A difícil tarefa do visionário

Visionary, by  ruthdeb

No século XV navegantes portugueses descobriram praticamente tudo o que havia de interessante por esse mundo fora. Dizem os iluminados historiadores — que raramente estão de acordo entre si — que isso se deveu a uma série de visionários que acharam por bem dar um passo de gigante para o que era até a altura um país de anões: tiveram uma ideia e lançaram-se mundo fora a tentar concretizar essa ideia, por mais louca que fosse: curto-circuitar o negócio altamente rentável das especiarias do Oriente nas mãos dos comerciantes das repúblicas italianas e dos intermediários árabes.

O projecto correu bem, e por isso ficou na história. Este pequeno país — com as fronteiras terrestres fixadas há mais tempo no mundo — expandiu-se para se tornar numa superpotência mundial, tecnológica e economicamente. Foi uma Idade do Ouro que durou pouco mais de um século (com um brevíssimo ressuscitar no século XVIII), mas que deixou marcas: aqueles que eram bravos, ousados, inovadores, e com um espírito aberto, capazes de seguirem uma ideia até ao fim, sucederam. Deles reza a história e presta-lhes homenagem.

Hoje em dia, os “visionários” desapareceram, ou melhor, mudaram-se para o lado de lá desse Atlântico que ajudámos a descobrir há 500 anos atrás. É agora essencialmente nos Estados Unidos que ainda reside a “cultura do visionário”: aquele que tem uma ideia e a tenta concretizar. Quando tem sucesso (económico), é reconhecido pelos seus pares pelo que conseguiu fazer. Quando não tem, é encorajado a experimentar de novo — a experiência falhada conta justamente como “experiência”, e serve para, da próxima vez, fazer mais e melhor.

Os portugueses do século XV também não “acertaram sempre à primeira”. Trabalharam meticulosamente, muitas vezes em “contra-relógio”, desenvolvendo tecnologia inovadora, mas apenas conhecemos (e repetimos) as histórias de sucesso. Esquecemo-nos que para cada história de sucesso pode haver três, cinco, talvez mesmo dez, histórias de falhanços completos. Mas com uma cultura de visionários, as falhas não são “catástrofes”. Fazem parte do percurso. Servem para aprendermos e fazermos melhor da próxima vez.

Isto é o que os Estados Unidos neste momento implementam da melhor forma possível. É certo que tanto a Europa como o Japão e os Tigres Asiáticos inovam. É certo que a maior parte das descobertas científicas e tecnológicas são feitas por eles. É mesmo certo que nos próprios Estados Unidos o grupo populacional que está na vanguarda da inovação é frequentemente de origem estrangeira (recentemente naturalizados ou vivendo com o estatuto de imigrante). No entanto, não é menos certo que os Estados Unidos encorajam esta mentalidade.

Quando um pequeno empresário se lança num negócio inovador, e tudo corre mal, vemos nos filmes como os bancos e as seguradoras levam os seus bens, as suas casas, os seus automóveis de luxo, deixando o visionário empreendedor na ruína financeira, com a família chorosa e em desespero. Mas corresponde isso à realidade? Os filmes e as séries de TV não mostram o outro lado da questão, por ter falta de pathos: o funcionário das Finanças que aceita a declaração de falência, enfrentando o empresário desconsolado, e que ergue os olhos e que diz: “Isso correu mal, hein?”

“Não me diga nada… se não fosse o meu sócio ter-me roubado tudo… ou ter atrasado a entrega porque o camião se espetou naquele acidente estúpido… ou o empregado que fugiu com os planos… não estava aqui.”

“Pelo menos aprendeu com o que correu mal, não foi assim?”

“Sem dúvida alguma. Para a próxima vou ter mais cuidado com os meus sócios. E fazer seguros de todo o material. E manter cópias de segurança de todos os documentos. Mas enfim. Agora nada posso fazer, vou precisar de anos até voltar a meter a minha conta bancária em dia.”

Nesta altura o funcionário olha para os papéis, reordena-os, suspira, e olha para o empresário falido. “Bom. Vamos fazer o seguinte. Vamos emprestar-lhe cem mil dólares para começar tudo de novo. A um juro baixo. Pága quando puder. É que a América precisa de gente assim — disposta a arriscar e a levar este país para a frente. Aprendeu a sua lição. É verdade que vai recomeçar com um handicap de cem mil dólares — mas fica com dinheiro no banco e não vai cometer os mesmos erros. Boa sorte!”

E o nosso visionário vai à sua vida para arregaçar mangas e recomeçar tudo do zero. Mais devagarinho, mais cauteloso, e partindo de uma situação mais difícil. Mas — ao menos tem um segunda oportunidade. E uma terceira, uma quarta, as que forem precisas — porque, na América, dá-se valor a quem não desiste e que sabe que a sua ideia é boa e que vai vingar.

Parece bom demais para ser verdade! Então como podemos saber distinguir entre os pilantras e os verdadeiros visionários?? A nossa mentalidade portuguesa não se coaduna com esse espírito. Por cá, todos somos pequenos aldrabões. Fugimos ao fisco e orgulhamo-nos disso. Não pedimos facturas no restaurante. Estacionamos em lugar proibido e conduzimos acima do limite de velocidade e ainda por cima embriagados. Não cumprimos contratos, não cumprimos prazos, não pagamos aos fornecedores nem aos trabalhadores. Aplicamos margens malucas para enriquecer rapidamente, e estoiramos tudo em BMWs. Desrespeitamos a lei, qualquer que a lei seja, a todo o momento. Como, pergunto eu, podemos saber que o tipo que está à nossa frente com uma empresa falida não é um aldrabão?

Para já, só por ser um empresário, tem de ser um aldrabão. Diz-nos a nossa cultura popular que o mero facto de alguém querer “ser um empresário” já tem de ser, pelo menos, um mentiroso — pois a primeira coisa que vai fazer, é vender um produto ou serviço, e a venda, por si só, é uma das únicas profissões no mundo em que é permitido mentir com todos os dentes. Depois, claro está, o empresário não pode ter uma ética e uma moral — ou então, não conseguiria fazer dinheiro. Ninguém que “vá para empresário” quer ter margens de lucro de 5%, mas sim de 50%, quando não consegue 500% — enganando funcionários e colaboradores e clientes. O empresário, em Portugal, é um fuinha aldrabão que não tem quaisquer escrúpulos. Não é e não pode ser boa pessoa.

Gente honesta trabalha por conta de outrém, ou para o Estado. Quem trabalha por sua própria conta e risco tem de estar a enganar alguém, pois ninguém, no seu perfeito juízo, iria arriscar uma confortável vida e uma reforma aos 65 anos para andar por aí aos caídos até “as coisas baterem certo”. É evidente que o empresário tem de estar constantemente a enganar os outros até conseguir vingar no mundo dos negócios.

É por isso que o Estado torce o nariz quando tem de dar um subsídio a alguém — mais vale dar aos amigos, que ao menos sempre serão mais “honestos” — e que a banca portuguesa, das mais rentáveis e lucrativas da Europa, nem quer pensar em coisas como “capital de risco” ou “investimento em PMEs”. Se o Estado quiser, que invista do bolso dos contribuintes — mas não das contas dos accionistas da banca! Esses pilantras todos que por aí andam têm de finalmente levar uma lição, a ver se se deixam de mariquices e começam mas é a trabalhar como deve ser. E se não querem trabalhar, cadeia com eles.

O que é triste é que esta mentalidade é generalizada — banca e Estado têm exactamente a mesma atitude, e até a Justiça pensa assim. O empresário que é enganado pelos sócios e deixado na penúria é um totó que teve o que merece. A primeira coisa a fazer é, para já, fechar-lhe a empresa, ficar com os bens, e bloquear-lhe o acesso à banca e ao crédito. A ver se aprende e vai mas é varrer ruas. E se insistir com as suas esquisitices, da segunda vez ainda é pior. Da terceira, metem-no na cadeira que é para ver se gosta. Estamos fartos de empresários aldrabões! Deviam mas é ser todos presos.

Ou então, deportá-los para a América.

Bom, nem é preciso ir tão longe. Basta chutarem-nos para a vizinha Andaluzia espanhola, essa região autónoma que rivaliza com a Galiza na sua pobreza e atraso de vida. Mas se um empresário (português!) se sentar com um representante do Governo regional, disser que quer montar lá uma empresa, nas áreas da tecnologia, dos produtos artesanais, ou nos produtos culturais — áreas de “visionários”, bem entendido! — passam-lhe logo vinte mil Euros para as mãos e isenção de impostos por três anos. Porquê? Porque, tal como os americanos, os espanhóis não são estúpidos. Sabem que quem se dá ao trabalho de atravessar a fronteira, começar do zero, arriscar tudo o que tem e o que não tem por uma ideia que pode dar certo, que está disposto a empenhar a sua segurança financeira e da sua família para montar um negócio ao qual se vai dedicar durante uns bons anos, trabalhando 16 horas por dia e 7 dias por semana — é uma pessoa especial. Não há muitas assim. Algumas conseguem ter bons resultados. Outras talvez nem por isso. Mas quem tem vontade de arrancar para trocar a sua vida de conforto pelas incertezas de um projecto visionário, é uma pessoa especial. Mais vale que esteja “do lado de cá” da fronteira. E seja português ou espanhol, se as coisas resultarem, quem ganha é a Espanha, que aloja mais uma ideia de vanguarda e gera negócio e capital — e impostos. Se a coisa não resultar, perderam vinte mil euros. Uma ninharia no meio do orçamento de Estado espanhol, que se calhar corresponde a menos do que os clips que são comprados por ano na administração pública.. Mas que para o empresário em vias de arrancar com mais um “sonho visionário”, é a diferença entre o poder concretizar e ficar a sonhar.

Nos Estados Unidos, isto é prática comum, e nem é preciso encorajar muito as pessoas a tornarem-se visionários. Com impostos baixos sobre as empresas e todas as formas possíveis de encorajamento financeiro, é fácil ser-se trabalhador por conta própria. Mas um trabalhador por conta própria não chega. O que é preciso é incentivar aqueles que podem “dar o salto”: os Thomas Edisons, os Bill Gates e Steve Jobs, os Michael Dells. É certo que muitos nasceram em berço de ouro; mas a maior parte nem por isso. Apenas beneficiaram de uma sociedade modelada para fazer destacar aqueles que, no meio do caos e do turbilhão, apontam para o horizonte e dizem “é por ali!”.

Os visionários americanos não são nem melhores nem mais inteligentes que os portugueses. Nós até temos muito mais vantagens que eles — a nossa bagagem cultural, a nossa facilidade de estabelecer contactos e assimilar culturas (ou dissimularmo-nos no meio das culturas dos outros), uma certa mania de que conseguimos fazer o que nos apetece (somos teimosos) e que somos mais espertalhuços que os outros, e, uma coisa que os americanos tanto admiram mas que têm pouco — a nossa incrível capacidade de desenrascanso. Aquela “coisa” ilustre que nós temos em que nos colocam um problema insolúvel pela frente e que “arranjamos maneira de dar a volta” até resolvermos o problema, aliada à teimosia de não desistir facilmente. É verdade, temos isso tudo, e os americanos não têm — mas apreciam vivamente! No entanto, quando se trata de colocar todas estas capacidades ao serviço de uma nação, ninguém bate os americanos. Os ingleses e os espanhóis copiam-nos. Fazem bem! São sem dúvidas mais inteligentes.

Em Portugal, tudo isto são “marcas do aldrabão”, do tipo desonesto que por aí anda a pensar que é um tipo especial. É assim. São cilindrados pelo sistema que procura fazer desaparecer visionários e gerar uma cultura de donos de cafés, restaurantes, e cabeleireiros. Nada tenho contra isso! Portugal deve ser de certeza o país do mundo (pelo menos da Europa será quase de certeza) com mais estabelecimentos desse tipo por quilómetro quadrado — o que sempre é qualquer coisa — mas não é nem inovador nem visionário.

Visionários são ex-professores meus como o Prof. António Câmara, recentemente galardoado com o prémio Fernando Pessoa, pelo seu trabalho com a Y-Dreams — uma empresa com um site todo em inglês — apenas a fazer projectos (cujos clientes são mais estrangeiros que portugueses…) totalmente inovadores que passaram completamente despercebidos cá neste nosso atraso de vida. Ou a Altitude Software, que nos dias que corre tem mais escritórios e mais pessoas a trabalhar fora de Portugal do que cá dentro e que é uma das nossas multinacionais mais famosas — lá fora, não cá dentro. Mas há tantos outros exemplos e tantos outros visionários. Aliás, olhando para as nossas características nacionais — principalmente o espírito de desenrascanço — seria de esperar que até tivéssemos, proporcionalmente, muito mais visionários que os outros países de mentalidades mais orientadas para o trabalho repetitivo e pouco inovador. E temo-los. Mas das duas uma: ou perceberam muito depressa que cá em Portugal não há lugar para eles — e que tudo o que têm a fazer é olhar para fora — ou estão neste momento a servir aos balcões dos cafés ou a cortar cabelos ou como caixas de hipermercados, para guardarem uns tostões para um dia, quando se reformarem, concretizarem os seus sonhos. Se conseguirem. É que nós não os queremos.

No início do século XV, os visionários estavam no poder, e construiram, num espaço de tempo relativamente curto de poucas gerações, um império mundial. Os holandeses fizeram isso nos século XVII e XVIII; os ingleses, nos séculos XVIII e XIX. Os americanos, como todos sabemos, no século XX. Foram justamente aquelas sociedades que conseguiram trazer os visionários para o governo da nação, traçando os seus destinos, que se catapultaram para a posição dominante mundial. Tudo o que foi preciso foi saber apoiar os visionários na altura certa, e acreditar neles. Mesmo sabendo que muitos iam falhar e ficar pelo caminho.

Nós tivemos a nossa Idade do Ouro e perdemo-la. No entanto, não perdemos o nosso espírito de visionários — eles vão é viver para os países que os apoiam. Não se tratam apenas dos nossos “crânios”, mas daqueles que sabem o que vai ser o futuro e querem lá estar — tal como em 1418 sabíamos que iriamos estar um dia na Índia, mas que para já, tinhamos de começar por colonizar a Madeira, e que havia muito trabalhinho pela frente para lá chegar. No entanto, os visionários que nos diziam o caminho eram fortemente apoiados. E foi isso que nos deu um império.

Agora com esta nossa cultura de destruir os visionários e colocá-los na mesma gavetinha que os aldrabões e maltrapilhos é que não vamos a lado nenhum. Mas a culpa nem é do Governo — é nossa. Somos nós que temos de mudar a nossa mentalidade colectiva. E quantos mais anos levarmos a fazer, mais vamos desencorajar a inovação e o espírito criativo que nos pode conduzir a um futuro brilhante — deixando, entretanto, que os nossos visionários saltem todos para países que os apoiem.

De nada valerá chorar quando for tarde demais. Se é que já não é…
Fotografia de ruthdeb reproduzida ao abrigo da licença Creative Commons

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