O “Triunfo dos Geeks” Nacional

Mário ValenteO tempo passa. O Mário fez por estes dias 39 anos. Se tivesse nascido nos Estados Unidos ou noutro país desenvolvido, estaria neste momento ao nível de um Richard Stallman ou de um Tim Berners-Lee, com a projecção do Linus Torvalds, mas com o espírito empresarial do Marc Andreessen (nos seus tempos de glória).

O Mário falava com essas pessoas diariamente; a Internet, nesses tempos, era uma coisa global, mas pequenina. Toda essa gente era simpática, acessível, conhecedora, e informativa. Respondiam aos mails. Não eram super-estrelas como os media gostam de nos fazer querer; eram técnicos, com filosofias entre o libertarianismo e o capitalismo laissez-faire, e tinham ideias para modelos de sociedade que poderiam funcionar, se por acaso alguma vez fossem implementados. Isso nunca iria acontecer “no mundo real”, mas decerto se podia experimentar na Internet. Ou não? Eram “bons velhos tempos” em que todos se conheciam e todos estavam fascinados com o que se podia fazer. Conheci-o em 1992, se não me falha a memória. Andávamos os dois metidos lá no LNEC, esse nosso laboratório de investigação em engª civil que, por um acaso histórico, teve o primeiro computador de cálculo científico em Portugal. Depois teve o primeiro PDP-10 e o primeiro PDP-11 em Portugal; mais tarde, o primeiro supercomputador vectorial (que entretanto foi totalmente abandonado). Lá para 1990, copiando o modelo americano da NCSA, o LNEC, no seu centro de cálculo, albergou aquilo que havia de ser o nó central de toda a Internet portuguesa — o PIX (Portuguese Internet Exchange) — primeiro a nível académico, mais tarde estendendo-se ao espaço comercial. Talvez fossem “anos de glória” em que quase se conseguiu acompanhar os modelos importados da América para o crescimento da Internet, mas que iriam, em poucos anos, seguir um rumo muito diferente.

O Mário e eu éramos um putos irreverentes (a culpa é dele, que eu sou um gajo certinho) que tinham a mania que haviam maneiras melhores de fazer as coisas. Não tínhamos receitas nem ideias pré-concebidas; a Internet era o espaço de diálogo com um mundo que estava a reinventar-se, e a gente absorvia tudo. Ele era sempre o primeiro a descobrir tudo o que era novidade por aí fora, e eu o primeiro convertido (o que não era muito difícil). Estávamos a programar porcarias com sockets quando ele apanhou o HTML/HTTP a ser lançado pelo Tim Berners-Lee. Não fiquei muito impressionado; parecia uma variante do Gopher, que estava mais na moda, e embora fosse um pouco mais flexível, editar HTML “à pata” era mais difícil do que meter um Gopher no ar. Enquanto isso, apanhámos um velho PC e instalámos o Linux com o X nele, lá para meados de 1993. Assim podíamos ambos ter uma workstation a cores (éramos uns privilegiados), com a vantagem de que no Linux podíamos instalar o que que quiséssemos, enquanto que nas restantes workstations o sysadmin não nos dava a password de root (o que não quer dizer que não a tivéssemos hackado uma vez por outra). Quando o Mário instalou pela primeira vez o Mosaic ficámos siderados. À nossa frente estava claramente o futuro. Mas ninguém iria acreditar em nós.

Criámos o primeiro site português para o LNEC, num projecto perfeitamente não-oficial, mas que se “oficializou” pouco depois. Nessa altura a World-Wide Web era tão pequena que haviam listas que mostravam os sites novos do dia, que consultávamos avidamente; e o Mário lá conseguiu meter o “nosso” site na lista: Portugal já não estava isolado do mundo. Mal estava o site no ar que ensinámos o pessoal do INESC a fazer o mesmo; umas trocas de emails e uns posts na USENET, uns pedacitos de HTML trocados, e pronto, Portugal duplicava a sua presença na WWW em poucos dias. Partimos para o próximo projecto: paginazecas estáticas não tinham piada nenhuma. A força da WWW vinha com o CGI e a possibilidade de aceder a servidores com aplicações remotas num interface universal. Ainda hoje as pessoas falam em “navegar na Internet” quando na realidade o que estão a usar é um interface universal para aplicações remotas — coisas que no início dos anos 90 eram objecto de estudo nas universidades, mas ninguém acreditava que isso alguma vez saísse do meio académico.

Fizémos a primeira intranet em Portugal. Nessa altura ninguém sequer lhe chamava isso. Era um conjunto de aplicações diferentes — listas telefónicas, formulários de requisição de serviços, arquivo documental — para ser usado internamente no LNEC. A palavra “intranet” apareceu lá para 1999 ou coisa parecida; em 1994 já funcionava no LNEC, e por ironia do destino até era usada por alguns funcionários em browsers em modo de texto. Penso que o LNEC foi a primeira entidade em Portugal a ter telefonistas a receberem formação na Web para consultarem listas telefónicas e deixarem recados, por email, aos engenheiros.

Era evidente que o ambiente asfixiante da investigação estatal era demasiado pequeno para o Mário. Em finais de 1993 começou a achar que o que era preciso fazer em Portugal era criar um ISP. Em Junho de 1994, tinha um PC velho a correr Linux no escritório em casa dele, com dois modems ligados, e recebia emails e news para o domínio esoterica.com. Quando eu fazia manutenção remota do servidor, tinha de me ligar por um dos modems, desligar quem estivesse ligado ao outro, e ligar-me a Inglaterra para ir buscar o nosso feed de email e news. Era giro. Era também caro. Mas havia gente que nos pagava para ter acesso, a custo de uma chamada local, e em regime de flat fee, a email e news, fora das tiranias opressoras das universidades, laboratórios de investigação, e do caríssimo Portuguese Unix User Group, que basicamente servia o mesmo propósito. Portugal, por essa altura, tinha duas ligações permanentes de 64 Kbps para o resto do mundo; a gente, em casa do Mário, tínhamos 28Kbps. Era um princípio.

Em Abril do mesmo ano, assistiu-se a um congresso, patrocinado pela FCCN, sobre “Portugal e a Internet”, em que a famosa frase de Iriarte Esteves ficou para a história: “Nunca nos ligaremos a essas coisas dos americanos”. Em Outubro, o grupo PT volta atrás com a palavra e lança o serviço Internet via Telepac. Arrancou com email, telnet e FTP, e “WWW para breve” — o Mário até lhes oferece ajuda a configurar o servidor Web deles.

Depois, enfim, em Fevereiro de 1995, passou-se à constituição de uma empresa; depois, já a funcionar nos primeiros escritórios em Benfica — uma salinha alugada num centro de escritórios — a Esoterica ganha a primeira ligação permanente à Internet em Agosto de 1995. Um dia o Mário chega-me com um router Cisco por baixo o braço e olha para mim sorridente: “Toma. Configura-me lá isto que temos a linha dedicada a funcionar.” Deu-me meia hora para estabelecer a ligação. Não havia manuais. Que pesquisasse na Internet. Nunca tinha visto um router na vida. Mas ficou a funcionar. Muito bem, por sinal. Depois disso começamos seriamente a contratar pessoal. Alguns, como o Gonçalo Valverde, foram totalmente contratados via Internet — via IRC e email. O Paulo Laureano, veterano das guerras das BBS, junta-se à equipa também nessa altura — porque o Mário e o Paulo viam a fusão das antigas BBS na Internet, com a sua vasta comunidade de utilizadores e longa experiência, como algo de inevitável. E assim foi. A Internet é uma sucessão de “absorções” de tecnologias antigas por parte das mais recentes (“Resistance is futile… you will be assimilated”). Aqueles que se adaptaram a este brave new world cá continuam para contar a história.

Não sou o biógrafo oficial do Mário 🙂 por isso se calhar nem sequer contei a maior parte das coisas que ele considera importantes. Foi provavelmente a primeira pessoa a fazer o download do Doom via Internet (e eu a vítima do primeiro netgame de Doom contra ele…). Passou a vida toda a programar jogos de computador, e, que eu saiba, continua a fazê-lo. Passou por várias bandas rock — do bom e velho rock que nunca morre — e era um guitarrista razoavelmente bom, mesmo que passasse mais tempo à frente de teclados… de computador. Teve o seu próprio bar. Lançou uma empresa de desenvolvimento de aplicações web depois de ter saído da Esoterica. Trabalhou como consultor a ensinar empresas a reduzirem custos adoptando tecnologias “como deve ser” – no verdadeiro espírito do consultor, que ensina pessoas a reduzirem custos, não a aumentá-los com brincadeiras tecnológicas que não interessam a ninguém, e explicando-lhes processos diferentes de gestão empresarial. Foi um early adopter em Portugal do guerrilla management: a noção de que se juntam equipas de pessoas (com backgrounds possivelmente diferentes) para um projecto específico, com uma hierarquia bem flat, que depois se desfazem e reagrupam para o projecto seguinte.

Ateu tolerante (até se casou numa igreja católica… mas a parte forte do vídeo do casamento foi ter tocado, com algum esforço, numa banda rock agrupada no momento sob “desafio” do irmão), sempre irreverente, defendeu durante muito tempo o libertarianismo e o capitalismo laissez-faire, com uma breve passagem pelo transhumanismo e extropianismo, antes desses movimentos terem apanhado com uma certa dose de publicidade negativa. Passou mais de uma década a escrever vorazmente manifestos contra a política de despesas inúteis do Estado português em matéria de informática. Em 1994, dizia publicamente que o que este país precisava era de aproveitar a sua posição geoestratégica para se tornar líder das telecomunicações mundial, fazendo a ponte entre a Europa, a América, e a África, aproveitando o facto de termos fronteiras marítimas com os Estados Unidos (é verdade!), ilhas dispersas pelo meio do Atlântico, e estarmos a 400 km de Marrocos — situação invejável para passagem de cabos submarinos. A plateia ria-se muito quando ouvia essas coisas; mas se alguém o tivesse levado a sério, Portugal seria o hub principal da Internet europeia, e não cidades como Londres ou Amsterdão. E o investimento teria sido minúsculo.

Após um MBA, pregam-lhe uma partida — convidam-no para Presidente do ITIJ do Ministério da Justiça, justamente para colocar em prática essas ideias mirabolantes. Notoriamente apartidário, é escolhido por isso mesmo — foi a voz da razão durante estes anos todos e desconfiou dos grupos de interesse que apenas vêem no Estado português um manancial de dinheiro infindável, desperdiçado porque ninguém tem “coragem” para assumir posições de força. Dizia o velho ditado que “ninguém é despedido por comprar IBM”. É preciso muito mais do que coragem e tomates para expulsar a IBM (ou a Microsoft…) e substitui-la por soluções estupidamente mais baratas e incrivelmente mais eficientes, tanto em recursos humanos como disponibilidade. Não é fácil. Há demasiados interesses envolvidos, demasiados postos de trabalho a assegurar, demasiados favores a pagar. Mas num país pobre como o nosso, não se pode menosprezar a importância da substituição de soluções demasiado caras e luxuosas para um país como o nosso por outras que são muito melhores e mais eficazes. Se era preciso alguém com coragem para assumir esse papel, era o Mário. Muitos teriam recusado o desafio — de trabalhar 16 horas por dia a metade do salário pago a um consultor em topo de carreira, lutando contra todo o tipo de adversidades — mas o Mário não é assim. É leal. E tem um sentido de dever cívico, talvez um pouco estranho quando pensamos nele como um irreverente com os seus próprios ideais políticos e filosóficos, mas perfeitamente razoáveis quando nos lembramos da educação tradicional que levou 🙂

Rebelde, o Mário é o nosso “Triunfo dos Geeks” nacional. Se vivesse em Inglaterra, seria uma espécie de herói britânico; se vivesse nos Estados Unidos (embora não sob um regime republicano…), seria neste momento uma super-estrela, uma net celebrity, e após sair das suas funções governamentais, provavelmente teria o seu próprio talk show convidando outras net celebrities e teria o blog mais lido do planeta. Infelizmente, teve o azar de nascer em Portugal, onde só têm notoriedade os criminosos, os jornalistas e analistas políticos, os políticos de topo, e os dirigentes de clubes de futebol.

Mas pelo menos não é esquecido pelos amigos, mesmo aqueles que têm as suas agendas electrónica pifadas e que não se lembram dos aniversários de ninguém (como eu 😛 ) e se esquecem de telefonar. O Mário fez esta semana 39 anos. Nas suas palavras, vai agora repensar a sua vida e preparar a próxima etapa; pessoalmente aguardo com expectativa o que vai sair de uma das mentes mais brilhantes que tive o prazer de conhecer.

E fica aqui o link para o blog dele: http://mv.asterisco.pt/. Bom, não é um blog como os outros, mas nada no Mário é convencional. Além disso, o pessoal que já tinha uma “página pessoal” em 1993 sinceramente já viu de tudo e leu de tudo. Mas até no blog dele há inovação… de formato e conteúdo.

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9 pensamentos sobre “O “Triunfo dos Geeks” Nacional

  1. “Mas pelo menos não é esquecido pelos amigos, mesmo aqueles que têm as suas agendas electrónica pifadas e que não se lembram dos aniversários de ninguém (como eu 😛 ) e se esquecem de telefonar.”

    Seu geek insensível! 🙂

    “uma das mentes mais brilhantes que tive o prazer de conhecer.”

    De facto, concordo contigo. O último ano tive oportunidade de trabalhar com ele, que já admirava há longa data e confirma-se, não só dá para se ter uma conversa inteligente, como é alguém com uma cultura e experiência, e acutilância terrivel :), fora do normal.

  2. Foi à sensivelmente 12 anos que tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com o Luis Sequeira e o Mário Valente, altura em que a Esotérica fez uma parceria com a empresa onde eu trabalhava, acabada em bit e começada em Hiper 😉
    Isto para dizer que foram estes dois senhores que me levaram a começar a brincar com uma coisinha nova: Linux
    Ainda tenho ali uma recordaçao: Slackware 3.0 box 😀

  3. “Rebelde, o Mário é o nosso “Triunfo dos Geeks” nacional. Se vivesse em Inglaterra, seria uma espécie de herói britânico; se vivesse nos Estados Unidos (embora não sob um regime republicano…), seria neste momento uma super-estrela, uma net celebrity, e após sair das suas funções governamentais, provavelmente teria o seu próprio talk show convidando outras net celebrities e teria o blog mais lido do planeta. Infelizmente, teve o azar de nascer em Portugal, onde só têm notoriedade os criminosos, os jornalistas e analistas políticos, os políticos de topo, e os dirigentes de clubes de futebol.”

    Sim, quer dizer, a culpa é do pais. Isso do sucesso é uma coisa complicada, e se um não tiver o sucesso que acha que merecia a culpa é logo dos portugueses e de Portugal.

    O Tim Berners-Lee não estava nos EUA nem no Reino Unido – estava na Suica, no CERN – onde um português podia igualmente estar, e onde um português podia igualmente ter criado a Web. Não aconteceu – azar, mas dai até afirmar que é porque o Mário Valente “é português” ou “nasceu em Portugal” é a falácia típica dos portugueses, a vulgar vicissitude portuguesa em acção – daqui a pouco o Mário Valente não se tornou o Linus Torvalds não porque não escreveu um clone do UNIX, mas por causa do Valentim Loureiro.

    As parvoíces do costume – haja vergonha, humildade (que isso sim, é coisa rara em Portugal) e um pouco de tento na língua.

  4. A culpa não é do país — é dos portugueses 🙂

    Vou deixar aqui um desafio. Elabore uma lista de portugueses, nascidos em Portugal (mesmo que não tenham vivido cá) aí durante a 2ª metade do século XX, cujos nomes sejam reconhecidos internacionalmente por, digamos, 1% da população mundial. Será que consegue listar 10 nomes? Óptimo. Retire todos os que sejam jogadores de futebol ou músicos. Muito bem. Quantos restam?

    (Espero que tenha lá ficado pelo menos o António Damásio… e provavelmente o Manoel de Oliveira e o José Saramago… e com sorte talvez a Mariza ou os Madredeus, se quisermos pegar em exemplos de world music com projecção internacional)

    Agora vamos pegar num outro país qualquer da Europa e fazer a mesma coisa, obviamente ajustando para o tamanho da população (a Espanha, por exemplo, não deverá ter uma lista mais de 3 vezes e meia maior).

    Assumindo que a inteligência (ou a burrice) estão uniformemente espalhadas pela espécie humana, porque é que essa distribuição de nomes é tão desfavorável para Portugal?

    Talvez — sugiro eu — seja porque não nos promovemos no estrangeiro, como os outros fazem cá? Muito bem. Mas isso não é uma questão de atitude? Porque não nos promovemos como os outros? Decerto não é por causa do “tamanho” — há países menores que o nosso que promovem os seus cidadãos muito melhor. Portanto, onde está a “falácia” aqui? Acaso a nossa auto-promoção não é, efectivamente uma responsabilidade nossa?

    Mas talvez seja porque nem sequer nos promovemos cá dentro — quando temos tanta notícia sobre criminosos, jornalistas, analistas políticos, políticos, e dirigentes de clubes de futebil, como resta ainda espaço para o resto? Mais uma vez, onde é que está aqui a falácia? (Há, felizmente, muitos e bons programas de TV e rádio sobre ciência, artes e cultura — mas quem os vê? Se está o Benfica a jogar, já mais ninguém muda de canal… e a Britney Spears na rádio tem mais audiência em 6 minutos que a Antena 2 num mês inteiro)

    Por outro lado, nem sequer há uma predisposição para considerar essas pessoas interessantes ou dignas de notícia. O puto de 12 anos que chumba 5 vezes o ano (mas que passa administrativamente à mesma) tem ambição para ser jogador de futebol, não cientista ou músico de ópera. Mas então de quem é a culpa? Decerto não é por o puto ser burro, a não ser que consideremos que realmente a burrice não é distribuída uniformemente, mas que temos o “azar” de termos mais que a média (recuso-me, no entanto, a aceitar isso, sem dados relevantes e estatísticas tratadas por profissionais).

    Mas há mais. Temos, realmente, vergonha — vergonha de mostrarmos o que sabemos fazer e de espalharmos isso aos outros. É um sentido de modéstia — que em si só é uma virtude — mas que infelizmente, num mundo que também compete culturalmente a nível global, a nossa modéstia não nos leva a promovermos quem merece. Também aqui onde está a culpa? Argumento que é devido a uma “cultura da modéstia” — em si só, como disse, benéfica no sentido de ser uma atitude elegante — mas que depois nos prejudica. Não gostamos de falar do que fazemos bem.

    Em compensação, não nos importamos nada de falar do que ganham os jogadores de futebol ou dos dramas mediáticos dos jornalistas e políticos.

    Ninguém afirmou que os outros países não tenham o mesmo; pelo menos nos casos ingleses, alemães, franceses, e italianos, há também uma “cultura do tablóide”. Tem o seu papel. É importante. Tem mercado. No entanto, não é o único mercado possível, nem se calhar o maior. Contraste isso com o que temos em Portugal: há cultura do tablóide. Os portugueses não lêem. Não percebem o que vêem na TV. Não aprendem nada na escola. Não querem saber de nada a não ser com quem é que o Cristiano Ronaldo anda agora metido.

    Ora então vamos a tentar perceber o que é que é a “parvoíce” aqui. Em que sentido é que tudo isto está errado? Quando digo que “a culpa é do país” é no sentido de que o país é composto por nós, portugueses, e que somos nós, portugueses, que pensamos desta forma; e como pensamos desta forma, é assim que ensinamos os outros a pensar. E quando fazemos isso, educamos mais gerações de portugueses a pensar dessa maneira. Portugueses esses que crescem e tornam-se jogadores de futebol e criminosos — ou então jornalistas e políticos, e que por sua vez vão pensar dessa mesma forma também. E que vão dar indicações — através dos media, através das estruturas governamentais — que se continue a pensar assim, desta forma “à portuguesa”. O ciclo repete-se e repete-se e repete-se.

    O amigo feathersword tem facilidade em chamar a isto “as parvoíces do costume” sem apontar porque é que são “parvoíces do costume”. Já agora, só para chatear, o Mário até escreveu um clone de UNIX… corria a partir de uma disquete… era uma coisa gira (e muito útil numa emergência)… mas isso tem alguma relevância? As pessoas pensam que o Linus Torvalds ou o Tim Berners-Lee são pilares de sabedoria, luminários num mundo obscurantista, cujos raios subitamente despertaram o mundo para uma Nova Era. Não era nada disso. Eram humildes cientistas, cada qual na sua área, a estudarem umas coisas, a trocarem emails com os amigos. Alguns desses emails eram respondidos pelo Mário — ele “fazia parte do grupo”. Simplesmente o que aconteceu foi que as respectivas entidades onde estes senhores estavam subitamente se aperceberam de que estava ali uma coisa nova e diferente e resolveram promovê-la. Primeiro a nível da entidade; depois a nível nacional; depois, enfim, abrindo as portas ao resto do mundo. Simplesmente porque, ao contrário de nós (ninguém cá em Portugal estava minimamente interessado no que o Mário andava a fazer), lá fora a mentalidade é totalmente diferente — se as coisas são importantes, são e devem ser apoiadas. Cá, se não estivermos a falar de futebol ou política, o resto não interessa. Não é notícia, e se não é notícia, não vale a pena pegarmos nela.

    Se o tal hipotético português estivesse no CERN a inventar a World-Wide Web (e note-se: estavam muitos por lá que eram colegas do Tim), a World-Wide Web não teria sido “inventada” de todo. Haveria algum burburinho à volta disso no CERN. Haveriam alguns académicos que achariam piada à coisa. E ficava por aí; era mais um projecto “perdido”. Depois algures, noutro país, noutro sítio, alguém acabaria por inventar uma outra coisa qualquer, e teria sido essa “coisa” que teria sido a killing application da Internet, e não a Web.

    Ser-se “inventor” (ou “visionário”) em Portugal é um estatuto ingrato, mas não é por mais nenhuma outra razão que a que eu apontei: a forma como pensamos influencia tudo o que fazemos, e apesar de termos muitos luminários (e muitos que são mesmo excepcionalmente acima da média), eles não têm a menor hipótese de sucesso. Faz-me sempre lembrar o Prof. José Encarnação, director de um instituto de computação gráfica na Alemanha, multiplas vezes galardoado com vários prémios e com a medalha de mérito do governo alemão pela sua contribuição para a ciência. Cá nem sequer é referido nos livros da especialidade.

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  8. É muito interessante. Vi a reportagem no Expresso. De facto, não o conheço, mas deu para ver que “ama” a tecnologia e a informática e que reconhece o que realmente é.
    É um exemplo a seguir.
    P.S. ( Eu que quero ser engenheiro informático ainda tenho todo o secundário para estudar. Mas sei que vai valer a pena.)

    Cumprimentos e parabéns pelo blog.

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