Existirá o monarquismo-trotskismo-liberal?

Quem me conhece pessoalmente sabe que sou politicamente muito contraditório: reclamo uma certa dose de liberalismo para que uma sociedade realmente funcione, um pouco entre o sistema britânico e o americano, embora não vá ao ponto de abolir com as estruturas de apoio social (por questões meramente ligadas à minha formação cristã).

Mas por outro lado sou apoiante da reinstauração da monarquia em Portugal (funcionou durante 800 anos e nada prova que os últimos 90 anos de regimes presidencialistas – 50 dos quais passados numa ditadura centrada num “primeiro-ministro” onde o presidente da república não era mais do que uma figura-fantoche). Não tenho sangue azul 🙂 ou quaisquer pretensões do género. Simplesmente olho para os países da Europa que têm regimes monárquicos e vejo que não são propriamente exemplos de “sociedades retrógradas” – antes bem pelo contrário. O Japão, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Holanda, a Bélgica e a Espanha, entre tantos outros exemplos, são “monarquias silenciosas” – quero com isto dizer que nos esquecemos facilmente de que são monarquias pelo facto de funcionarem tão bem. Normalmente associados o Reino Unido e o Mónaco e a sua monarquia-de-capa-de-revista-de-cabeleireiro a tudo de mau que existe num regime monárquico. Ou então os regimes autocráticos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Curiosamente, é na “Europa moderna” que temos mais exemplos de monarquias parlamentares de sucesso, e tendemos a “esquecermo-nos” disso, pois países como a Alemanha, a França ou a Itália são a “referência” pela qual medimos o “sucesso económico europeu”.

Seja como for, esta meia dúzia de exemplos mostra claramente que uma “sociedade desenvolvida” pode ser tão facilmente uma monarquia como uma república; não existe, no século XXI, nenhuma razão para sermos preconceituosos a esse respeito…

O que podemos dizer, isso sim, é que há uma certa tendência para a “necessidade” de um Rei quando a nação tem problemas étnicos e necessita de uma entidade “supra-étnica” para a sua “unificação” como Nação. Esse é sem dúvida o caso da Bélgica ou da Espanha e em certa medida do Reino Unido. Já no caso japonês ou escandinavo esse argumento falha. Contudo, penso que seja legítimo afirmar que Portugal “não sente a falta” de um Rei: somos a Nação com as fronteiras há mais tempo definidas no tempo do mundo (sim, mesmo o Japão esteve várias vezes dividido durante séculos sem uma “união nacional”, apesar de ter uns 5000 anos de história quando comparados com os nossos míseros 850…). Isto significa que nos identificamos de tal forma com os nossos limites geográficos e o espaço onde habitamos que não “precisamos” de uma meta-entidade que simbolize a nossa união…

Esse é de facto para mim o maior óbice à reimplantação da monarquia em Portugal. Seja como for, não vou rebater, um por um, os pontos contra a monarquia. O importante é compreender que um presidente emerge de uma constituição, que por sua vez emerge da vontade popular – ou seja, é uma construção nacional de baixo para cima – enquanto que um Rei é apontado como um representante divino que administra uma quantidade de pessoas “por vontade de Deus” (qualquer que ele seja). É uma construção nacional de cima (o divino) para baixo. E aqui é que reside a diferença. O que é Portugal? São 850 anos de história que nos moldaram a sociedade, a língua, a cultura, a forma de pensar e de agir (para mal e para bem…), e, em certa medida, as nossas fronteiras (que sempre expandimos para todos os cantos do mundo, quando não conseguimos mais fazê-lo dentro desta Península). No fundo – Portugal são as PESSOAS que habitam neste cantinho do planeta, e é a herança histórica de 850 anos a viver neste cantinho que fazem que sejamos como somos. Um Rei (ou melhor, um Monarca) é o símbolo (cristalizado num ser humano que representa uma instituição) que representa essa ideia de portugalidade.

Um presidente é “apenas” um chefe de estado que foi eleito durante 5 anos e que depois se reforma. Não “representa” nada. Tem uma função que desempenha, como se fosse um carpinteiro ou ladrilhador, e depois vai para casa e “esquece-se” do que foi representar um país com 850 anos. E não se exige mais nada dele! Venha o próximo… (e sorte nossa que nos últimos anos temos tido EXCELENTES presidentes da república…)

O “velho argumento” de que os reis vivem à custa dos seus súbditos, enriquecendo com impostos cobrados apenas para manterem um estilo de vida confortável, e que depois, por questões de casamentos entre parentes próximos, são todos meio loucos e insanos, e que portanto devem ser afastados do Poder, é um argumento de todos aqueles (cerca de 95% da população portuguesa…) que estão a confundir a Instituição Monárquica com o ser humano que por acaso tem a coroa na cabeça (o modelo de monarquia parlamentar previsto para a reinstauração da monarquia em Portugal prevê que o Monarca se auto-sustente, isto é, não será preciso consignar uma verba em Orçamento de Estado para “manter” a Família Real. O pretendente ao trono auto-sustenta-se perfeitamente e pode continuar a fazê-lo se ele – ou melhor, os descendentes dele, porque isto não é para já – fosse reinstaurado no trono). Isto é mais fácil de explicar com o seguinte exemplo: numa democracia sólida (é sem dúvida o caso da nossa, e da maioria dos países da Europa), se temos um mau primeiro-ministro, não colocamos a Democracia em questão. Isso seria confundir a Instituição Democrática com os caramelos que por acaso foram eleitos. (alías, foi justamente esta “confusão” que deu caso ao regicídio em 1908… matou-se a família real porque viam neles um modelo de instituição governativa que estava errado… big mistake! O resultado foram uns 16 anos de uma “república envenenada” seguida de uma revolução da ditadura de direita. Mas que fixe…)

Curiosamente, os mesmos 95% de portugueses que não querem um Rei muito provavelmente conseguem distinguir muito bem entre a Instituição Democrática e os políticos corruptos que são eleitos por essa mesma Instituição (haverá uma minoria, claro, que não conseguirá compreender a diferença, mas em Portugal essa minoria não tem expressão… ao contrário do que acontece em muitos países de terceiro mundo!). Contudo, esses mesmos não conseguem distinguir entre a Instituição Monárquica e a pessoa do Monarca. Curioso, não é? Acho que é um dos dilemas que a Causa Real tem de conseguir enfrentar: como conseguir separar a Instituição da Pessoa. É complicado… especialmente com o “pretendente ao trono” que temos (decerto uma das pessoas menos apropriadas para o efeito 🙂 … embora seja boa pessoa, isso é inegável 🙂 mas não chega… falta-lhe carisma e credibilidade política, para ser simpático 🙂 ). As pessoas vão sempre olhar para o D. Duarte Pio num capote de alentejano com o seu sorriso bonacheirão e dizer: “ora porra, isso é que é um Rei?? F…-se! Mais vale o [inserir nome de político favorito que seja candidato às próximas presidênciais]!”

Sendo assim, não vou para a rua aos berros gritar “Queremos um Rei, já!” (embora a nossa democracia o permita). Fez-se isto no Brasil com tristes resultados: quando a esmagadora maioria da população não percebe o que está em causa, vota contra (olhem o exemplo da Lei do Aborto…). O meu papel, e o de muitos monárquicos, é apenas o de sensibilizar a população para o que veradeiramente representa a Instituição Monárquica e enaltecê-la de forma a que não seja vista como uma espécie de sorvedor de dinheiro para sustentar uma família de lunáticos privilegiados. Isso não tem rigorosamente nada a ver com a instituição da monarquia…

O primeiro passo, para já, seria alterar a Constituição Portuguesa para que permitisse, no futuro, que a população pudesse, através de um referendo, escolher se querem viver numa república ou numa monarquia (apesar de, pessoalmente, achar muito estranha a teoria de que se deve “votar” para ter um Rei… mas as regras da democracia assim o “exigem”). Isso talvez possa ser feito dentro de 25 a 30 anos. Depois o passo seguinte seria criar uma “massa crítica” de apoiantes da monarquia para fazer com que a Causa Real tenha pelo menos validade política como lobby – hoje em dia, os monárquicos são (infelizmente…) uma cambada de fanáticos de direita que não sabem argumentar convenientemente a favor da sua própria causa. É preciso dar à Causa Real uma dimensão política que ainda não tem (conscientemente… pois muitos temem essa via… o péssimo exemplo do PPM mostra essa vertente, e a Causa Real é actualmente apolítica…). Isso vai levar mais outros 20 ou 30 anos.

Conclusão: talvez daqui por uns 80 ou 100 anos consigamos realmente fazer um referendo em Portugal e reinstaurar a monarquia. Mas há imenso, imenso trabalho pela frente…

Para dar voz aos poucos republicanos ferrenhos que existem em Portugal (hah!), podem começar por ler o excelente artigo de opinião na Secret’Área. Obviamente que discordo das opiniões aí apresentadas, pois apenas são um “rebater de trivialidades” e não um Manifesto de um Republicano, mas vale pelo esforço!

Finalmente… monárquico trotskista, porquê? 🙂 Bem, voto Bloco de Esquerda por uma questão de radicalismo 🙂 Eles têm ideias radicais para resolver problemas comuns. Mesmo que eu esteja ideologicamente no outro extremo (ou quase), já que sou liberal-capitalista, acho que devemos equilibrar a balança parlamentar com um grupo (mesmo que minoritário) que tem a coragem (política) de avançar com soluções radicais. Precisamos de sacudir um pouco este país, e dar voz àqueles que não têm medo de sugerir coisas REALMENTE novas para resolver de uma vez por todas com os problemas da nossa sociedade.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s