A cultura do elitismo intelectual de regresso?

Queen Elizabeth I Doll
Alguns de vocês que conhecem o meu percurso pessoal e profissional sabem que estou profundamente convicto da noção de igualdade de oportunidades para todos os seres humanos. Acredito totalmente nisso — de uma forma que me podem acusar de ser um “crente” ou mesmo “fanático religioso” desse princípio fundamental. Tão fundamental é que não posso, evidentemente, torcer o nariz a quaisquer sugestões ou pretensões no contrário, por muito “bem intencionada” que sejam.

Certos valores humanistas são, para mim, absolutos. Não há possibilidade de “meios termos” quando se fala de coisas como “liberdade”, “democracia”, ou “igualdade de oportunidades”. Ou estes valores são absolutos, ou não o são. E a verdade é que muitas vezes caímos no erro fácil dos meios termos: “bom, liberdade, sim, mas também o encarceramento de todos os terroristas é bom…” ou “a democracia é só corrupção no poder, por isso também não é lá assim tão bom como isso…” e, finalmente, “na verdade, na verdade, nem todos temos igualdade de oportunidades… quem é rico, terá sempre mais oportunidades”.

O nosso país tem uma coisa engraçada, por ser uma democracia (relativamente) recente. Assistiu-se a uma catapultagem de uma classe média-baixa, que nem nos apercebíamos que existia, para lugares de relativo poder — pelo menos económico. É a geração dos fabricantes de móveis, de cadeias de restaurantes, donos de clube de futebol, e pequenas (mas lucrativas!) unidades industriais ou de distribuição. Eram pessoas geralmente humildes, mas com muitas capacidades (nomeadamente de trabalho), que tinham 20-30 anos no 25 de Abril, sem quaisquer hipóteses de alguma vez virem a ascender na hierarquia financeira deste país. Hoje têm 50-60 anos, vivendas na Quinta da Marinha, iates na Marina de Lagos, e os filhos estudam em universidades privadas. São eles a tal “revolução das PMEs” de que gostamos tanto de falar.

É inegável que a “igualdade de oportunidades” catapultou estas pessoas todas para uma posição social que seria pura e simplesmente impossível nos anos sessenta. São pessoas normalmente auto-didactas e sem formação superior (embora, claro, existam sempre boas excepções). Não compreendem coisas simples como “contabilidade”, “gestão de recursos humanos” ou “gestão de projectos”. Alguns não sabem nem escrever português fluente. Não têm qualquer interesse na vida para além do trabalho (onde são esforçados), televisão, e futebol, ou satisfazer os caprichos dos cônjuges em colocar mais bibelôs nas prateleiras das estantes. Conduzem BMWs e têm telemóveis de última geração, mas não sabem enviar um email a partir dos seus computadores. São analfabetos funcionais — mas têm empresas que valem milhões de Euros, empregam milhões de portugueses (ou pelo menos largas centenas de milhar), e a sua contribuição para a economia portuguesa é mensurável em percentagens com mais de uma casa decimal.

Esta geração, por sua vez, é a geração “dinamizadora” da activade cultural e intelectual portuguesa. É pelo facto de terem ascendido a cargos de poder — local, raras vezes nacional, mas muito frequentemente pura e simplesmente financeiro — que a televisão passa telenovelas e não teatro. Não compram livros excepto como decoração das suas casas — onde ficam bem guardadinhos nas estantes, nunca abertos — ou se forem de “fofoca” num português primitivo que consigam entender (e então têm tiragens de 40 ou 80 mil exemplares). Pelo facto da sua “anti-cultura” predominar neste país, motivam outros a lhes seguirem os passos: qualquer empreiteiro ou merceeiro que se preze quer ter o seu BMW e lugar cativo no Benfica. Não lhes passa pela cabeça, por exemplo, terem uma assinatura no Teatro S. Carlos.

Nas escolas, os filhos desta geração vêm de um meio em que a educação nunca trouxe nenhuma recompensa — e não são encorajados a estudar. Se os seus pais criaram impérios com esperteza saloia, sem saberem discutir Descartes ou resolver equações de segundo grau, como poderão conseguir motivar os filhos a tirarem, por exemplo, um curso de engª mecânica (para aperfeiçoar processos de fabrico na empresa) ou de gestão empresarial (para saberem lidar com as complexidades dos modelos empresariais do século XXI)? É evidente que o “ídolo” é o pai (ou a mãe), que com os seus próprios braços lá montou uma negociata na garagem, ou abriu uma tasca naquela esquina onde já ninguém queria lá ter nada, e tiveram um sucesso descomunal. Os filhos querem é que os pais lhes dêem BMWs também para brincarem, e poderem ir a muitas festas, irem tirar muitas férias, e que subornem os professores no ensino privado para lá tirarem a escolaridade obrigatória e depois poderem passar o resto do tempo a não fazer nenhum.

Esta geração mais nova tem agora também os seus 30 anos. Ao contrário dos pais — que ao menos tiveram o mérito de se empenharem e esforçarem até conseguirem chegar aos seus objectivos — estes nem sequer querem fazer um esforço. Para quê? Um dia irão herdar a fortuna dos pais; até lá, há muita mesada para ser gasta. Com um pouco de sorte até convencem os paizinhos a irem pagando as propinas da faculdade — já que os pais querem dar aos filhos aquilo que não tiveram — e aproveitarem a desculpa de que estudantes, obviamente, não podem trabalhar, porque o “trabalho” os distrai. E se lá acabam o curso ao bem ou a mal, bom, chega-se à conclusão que realmente uma licenciatura em artes representativas com bivalves no século XIII tem pouca saída profissional, e pronto, coitadito do filhote, que até se estava a portar bem “nos estudos” mas não tem culpa deste mercado de trabalho ingrato que não reconhece as capacidades do rebento.

O problema é que agora vamos na terceira geração. Esta noção de “não fazer nada porque o Estado me deve alguma coisa” começa a ser predominante, e sê-lo-á cada vez mais. Os rebentos inúteis da geração que fez fortuna à custa de trabalho não querem fazer nada. E estão a constituir família, à custa “dos pais ricos”, e gerar novos rebentos. Que já vão ser educados na noção de que “trabalho é para os outros” e que “só os aldrabões vingam” ou, pior ainda, “de que neste país somos uns coitados que não conseguimos que nos arranjem um emprego — ainda bem que o avô tem algum dinheiro”.

Paralelamente a isto temos a geração que descende de uma classe média pré-25 de Abril que tinha outros valores. Que cultivava a noção de que a educação, por si só, é sempre uma ferramenta valiosa, e que passou essa noção aos filhos (mesmo que eles resmungassem). Que nunca tiveram muito dinheiro antes do 25 de Abril (e certamente que não o tiveram depois disso!) mas tinham coisas esquisitas como “valor”, “honra”, “cultura”, e de que uma pessoa trabalha toda a vida com dignidade, mesmo que não enriqueça, porque essa é a atitude correcta. Os pobres dos filhos desta geração estão lixados. Quem lhes foi meter na cabeça que era uma boa ideia acabar um curso superior em 3 ou 4 anos e de que ser-se honesto era bom? Quem lhes foi meter na cabeça que era melhor lerem Eça de Queirós do que ver a Floribela na TV? Estão completamente desenquadrados do nosso tempo. E são ostracizado. São “uns cocós duns intelectuais”. São “uns gajos chatos como a putaça porque nunca podemos confiar neles para fazerem coisas, com essas manias das honestidades”. São atacados impiedosamente pela máquina burocrática do Estado que vê gente desonesta a fugir ao fisco por todo o lado, e nem sabem como se defender quando são enganados.

Mas será assim tão mau como isso?

Há uns anos atrás, o então deputado José Magalhães, entre outros, gostava de falar de “info-excluídos” para se dirigir à sociedade, explicando como, em pouco tempo, poderemos favorecer o crescimento de uma bipolarização social entre aqueles que têm acesso à Internet e aqueles que não o têm. Confesso que na altura estava um pouco céptico; o Zé Magalhães, quando dizia estas coisas, falava para um país que tinha talvez umas vinte mil pessoas ligadas à Internet, e decerto que ninguém o levava muito a sério. Nessa altura, pensava eu, seria pouco provável que o “fenómeno Internet” interessasse realmente muita gente. Afinal de contas, era preciso ler e escrever fluentemente em inglês para se tirar algum partido da Internet de 1995. Para além de sexo e casinos, a Internet tinha pouco para oferecer ao “grande público” — quem é que estaria interessado em ler extractos de enciclopédias, ou papers académicos de universidades americanas, excpeto um público muito reduzido? Mesmo as discussões nos foruns ou na USENET era aborrecida — quem se lembra ainda de coisas como o soc.culture.portuguese ou o pt.politica? Era uma seca. Era mais giro ver TV — exceptuando para uns poucos.

O que sempre achei interessante na Internet era que, à parte dos chatrooms, a qualidade do material escrito produzido e publicado na Internet era de razoável boa qualidade. As pessoas que lêem e escrevem blogs fazem-no com fluência na sua língua natal — assumindo, claro está, que tenham uma audiência. E a primeira regra para terem uma audiência é, de facto, saberem escrever de forma correcta e interessante. A segunda regra é que têm de saber do que estão a falar — e isso implica conhecimentos. Por vezes, específicos à sua área profissional (o que abundam mais é blogs de informáticos…). Muitas vezes, fora dessa área — implicando uma certa dose de cultura geral. Um cromo informático pode escrever sobre religião, mas tem de ter lido alguma coisa sobre isso e estudado o assunto profundamente — senão, será ignorado. Um político pode escrever sobre o impacto da Internet na sociedade — mas tem não só de conhecer bem o que se faz e como se usa a Internet, como tem de estar apto a discutir sociologia. Mas o reverso também é contrário. Outro dia fui ler um blog de físicos que falavam de computadores quânticos. Não percebi uma palavra. No entanto, reparei que todos os comentários são escritos num inglês fluente, impecável, sem gralhas nem erros de sintaxe. Ou seja: não basta dominar uma área, e exkrevr kk koiza só pq pudemux exkrevr axim. É preciso escrever bem. E os bloggers nacionais, quer discutam política ou jogos de computador, sabem-no bem — não são diferentes em qualidade e estilo que os internacionais.

Isto faz-me pensar um pouco. No meu “outro” blog — exclusivo para o Second Life, e, como tal, muito limitado em âmbito (apesar de ter mil vezes mais visitantes diários que “este”) — as pessoas acham que “digo coisas inteligentes”. Ao fim de estranhar esse tipo de comentários — pois bem sei o que é que são, efectivamente, pessoas inteligentes e que dizem coisas inteligentes — fiquei a matutar no assunto, e cheguei à conclusão de que o que eles querem realmente dizer com esse comentário é que “sei escrever inglês”. Nem mais nem menos do que isso. Só pelo facto de saber dominar uma língua — e tenho o desprazer de dominar quatro, fruto de um sistema de ensino que fui motivado a levar a sério, mesmo que abominasse estudar — as pessoas ficam fascinadas. Eis alguém que “sabe escrever”. Logo, “deve ser inteligente”.

Bom. No século X, evidentemente, alguém que soubesse escrever, era, realmente, alguém de extraordinário. Mas Portugal tem uma taxa de alfabetização de adultos de 92,5% (a mais baixa da UE, mas isso não é de admirar), mas, em compensação, se contarmos a população no ensino primário e secundário, esse valor sobe aos 97% (o mesmo nível dos países mais desenvolvidos do mundo). Logo, não nos deveríamos surpreender se alguém afirmar que “todos sabemos ler e escrever”, o que é “quase verdade”. No entanto, o número dos que sabem ler e escrever bem é minúsculo — seja aqui, seja noutro país desenvolvido do ocidente. Por estranho que pareça, há uma “aura” de inteligência ligada às pessoas que sabem ler e escrever, mas essa “aura” é apenas visível realmente na Internet.

Nos anos 90, eu escrevia tão “bem” como agora. Não havia ninguém que me considerasse “inteligente” por ter aprendido gramática! Mas agora que temos dois biliões de páginas na Internet, é ao olhar para aquelas que estão “bem escritas” que surge uma “elite”, visível e reconhecida por toda a gente, pelo facto de terem terminado a 4ª classe com esforço e dedicação e não “passagens administrativas”.

Mas essa “elite” é mais amplamente definida para além do “saber ler e escrever”. Como aprenderam a fazer redacções enquanto putos e a discutir os seus trabalhos perante a turma e o professor (hoje em dia, coisas dessas já devem ser proibidas nas escolas — não sei, estou a imaginar! — porque devem causar “muito stress às pobres criancinhas”), também sabem argumentar e defender uma opinião de forma coerente. Isto, mais uma vez, não é “inteligência”. É pura e simplesmente o que resta de uma educação clássica, já muito abandonada, de retórica e oratória, que em tempos defendi como sendo aquilo que mais falta no ensino secundário — visto que vão ser empregues durante toda a nossa vida. Não é preciso ser-se “inteligente” para se saber argumentar; basta saber como o fazer. E isso é ensinado nas escolas… mesmo que mal… desde que os alunos estejam dispostos a aprender!

Curiosamente, embora naturalmente a esmagadora maioria não esteja disposta a aprender nada, na Internet, pelo menos, reconhecem “misteriosamente” aqueles que aprenderam estes princípios básicos. Podem nunca na vida ter aberto um livro depois de saírem do liceu, mas quando lêem coisas na Internet, reconhecendo subitamente alguém que sabe esclarecer uma dúvida ou apresentar um ponto de vista de forma racional (tudo isto técnicas básicas ao alcance de qualquer ser humano sem deficiências mentais), ficam “pasmados com a inteligência”. E estas pessoas são veneradas pelo que escrevem!

O que mais me preocupou foi, no entanto, a forma como este “talento para a escrita” é aproveitado. A vaga das Netcelebrities passou-me completamente ao lado; sei agora que elas existem e “movimentam as massas” na blogosfera. São pessoas semi-anónimas que emergiram do nada defendendo coisas por vezes aberrantes. Mas sabem escrever. E o que fazem é atraír uma horda de simpatizantes, fãs, e mesmo fanáticos que são capazes de venerar cada palavra que vem do Mestre (e re-publicá-la milhares de vezes, através do Digg, de links no del.icio.us…). Do dia para a noite, ganham o estatuto de terem a sua própria página na Wikipedia.

Li algumas coisas dalgumas dessas Netcelebrities. E o que reparei é que, essencialmente, sabem escrever bem. De resto têm ideias tão obstrusas como qualquer outra pessoa. Muitas vezes não são originais. Nos Estados Unidos há uma certa noção de que a capacidade de dizer mal de outras pessoas (e quanto mais ofensivo, melhor) é uma “marca de profunda democracia e de inteligência” (para mim, educado pela cultura portuguesa pré-25 de Abril, é apenas uma marca de profunda má-educação). Por isso normalmente não acho estes blogs nada de especial, e passa-me completamente ao lado a razão de ser do fenómeno. Basta um comentário nos blogs destas Netcelebrities que esteja bem escrito e bem argumentado para as colocar a vociferar, a vomitar fel, e a ameaçar processos de difamação (ou, mais frequentemente, a simplesmente censurar o comentário). Aconteceu-me várias vezes 🙂 e percebi que com esta gente não se pode “brincar”.

Mas a verdade é que tudo o que elas fazem é escrever bem. Que, como disse, é um conjunto de muitas coisas em simultâneo: não apenas dominar a gramática e ter um corrector ortográfico à mão, mas dominar retórica, saber defender um ponto de vista, e ter uma cultura geral que é acessível a qualquer aluno do secundário se estivesse atento às aulas e não a mandar SMSs aos colegas. O que é para mim assustador é pensar que a esmagadora maioria da população mundial não sabe sequer fazer isso!

Daí interrogar-me realmente sobre esta nova vaga de “elitismo intelectual”. De repente, pessoas inteligentes, mas com pouco domínio da palavra escrita, passam a venerar os “intelectuais” — muitas vezes burros que nem umas portas — apenas porque estes sabem efectivamente os rudimentos da arte da oratória. Cria-se um “misticismo” em torno destas pessoas que é infundado — no entanto, lá diziam os meus paizinhos, “o saber não ocupa lugar” e a formação com uma sólida base de conhecimentos gerais e de cultura geral nunca fez mal a ninguém (supostamente é por isso que era ensinado nas escolas…). Aqueles que estavam atentos ao que ouviam na escolinha agora tornam-se Netcelebrities apenas porque escutaram a lição e a colocam em prática. Outros, eventualmente até bem sucedidos profissionalmente, muitas vezes mais inteligentes, mas sem prestarem atenção ao que lhes diziam na escola, ficam pasmados de olhos esbugalhados e dizem “aaaah ele/ela é um génio! Escreve coisas tããão inteligentes”.

Não sei exactamente se isto é “bom” ou “mau”. Confesso que estava bem mais habituado à estupidificação da espécie humana frente à TV e ao futebol. Achava que esse movimento era imparável e que iria conduzir a uma sociedade em que a cultura giraria em torno de trivialidades, e onde as “elites intelectuais” não teriam qualquer papel significativo. Também achava que a Internet iria ter muito menos impacto do que tem. Nunca imaginei que as pessoas que há dez anos diziam que a Internet é só para cromos informáticos hoje estariam a ler blogs e que agora estão a ficar pasmados com o que por lá se diz.

Sejemos honestos… quantos de entre nós tem paciência para ler um blog mal escrito, sem interesse, onde o autor não diz coisa com coisa e nem sequer sabe escrever uma frase sem dar dois erros de gramática e oito de ortografia?

Muito poucos.

(Imagem de drp)

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10 pensamentos sobre “A cultura do elitismo intelectual de regresso?

  1. Simplesmente brilhante — e não é só por estar bem escrito. É bom vir parar, vindo do P* (ao qual dou as boas-vindas com uns 5 dias de atraso), a um post não-informático sobre outra coisa que não a IVG (sobre a qual, lá está, todo o cão e todo o gato com o dom da palavra decidiu dar o seu bitaite).

    Como se não bastasse, é bom lê-lo, e poder ver claramente, na mente, caras conhecidas a quem a “carapuça” serve perfeitamente (eu incluído, que me revi letra a letra nos “chatos como a putaça”).

    (Àparte; enquanto escrevo este comentário, a SIC passa uma peça com o seguinte texto de rodapé “Campeões da ‘cunha’ — Portugal à frente de 24 países europeus.” Que conveniente. :))

  2. Gostei do texto. Um pouco alongado, tornando o assunto um bocado repetitivo, mas no geral “bem escrito”.

    Dizem que tenho um “olho” para os erros nos textos alheios. Deve ser por ler papers científicos com demasiada atenção. Encontrei um erro ortográfico* no parágrafo que se inicia com a seguinte frase:

    “Esta geração, por sua vez, é a geração “dinamizadora” da ACTIVIDADE cultural e intelectual portuguesa.”

    *Coloquei a palavra mal escrita com letras maiúsculas.

  3. @jcraveiro — Não me posso considerar isento de crítica. O meu ensaio anterior era justamente sobre a IVG — ou, melhor, sobre o referendo.

    @rvidal — Hehe obrigado — já vi que o meu Firefox tem o dicionário inglês ligado por omissão 🙂 Portanto, não sigo os meus próprios conselhos, o que é normal…

  4. Pois, caro LMS, a realidade é que a blogosfera está pejada de “tribunos” que aparentam um conhecimento que na realidade não têm. A internet veio trazer-nos uma nova forma de cultura, a do copy-paste [que creio não ser desconhecida a nenhum de nós], a do “diz que disse”.
    Pelo que vejo, especialmente na blogosfera, a criação de círculos e de uma determinada hierarquia, está directamente dependente, da capacidade de se ser “controverso”. Começa-se por aí, obedece-se aos estritos preceitos da “endolincagem”, dá-se com uma mão e tira-se com a outra, “et voilá”, temos blog de sucesso. Vivam os motores de busca e os agregadores de feeds!
    Acho que tem razão quando fala da importância da forme em detrimento do conteúdo. Blogs há que nem conteúdo têm, e não os podemos alcunhar de artísticos sequer pois na realidade não o são. E como sobrevivem? Graças a esses “gadgets” todos que potenciam a criação de redes, de cortes de admiradores. Os admiradores, por sua ves, funcionam como “replicadores”, xeroxes dos tempos modernos, e parece que a sua única função é a de “espalhar a palavra do Mestre”.
    Mas crio que começa a separar-se o trigo do joio, a notar-se a originalidade de uns e a farsa de outros. A internet e em especial a blogosfera são coisas recentes. Ao abuso seguir-se-á a distinção… espero.
    Quanto aos motivos para este tal estado cultural português, bom, estão correctos mas não são só esses.
    Creio que exite ainda um motivo forte, o de uma geração que tinha dez anos de idade por altura do 25 de Abril de 74 e que cresceu entre tudo o que, de repente, veio de fora, cresceu no olho do furacão. É uma geração de inadaptados que está a criar uma outra, a que tem agora 15 anos, que professa valores completamente diferentes. Essa geração que tinha dez anos de idade no 25 de Abril é a minha e posso dizer-lhe que talvez seja uma das piores gerações que tivemos. É, no fim, a que nos governa…
    Abraço,
    Excelente post!
    CJT

  5. Sem dúvidas, CJT… concordo em absoluto com tudo o que escreveste, menos com o facto de me tratares por “você” 🙂 Fazendo parte da geração que tinha 4 anos quando se deu o 25 de Abril (foi fixe, não tive de ir para o jardim infantil!), também faço parte deste grupo terrível…

  6. Essa geração que tinha dez anos de idade no 25 de Abril é a minha e posso dizer-lhe que talvez seja uma das piores gerações que tivemos.”>>

    Isto deve ser demonstração do tal dizer mal de que CJT falou no postal, não é? Aquele dizer mal que funciona sempre tão bem? Aliás, pela generalização, pressuponho que devo encontrar uns milhares de pessoas como eu, todos terríveis, e parecidos, já se vê.

    Aliás, somos todos iguais, portanto está tudo bem. Como é que poderia haver insatisfação com a geração que nos governa! Pelo menos nessa faixa etária está tudo bem, pois somos todos parecidos… aliá para ”geração de desadaptados”, que depois nos Governa, é obra.

    _________________

    Em relação ao postal, e à sua pergunta, Shopenhauer falou deste problema…e concluiu que a esmagadora maioria do que se escreve, é por pessoas que sabem escrever (repare, pelo menos daquilo que sobrevive e que é escrita séria) – mas que têem muita pobreza no conteúdo, quando o que importa, é o conteúdo. Assim ele previligiou de longe quem se sente desesperadamente necessitado de comunicar algo original, de si próprio, meditado, enfim, algo significativo, e que depois disso, mesmo desageitadamente, luta por conseguir escrever.
    Estou inteiramente de acordo com esta última posição.
    Mais (isto parece muito pouco modesto – mas espero que me possam perdoar, pelo menos, é também honesto): conto-me entre esses infelizes.

    Quanto aos blogs, um mundo que conheço há muito pouco tempo, deixou-me perplexa pela quantidade de blogs de qualidade (dir-se-ia qu e as pessoa têem mais que fazer), e lido com eles com muito respeito. Um respeito diferente do que aquele de que falou. Quando encontro um professor Universitário que revela grandes qualidades…. deitando seus pensamentos mais profundos, compartilhando até o seu poema, as suas cogitações. etc.,e eu personagem incógnita e não pública, posso ler, assim, ao vivo, digamos, e até entrar – se se justificar, claro – em diálogo com o autor, isso enche-me de reconhecida veneração. No entanto, não venero o simples escrever bem. Mas o conteúdo, a profundidade das ideias, a honestidade, o espírito nobre, ou o coração bondoso que se revele, enfim, a arte que se exprima, e, naturalmente, ideias que me interessem, no que sigo só e apenas o meu critério pessoal.

    ____________________

    Quanto às tais estatísticas que nós somos sempre os piores em tudo – meu Deus, como podem ainda acreditar nessas coisas?
    E por experiência sei: nos outros países também funciona tudo por relações e contacto! O processo é que é um pouco diferente.
    Tudo o que é mau aqui, há também nos outros países.

    Menos o duzermos sempre mal do nosso País, Governo, e sobretudo, uns dos outros. Somos traidores de nossos irmãos. Aí sim, parece que a tal geração, devem ter sido todos doidos! Pois que para mim tudo depende da educação. Eu então eduquei quem eu eduquei, só a ouvir prezar as qualidades dos Portugueses. Pois tivemos aa infelicidade de conhecer a realidade de tudo aquilo que aqui tanto se fantasia como paradisíaco e bom, lá fora.

    Estas coisas sim, estes problemas de mentalidade, e de acreditar em todos os programas que têem os paízes que nos colonizam. Disto depende o nosso naufrágio, ou sobrevivência.

    É a primeira vez que me acontece assim um comentário tão longo… perdão; compreendo que isto é como os mail longos, ficam de resposta difícil, pois não se sabe a qual parte responder, e é o mais interessante, é ler os outros e as suas respostas.

    Obrigada pelo seus postal, Luís Miguel Sequeira, e pela paciência de ler tudo isto… motivado certamente pelo entusiasmo da comunicação…..

    Cumprimentos

  7. Caro Terpsichore,

    Penso que talvez não tenha sido preciso na questão do “dizer mal”. É realmente um facto de que os blogs mais populares — cá ou lá fora, são sempre os mesmos — tendem a ser aqueles os que emitem opiniões contra o mainstream. Não são necessariamente blogs de maldizer ou “do contra”. É mais talvez uma contra-corrente de embate ao politicamente correcto.

    Interessante é assistir a um fluir de ideias entre um artigo jornalístico (que relata factos), uma coluna de opinião, e um blog. Há imensos casos (especialmente lá fora) em que a mesma entidade, agente da comunicação social — um jornal, revista, televisão — começam a misturar tudo. E então assiste-se a um fenómeno curioso: é difícil perceber onde começa um facto, onde está uma opinião (de acordo com o mainstream) e onde começa a blogosfera. Surpreendentemente, os melhores casos são quando a própria entidade se contradiz em espírito na mensagem que transmite ao juntar estes três elementos. A revista Wired, por exemplo, tem destas pérolas — em que a sua secção de blogs, por exemplo, apoia uma ideia completamente oposta à que é expressa na zona de opiniões. A diferença é que esta última tem um editor, que se preocupa com a imagem da publicação, pois é essa imagem que atrai um tipo de utilizadores. Mas por sua vez a secção de blogs atrai “anúncios automáticos” (como o Google AdSense).

    Esta dicotomia torna-se interessante. A nível da escrita profissional, o papel do jornalista/bloguista depende essencialmente da capacidade da publicação vender alguma coisa em anúncios. Mas na Internet, essa capacidade de angariar publicidade é “automática” e não depende da linha editorial do blog. Isto significa que o blog do Pacheco Pereira, com os seus estimados cem mil leitores, não precisa realmente de ter uma estrutura editorial e de angariação de publicidade para publicar os artigos (polémicos) do dito senhor. A coisa mais divertida da Internet é esta noção de juntar pessoas com o mesmo gosto, sem custos de distribuição, e sem que a distância seja um factor determinante. São as pessoas que vão ao encontro do que gostam de ler, não o contrário.

    Assim, embora continuem a existir pasquins maldizentes, com tiragens de 2000 exemplares e uma dificuldade tremenda de os fazer chegar a quem gosta de os ler, isso não existe na Internet. As cem ou duzentas mil pessoas em Portugal, ávidos leitores desse tipo e estilo de escrita, sabem exactamente onde se dirigir.

    E concordo que isto não é diferente “lá fora”. Cá está é menos diluído porque Portugal é um país de dimensão “média-pequena”, e são poucos que escrevem. Muito poucos. Têm, pois, uma desproporção exagerada de sucesso em termos do impacto da sua escrita. Afinal de contas, fora a televisão, são raras as coisas em Portugal que conseguem atingir cem mil leitores diários. Bom, talvez os foruns do Sporting, Benfica, e Porto…

  8. Caro Luís Sequeira

    Venho agradecer a sua resposta. Humhum… nos outros países pode haver sarcasmo e crítica, mas há abundância dos que fazem coisas. No nosso caso é diferente: há quem critique, mas se alguém quer fazer alguma coisa, esse mesmo é logo vítima dos mesmos! (que estão a criticar o mainstream!).

    É isto precisamente que nos faz andar em círculos, num redemoínho de afundamento. É isto que é preciso virar.

    É típico o fenómeno de amizade com o traidor, e de morder a mão salvadora…

    É a falta de acção que cria este espírito, a frustração de não termos a ideias dos nossos valores… em vez da alegria de os aplicarmos.

    A grande maioria das críticas que por aí andam, serão os primeiros a querer arrasar quem indica a porta de saída.

    Cumprimentos

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