Coordenar um Governo

yes-prime-minister.jpgOntem tive oportunidade de rever alguns velhos episódios da famosa série “Yes, Prime Minister” que passaram na BBC em 1985 (e na RTP2 pouco tempo depois). Há um episódio, chamado “A Cortina de Fumo”, em que Jim Hacker faz uma série de manobras sinistras no seu próprio Gabinete, de forma a conseguir levar a sua avante (e é um dos raros episódios em que consegue!). A parte interessante é a apresentação do Gabinete como uma estrutura totalmente descoordenada e disfuncional, onde cada ministro tem a sua agenda política, que nem sempe coincide com a do próprio primeiro ministro — todos parecem lutar internamente pelo seu quinhão de “poder”, apesar de serem do mesmo partido, e “facadas nas costas” uns dos outros é uma constante. No final, Hacker lá consegue que a Saúde, o Desporto, e as Finanças lhe aprovem um corte nos impostos, ameaçando impôr políticas anti-tabagísticas que, embora moralmente fossem correctas, financeiramente (em termos de arrecadação de impostos) seriam ruinosas — e usa essa “arma” para conseguir o que pretende.

Dizemos que é “apenas uma série de TV” — hilariante, decerto, e um pouco “datada”, com as referências obscuras ao período do final da Guerra Fria. (Humphrey: “Antes de ser PM, aceitava convites das grandes tabaqueiras para ir a eventos culturais e desportivos, e isso podia ser agora visto pelos media como estando a obter frutos da sua ‘hospitalidade’ — e agora quer destruir as tabaqueiras?” Hacker: “Disparate! Ainda semana passada estive na embaixada soviética a tomar um cocktail —isso faz de mim um espião russo?!”)

No entanto, quando olhamos para a actualidade portuguesa, perguntamo-nos a nós próprios se o nosso Governo não funciona realmente assim. Recentemente, o nosso estimado Ministro do Turismo anunciou uma medida de financiamento de uma campanha de promoção de Portugal no estrangeiro, a uma escala nunca antes vista, presumindo-se que vá apelar aos turistas de “luxo” que irão encher os nossos campos de golfe (entre os melhores da Europa) e os nossos resorts de luxo. É, finalmente, uma medida há muito esperada, e faz todo o sentido.

Por outro lado, a Ministra da Cultura anuncia o despedimento do director do Teatro de S. Carlos, em Lisboa, por este se recusar a incorporar a Companhia Nacional de Bailado. Na cabeça da Srª Ministra, pensa assim: o Teatro de S. Carlos estava finalmente a dar lucro; a CNB continua a dar prejuízo; dado que a Gulbenkian cortou com o seu corpo de ballet, a CNB “absorveu” alguns dos seus directores criativos e coreógrafos, e provavelmente alguns dos bailarinos, logo, tornando-se financeiramente mais instável; portanto, toca a “recompensar” o Teatro de S. Carlos, passando a assumir as duas coisas — uma estrutura lucrativa com uma estrutura cheia de prejuízos, que depois se equilibrarão mais cedo ou mais tarde. O director do S. Carlos demitiu-se e foi prontamente substituído… continuando assim a saga do Ministério da Cultura, que em dois anos de Governo não apresenta uma única medida de jeito.

Entretanto, o Aeroporto da Ota abriu mais um capítulo de polémicas. Vamos ter aeroporto novo ou não? E a rede de combóios de alta velocidade? Só sei que quem ganha com isto são os consultores, que continuam a elaborar projectos atrás de projectos. O facto é que se “acabaram” as auto-estradas todas (ou quase) e não há mais para fazer nesse aspecto; tem de se encontrar algo para fazer, e o Mário Lino deve andar por lá desesperado por não encontrar um local onde meter a sua “marca”.

O que tem então o Turismo a ver com a Cultura e com as Obras Públicas? Bom, peguemos no exemplo do Jim Hacker, que misturava Saúde, Desporto e Finanças, e associava-os à indústria tabaqueira. À partida podemos ver a relação (óbvia) entre Saúde e tabaco, mas não parece haver associação qualquer com os restantes ministérios — até vermos o episódio e compreendermos que um Gabinete — em Portugal, o Conselho de Ministros — deve agir com planos concertados se quiser fazer as coisas bem feitas. O episódio é particularmente cínico, mas mostra para que é que realmente os membros do Gabinete estão lá sentados em reuniões de trabalho: para coordenarem esforços conjuntos.

Imaginemos que a promoção de Portugal como destino turístico no estrangeiro era, realmente, um esforço conjunto. Se vamos atraír “turistas de luxo” (neste país de lixo — mas muito bonito!), não basta a “promoção”, embora essa seja, efectivamente, a primeira coisa a fazer. “Turistas de luxo” não vão para a praia o dia todo para apanhar cancro de pele; depois de saírem dos campos de golfe, vão a eventos culturais. Querem ir à Ópera ou ao teatro. Querem assistir a espectáculos de luxo. Querem gastar dinheiro em casinos. Querem ver coisas únicas da cultura portuguesa, que faça distinguir o “campo de golfe português” de, por exemplo, um campo de golfe escocês ou no Botswana. Mas… a Cultura não pensa assim, pensa apenas em cortes de dinheiro e na forma de como encerrar o maior número de coisas de forma a que tenha dinheiro para pagar salários aos funcionários do Ministério.

Em vez disso, deveria estar a coordenar esforços — se se vai promover um campo de golfe em Sintra como destino turístico, então é preciso ter equipamentos culturais ao lado. É fazer a Festa da Música de Sintra ter impacto internacional. É colocar cartazes na rua. É distribuir agendas culturais nos campos de golfe. É ter verbas para autocarros que levem os turistas para onde se pode ter uma oferta cultural. É essa série de coisas que negligenciamos e que “custam dinheiro” e são “uma chatice de fazer”.

Mas é preciso mais. Se temos um campo de golfe no meio do Alentejo (no Alqueva?) como é que os turistas lá se deslocam? Com certeza que o combóio de alta velocidade só interessa nos trajectos Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid por questões de pura economia, mas e o resto das zonas turísticas do país? Que tal colocar algum alcatrão nas estradas, por exemplo? Nem todos os turistas têm os seus 4×4 ou gostam de fazer cross-country, embora esse aspecto — ou o do ecoturismo — não deva ser negligenciado, já que é “moda”. Portanto, o que fazer com o turista no Alqueva que quer ir assistir a uma ópera ou um concerto de música barroca? Onde é a cidade mais próxima para isso? (A resposta provavelmente será: “algures em Espanha”)

Não é preciso ser-se um “génio iluminado” para se perceber que tudo isto junto se podia integrar numa iniciativa mais global (ou que parecesse mais global) a nível da mensagem que o nosso Primeiro Ministro devia passar aos portugueses. O problema das “medidas avulsas” é que dão a entender que, como no governo fictício de Jim Hacker, os ministros não falam uns com os outros e só se preocupam em angariar verbas para os seus ministérios.

Imagine-se então o “grande desígnio” de Sócrates para o Turismo (semelhante ao “Grande Desígnio” de Jim Hacker, que queria introduzir o recrutamento obrigatório para resolver os problemas das Forças Armadas, do desemprego e da educação ao mesmo tempo…). Anunciava uma série de medidas com vista a tornar Portugal como destino de eleição dos turistas endinheirados da Europa, América e Ásia. Apostava não só em financiar mais resorts e campos de golfe, mas infrastruturas viárias e ferroviárias para lá se poder chegar. Resolvia o problema do aeroporto com uma medida inteligente, não apenas jogando ao sabor da especulação imobiliária na Portela (que quer que o aeroporto desapareça para fazer um novo bairro de luxo) ou na Ota (que quer indemnizações por as “suas lindas casinhas construídas ano passado por tuta e meia terem de ser agora destruídas por ficarem no alinhamento da pista”). Se tivéssemos um primeiro ministro verdadeiramente corajoso, construía uma linha não de combóio de alta velocidade (que no fundo pouco mais rápidos são que os actuais Pendulares…) mas sim de maglev, que andam a 500 km/hora no solo e chegavam a Madrid em hora e meia (ou faziam Lisboa-Porto em 40 minutos). Era bem mais caro, mas a tecnologia existe na China, com quem nos damos tão bem. Não se fazia aeroporto coisíssima nenhuma, e em vez disso participava-se em sociedade com o Aeroporto e Barajas, em Madrid, onde os passageiros, por pouco mais tempo do que levam a chegar de Barajas a Madrid de táxi (por causa do trânsito!), podiam em vez disso chegar a Lisboa na Gare do Oriente! E quanto custaria isso? Provavelmente, o que custa um aeroporto novo. O maglev ainda por cima não é poluente. Energia eléctrica para o combóio-bala? Com o mercado ibérico de energia (IBEL) em funcionamento, podia ser alimentado pelas centrais nucleares espanholas, que não são poluentes, e descansar assim os ambientalistas em várias frentes: substituir o tráfego aéreo por tráfego ferroviário e usar formas de energia menos poluentes. E ainda por cima fazer os espanhóis ficarem mais satisfeitos. Colocar a Siemens (que é, hoje em dia, uma empresa mais portuguesa que alemã, o que é óptimo) a co-desenvolver o maglev português com tecnologia adaptada da chinesa. E depois estabelecer uma parceria ibérica para fazer estender a linha até Paris.

Já nem estamos a falar de Turismo nem de Cultura, pois não?… Projectos arrojados têm esta tendência: começam a encaixar-se uns nos outros e a estender-se tentacularmente a todos os níveis. Medidas avulsas, inversamente, desaparecem nos media sem se voltar a falar delas. Uma política “grandiosa” de alguém “com visão” – alguém que vem do país que criou o modelo da Expo ’98 ou do Euro 2004, que, apesar de todas as críticas, foram “iniciativas globais” com um sucesso estrondoso e financeiramente sólidas (ganhou-se bem mais do que se investiu; catapultou o turismo português; deu-nos infraestruturas novas; reordenou o território em redes viárias e de acesso; fomentou a economia indirectamente, pelo facto de termos mais gente a trabalhar nestes projectos e mais turistas a consumir os nossos produtos — desde comida a “produtos culturais” — e ganhámos não só um dos melhores Oceanários da Europa como um número dos melhores estádios europeus).

Coloque-se esta visão toda como um objectivo para 2009. E o Sócrates a seguir anuncia os Jogos Olímpicos em 2016 como meta para mobilizar toda a nossa sociedade nesse sentido. Será muito mais fácil depois de termos as estruturas básicas para isso (hotéis, resorts, estádios, infrastruturas viárias e ferroviárias, e espaços culturais para os tempos livres…), e provavelmente até garantirá a reeleição do Sócrates, apesar de tudo…

Mas infelizmente parece que os nossos governos preferem, em vez disso, candidatar-se a fazerem parte de mais uns episódios do Yes, Prime Minister

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s