas (terrorismo é o uso do medo, das ameaças, a criação de pânico, com o objectivo de forçar mudanças políticas que de outra forma não seriam necessárias. Para haver terrorismo não são precisos mortos, embora os grupos de eco-terroristas mais radicais advoguem a violência física contra todos os que não são amigos dos animais, por exemplo, como a PETA), mas que quer um ambiente melhor, saudável, bonito, agradável, livre de poluição, e com utilização de energias renováveis eficientes e baratas. Lomborg afirma-se desde o início como forte partidário desse grupo (assim como eu!).

Cool It é fundamentalmente sobre as implicações de viver num mundo onde a concentração do CO2 é superior à da média dos últimos séculos — e que vulgarmente designamos como “aquecimento global” (embora, efectivamente, Lomborg demonstre que não há correlações entre o aumento de CO2 na atmosfera e o aumento de temperatura, embora haja obviamente uma ligação entre as duas). O desafio de Lomborg é pegar nos dados reais (e separá-los dos forjados; muitas vezes, no entanto, os dados reais são interpretados incorrectamente) e explicar-nos o que é que realmente vai acontecer, e não o que se especula que aconteça.

O segundo desafio de Lomborg é desesperadamente tentar convencer a sua audiência política que para apostar realmente na melhoria das condições de vida dos habitantes do planeta Terra é preciso investir em medidas eficazes. Aqui o ataque dele é fundamentalmente ao protocolo de Kyoto. Lomborg está aterrorizado com uma potencial estagnação da economia mundial até 2100 — causando inúmeros problemas de saúde, de fome, de falta de emprego, de aposta em energias renováveis, tudo porque 180 triliões de dólares anuais vão ser investidos em alterações incrivelmente ligeiras da concentração de CO2 na atmosfera, em vez de irem para coisas tão simples, tão baratas, e tão eficazes como a erradicação da malária.

Lomborg é profundamente pragmático. O apelo dele é às vidas humanas, não a questões “abstractas” sobre se vão morrer mais ursos polares ou se o nível dos oceanos vai subir (ambas as questões são demonstravelmente falsamente representadas — o nível dos oceanos subiu mais nos últimos 150 anos do que irá subir nos próximos 100, e estamos cá para contar a história, e os ursos polares viram o seu número aumentar dramaticamente, apesar de ser permitido caçá-los até à extinção…). O que Lomborg quer é que os seres humanos, em 2100, tenham melhor qualidade de vida, mais saúde, mais dinheiro, mais tempo livre, que conduzam viaturas não poluentes, que vivam em cidades mais bonitas, que tenham florestas frondosas no campo, que possam nadar nos rios e beber água fresca, que não sofram de SIDA, cancro, malária, tuberculose, e que as suas habitações estejam livre de perigo e que sejam ambientes saudáveis. Isto é o “mundo de Lomborg” em 2100 — um mundo que vai ter Invernos menos frios, noites mais amenas, menos mortes pelo frio (morrem dúzias de vezes mais pessoas devido ao frio que ao calor), mais precipitação (quando a temperatura sobe, chove mais) e água fresca e potável, e logo uma agricultura mais fértil. E, se se abandonar a insistência em meter dinheiro em medida inúteis, será um mundo mais rico, tecnologicamente mais avançado e capaz de substituir completamente a sua dependência de combustíveis fósseis, e sem indústrias poluentes — mesmo em países como a China, a Índia, ou o Brasil.

A argumentação é complexa e variada, mas é, como nos restantes livros de Lomborg, muito perspicaz e altamente convincente. Lomborg não “nega” que o aquecimento global exista; nem sequer nega que o aumento do CO2 seja um dos muitos factores que contribuem para isso; também não nega as alterações climáticas (ie. noites menos frias, Invernos mais moderados, mais chuva, alguns países ficando mais frios, outros mais secos) embora comprove que não existe qualquer razão para alarmismos. Talvez um pouco ao estilo de Freakonomics, gosta de nos fazer lembrar que as explicações simplistas estão erradas. Porque é que morrem mais pessoas em furacões e tornados, e porque é que estes causam muito mais danos (segundo os dados irrefutáveis das seguradoras)? Não é porque os furacões estejam mais violentos ou porque hajam agora muito mais; é porque os humanos deslocaram as suas habitações para os locais onde estão mais sujeitos às grandes intempéries, e recusam a respeitar normas de construção. A Flórida, palco dos hurricanes anuais que devastam parte do Estado, e que causam dezenas ou centenas de mortes, tem cinquenta vezes mais população nas zonas costeiras mais perigosas do que tinha no início do século vinte — e que recebem subsídios do Estado para construirem as suas casas em leitos de cheias!

Argumento por argumento, são rebatidos os “conhecidos malefícios do aquecimento global”, sem negar a sua existência ou minimizá-la — o que é minimizado é o seu impacto “alarmista” como os media nos noticiam. E reforçada a mensagem política: os ministros que assinam Kyoto hoje ganham as eleições, mas não vão estar cá em 2100 para verem o resultado das suas políticas. É fácil ser-se “ambientalista” quando se pode fugir às responsabilidades políticas de tomar más decisões económicas…

Os defensores da sustentabilidade demarcam-se da “política de terror”. Recusam a hipocrisia de empolar a “catástrofe iminente” com o único objectivo de obterem subsídios para fazerem investigações pouco científicas e que em nada ajudam o planeta. Em contrapartida, defendem que o dinheiro inutilmente empregue em políticas alarmistas seja, em vez disso, colocada a financiar a investigação e o desenvolvimento de energias renováveis, maquinaria e motores energeticamente mais eficientes, métodos de produção fabril não poluente, e em todo o tipo de medidas realmente eficazes para aumentar a qualidade de vida aos habitantes deste planeta — começando pelo combate às doenças evitáveis (com custos irrisoriamente baixos) e o incentivo ao mercado livre de produção agropecuária (para o qual basta o fim dos subsídios americanos e europeus à produção). Segundo a política sustentabilista, estes objectivos contribuem para que todos tenhamos melhor qualidade de vida. Sujeitarmo-nos ao eco-terrorismo dos ambientalistas só nos faz viver em pânico e desespero, pois não é baixando o CO2 na atmosfera que vamos travar a epidemia de SIDA em África ou impedir os americanos de construirem casas em leitos de cheias no meio das passagens dos ciclones…

Lomborg, como sempre, trás um pouco de sanidade ao debate.

Não tenho a menor dúvida que, tal como aconteceu com o livro anterior, irá de novo ser ameaçado de morte várias vezes. Entretato, segundo A Grande Alface, o cepticismo parece estar a voltar aos cientistas do ambiente.

Obrigado ao Ludwig Krippahl por fazer notar que não há “correlações directas”; ou há correlação ou não há; o pleonasmo usado é mau português e incorrecto, pelo que corrigi o texto acima.

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2 pensamentos sobre “Sustentabilidade, não ambientalismo!

  1. Oi,

    Acho que há aqui uma questão de valor que é fundamental e da qual dizcordo:

    «O apelo dele é às vidas humanas, não a questões “abstractas” sobre se vão morrer mais ursos polares ou se o nível dos oceanos vai subir»

    Tu e ele assumem que a única coisa de valor é a vida humana ou o que a ela se relacione. Assim temos que matar baleisas com moderação porque se não o fizermos ficamos sem baleias para matar e isso é chato.

    Eu estou mais do outro lado. Acho que a perspectiva de animais capazes de sentir deve ser considerada sejam da espécie H. sapiens sejam de outra qualquer. O problema fundamental dessa sustentabilidade é análogo ao problema de escravizar um povo de forma sustentável, por exemplo.

    Ou seja, questiono a tua premissa implicita que só os seres humanos é que contam.

    Outra coisita:

    «Lomborg demonstre que não há correlações directas entre o aumento de CO2 na atmosfera e o aumento de temperatura, embora haja obviamente uma ligação entre as duas»

    O que é que distingue uma correlação “directa” de uma (presumo) indirecta? Parece-me que correlação é correlação. Ou estás a referir-te a uma relação causal? Nesse caso podes explicar como é que ele demonstrou não haver relação causal?

  2. Ludi, é de facto uma premissa assumida claramente.

    De um ponto de vista puramente evolutivo, quase todas as espécies novas que surgem no planeta, associadas a mudanças ambientais aleatórias ou não, podem causar extinção noutras espécies. Se o homo sapiens causou, directa ou indirectamente, mais extinção que qualquer outra espécie ou acontecimento causal, é uma questão filosófica — dado que existiram extinções em massa no passado e vão decerto haver no futuro em que já não haja homo sapiens.

    No entanto, a partir do momento em que acrescentamos uma nova premissa — “somos uma espécie inteligente” — a questão da extinção causada pelo homem passa a ser moral. E aqui podemos começar a especular sobre se é nosso dever, enquanto espécie inteligente, reverter ou anular a extinção causada directa ou indirectamente pelas nossas acções.

    Não vou colocar essa questão moral pois depende de um conjunto de valores, de filosofia, de religião, etc. Dependendo de cada um de nós, da sociedade em que vivemos, da filosofia ou religião que praticamos, a resposta a essa questão pode ser muito diferente.

    Depois essa premissa passa igualmente a definir uma escala de valores que é muito complicada de definir de forma universalmente satisfatória do ponto de vista moral. Matar ursos polares é moralmente condenável porque são fofinhos e peludos, e porque estão à beira da extinção; mas exterminar o insecto transmissor da malária é aceitável, pois só nos causa problemas. Em que medida é que temos o direito moral de classificar o urso polar como “espécie protegida” mas o insecto da malária como “espécie a exterminar”?

    A resposta, claro está, é que acabaremos por classificar todas as espécies animais em três tipos: úteis para nós, inúteis ou perigosos, e indiferentes (mas digno de serem respeitados por justamente não nos afectarem). Os ursos polares, os koalas, e milhões de outras espécies são “indiferentes” — a sua existência ou não não nos afecta directamente. Logo, devem ser “espécies protegidas”. Mas… só se forem fofinhos e peludos…?

    Por outro lado, a maioria (não todos) dos animais “úteis” foram adaptações (por selecção artificial) que tornaram algumas espécies como fornecedoras da base da nossa alimentação. Mas… com que direito podemos nós pegar numa espécie qualquer e modificá-la a nosso gosto para que nos seja útil? Praticamente exterminámos os lobos em grande parte da Europa, mas é moralmente aceitável que os tenhamos convertidos em cães? (O mesmo se aplica aos gatos, claro) É moralmente aceitável termos seleccionado artificialmente uma espécie que se tornou burra e totalmente dependente do homem para sobreviver, unicamente para nosso conforto, como aconteceu com as ovelhas?

    A maior parte das pessoas dirá que “sim”, embora sem explicar então porque é que continuamos com o “direito” a exterminar insectos e outro tipo de “pragas”. Então não têm o mesmo “direito moral” a existirem que as ovelhas, vacas e cães?

    Um grande número de pessoas — basta pensar nos budistas, por exemplo — condena toda a forma de consumo de carne animal, justamente porque considera “moralmente inaceitável” a caça ou a selecção artificial de animais para consumo da sua carne. No entanto, não têm qualquer preconceito contra o extermínio e massacre de espécies vegetais (tão vivas como as animais). O argumento é que as plantas não “sentem” nem “sofrem” se as matarmos, comermos, ou manipularmos geneticamente. Mas será mesmo assim? Como podemos ter tanta certeza disso? Se a vida é “sagrada”, porque deveremos discriminar as plantas e dizer que estas não têm direito à vida (assim como todas as criaturas feias, nojentas, asquerosas, ou perigosas…)?

    E as restantes criaturas? Bactérias, fungos, algas… não são seres vivos também? Julgo que a abordagem filosófica irá então no sentido de saber se estes seres vivos todos sofrem ou não quando são mortos. E isso é complicado, pois não lhes podemos perguntar. Nos mamíferos é muito mais simples ver quando estão a sofrer.

    Adiante. O Bjørn Lomborg na realidade é muito mais esperto que eu, e não parte de nenhuma premissa “moral”. Tudo o que ele diz é que se queremos salvar os ursos polares, basta proibir a sua caça — e controlar essa proibição de forma a que seja eficaz. Ele não se preocupa com a moralidade, mas apenas com os mecanismos económicos que permitam implementar uma determinada política da forma mais eficiente. No caso da “salvação dos ursos polares”, o mecanismo economicamente mais eficiente é proibir a caça. Alegar que essa medida “não é a que nos interessa realmente” é o argumento dos anti-Lomborgianos; atacam o bom professor por ele estar a apresentar soluções com impacto imediato a um custo mínimo (e não outras). Mas Lomborg é um cientista; a área dele é a estatística aplicada aos processos de decisão políticos; e, nessa qualidade, ele apenas apresenta as soluções que fazem sentido economicamente e deixa a “moralidade” de lado — embora, é certo, ele dê um ênfase à salvação de vidas humanas em primeiro lugar. E isso significa, para ele, coisas como exterminar a malária (independentemente do potencial “sofrimento” dos mosquitos…). Significa também que se tivermos um orçamento limitado (e os orçamentos são sempre limitados), temos de prioritizar os gastos públicos, e que é apenas bom senso começar pelas medidas mais baratas com maior impacto. Assim, exterminar a malária, vacinar África contra a SIDA, introduzir métodos de cultivo e sementeiras mais eficientes, são maiores prioridades (por serem baratas e terem um impacto na salvação de vidas humanas muito maior) do que a terraformação do planeta para permitir 0.06 ursos polares de sobreviverem anualmente em 2100 — quando proibir a sua caça eliminaria imediatamente o problema numa questão de meses e não décadas.

    Quanto à “correlação directa” é de facto um pleonasmo; obrigado pela correcção do português 🙂 Já vou mudar isso.

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