Adeus, Web cruel!

Lewis RoundfieldDrástico? Não. Acho que a Web, para mim, está a “terminar”. O último estertor de uma Web moribunda, cheia de dados mas vazia de conteúdo, cuja única ferramenta realmente importante é o Google

Vazia de conteúdo? Mas como pode o ousado editor destas linhas justificar tal comentário?? Como se pode dizer que a Web está “vazia de conteúdo” com um bilião de utilizadores e provavelmente outras tantas páginas Web? Como se pode falar de ausência de conteúdo quando diariamente terabytes de fotografias, vídeos, e páginas de blogs são actualizadas? Dizia alguém bem mais inteligente do que eu que a cada segundo são criados 47 blogs. Ou seria a cada minuto? Ou eram 57? Ou 37? Seja qual for o número exacto, a realidade é que todos os dias são criados novos blogs. Novas páginas são acessíveis para gáudio (ou talvez não) de um bilião de utilizadores.

Que fixe!Então como se pode dizer que falta conteúdo? Quando acabo de vir de um jantar com alguém que, via eMule, encheu um disco com um terabyte de scans de edições da Scientific American e que tem provavelmente a maior biblioteca nacional de ficção científica digitalizada? Quando leio que na Amazon.com, a cada altura do dia ou da noite, estão dez mil utilizadores simultâneos online a fazer compras? Quando os analistas políticos americanos preparam campanhas em blogs em simultâneo com as campanhas off-line, porque sabem que o voto de uma certa classe social que usa a Internet todos os dias passou a ser importante — presume-se que perto de 75% de americanos tenham uma forma qualquer de aceder à Internet, mesmo que esporadicamente? (nós por cá andamos pelos 25% segundo as minhas estatísticas, porque se acreditássemos nas oficiais, seriam uns cinco milhões de utilizadores hoje e oito milhões em 2010… yeah, right)

E claro que toda a gente sabe que a Internet portuguesa é uma treta. Já o era em 1994 quando montei a Esoterica com o Mário Valente. Continua a ser uma treta em 2006, quando a compararmos, por exemplo, com a brasileira, que tem catrefadas de informação e conteúdo. Mas falo da Internet mundial, não da nossa.

Alto! Impõe aqui o leitor atento. Se bem que seja verdade que a Internet brasileira tenha imenso conteúdo, esse conteúdo é de baixíssima qualidade, portanto “não conta”.

Ah-HAH!

Mas nem mais. A verdade é que o nosso conteúdo ainda é de mais baixa qualidade. Para comprovar o que estou a dizer, lanço como argumento o facto de estar a ler este artigo em vez de estar a ler qualquer coisa de jeito. Assim sem olhar para o Google e a Wikipedia, qual é o blogger mais famoso do mundo? Não sabe? Pois. E o mais famoso de Portugal? Bem, provavelmente dirá “Pacheco Pereira“, ou, num rasgo de inspiração, “José Magalhães“. Pois. Sabe qual é o ranking destes dois senhores no Technorati? 1276º no primeiro dos casos, 948088º (entre mais de um milhão) no segundo. Interessante comparação!

Em compensação, o meu “outro” blog (exclusivamente sobre o Second Life, e, logo, só com uma audiência estimada de um milhão de potenciais leitores, e perfeitamente desinteressante) está em 71445º…

A conclusão? O conteúdo português é negligível na Web. Há algumas solenes excepções, mas é escasso, difícil de encontrar, e perdido pelo meio da net.

Mas a Web não é toda assim…?

Imaginem uma Web sem motores de pesquisa. Para que é que serviria? (Notem: a Web já foi assim!…) Teríamos todo este manancial de informação, mas… seria mesmo informação?

Tenho um CD aqui do “Jesus Christ Superstar”. Meto-o no meu computador e olho para os bits e bytes que lá estão impressos. Se os abrir com um editor de texto, aparece-me lixo no écran. Mas onde está a “música”? Na realidade, nós sabemos que esses bits e bytes “são” música porque temos aplicações capazes de ler o “formato” dos CDs, e do “lixo” aparente conseguem retirar “informação”. Mas do ponto de vista de um computador… um CD não é “informação”. São “dados”.

Toda a Internet é, efectivamente, “dados”. Graças a motores de pesquisa, no entanto, podemos agregar e relacionar dados entre si (graças ao Google!), e chamar-lhe “informação”, no sentido em que podemos retirar desses dados aquilo que é “sumo” e deitar fora o “lixo”.

O processo de transformação de “dados” em “informação” é aquilo em que nós, humildes seres humanos, somos melhores a fazer. Então porque não fazemos o mesmo com a Web?

Bom, pode-se argumentar que é isso mesmo que faz o Google. Mas esta “transformação” de dados em informação não “nasceu” com a Web. Dantes usávamos bibliotecas — fazemos isso há mais de seis mil anos — e sempre o fizemos de forma razoavelmente eficiente.

Agora geramos tanto “lixo” que precisamos de coisas como o Google para fazer esse trabalho por nós.

Mas vamos mais longe…

O Google comprou o YouTube. Toda a gente sabe isso, foi o negócio mais badalado da era pós-“Internet bubble”. Sinais de uma “nova economia” — de novo? Talvez. Dizem os analistas que desta vez vamos ter mais cuidado; vamos comprar menos “ideias” e mais “empresas com conceitos rentáveis”. Bom, o YouTube não era rentável, e ninguém sabia se alguma vez o seria. Tudo o que sabemos é que tem milhões de utilizadores, que diariamente fazem uploads de milhares de vídeos. Conteúdo? Hmm. Onde? 😀

Mas podemos perder horas com o YouTube. Tem mais piada que ver os Morangos com Açúcar na TV. Hm. Dizem-me que essa série acabou; como não tenho TV desde 2000, nunca a vi. Mas acho piada ver YouTube. Nos dias em que estou demasiado cansado para fazer qualquer actividade que considero inteligente (nota: não estou a assumir, claro, que qualquer das minhas actividades possa ser considerada inteligente por outras pessoas), perco às vezes uma hora a ver episódios antigos dos Monty Python. É giro rever estas coisas, pirateadas de uma forma quase “legal”. Mas só porque me lembrei uma vez de escrever “Monty Python” no motor de pesquisa do YouTube. Sei lá que mais coisas super-interessantes por lá existem! Se calhar são às milhenas, mas como não sei que palavras-chave lá meter, todo este “conteúdo” está por lá perdido sem o conseguir aceder…

Portanto aqui chegamos ao impasse: sem conseguir pesquisar efectivamente o manancial de dados existentes na Web, esta não é realmente “fonte de informação”, mas sim apenas… um manancial de dados. É informação in potentia, mas só se eu souber como chegar a ela.

O que dizem os peritos sobre isto? Bem, discutem modelos avançados de inteligências artificiais, que no futuro andarão à procura de “informação” que nos interesse, e que a façam chegar confortavelmente ao nosso computador. Uma espécie de RSS feeds inteligentes. Talvez.

Outros acham que o mundo todo se está a habituar a colocar tags em toda a “informação” que produzem, e que uma TagWeb do futuro será aquilo que permitirá agregar o conteúdo produzido por um bilião de pessoas em todo o mundo. Aliás, as tags são um dos pilares desta nova “web social”, a Web 2.0, e não há site Web 2.0 que não tenha tags. Talvez.

Outros ainda acham que as ferramentas de pesquisa irão gerar tags automáticas para tudo o que existe no universo, e que graças a isso, os tais “agentes inteligentes” anteriormente referidos não terão assim lá muito que fazer. Talvez.

Eu cá por mim, continuo na minha — se preciso de alguma informação, pergunto a quem a saiba. Ainda confio bem mais em seres humanos do que em ferramentas maravilhosas. 🙂

Ok, pronto, ninguém consegue escapar ao Google. Mas… esta geração de tecnólogos tem a mania de que a tecnologia informática resolve todos os problemas da humanidade. Trata-se mais de uma filosofia bonita do que uma realidade. “Se toda a gente usar tags… se o Google for mais inteligente… se os nossos computadores forem mais rápidos e dotados de inteligência artificial… se tivermos meta-tag engines…” Se, se, se.

Cria-se a ilusão de que a “tecnologia informática” pode tornar-se tão avançada e sofisticada que substitua totalmente a necessidade de termos seres humanos a processar padrões — aquilo que somos tão bons a fazer e que os computadores são tão maus. Mas os optimistas acham que conseguem fazer isso — é tudo uma questão de engenho, oportunidade, tempo, e computadores mais rápidos.

Entretanto, os parvos como eu mandam uma mensagem no GTalk ou no MSN e perguntam: “ó Antunes, dá-me lá aquele link para o blog do Zé Magalhães, que não me lembro onde está”. E têm uma resposta ao fim de 10 segundos (levei uma hora a descobrir, via Google e Technorati, onde é que esse link estava. Claro — esqueci-me de acrescentá-lo ao del.icio.us, por isso a culpa é minha por não saber usar a Web como deve ser).

O que os parvos como eu pensam é que a Web é demasiado cruel. Somos humanos parvos que andamos por aqui a olhar para CDs com bits e bytes e nem sempre descobrimos onde é que está a música. “Ah,” diz-me o meu editor de texto inteligente, “posso não perceber puto do que querem dizer estes bits e bytes, mas está aqui um tag que diz ‘Pista Cinco — This Jesus Must Die’ — será que isto é música? Procurando MetaGoogle para mais informação…”

Não será que uma Web mais “inteligente” seria uma Web não com inteligência artificial — mas uma com inteligência humana?

Volto ao exemplo da Amazon.com. A qualquer momento, estão lá ligadas 10.000 pessoas em simultâneo. Mas… quem são elas? Não comunicam entre si. Algumas estarão provavelmente a fazer reviews e a alimentar (com tags…) informação para se entre-ajudarem a procurar melhores livros ou CDs. Sim, “provavelmente”. Mas quem são essas pessoas? Porque não posso falar com elas? Porque é que não posso clicar numa delas, que vejo que está a comprar um álbum do Jesus Christ Superstar e perguntar-lhe: “olha lá, qual é o nome da pista 5 desse álbum?”

Vão-me dizer que não é assim que a Web funciona. Aqui somos todos anónimos e ninguém sabe o que é que os outros estão a fazer. Mas porquê? Na FNAC (física, não na página Web) estão por vezes uma centena de pessoas ao mesmo tempo. Ela perguntam aos empregados onde é que estão as coisas. E eles respondem. Às vezes enganam-se. Às vezes há um outro cliente que ouve a nossa pergunta e diz: “a pista 5 é ‘This Jesus Must Die’. Mas não gosto muito dessa, não é a minha favorita.” Agradecemos ao ser humano que nos esclarece.

Porque é que a Web não funciona da mesma forma que na vida real? Porque é que não podemos ter uma Amazon.com que funcione como uma loja (física) da FNAC? Porque é que insistimos que a Web “tem de ser diferente” e que “na Web as coisas passam-se de outra forma” ou ainda: “mas na Web não precisamos de perguntar nada a ninguém, basta-nos pesquisar no Google e ficamos a saber tudo o que precisamos!”

Mas a pergunta, mantenho-a, é: porquê?

Quem me diz que para mim, que sou um ser humano, é melhor perguntar coisas ao Google do que a outros seres humanos? Porque é que é “melhor”? Quem estabeleceu esses critérios? Foi Deus? 🙂 Ou qualquer “divindade internética” que por aí anda a escrever livros sobre “Google é melhor que seres humanos. Deus dixit.”

Ninguém me responde a esta pergunta. A não ser com um lacónico: “porque sim”. Lamento, mas não me satisfaz.

Entretanto, felizmente, há mais parvos neste mundo que fazem perguntas burras. Daquelas do tipo “se um bilião de pessoas está ligada à Internet, e todas elas usam o Google para procurar coisas e se estão a marimbar para os ‘seres humanos’ que por lá andam, porquê mudar”? Uma dessas pessoas é o Jeff Bezos, um dos fundadores da Amazon.com, que ano passado andava por aí a criar um dos primeiros espaçoportos privados (sim, ele tem dinheiro para isso). Este ano ele está mais modesto: pensa em fazer uma Amazon.com que funcione como uma loja física da FNAC. Uma em que existam seres humanos lá dentro. Mas que está na Internet. Não na Web 2.0 com os seus tags e os seus Googles.

Curiosamente, é no Second Life. O evangelista da Amazon Web Services, Jeff Barr, deixou estes comentários sobre a apresentação que fez por lá. Bom, o Jeff Bezos é um dos financiadores da Linden Lab. Um dos outros é o Pierre Omidyar, fundador do eBay e provavelmente também tão rico como o Jeff Bozes. Oops. Parece que o Pierre também está com ideias semelhantes: em vez de ter lojinhas eBay em páginas web coloridas, essas lojinhas e os seus lojistas estariam num espaço virtual, onde poderiam olhar, cara a cara, para os seus clientes. Afinal de contas, se a Toyota, a Adidas/Reebok, e os donos do Sheraton podem vender os seus produtos e serviços no Second Life, porque assim as pessoas podem experimentar uma “versão virtual” antes de a comprar na realidade, porque não hão-de fazer a Amazon.com e a eBay a mesma coisa?

Mas estes tipos andam todos doidos?

Penso que são tão parvos como eu. Óptimo, já não me sinto sozinho 🙂

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2 pensamentos sobre “Adeus, Web cruel!

  1. Uga,

    Acho que estás a ver a web como uma coisa monolítica, mas é mais uma infraestrutura para muitas coisas. Grande parte do uso que lhe dou é como enciclopédia — material de consulta — e para isso consulto o indice. Não ando a perguntar em que página encontro isto ou aquilo.

    Também uso a web para entretenimento. Ver páginas, noticias, etc. Normalmente não me apetece estar na conversa em tempo real se estou a fazer isto calmamente.

    Compras também em muitos casos dá me mais jeito a amazon precisamente porque não tenho que perguntar nada. O que quero ou está lá ou não está.

    Finalmente a comunicação entre pessoas não é necessariamente melhor em tempo real. Email, e comentarios como este, permitem comunicar à distância nas quatro coordenadas espacio-temporais (e esta, hein? 😉 o que pode ser uma grande vantagem.

    Acho que para mim e para muita a comunicação em tempo real, lá com o avatar, netmeetings, ou mesmo o chat, não é a função principal da net. Prefiro o email ao telefone, mesmo com VOIP, porque pode-se pensar nas coisas com calma e faze-las ao nosso tempo e não quando o outro tipo se lembra de melgar…

  2. Ludi,

    Uma coisa é a “Web”, outra coisa é a “Internet” — essa, sim, é que é uma infraestrutura para muitas coisas 😉

    Concordo que a Web foi primordialmente criada para “troca de informação” — sendo a Wikipedia o sonho daquilo que o Tim Berners-Lee queria criar: um site colaborativo, aberto à participação de toda a gente, e disponível imediatamente com imenso conteúdo enciclopédico. Essa é, realmente, a “base” da Web, enquanto protocolo de comunicações e de descrição de páginas. Foi de facto para isso que ela foi criada, e desempenha essa função admiravelmente.

    Outras coisas foram criadas para outros fins (exemplo: email para troca de mensagens que não sejam “em tempo real”). No entanto, a Web teve a extraordinária capacidade de conseguir “assimilar” a maior parte das utilizações da Internet. Além disso, para além do que os visionários iniciais pensavam, conseguiu tornar-se num “interface universal” para aplicações cliente-servidor. Embora ainda existam muitas excepções (nomeadamente, jogos e mundos sintéticos…), a verdade é que a Web tornou-se o interface cliente/servidor por excelência.

    Quanto a “comunicação” já a coisa é diferente. A Web não é um bom meio como “comunicação” — como bem dizes, o email é bem melhor 🙂

    Agora para além destas duas funções — comunicação e informação — há muitas mais. A Web tem tentado adaptar-se a todas. É isto um pouco o que eu contesto: que a Web, efectivamente, não é o melhor meio para todas as coisas (embora seja muito bom para muitas coisas) e que devemos libertar-nos da noção do “Web Ueber Alles” — voltando à velha analogia, quando temos apenas um martelo, todos os problemas nos parecem pregos.

    Mas eu tenho uma caixa de parafusos no bolso…

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