Pobres portugueses…

Já dizem os velhos ditados que a ignorância é um estado de graça. Se não sabemos o que se passa, somos mais felizes por não o sabermos. Os Estados totalitários e autoritários sempre insistiram em que a população não fosse muito letrada e apática relativamente a tudo; são os cidadãos mais fácil de governar.

Portugal já não é um estado nem totalitário nem autoritário. Temos liberdade de opinião, e fazemos uso dela. Somos o país que tem mais “treinadores de sofá” — toda a gente acha que pode ser treinador de futebol bem melhor do que qualquer “mister” que por aí ande. Mas também somos “políticos de sofá”. Dos mais humildes elementos da nossa população, até aos mais cultos, todos temos a mesma ideia: se nos fosse pedido para governar o país, teríamos melhores soluções que os políticos que elegemos. E pelo menos não estaríamos a dormir no Parlamento, como vemos os (escassos) deputados no Canal Parlamento a fazer.
O que evidentemente a grossa maioria da população não sabe — nem deve saber! — é como realmente se faz política. Não sei se é um caso restrito ao nosso pequeno país; talvez seja universal, não conheço gente em cargos distintos fora de Portugal. Mas se calhar, para consolo nosso, “é em todo o lado assim”.

Vemos um pouco por todo o lado o nosso actual governo a efectuar cortes onde consegue, para manter o Orçamento de Estado equilibrado, e a aumentar os impostos à classe média trabalhadora — especialmente aquela que está empregada por conta de outrém — e esmagar completamente as pequenas PMEs e o pequeno empresário individual, de forma a que este pura e simplesmente desapareça, sob uma chuva de legislação opressiva que o force a tomar uma decisão: ou passa à clandestinidade, ou abandona o seu negócio por ser impossível de o rentabilizar.

Achamos que isto é uma política atroz quando vemos os lucros dos bancos serem anunciados todos os anos — quase que duplicando todos os anos. O Jerónimo de Sousa, coitado, bom comunista que é, quer taxar as grandes empresas que tenham lucros acima do meio milhão de Euros em apenas mais 0.25%. A proposta dele foi, obviamente, liminarmente recusada, e não tinha qualquer hipótese de ser bem sucedida.

Dizemos (e diz a imprensa!) que o problema em Portugal são os jobs for the boys, a corrupção, o tráfego de influências. Que todos os políticos são corruptos, e se não são, irão sê-lo em breve. Que quem está no poder, tendo-o, é corrompido pelo mesmo. Que os políticos são incompetentes para qualquer tarefa — se não o fossem, estariam a trabalhar noutro lado. E que todos os políticos são atraídos pelo “capital”, que no fundo é quem domina o nosso país. E mais uma série de clichés confortáveis com que gostamos de caracterizar a nossa classe política.

É certo que existirão alguns políticos corruptos e decerto muitos políticos incompetentes. É certo igualmente que muitos ficam fascinados com a facilidade que neste país se consegue enriquecer facilmente, e que não é o salário de um deputado ou de um presidente da câmara que é suficiente para afastar a sombra da corrupção. Isso é inegável e acontece.

Mas acontece muito menos do que provavelmente a maior parte das pessoas pensa. A realidade, no entanto, é ligeiramente diferente.
A classe política portuguesa pode-se dividir, grosso modo, em duas “gerações”. Uma é a geração do 25 de Abril. Eternos lampiões da Liberdade e da Justiça, pelo mero facto de se ter nascido em determinada altura, e se ter estado nos comícios certos no momento certo, impulsionou uma série de pessoas para cargos políticos proeminentes. Trata-se da classe política visível ao público — são os “nomes que conhecemos” — aqueles que estiveram “lá” quando derrubámos a autocracia de direita e mais tarde o totalitarismo de esquerda, e nos preparámos para uma democracia moderna. Ninguém os esquecerá; são as pessoas em quem “confiamos” o nosso rumo, destino, e futuro, simplesmente porque, na altura certa, foram quem deu a cara.

Mas não nos podemos esquecer igualmente de que esta auto-promoção súbita baseia-se em fundamentos muito pouco sólidos. Relembro as hordas de cabos e sargentos destacados para as Guerras do Ultramar que, ao regressarem, foram transformados em tenentes-coronéis, coronéis, e mesmo generais. Gente sem qualquer preparação; que nunca viram uma academia militar; que não tiveram nem nunca terão a mínima capacidade intelectual ou preparação formativa para “chefiar” unidades. Apenas tiveram a sorte de estar na altura certa no sítio certo, e a Pátria reconhecida pelos seus inúmeros esforços, promoveu-os para lugares para os quais não são competentes. O resultado está à vista; apenas na última década, esvaziando a maior parte das unidades tradicionais das Forças Armadas Portuguesas, e criando novas unidades, é que nos podemos começar a orgulhar de ter qualquer coisa que não nos envergonhe nas missões militares no estrangeiro. O “truque”, claro está, foi colocar gente nova, sem vícios, com formação militar das academias, a chefiar essas novas unidades. O resultado está à vista: já não envergonhamos ninguém.

Mas continuamos, literalmente, com hordas de uma turba mal chefiada em unidades obsoletas que apenas “existem” porque não podemos despedir funcionários públicos. Temos umas forças armadas gigantescas, obsoletas e inúteis, para suportar meia dúzia de unidades com excelente preparação e melhor desempenho. Hordas e hordas de inúteis espalhados por todo o lado apenas para satisfazer umas largas centenas de cabos-tornados-generais no advento da democracia — e, claro, um general tem de ter unidades para comandar.

Todos sabemos e conhecemos esta situação, e aceitamo-la, porque esses cabos-tornados-generais foram heróis da Pátria — sobreviventes a um conflito em que se empenharam, apesar de ninguém o querer. À medida que os cabos-tornados-generais se reformam, reformam-se igualmente as forças armadas: as unidades que geriam são desmanteladas, dando lugar a novas e modernas unidades, essas sim, lideradas por pessoas competentes e formadas com distinção. É um processo lento, já que Portugal tem uma esperança de vida bastante razoável, e toda essa geração ainda está bem viva, e assim estará por mais uma ou duas décadas, se Deus quiser.

Mas se todos conhecemos esta situação nas Forças Armadas… já não nos é claro que o mesmo acontece na classe política.

Esta é um perfeito espelho — mas a uma muito maior escala, com muito mais responsabilidade, e maior abrangência de influência na nossa sociedade — do que se passa nas forças armadas. Efectivamente, quem “manda” na Classe Política é a Geração de Abril. Muitos são, felizmente, pessoas honestas e competentes, com formação superior, e experiência dada, seja no meio universitário, seja no empresarial. Mas muitos pura e simplesmente eram agitadores políticos nos anos quentes de 1974-76, e tiveram a “sorte” de estar no sítio certo na altura certa. São “políticos da casualidade”. Ninguém os “treinou” para gerirem países. E, duas décadas mais tarde, eles próprios chegaram à conclusão que não tinham capacidades para serem qualquer outra coisa senão “políticos de carreira”. Fecharam-se nos seus estaminés — as sedes dos partidos políticos — de onde não arredam pé. Temem o mundo exterior, no qual são inaptos para participar, pois enquanto os seus colegas nos anos 70 estudavam gestão, economia, ou jurisprudência, eles alegremente imprimiam folhetos revolucionários. Alguns, felizmente, são poetas ou artistas, pelo que, no pior dos casos, enriquecem o património cultural lusitano, mesmo que sejam efectivamente incapazes de terem qualquer outra profissão.

Depois temos a “nova geração”. São as pessoas que já nasceram depois de 1974-76, ou que eram demasiado jovens para se lembrarem desses anos. São pessoas com formação superior, muita experiência de vida, imensa inteligência, uma capacidade de trabalho extraordinária que é perfeitamente anacrónica relativamente à média pouco produtiva dos seus concidadãos, e livres dos vícios e preconceitos a “Geração de Abril”. Estão habituados à liderança e não à mera chefia; ascenderam a cargos académicos ou empresariais por mérito próprio, reconhecimento dos seus pares, e muito trabalho — e não porque estavam no comício certo a 1 de Maio de 1974. Mas que têm plena consciência que nunca serão os líderes deste país — ainda há imensa gente da “Geração de Abril” que por cá anda, e vão continuar a ser esses a mandar em Portugal durante mais duas décadas.

Ficam, pois, na “segunda linha”, dentro das “máquinas partidárias”, consolidando a estrutura e colocando-a a trabalhar de forma eficiente, moderna, e apropriada para um país da União Europeia, e não uma república das bananas cujos líderes foram nomeados de entre quem participou na última junta do último golpe de Estado. Graças a eles, pelo menos, os políticos no poder andam informados. Graças a eles, pelo menos, aos poucos se vão substituindo as hierarquias internas e as da função pública, aqui e ali, por gente trabalhadora e competente. É graças a eles que ainda temos um país que por vezes parece quase funcionar. Graças a eles, pelo menos, há um futuro para Portugal.

Claro que não têm qualquer poder agora. Mas pelo menos mandam emails e escrevem em blogs (internos…). Sentam-se à mesa da Geração de Abril e explicam que já estamos no século XXI. Comentam como é que o mundo funciona em 2006 e porque é que é tão diferente de 1976. Não são ouvidos, mas pelo menos, em verdadeiro espírito democrático, não são afastados. São ligeiramente irritantes, mas ao menos, estão lá. E, com o tempo, esta minoria de “novos políticos” aos poucos irá substituindo os Velhos do Restelo agarrados ao panfletarismo setentista que não têm a menor concepção de como funcionam as instituições da nossa sociedade, muito menos de como se gere um país.
Mas o problema não fica por aí. Os portugueses, na sua maioria, querem lá saber dos políticos que mandam dentro dos partidos.

O problema, infelizmente, é transversal a todas as organizações ligadas ao governo de Portugal — desde ministérios, passando por institutos, a todas as entidades que ainda são estatais ou que o foram muito recentemente.

Naturalmente, quem gere essas entidades — independentemente da sua filiação política — foi lá colocada pelos amigos panfletaristas. E subitamente viram-se num cargo de poder — sobre uma secretaria de Estado, sobre um instituto — sem terem a menor ideia de como é que se exerce esse poder. Nada, no agitador político de rua, que enche os corações dos seus concidadãos com carisma, lhes deu uma experiência de gestão. Apenas são “amigos dos revolucionários de Abril” — a única qualificação que detêm para exercer o cargo que exercem.

Como resolveram o problema?

Na realidade, foi muito simples. A partir dos anos 80, toda a economia mundial agilizou-se, e o outsourcing passou a ser a palavra da moda. Longe de mim criticar esta evolução; acho-a verdadeiramente positiva em todos os aspectos, por mais “gasta” que a ideia esteja.

O problema nestas situações está quando quem decide fazer o outsourcing não sabe o que está a comprar; e não tem qualificações para saber julgar a decisão que está a tomar.

Vamos a um simples exemplo. No virar do século, era “normal” um site Web custar um milhão de euros. A verdade é que era uma coisa tão nova, que ninguém sabia quanto valia! Ninguém sabia mesmo. As próprias empresas de Web design não estavam a “roubar” — um bom negócio é um negócio em que ambas as partes estão satisfeitas — mas sim a ver o que é que o trabalho deles valia. Eram poucas as empresas, treinar um web designer era caro (quando não impossível), por isso, qualquer valor que reflectisse a “raridade” deste trabalho era elevado.

Ora isso extendeu-se a todas as áreas, ou quase todas, quando as entidades governamentais começaram a fazer outsourcing nos tempos áureos do Prof. Cavaco Silva. Praticamente tudo na economia portuguesa era “novo” nessa altura. E novo = caro.

Mas como tínhamos dinheiro para pagar isso, foi o que fizémos. Dando assim oportunidade a um vastíssimo leque de empresas a trabalhar por chorudos contratos para o Estado português. Isto, por sua vez, revitaliza a economia — mais empresas tornando-se maiores, celebrando contratos regulares, empregando mais pessoas, pagando mais impostos e segurança social. É, na social-democracia de 3ª via, uma das formas mais elegantes de ter o Estado a influenciar, directa e positivamente, a economia de uma nação.

E funcionou lindamente. A esmagadora maioria dos serviços mais caros adquiridos pelo Estado português foram adquiridos dessa forma. Resultado: tivémos, nos anos 90, uma das economias mais prósperas da União Europeia. O mero facto de todas essas empresas fornecedoras do Estado terem crescido conduziu a uma série de efeitos positivos, a saber:

  • Mais empresas
  • Mais empregados
  • Mais impostos
  • Logo, mais dinheiro para contratar mais serviços a mais empresas
  • Menor crescimento do Estado (ie. função pública)

O que é uma espiral crescente de riqueza de todas as formas. Indirectamente, também significou que as novas empresas forncedoras do Estado, por sua vez, começaram a ter mais recursos para subcontratar por sua vez outras empresas, acelerando ainda mais este processo de espiral positiva.

Chegamos então à Grande Recessão de 2002/3. O que aconteceu? A Economia estagnou, as empresas fecharam, o Estado arrecadou menos impostos. Mas o Estado não é uma “empresa”; ao contrário das dezenas de milhar que fecharam quando a economia não as conseguia suster, devido à sua contracção, o Estado não pôde fazer o mesmo.

Porque o Estado não pode despedir funcionários públicos, como todos sabemos. Pode realocá-los e tentar dar-lhes formação (como se fez, por exemplo, na Câmara Municipal de Lisboa). Mas é difícil colocar uma “cultura de trabalho” em sítios onde essa cultura nunca existiu, e, pior que isso, os píncaros da hierarquia nem sequer a conhecem. Não se pode esperar de um panfletista agitador político que conheça métodos de gestão empresarial; tudo o que ele(a) saberá é repetir panfletos. É o seu único conhecimento!

Mesmo que compreenda a noção de que tem de despedir pessoal e reduzir custos — não o pode fazer, porque não se podem despedir funcionários públicos…

Então o que tentaram fazer? Bom, o que parecia ser óbvio: cortar com o outsourcing.

Agora imaginem a seguinte posição: o leitor foi um agitador político dos anos 70. Tudo o que leu era o que estava nos panfletos. Está à frente de um grande organismo do Estado. O seu ministro da tutela pede-lhe que reduza os custos. Não faz puto de ideia como isso se faz. Dizem-lhe para cancelar os contratos. Convoca uma reunião com os prestadores de serviço.

Digamos que vai falar com a empresa Autoaluga, que lhe faz a gestão do parque automóvel, e diz-lhe: “para o ano, não vamos renovar o contrato. Sou eu que digo, porque sou eu que mando. Adeus”.

Mas o seu interlocutor não é um panfletista-tornado-político. Trata-se de alguém que agarrou uma oportunidade de ouro em meados dos anos 80, e que duas décadas depois, gere um império muito bem organizado de frotas automóveis. Tem milhares de empregados. Paga balúrdios em impostos. E o que ele lhe vai dizer, com um sorriso maquiavélico, é simples: “Bom. Tudo bem. Mas se cancelar o contrato com o Estado, vou ter de despedir o meu pessoal.”

O político-de-Abril ergue uma sobrancelha e pergunta: “Quantas pessoas vai despedir?”

“Bom… não muitas. Talvez umas duas mil para começar. Todas elas com salários chorudos que vão passar a depender do subsídio de desemprego. Vou reduzir a minha facturação em 80%, e pagar menos impostos. Provavelmente vou ter de mover a minha sede para Espanha, ou melhor, Estónia, onde os impostos são de 1%. Fecho as oficinas de manutenção que tenho no interior, onde os meus ex-funcionários não arranjam trabalho. E, claro, vou cancelar todos os contratos com os meus fornecedores de peças — fábricas novas, portuguesas, que foram criadas nos últimos 15 anos com capital do Governo português, e que agora ficarão sem o seu maior cliente, a Autoaluga. Vão fechar também. Para mim é indiferente, passo a comprar peças na Hungria, onde é mais barato, e ainda ganho uns trocos, que serão taxados a 1% na Estónia. Calculo que 10 mil pessoas perderão os seus empregos nos próximos dois anos e meio, à medida que a bola de neve de despedimentos por a Autoaluga não existir mais começar a rolar.”

Por esta altura, o nosso amigo agitador político está a transpirar. Que saudades das decisões simples lá na antiga sede do partido, em que se discutia apenas se era uma boa ideia imprimir o logotipo em vermelho ou cor-de-rosa! Nada, mas nada mesmo, o preparava para uma coisa destas.

Em pânico, telefona ao ministro da tutela, explicando o que pode acontecer se diminuir o outsourcing. O ministro, correligionário dos tempos da pancadaria no Campo Pequeno, enlouquece ao telefone. Diz que nunca viu tamanha “falta de visão”. Que é evidente que não se pode cancelar o contrato! Que está fora de questão! Que “o nosso Primeiro” se passaria se se soubesse alguma coisa disso! Que volte já para a reunião de novo e que diga que não cancela nada, e que depois lá se entenderiam com o colega das Finanças. Dez mil desempregados? Nem pensar!!

O nosso amigo, abatido e trémulo, lá volta a enfrentar o CEO da Autoaluga no seu fato Armani e sorriso sardónico. “Ok, não faremos nada disto em 2007, esteja descansado, mande então os contratos…”

O outro amplia o sorriso e diz: “Sabe… estive a pensar. Realmente não me tinha apercebido, até entrar nesta sala, quão aliciante as minhas ideias são. Estive a fazer umas contas” — puxa da calculadora — “e realmente, se mudar tudo para a Polónia, com sede na Estónia, e usar meia dúzia de carripanas velhas da minha delegação espanhola para vos servir, posso despedir todo o meu pessoal, aumentar os lucros globais dos meus accionistas, e deixar de depender do Estado português. É que, sabe, estas coisas são uma chatice. Hoje, pronto, lá vejo a sua boa vontade a revalidar o contrato por mais um ano. Mas e para o ano? Lá terei de viver na incerteza. Não, estive a pensar, e é melhor é cortar com tudo já.”

Já rubro e prestes a ter um ataque cardíaco, o nosso ilustre dignatário diz então: “Mas… mas… então quer dizer que vamos ter dez mil desempregados??”

“Provavelmente mais. Isso era só a minha estimativa se reduzisse as operações. Mas agora que pensei melhor sobre o assunto, parece-me bem melhor terminar as operações todas em território nacional… ficamos todos mais contentes dessa forma, e dormirei melhor durante a noite, sabendo que os meus accionistas terão um futuro garantido com maiores dividendos por acção…”

“Mas não aceita pelo menos uma contra-proposta???”

O implacável senhor do fato Armani fita sombriamente o nosso trémulo político-de-trazer-por-casa. “Bom. Estimei que o meu plano aumentaria os rendimentos dos meus accionistas em 30% durante 5 anos. Ora se conseguisse convencer o seu ministro a celebrar um contrato de 5 anos com a Autoaluga, aumentando, nesse período, a frota automóvel em mais 30%… bem, nesse caso, mesmo tendo em conta os impostos mais elevados, penso que a coisa ficaria por ela. Até porque o Primeiro-Ministro disse que ia baixar os impostos em 2009, não disse?” Fica o sorriso no ar.

E assim se termina mais uma “decisão política”. Bem longe de “cortar nos custos”, o que o Estado fez foi aumentá-los ainda mais, aqui e ali, à medida que inaptos e incompetentes dirigentes políticos não têm forma de “negociar” com especialistas em gestão empresarial com pelo menos duas décadas de experiência…

Mas mesmo um político competente e experiente (como há tantos!) teria de “ceder” numa reunião destas. Ninguém neste país tem a “lata” de ver o seu nome escarrapachado nos jornais a dizer: “Ministro cancela contrato com a Autoaluga e lança 30 mil no desemprego”. Pura e simplesmente não se faz. É suicídio político. A competência, neste caso, é quase irrelevante.

O problema não está em 2006. Está numa geração de políticos que nasceu num comício algures, e que ao longo de décadas, tornaram-se de tal forma reféns de todas as organizações, essas sim, profissionais, que não se conseguem ver livre delas.

Ninguém, neste país, pode dar-se ao luxo de mudar o sistema. É puro convite a uma nova revolução. Ninguém pode dar-se ao luxo de “afugentar” empresas nacionais (ou em território nacional) cancelando os seus preciosos contratos nesta época de globalização. Pelo contrário: a ameaça de despedimento de pessoal faz o Estado aumentar os valores desses contratos, na esperança — vã — de que com isso conseguem “segurar” os empregos por mais um mandato. E depois logo se vê (até podem ser outros a ganhar as eleições!).

A espiral ascendente da economia criou profissionais de gestão, mas também criou uma outra coisa: profissionais de manipulação de políticos. Nem sequer são lobbies ou grupos de pressão. São empresários de sucesso. São pessoas que, em vez de estarem a lançar foguetes em comícios, estiveram a estudar, e, principalmente, a ganhar experiência a trabalhar, árdua e afincadamente. São pessoas que não estão nos seus lugares, nos píncaros das empresas, porque lá entraram com cunhas ou amigalhaços do partido (no tempo em que eram todos “uma cambada de anarcas radicais mas que bebiam muito em conjunto e que se divertiam como o caraças”), mas sim porque têm MBAs, doutoramentos, e décadas de experiência de gestão.

Sejamos honestos. São líderes. Os nossos políticos da Geração de Abril não são nem nunca foram; são cabos-tornados-generais, e como qualquer cabo (perdoem-me os meus amigos que são cabos!), até sabem lidar no campo com homens e tomar decisões tácticas — mas estão longe de compreender objectivos estratégicos. Pura e simplesmente não têm formação nem lhes foi exigido que a tivessem.

Portanto, prevejo que vamos ter mais duas décadas assim. Depois o que vai acontecer é que a “nova geração” de políticos — tão experientes e profissionais como qualquer outro profissional — que actualmente estão em lugares de segunda linha irão, finalmente, subir ao poder — e lidar com a massa empresarial portuguesa (da qual emergiram!) entre pares. Mas vamos ter de sofrer vinte anos até que morra o último “político de Abril”; basta estar um vivo, que será ele um Primeiro-Ministro, e estragará tudo.

Basta olharmos para a Europa para ver como estas previsões estão correctas. A Europa teve o seu equivalente à “geração de Abril” — foi a geração pós-guerra. Com a diferença que a maior parte destes não eram “agitadores políticos” mas gente que queria deixar para trás o passado e construir um país novo que “nunca olhasse para trás”. Só isso marcou a diferença; mas as coisas começaram a correr realmente bem após duas gerações, quando já não há “políticos do pós-guerra vivos, e os actuais políticos europeus ascendem aos cargos por mérito e não um apego a um passado místico onde as coisas “eram mais simples”. Nós estamos uma geração atrasados.

Vamos ter de esperar. Até 2025.

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