Todos os extraterrestres são humanóides!

Estas são as notas de uma tertúlia que fiz na Simetria FC&F que foi bastante “polémica”. Será que todos os extraterrestres são, na realidade, humanóides, e muito mais parecidos connosco do que os filmes de série B nos gostam de fazer crer? Bem, a base desta “teoria” é do famigerado Carl Sagan, um dos mais ilustres cientistas e divulgadores científicos do século XX. As notas abaixo têm alguns erros graves de raciocínio (já apontadas pelo João Pedro Rodrigues, um colega meu da Mr.Net, onde trabalho, e que tem formação em biologia molecular) mas o objectivo disto é apenas fazer pensar…


Carl Sagan, no seu livro Contacto, postulava uma teoria interessante: todos os habitantes de outros planetas que tivessem desenvolvido a tecnologia de comunicação por rádio seriam criaturas bípedes, que caminhariam erectas, que usariam mãos para manipular ferramentas, e que seriam, no fundo, humanóides, com mais semelhanças que os humanos do que diferenças. Poderiam, de facto, existir outras espécies inteligentes no Universo, mas nunca conseguiriamos comunicar com elas.
O cliché dos Grays e semelhantes humanóides vs. os temíveis bug-eyed monsters nunca largou a ficção científica e é interessante especular sobre o assunto. Os filmes série B com pouca imaginação e/ou orçamento diminuto apontam claramente para os alienígenas humanóides – é mais fácil de meter uma máscara num actor e chamar-lhe alien do que produzir uma monstruosidade disforme convincente. Relembremos que, a propósito do novo remake da trilogia Star Wars, o próprio George Lucas deixou de fora certas conversas entre Han Solo e Jabba the Hutt pelo simples facto que a tecnologia no início dos anos oitenta não era suficientemente avançada para produzir lesmas gigantes rastejantes de forma convincente. Séries como Star Trek apostaram quase exclusivamente nas raças alienígenas humanóides. Quem terá, pois, razão? Será que não podemos conceber aranhas e lesmas inteligentes? Ou cefalópodes disformes com cérebro? Amibas gigantes e terrivelmente complexas? Baleias e golfinhos mentalmente sobredesenvolvidos?
Evitando os tecnicismos, vamos tentar apresentar uma série de pequenos argumentos, e lançar o repto da discussão do assunto. Alguém com mais conhecimentos de química e biologia do que os autores poderão eventualmente ir mais longe e prosseguir a linha de argumentação, argumentando mesmo que a vida inteligente nas estrelas terá de ser à base de carbono e respirar oxigênio para exalar dióxido de carbono. Não iremos tão longe.
O mar é, na Terra, a fonte da vida – e, hoje em dia, procura-se incansavelmente resíduos de antigos mares, seja na Lua, em Marte ou em Europa, que pudessem , nalguma fase da sua vida planetária, ter existido no seu estado líquido. Assume-se com naturalidade que, havendo vida, esta se desenvolverá primeiro nos oceanos, onde uma série de reacções químicas serão mais facilitadas, o que é extremamente propício à criação dos primeiros organismos unicelulares. Mesmo as formas de vida aquáticas, pouco sujeitas à acção da gravidade, podem desenvolver formas mais simples; não precisam de suportar a complexidade de um esqueleto (externo ou interno) para manter a sua estrutura; podem existir diversos métodos de locomoção que co-existam sem haver um que prevaleça. Assim, não é de admirar que existam representantes de toda a espécie vegetal e animal nos oceanos – desde o fitoplâncton à baleia. A tendência, contudo, é para os organismos mais avançados terem uma estrutura fixa que lhes permita uma forma aquadinâmica, permitindo um movimento mais rápido – velocidade é uma característica das espécies mais evoluídas. Note-se também que os predadores adquirem esta tendência e a sofisticam cada vez mais; as presas, por força da evolução, acabam também por se tornar mais rápidas. Mas não existem predadores lentos; quanto muito, podem existir parasitas lentos ou mesmo estáticos.
Será o predador a espécie animal intelectualmente mais avançada? Nos oceanos não parece ser verdade: golfinhos e baleias – sendo mamíferos – são claramente mais inteligentes, sem serem predadores (excluindo a família das orcas); mas entre a espécie pisces não haverá a menor dúvida que o feroz tubarão, entre outros predadores, sejam o cúmulo da evolução da espécie. São mais rápidos, mais flexíveis, mais ágeis, com melhor visão e com sentidos mais desenvolvidos (serão mesmo capazes de cheirar sangue à distância?) do que os restantes peixes. Os herbívoros deslocam-se em grupo e garantem assim a sua sobrevivência, nos números; o predador actua normalmente sozinho (embora esta regra não seja universal) e é suficientemente inteligente para, sozinho, poder sobreviver.
O problema da vida dentro de água tem a ver com a evolução tecnológica. Imaginemos uma espécie aquática com exactamente as mesmas capacidades de raciocínio da espécie humana e que desenvolva até a capacidade de poder segurar ferramentas. Como poderá uma espécie aquática desenvolver o fogo, por exemplo? É claramente impossível. E será o fogo vital para o desenvolvimento de uma civilização? Não existiram civilizações (ou pelo menos proto-civilizações) humanas sem recurso ao fogo? Sem dúvidas. Mas estamos a falar de civilizações não-humanas que desenvolvam a capacidade de comunicar por rádio connosco. Ora essa comunicação pressupõe energia eléctrica; o que por sua vez pressupõe a capacidade de gerar energia; e, ao seu nível mais primitivo, a primeira fonte de energia a que o Homem teve acesso foi o fogo. O fogo é o primeiro passo na evolução de uma civilização que vai culminar no rádio e no telemóvel…
Assumimos desde já, sem preconceitos de espécie alguma, que possam existir outras formas de civilização, talvez até mais avançadas que as nossas, mas não vamos poder comunicar com elas. Imaginemos golfinhos-predadores super-inteligentes, desenvolvendo por baixo de água arte e literatura, comunicando por radar, sonar ou até telepatia, e que usem engenharia genética para desenvolver nova tecnologia. Talvez seja difícil de conceber; talvez precisem de muitos mais milênios até construirem uma civilização; mas talvez também o consigam fazer. Mas nunca deixarão a órbita do seu planeta natal nem nunca construirão um aparelho de rádio. Não os vamos conseguir ouvir nos nossos radiotelescópios…
Para haver uma civilização baseada na produção de energia, precisamos, pois, de largar o meio aquático. Ora, para haver fogo temos de assumir uma série de coisas: primeiro, que o planeta tem de ter uma atmosfera; segundo, que essa atmosfera tem de ser constituída maioritariamente por gases inertes (numa atmosfera de puro oxigênio, por exemplo, uma mera fogueira seria suficiente para devastar a superfície do planeta…). A combinação de gases na atmosfera terrestre pode não ser a única possível – deixamos o desafio àqueles que possuem um conhecimento de química mais profundo que o nosso de demonstrarem que é possível outro tipo de atmosfera capaz de suster fogo sem que este se torne incontrolável. Reforçamos a ideia de que a descoberta do controlo do fogo é essencial para uma civilização com uma tecnologia de produção de energia. Poderíamos ainda especular que um planeta com fontes de energia naturais servisse de base a um desenvolvimento de produção de energia – por exemplo, imagine-se um planeta com imensa actividade vulcânica, ou produção natural de energia geotérmica, sem haver fogo. Seria suficiente? Não. Essas fontes de energia não são transportáveis e seriam dificilmente controláveis. O uso do fogo surge para aquecer os humanos e para cozinhar os alimentos e sem dúvidas que as fontes naturais de energia chegaríam para isso; mas, num estádio mais avançado da civilização, este precisa de fundir metais ou cerâmica, e precisa de desenvolver veículos movidos a energia (já veremos mais abaixo porquê a necessidade deste desenvolvimento). A energia, pois, terá de ser produzida em qualquer lado, terá de ser controlável consoante as necessidades, tem de ser flexível, e tem de ser transportável. O fogo como gerador de calor é o único mecanismo primitivo conhecido com todas estas características.
Poderíamos ainda especular a existência de criaturas em que o processo de geração de calor fosse inerente à sua espécie – por exemplo, criaturas capazes de fissão ou fusão nuclear controlada dentro dos próprios corpos. Mas essas criaturas não seriam estáveis. Não é razoável admitir que essa característica possa ser desenvolvida apenas pela mera evolução natural, isto é, como resultado de um survival trait, uma necessidade da espécie que a faça evoluir para esse estado. A geração espontânea de quantidades de calor por processos químicos também não é razoável: uma criatura dessas teria de consumir quantidades abismais de alimentos para produzir tanto calor de forma controlada (imagine-se a quantidade de calorias que se teria de ingerir para produzir uma temperatura capaz de fundir metais como o aço ou alumínio durante um período considerável!). Vamos aplicar aqui sistematicamente a lei de Occam: uma explicação mais simples deve ser preferida do que uma mais complexa que explique o mesmo fenómeno. A geração de calor sem ser pelo fogo, com as características que esta tem, é demasiado complexa para ser atingida naturalmente pela mera evolução de espécies, logo, é pouco provável que isso aconteça, seja na Terra, seja noutro planeta.
Ainda fica uma hipótese de fora, que é a de um planeta com temperaturas imensamente superiores à da Terra (reduzindo assim a necessidade de aquecimento de minerais a tão altas temperaturas), ou sujeito a uma exposição solar muito mais intensa, ou ainda, a radiação cósmica ou outra. No primeiro caso, é pouco provável a existência de oceanos (logo, pouco provável o aparecimento de vida!) a não ser em planetas com atmosferas superdensas (os físicos que especulem qual a densidade necessária da composição gasosa de uma atmosfera de um planeta que esteja a temperaturas próximas dos 500 graus centígrados mas onde os oceanos de água não evaporem). Parece-nos que estamos a atingir os limites da credibilidade da existência de vida nessas condições. Quanto ao excesso de radiação solar, cósmica ou outra, a quantidade de mutações induzidas por essas radiações inviabilizariam uma evolução para criaturas estáveis. Temos também de abandonar assim essa hipótese.
Portanto, vamos ter de nos sujeitar àquilo que surge como a hipótese mais favorável: a evolução de uma civilização capaz de desenvolver o rádio tem de surgir num planeta com oceanos; tem de existir uma atmosfera estável que permita o fogo controlado; a temperatura ambiente não pode atingir os extremos durante muito tempo (ie. num planeta com a gravidade da Terra e a densidade da sua atmosfera, a temperatura terá de ser tal que os oceanos se mantenham líquidos); não pode haver excesso de radiação, o que implica também que a atmosfera faça essa filtragem; e o fogo e a capacidade de o produzir deverá ser relativamente fácil, flexível e controlável; as espécies terão a sua origem nos oceanos, mas vão ter o seu desenvolvimento civilizacional em terra.
Abandonamos, pois, as civilizações aquáticas com as quais não poderemos jamais contactar, assim como aquelas mais esotéricas, e vamos agora traçar o perfil da raça inteligente nesse planeta.
Porquê «a» raça inteligente? Antes de mais, vamos observar a evolução da única espécie inteligente da Terra que conhecemos. Porque é que adquirimos inteligência? A partir do momento em que os dinossauros abandonaram a evolução e que os mamíferos de sangue quente dominaram o planeta, assistiu-se a uma luta de espécies pelos diversos nichos. Mais uma vez, o predador e o parasita avançaram mais depressa na escala evolutiva do que os restantes animais. Herbívoros evoluiram relativamente pouco – afinal de contas, a única coisa a que tiveram de se adaptar foi à capacidade de obterem proteínas a partir da vegetação – ao passo que os predadores tiveram de lidar com novos factores. Desenvolveram algumas características que lhes são únicas: em água como na terra, são mais ágeis e com sentidos mais apurados do que os restantes animais. Podem agir tanto sozinhos como em grupo; mas um predador isolado sobrevive sozinho, ao passo que um herbívoro capaz de sobreviver longe da manada é uma raridade, pelo menos ao nível das espécies mais avançadas.
O Homem, como predador, estava limitado numa série de características: os seus sentidos não estão acima da média dos restantes predadores, nem é tão veloz como a maior parte deles. Para sobreviver, recorreu a ferramentas. Mas para isso teve de abandonar a postura quadrúpede. Isto favoreceu-o mais do que o prejudicou: é certo que perdeu velocidade, mas passou a poder olhar mais longe, traço essencial para uma espécie que vive em planícies. Sendo mais alto, traduz a ilusão de ser maior e mais forte, mesmo não o sendo; quem pode ignorar que o urso, animal omnívoro como o Homem, é um quadrúpede que se move apoiado nas quatro patas, mas que para atacar assume quase sempre a posição erecta? Mesmo os menores mamíferos, como os roedores, utilizam a posição erecta para impressionar os oponentes. Assim sendo, a utilização da posição erecta pode começar a especializar os membros posteriores. Os animais que frequentemente utilizam esta posição possuem quase todos a capacidade de utilizar as patas posteriores para outras coisas que não caminhar: os roedores conseguem agarrar em pequenas nozes, os ursos pescam com as patas posteriores, os cangurus chegam a lutar boxe, os símios agarram em paus para bater uns nos outros…
Outra característica importante é que a posição erecta, dada a forma como a caixa craniana assenta na coluna vertebral, favorece o crescimento da mesma. Isto permite desenvolver cérebros maiores, essenciais à inteligência. Um gato, por exemplo, não pode ter um desenvolvimento cerebral maior, pois o aumento de volume da caixa craniana não lhe permite manter uma posição quadrúpede que lhe garanta as suas características de predador: velocidade e agilidade. Claro que apenas o tamano da caixa craniana não é garantia imediata de inteligência: sendo assim, o elefante seria o animal terrestre mais inteligente. Mas o elefante é grande demais para ser um predador; com a gravidade terrestre, há limites de massa para os predadores, sob pena da estrutura entrar em colapso com o próprio peso a altas velocidades. Um elefante pode até atingir velocidades de 40 km/h, mas nunca será tão ágil como um leopardo ou uma chita com uma massa muito menor.
Estamos já a ver que, em planetas com a nossa gravidade, a massa genérica de um predador nunca ultrapassará os cerca de 100 kg. O autor de FC Larry Niven também usa essa massa para criar a sua espécie inteligente que vive numa estrela de neutrões, em gravidades altíssimas – com massas de 100 kg mas menos de 1 cm (!) de comprimento. Porquê esta massa crítica? O argumento joga em favor da quantidade de células cerebrais necessárias à inteligência; e, para alimentar essas células cerebrais, é necessário um corpo com determinadas dimensões e proporções, nem mais nem menos. Mais uma vez, e tomando como referência as características do planeta Terra, e não se conhecendo outra forma de desenvolvimento de inteligência que não passe por um cérebro, evoluído a partir de um sistema nervoso, chega-se à conclusão que qualquer criatura que queira ser inteligente terá uma massa semelhante à do Homem. Hoje em dia, um CPU pesa uns 10 gramas, talvez quando se fabriquem CPUs com a densidade actual de transístores mas que tenham 100 kg de massa, os computadores sejam inteligentes…
Podemos ir ainda mais longe. Quanto maior a quantidade de informação a ser transmitida, maior tem de ser o canal – princípio básico da Teoria da Informação. Mas um canal de maior dimensão implica maior complexidade, e maior vulnerabilidade a erros de transmissão (chamado de ruído). Assim, o ideal é manter esses canais o mais curtos possíveis, reduzindo assim o tempo de transmissão e o ruído no canal. Não é, pois, por acaso que os órgãos sensoriais do homem (e da maior parte dos mamíferos) se concentre em torno do cérebro. Há imensas vantagens para esta abordagem, para além da mera questão de transmissão de informação, que pode ser em maior quantidade e com sinais muito mais complexos. Em primeiro lugar, os órgãos mais importantes do predador – os seus sentidos apurados – estão concentrados na zona do corpo com maior protecção, a caixa craniana rígida. Em segundo lugar, dada a posição erecta, estão no local mais alto do corpo – assim, audição e visão alcançam mais longe. Em terceiro lugar, como predador que é, o Homem tem de correr – o que levanta poeiras, e quanto mais afastados os órgaõs estiverem da poeira, mais sensíveis podem ser. Indo mais longe, a capacidade de distinguir cores e pormenores é crítica, inicialmente por uma mera questão de sobrevivência (como é sabido, a maior parte dos animais só consegue detectar a sua presa pelos movimentos; o homem é capaz de as detectar mesmo estáticas), mais tarde para poder ler, escrever e desenvolver arte e literatura. A visão estereoscópica é crítica para o predador (não existe nenhum predador na Terra que não tenha desenvolvido esta capacidade), assim como a audição estereofónica – é importante poder orientar-se para a presa. Isto por sua vez implica que essa orientação seja rápida: a cabeça e o torso devem poder-se conjugar para, mesmo em movimento, se poderem dirigir para a presa com rapidez. O home m pode correr numa direcção e atirar uma lança noutra – é difícil, mas é possível; também pode fugir e olhar para trás sem perder o equilíbrio. Isto condiciona a forma como funcionam as nossas articulações.
Antes de passarmos a rebater formas de vida com características completamente distintas das dos humanóides, vamos ainda ver algumas características que são típicas de uma espécie inteligente evoluída. Vejamos as feições do rosto. Olhos grandes lado a lado – visão estereoscópica. Ouvidos laterais na cabeça – audição estereofónica. Sistema vocal incorporado na cabeça – a capacidade de comunicação pelo ar (à distância) necessita de enorme complexidade controlada pelo cérebro, logo, faz mais sentido colocar o órgão responsável pela comunicação o mais perto do cérebro possível. O nariz aerodinâmico ajuda a ter um canal secundário de respiração que filtra as poeiras levantadas pela poeira. A cabeça é articulada e pode mover-se independentemente do tronco. O coração está posicionado relativamente alto no corpo de forma a poder bombear sangue eficientemente para o cérebro, em simultâneo com o resto do corpo (veja-se o problema das girafas…); logo, o pescoço também tem de ser curto. Os braços são articulados apenas a meio: é preciso alguma flexibilidade no manuseamento de ferramentas, mas, por outro lado, bastante rigidez para tarefas que exijam muita força – como a luta com outros animais. Assim, não faz sentido que existam muitas articulações no braço, e estas deverão ter uma posição em que o braço esteja completamente rígido, capaz de funcionar como alavanca. Por outro lado, as mãos precisam de grande sensibilidade e de flexibilidade – para além do polegar oposto, sem o qual não seria possível agarrar objectos, os dedos têm várias articulações, e o pulso roda 180 graus. Mesmo assim é de notar que também a mão tem a possibilidade de configurações rígidas e estáticas – por exemplo, em forma de punho, ou em forma de barbatana para nadar. O torso possui uma anca que é suficientemente flexível para o corpo rodar parcialmente quando em movimento, permitindo lidar com golpes de inimigos quando estes provêm dos flancos, quando em movimento. Finalmente, os pés garantem a estabilidade a uma criatura bípede trepadora – não seria possível termos cascos ou garras demasiado grandes se quisessemos manter a posição erecta. Temos duas pernas que é o mínimo necessário para a locomoção – quatro permitiriam uma locomoção mais rápida, é certo, mas não permitiriam a posição erecta (e, mesmo assim, algumas das criaturas mais rápidas da Terra são aves bípedes…). Tudo isto define o ser humano como sendo a evolução mais aperfeiçoada que contemple todas as vicissitudes de sobreviver como um predador medíocre (não é nem o mais rápido, nem o mais forte, nem aquele com os sentidos mais apurados no seu habitat) num espaço com grandes planícies, num planeta com características semelhantes à da Terra.
Façamos agora de advogados do Diabo e vamos procurar impôr alguns tipos de bug-eyed monsters como criaturas inteligentes. Em primeiro lugar, vamos abandonar as criaturas bípedes, ou sequer as criaturas desprovidas de esqueleto, e peguemos em Jabba the Hut: uma lesma inteligente. Será que é mesmo necessário ser-se bípede e erecto? Uma lesma pode assumir parcialmente a posição erecta e pode ter um par (ou vários) de braços e mãos posteriores. O cérebro poderia ficar no centro geométrico da criatura, assim como o coração e os órgãos principais, o mais no topo possível. Simplesmente, esta criatura nunca poderia ser um predador: seria sempre lenta demais para isso! Mesmo num planeta em que somente existissem lesmas, a evolução natural não seria para uma lesma mais inteligente, mas sim um predador que fosse rápido que pudesse andar mais depressa que as lesmas. Esse predador não poderia ser uma lesma. Seria qualquer outra coisa – menos uma lesma. Para ser mais rápida, teria de ter pernas ou asas – não existe nenhuma outra solução encontrada na Terra que permita velocidade. Logo, excluímos Jabba the Hutt como potencial candidato a alienígena inteligente, para grande tristeza dos fãs incondicionais do Star Wars…
Então e que tal uma lesma voadora ou com pernas? Uma lesma com pernas teria de ter um esqueleto para suportar a estrutura e várias patas, logo, uma espécie de centopéia. Infelizmente isso requer uma complexa capacidade de locomoção, que requer que parte do sistema nervoso central se preocupe com a forma eficiente de controlar a quantidade enorme de pernas necessária ao movimento rápido da criatura – logo, limitando assim a capacidade cerebral necessária ao desenvolvimento cerebral. Na sequência deste raciocínio, quanto menor for o número de pernas, mais simples será a forma de as coordenar, e a nossa lesma evoluirá no sentido de ter o menor número de pernas possível. Mas para ter apenas duas terá de assumir uma forma erecta, pois é a única forma de se poder equilibrar; sendo assim, a nossa lesma tornar-se-á num humanóide bípede, condicionada pela evolução que, recorrendo à lei de Occam, optará pela forma mais simples que permita o melhor aproveitamente cerebral para actividades intelectuais e não meramente motoras.
Analisemos ainda a possibilidade das criaturas inteligentes não possuirem um esqueleto interno mas sim um exoesqueleto. O problema deste tipo de estruturas é que é excelente para criaturas de massa ínfima e que precisem de formas rígidas (por exemplo, para criaturas voadoras), mas à medida que a massa aumenta, a rigidez torna-se um característica pouco desejável. Se imaginarmos um insecto humanóide com a massa de um homem, 90% do seu peso estaria no esqueleto, que entraria em colapso graças ao próprio peso. A alternativa seria ter várias patas como pontos de apoio – mas já vimos que assim que isso obriga a sacrificar parte da capacidade de raciocínio para coordenar o movimento. Essa criatura não conseguiria também ter estruturas suficientemente flexíveis para manusear ferramentas. Sendo assim, num planeta dominado pela vida insectóide, as criaturas inteligentes evoluiriam para esqueletos internos como os dos vertebrados terrestres: com muito menor massa e maior flexibilidade, conseguem manter a forma do corpo suficientemente rígida e ágil ao mesmo tempo. O esqueleto interno é, de facto, outra característica inerente às espécies inteligentes.
Vê-se assim que mesmo que as espécies alienígenas tenham originado de outro tipo de criaturas que não mamíferos quadrúpedes, a tendência evolutiva culminará no bípede erecto, com esqueleto interno.
Vamos agora considerar a alternativa voadora, pois permite também uma boa capacidade de deslocação rápida necessária ao predador. O problema com qualquer espécie voadora tem a ver com dois tipos de aspectos. Primeiro, para fazer voar uma massa de 100 kg, é necessária uma envergadura enorme – veja-se, a título de exemplo, a superfície que uma asa delta precisa de ter para suspender um ser humano. Como se processará a irregação sanguínea nas asas dessa criatura com 4 ou 6 metros de envergadura? Estes são os problemas meramente orgânicos, mas existem também os problemas civilizacionais. É pouco provável que uma civilização emergente desenvolva cidades aéreas; até as aves terrestres fazem os seus ninhos no solo e não no ar… sendo assim, as cidades desta espécie aérea vão aparecer também no solo, e com os tempos, perderão a capacidade de voar, pois esta não será mais necessária para a sua sobrevivência como espécie dominante. Tal como as galinhas, ao serem domesticadas, deixaram de precisar de voar, também as espécies inteligentes voadoras perderão progressivamente essa capacidade, e, tal como as aves terrestres, serão bípedes erectos…
Não serão possíveis outras formas? Imaginem-se criaturas perfeitamente anfíbias que tenham formas aquadinâmicas, tipo torpedos, mas que desenvolvam pequenas pernas que lhes permitam andar na terra. Serão provavelmente muito lentas em terra mas rápidas – conforme convém aos predadores – na água, tal como as lontras e leões-marinhos. Isso explicaria a sua evolução com formas muito mais estranhas, com um cérebro e coração no centro geométrico, conjuntos de olhos e outros órgãos sensoriais no topo, e pequenas pernas e mãos delicadas na base. O problema com este tipo de criaturas é a sua vulnerabilidade fora do meio aquático. Embora estejam no topo da evolução no meio aquático, em terra seca são criaturas patéticas, presas fáceis para os rápidos predadores que vivem sob o céu. Logo, dificilmente conseguirão sobreviver tempo suficiente em terra para construirem cidades que as defendam do mundo hostil. Temos, pois, de assumir que todas as criaturas anfíbias sejam estágios de transição que não evolvem o suficiente para desenvolver inteligência, pelo menos não antes de se tornarem criaturas completamente terrestres.
Outra característica das espécies inteligentes é o facto das crias obrigatoriamente nascerem com poucas capacidades intelectuais, e que se formem famílias para as educarem. Uma criatura inteligente não pode vir ao mundo com as sua inteligência já plenamente desenvolvida; não existe tempo suficiente de maturação dentro do corpo da mãe (ou dentro de um ovo) que permita complexidade a nível das conexões neuronais. Mesmo que o cérebro funcione de forma totalmente diferente da do cérebro humano, é razoável admitir que os processos lógicos levem bastante tempo a amadurecer. Sendo assim, as criaturas inteligentes terão quase de certeza o conceito de família – seja ele uma família monogâmica, poligâmica, ou uma relação raínha-súbditos em que a inteligência esteja apenas concentrada na rainha e não nos seus súbditos. Fazemos contudo notar que é pouco provável que uma espécie predadora evolua a partir de colmeias; os predadores necessitam de agir isoladamente, mesmo que o também possam fazer em grupo. Formam, pois, sociedades em que o indivíduo é independentemente inteligente. Mas uma espécie parasita pode eventualmente evoluir para o ponto em que as raínhas concentrem em si a inteligência da espécie, sendo os súbditos meras «extensões» do seu corpo. Para isto temos de assumir que exista uma forma de comunicação instantânea entre a raínha e os súbditos; a telepatia é uma hipótese viável, mas talvez não seja a única.
Fica aqui também à discussão sobre a possibilidade de existência de uma química baseada em silício em vez de carbono, ou com criaturas inteligentes respirando outra coisa que não seja o comburente oxigênio…
Concluímos, pois, que as espécies alienígenas existentes no Universo que tenham desenvolvido uma sociedade suficientemente parecida com a nossa ao ponto de utilizarem energia eléctrica que lhes permita a emissão e recepção de ondas de rádio serão sempre humanóides, com mais semelhanças com a espécie dominante no Planeta Sol-3 (também conhecido como Terra) do que diferenças.

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