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	<title>Um blog idiota do Luís Miguel Sequeira</title>
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	<description>Divagações insanas sobre Internet, política, cultura e religião, de quem devia ter mais juízo</description>
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		<title>2012, um ano como os outros</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jan 2012 21:50:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta quadra natalícia, e em especial a passagem de ano, foi marcada por uma incrível desconfiança sobre o futuro mais próximo, e grande parte das mensagens que recebi foram variantes do género «Um bom Natal, na medida do possível, e &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2012/01/05/2012-um-ano-como-os-outros/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=306&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-307" title="O fim do mundo? Bah!" src="http://arundel.files.wordpress.com/2012/01/2012-alinhamento-planetario.jpg?w=300&#038;h=240" alt="" width="300" height="240" /></p>
<p>Esta quadra natalícia, e em especial a passagem de ano, foi marcada por uma incrível desconfiança sobre o futuro mais próximo, e grande parte das mensagens que recebi foram variantes do género «Um bom Natal, na medida do possível, e votos de um ano novo que não será nada feliz&#8230;». Na verdade, a depressão generalizada que se viu entre os gregos há pouco mais de ano e meio, e entre os irlandeses ano passado, começa a atingir a mente dos portugueses — mesmo antes de sentirem qualquer diferença na sua qualidade de vida.</p>
<p>Aparentemente, nunca como dantes as notícias nos <em>media</em> nos infundem tanto terror sobre o ano que se avizinha como agora. E as pessoas começam realmente a estar aterradas. «Onde há fumo, há fogo», lá diz o ditado popular, e se até o Primeiro Ministro recomenda a emigração, que mais falta para comprovar que estamos na presença dum <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Annus_horribilis">annus horribilis</a></em>? Já sem falar nas inúmeras «explicações» pseudo-místicas e <em>New Age</em> que tentam «provar» que há uma série de circunstâncias externas fora do nosso controlo que «conspiram» para que 2012 se torne num ano particularmente horrível, algumas das quais servindo-se de pseudo-ciência para as justificar; nada como ler <a href="http://astropt.org/blog/2008/08/22/2012/">este reconfortante artigo céptico sobre a desmistificação dos principais disparates</a> que andam por aí a ser espalhados há vários anos ou <a href="http://www.space.com/14078-apocalypse-2012-doomsday-predictions-debunked-nasa.html">esta mensagem da NASA</a> &#8230;</p>
<p><span id="more-306"></span>Passei o ano ao lado de um pobre desgraçado que, enquanto se pronunciavam os dez segundos fatais antes de terminar 2011, rezava desalmadamente, envolto em terror, acreditando provavelmente que o planeta ia explodir (ou coisa parecida) precisamente à meia-noite, e tentando gerar uma «aura de compaixão» forjada ali no momento, a ver se isso ajudava alguém&#8230; Foi com alguma relutância que largou o seu posto quando lhe dissemos que já estávamos em 2012 e que o mundo não tinha acabado de todo. Mas a verdade é que ainda há 365 dias para o mundo acabar (este ano é bissexto!), e a data de 20 ou 21 de Dezembro de 2012 é a que reúne mais consenso entre os milenaristas para o fim do mundo, por isso, muitos dos que viram a primeira profecia do «fim do mundo» falhar às zero horas do dia 1 de Janeiro, ainda vão sofrer muitos dias aterrorizados&#8230;</p>
<p>No entanto, mesmo alguns dos meus amigos mais cépticos, e que não acreditam — nem nunca acreditaram! — na parlapatice pseudo-mística, não deixam de estar aterrorizados. Os <em>media</em> continuam a encorajar-nos a pensar que está para breve o fim do Euro, o colapso da União Europeia, a destruição do sistema financeiro internacional, e o regresso à barbárie, e que tudo irá acontecer muito depressa, no espaço de meses. Mesmo alguns meus conhecidos, normalmente cépticos, fazem planos de irem para a sua terrinha plantar umas couves se o mundo financeiro colapsar de vez, e tiram cursos de agricultura ou mesmo de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Permacultura">permacultura</a> para se precaverem contra o pior. E vão colocando algum dinheiro de parte para a «emergência». Ou se calhar começaram a frequentar de novo aulas de artes marciais para sobreviverem numa Nova Era onde deixarão de haver leis, polícia ou segurança, e será o «salve-se quem puder» quando começarem as corridas aos bancos e depois aos supermercados&#8230;</p>
<p>Ora isto não é nada de novo, especialmente para quem anda pela Internet há uns anitos. Em meados da década de 1990, instituiu-se um verdadeiro milenarismo quando se suspeitava de que o «bug do ano 2000» iria fazer colapsar o mundo moderno tão dependente de computadores — pois alguns sistemas mais antigos, nomeadamente o do controle do tráfego aéreo internacional (que usa software desenvolvido nos anos 1960 com poucas adaptações) e do sistema financeiro internacional pudesse, de alguma forma, não suportar a passagem de 1999 para 2000 (interpretando a nova data como 1900 ou qualquer outro disparate do género). O problema não era exactamente uma idiotice pegada — de facto, haviam muitos sistemas informáticos que não estavam preparados para a passagem de 1999 para 2000, pois usavam só os dois dígitos finais para o ano) — mas gerou uma corrida desenfreada e de pânico, muito semelhante à actual, com talvez uma diferença: ainda não havia Facebook e um número relativamente muito mais pequeno de pessoas estava ligado à Internet. Os <em>media</em>, na altura, não estavam tão a par do problema tecnológico e divulgaram-no bem menos do que agora (e com mais erros e inexactidões!). Mesmo assim houve pânico milenarista vindo do sector dos crédulos, claro, mas o impacto pareceu ser menor.</p>
<p>Depois, claro, nada aconteceu — até haviam milhares empresas preparadas para processar os fabricantes de software que não se tivessem precavido contra o <em>bug</em> — excepto que a década de 1990 deu um impulso notável à indústria informática em todo o mundo. Só em Portugal, em 1995 faltavam 150.000 programadores — estimativa baseada na necessidade de alterar todo o software existente para, em 5 anos, prepará-lo para o <em>bug</em> do ano 2000. Isso quis dizer que se investiu descomunalmente em desenvolvimento aplicacional nessa década, quando nos anos 1980 havia uma certa estagnação do sector.</p>
<p>O <em>boom</em> criado pelo desenvolvimento informático teve uma consequência: a <em>dot-com bubble</em>, onde pela primeira vez se começou a investir à doida, a uma escala sem precedentes, em meras ideias sem qualquer modelo de negócios. Os investimentos foram de tal forma brutais que logo após o 11 de Setembro de 2001, quando finalmente os investidores começaram a perceber que tinham investido apenas em ideias e não em negócios, tudo colapsou, quase da noite para o dia. Houve sobreviventes — como a Google, que ficou quase com o monopólio de venda de anúncios em sites Web, uma área nova que tinha centenas se não milhares de empresas no sector, todas elas desaparecendo (ou adquiridas pela Google!) logo a seguir ao 11 de Setembro — mas houve centenas de milhares de empresas que faliram, e milhões de pessoas, especialmente na área informática, que ficaram sem empregos. Em 2001-2003 estava-se em plena crise económica à escala global: os bancos entravam em bancarrota a torto e direito, perdendo o dinheiro todo dos seus clientes, que por sua vez iam à falência e abandonavam as suas empresas, despedindo pessoal. As profissões na área da informática, muito responsáveis pelo enriquecimento à custa do terror (infundado&#8230;) do <em>bug</em> do ano 2000, e depois responsáveis por lançarem milhões de ideias completamente absurdas para um mercado ávido em gastar dinheiro em disparates sem nexo, ficaram fortemente desacreditadas. Foi uma <em>razia</em> feita a tudo e todos que assentavam a sua base de enriquecimento pessoal baseada em rumores. E em certa medida os sobreviventes da crise até acharam bem — o mundo ficou um lugar melhor, especialmente para aqueles que aprenderam a sua lição.</p>
<p>Diz-se que os ciclos económicos duram mais ou menos uns nove anos. Se a crise do final dos anos 1980 passou despercebida, já o <em>boom</em> dos anos 1990 (proporcionado, entre outras coisas, pelo <em>bug</em> do ano 2000) ficou na mente de todos como os anos de grande prosperidade económica — uma espécie de era de ouro nostalgicamente gravada nas nossas memórias curtas, em que havia crédito fácil por todo o lado e em que toda a gente, com pouco esforço, muita ardúcia e apostando em rumores falsos, conseguia fazer dinheiro com imensa facilidade. A União Europeia parecia sólida como nunca e capaz de destronar a primazia americana pela primeira vez na sua história depois dos anos 1950; mas mesmo do lado americano, tudo eram rosas. Segue-se a crise da <em>dot-com bubble</em>, uma crise sem precedentes, e os apocalipsistas previam «uma recessão bem pior do que a Grande Depressão» — que, evidentemente, não veio a acontecer. É certo que milhões de pessoas perderam tudo o que tinham — emprego, contas bancárias, casas, carros e principalmente a sua credibilidade pública (eu fui um deles <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  ) — mas não houve nenhuma catástrofe especial, seja ela mística, pseudo-científica ou económica. <em>Life goes on</em>.</p>
<p>É no entanto verdade que aconteceram duas coisas importantes, que começaram a tomar relevância em meados dos anos 1990 — por volta da altura em que a Microsoft lançou o Windows 95 e que a Internet passou a ser definitivamente um produto <em>mainstream</em> em vez de ser algo do domínio de uns quantos <em>geeks</em> e académicos nas suas torres de marfim. A primeira foi a noção de que já não são apenas os <em>media</em> que moldam a mente colectiva das sociedades: os rumores e boatos são espalhados agora por cerca de dois mil milhões de pessoas ligadas de alguma forma à Internet e que, sem qualquer filtro, lançam as suas «notícias» e «opiniões» no vasto oceano de informação que é a Internet. É evidente que a maior parte das pessoas não tem uma grande audiência; mas contagiam-se mutuamente. E por vezes contagiam jornalistas, que por sua vez encontram assim a oportunidade de encontrar um público-alvo para certo tipo de notícias de fraca credibilidade jornalística, mas que se assentam em «fontes». Passaram a ser citadas «autoridades» que escrevem blogs (ou, mais tarde, que colocam mensagens no <em>wall</em> do Facebook ou no <em>stream</em> do Twitter), independentemente de quem «certifica» a validade dessas autoridades: na realidade, o legado da <em>dot-com era</em> foi a noção de que «se há muitas pessoas a acreditarem numa coisa, ela deve ser verdade»; as empresas <em>dot-com</em> baseavam o seu sucesso no número de utilizadores que tinham, não na solidez do seu modelo de negócios (que frequentemente não existia). Essa mentalidade perdurou: se muita gente acredita em alguma coisa, essa coisa deve ser verdadeira.</p>
<p>A segunda coisa é, a meu ver, muito mais preocupante. Os próprios governantes repararam que, nos anos 1990, estavam a perder o controlo sobre a informação disseminada. É difícil fazer «política à porta fechada» quando basta que um governante insatisfeito (porque se calhar não lhe calhou o tacho que esperava&#8230;) mande uma mensagem para o Twitter (alguns parlamentos europeus proibiram a utilização do Twitter e do Facebook por parte dos deputados em plenário&#8230;). Os anos 1990 assistiram a um renascer da liberdade de opinião, que passou a ser expressa fora dos <em>media</em> controlados, e que mesmo assim atingiam uma grande população. Isso cada vez mais se tornou inevitável e difícil de controlar; <em>sites</em> como o <em>WikiLeaks</em> são o legado dessa transformação da nossa sociedade, que passou a ter outras formas de acesso à informação que não as tradicionais.</p>
<p>Mas os governos são tudo menos parvos. Ao perceberem o impacto que os novos <em>media</em> têm em moldar a opinião das pessoas, começaram a aproveitar-se também dos mesmos. Hoje em dia, é rara a organização governamental que não tenha o seu <em>site</em> (ou mesmo página no Facebook&#8230;), seja aqui no mundo dito ocidental e desenvolvido, seja em qualquer parte. Foi, pois, preciso desenvolver novos métodos para impingir opiniões às pessoas.</p>
<p>E a primeira forma de o fazer foi graças ao terror — sempre a melhor arma dos políticos para fazerem o que lhes apetece. O 11 de Setembro permitiu que George Bush abolisse liberdades expressas na constituição americana, através do Patriot Act e semelhantes actos executivos que permitem a supressão individual de direitos humanos «em caso de necessidade». Mantendo acesa a «guerra contra o terrorismo», os países ocidentais conseguiram assim, aos poucos, restringir as liberdades individuais e circunscrever a liberdade de expressão quando essa se tornava desagradável — nem que seja espalhando a sua desinformação através das redes sociais. O «perigo islâmico» conduziu a uma resposta «cristã» colocando em questão os valores laicos e tolerantes sobre os quais estão alicerçadas as democracias ocidentais, e o puritanismo começou a despontar um pouco por todo o lado, assim como as restrições das liberdades individuais e de expressão, culminando em iniciativas patetas como o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Stop_Online_Piracy_Act">SOPA</a>. Mas em simultâneo, regressou-se ao capitalismo <em>laissez-faire</em> — mais ou menos «abolido» um século antes, quando as consequências sociais se tornaram intoleráveis — e reforçaram-se os laços sempre ambíguos entre aqueles que estão no poder e as empresas mais poderosas. Se o caso russo, onde a fina linha divisória entre o Conselho de Administração da Gazprom e do governo russo cada vez se tornou mais ténue, é apontado como o pior exemplo do que acontece a uma «democracia», a verdade é que no resto do mundo ocidental cada vez se tornou mais claro que o mesmo se passava — sempre se passou, na realidade — embora talvez até agora de forma menos visível e menos transparente, o que se tornou possível de determinar graças à informação espalhada via Internet. Aqui, em certa medida, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro: os órgãos de comunicação social passaram a fugir ao controlo dos governos, justificando-se com as «notícias» e «opiniões» que andavam a circular na &#8216;net, e embora seja fácil controlar um número reduzido de <em>media</em> — a própria &#8216;net quase que «matou» o modelo de jornais independentes, tornando esse controlo mais simples; em Portugal, ironicamente, o único diário ainda independente é <em>O Diabo</em> que não goza exactamente de credibilidade&#8230; — não é fácil controlar milhões de auto-proclamados <em>opinion makers</em> nos seus <em>blogs</em> com centenas de milhares de seguidores.</p>
<p>Como fazê-lo? No pós-11 de Setembro, a guerra contra o terrorismo começou a abrandar, à medida que mais e mais organizações terroristas foram desmanteladas. O aperto da segurança praticamente acabou com a possibilidade do terrorismo internacional conseguir feitos de primeira página. Hoje em dia, são mais os psicopatas assassinos que gozam desse privilégio do que os grupos organizados, como o caso do norueguês <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/jul/24/norway-massacres-national-tragedy">Anders Behring Breivik</a> veio a ilustrar. Na realidade, mesmo os grupos como a ETA ou o IRA perderam o impacto nos <em>media</em> que gozavam antes do 11 de Setembro e nos atentados que se seguiram. A Al Qaeda ficou reduzida a intensificar os actos de terrorismo no mundo islâmico e a abandonar os esforços fora deste. O terrorismo, colectivamente, começou a perder impacto como forma eficaz de manter os cidadãos amedrontados. Está ainda no nosso subconsciente, mas já não é a preocupação principal.</p>
<p>Então tornou-se necessário descobrir uma nova forma de manter as populações aterrorizadas. Felizmente, a estupidez humana e a ganância deram o pretexto necessário: bastou veicular algumas informações sobre a forma como o meio financeiro jogava — há décadas — com dinheiro perfeitamente virtual para abalar a credibilidade do meio financeiro. O problema é que o mundo financeiro é a artéria vital para a sociedade em que vivemos; não há maneira de, em simultâneo, abalar a confiança e a credibilidade bancária ao mesmo tempo que se evita um colapso da economia. Ou por outra: pode-se conseguir as duas coisas, mas só à custa de injectar imenso dinheiro onde este aparentemente não existia, ou só existia virtualmente.</p>
<p>«Injectar dinheiro» é apenas uma forma de dizer: manter o capital a circular. Artificialmente. Mas quando se tornou óbvio de que o capital disponível era insuficiente, os governos surpreendentemente ficaram com uma nova arma de terror nas suas mãos. Talvez muitos nem sequer se tivessem apercebido da sorte que tiveram. Aterrorizando as pessoas que vivem do crédito fácil, das hipotecas e dos empréstimos para comprar automóveis, conseguiram impôr a noção de que não podemos viver mais do que antes e que agora <em>todos</em> temos de sofrer com isso. Tal como durante a guerra ao terrorismo, que serviu de pretexto para abolir algumas liberdades individuais, a crise financeira permite agora a governos ignorarem os direitos dos trabalhadores, justificando-os com a incapacidade financeira de sustentarem economicamente esses direitos adquiridos. Na realidade, esta crise financeira veio levantar a forte suspeita de que o Estado social só funciona em países ricos, e que aqueles que se julgavam «ricos» não eram mais do que dragões de papel. Revelando-se a realidade dessa riqueza fictícia, passou-se imediatamente à acção de dar início à desconstrução do Estado social, de forma acelerada, e de transferir os proveitos dessa redução de custos àqueles que ficaram sem acesso a um sistema bancário com crédito fácil — luz verde às privatizações e às transferências de competências para os grandes grupos empresariais, não sujeitos ao escrutínio popular dos cidadãos: enquanto eleitores, podemos fazer cair o Governo e eleger outro, mas não podemos colectivamente demitir o Presidente do Conselho de Administração da EDP ou das Águas de Portugal. Um Estado mais privado representa uma maior segurança do <em>status quo</em> para além dos inevitáveis sobressaltos políticos quando a população está descontente.</p>
<p>Descontente&#8230; e aterrorizada. O plano maquiavélico está a resultar lindamente. Em nome da «falta de produtividade» e da incapacidade de sustentar um Estado social, propõe-se um estrangulamento económico. Portugal e os portugueses deveriam estar habituados: ao longo da nossa história, passámos sucessivamente por Eras de Ouro — os Descobrimentos, o ouro do Brasil — seguidas de períodos de pobreza atroz, num país com escassos recursos económicos mas uma extraordinária capacidade de desenrascanço. Os nossos políticos sabem que os portugueses sujeitam-se a quase tudo e safam-se sempre. E vai haver uma consequência feliz — mesmo que não a entendamos assim! — da recessão económica: o nível do custo de vida vai baixar. Não é o nível de vida que vai baixar, mas o <em>custo</em> que vai baixar.</p>
<p>Isto é simples de entender: nos tempos do Estado Novo, éramos um país paupérrimo. Mas o custo de vida era baixíssimo. Havia pouco para comprar (pouca diversidade de produtos), mas o que se conseguia comprar, era barato, comparativamente aos salários nacionais. Isto, claro, tinha dois benefícios, muito pouco explorados na altura: o turismo era barato e por isso atraente; e a produção, dados os baixos níveis salariais, podia ser feita a custos baratos, e, logo, mundialmente competitivos — daí sermos ainda hoje os principais produtores <em>mundiais</em> de cortiça (e derivados), pasta de papel e moldes de plástico. Mas mesmo a forma de atrair investimento estrangeiro — culminando no «quase-pleno-emprego» dos anos 90 — dependia fundamentalmente de ter profissionais «quase» tão bons como os europeus, a salários marroquinos.</p>
<p>Nos anos 90, essa tendência inverteu-se. Apesar de ser verdade que, em casos pontuais — basta olhar para os salários mínimos, por exemplo — muitos países europeus tenham salários superiores aos portugueses, a diferença já não é assim tão grande. Os quadros superiores nacionais, por exemplo, ganham <em>bem mais</em> do que no resto do mundo. É certo que muitos profissionais licenciados ganham menos — basta olhar para os salários de professores universitários — a diferença já não é <em>abismal</em> como era nos anos 1960 ou 1970, altura de grande emigração. Mesmo muitas vezes vi comparações falaciosas, mostrando que certa profissão X, na Escandinávia, era remunerada há alguns anos com €1700/mês enquanto que por cá só se pagavam uns miseráveis €1000 pela mesma função. Só que esses quadros raramente explicavam que — nessa altura! — os escandinavos eram taxados em 80 ou 85%, enquanto que nós nos contentávamos com impostos a 30%. Claro que os escandinavos têm depois tudo à borla — transportes, saúde, reformas boas, etc. — e nós não, mas a diferença <em>real</em> era na verdade muito mais pequena do que sempre se julgava, e era apenas nos <em>edge cases</em> — por exemplo, a comparação de reformas ou do salário dos agricultores — em que se viam as enormes diferenças. Não quero com isto dizer que a maioria dos portugueses vivessem bem, comparados com os escandinavos; quero dizer que haviam alguns milhões que viviam bem melhor do que na realidade pensavam (ou que lhes fizeram pensar). Isto é comparável a dizer que, por exemplo, em média, os salários no Brasil são metade dos valores dos nossos — mas há mais de 30 milhões de brasileiros (três vezes a população portuguesa!) que vive <em>bem melhor</em> do que o português médio (ou que o alemão médio!). Em média, a Índia é um país paupérrimo com centenas de milhões prestes a morrer de fome todos os dias — mas 300 milhões de indianos vivem melhor que os portugueses. Em média, na China os salários são baixíssimos e uma massa populacional bem superior à população toda da Europa vive na mais desoladora pobreza — mas 300 ou 350 milhões de chineses têm salários bem superiores ao da média dos portugueses (com custos de vida bem mais baixos). E, em contraste, dos 300 milhões de americanos, 100 milhões vivem abaixo do limiar de pobreza — à volta de 400-500 Euros por pessoa por mês, conforme definido para o custo de vida médio americano — pelo que nem tudo são rosas na Obamalândia.</p>
<p>Ou seja: os números são muito enganadores. Hoje em dia, empresas indianas e chinesas contratam empresas europeias e americanas <em>porque os trabalhadores europeus e americanos aceitam sobreviver com salários inferiores aos dos indianos e chineses</em>. Isto parece ridículo, mas com cada ano que passa, cada vez é mais assim. A imagem da fábrica indiana ou chinesa com miúdos de 13 anos a trabalharem 12 horas por dia com um prato de arroz como salário diário continua a ser verdade, mas já não é verdade para a <em>maioria</em> do tecido empresarial desses países. Na Índia, por exemplo, cada vez é mais difícil contratar programadores licenciados — a Índia tem boas universidades; poucas, mas boas — que aceitem salários «de miséria», pois a indústria informática indiana é global e cobra preços globais; os seus empregados sabem isso muito bem e exigem os mesmos salários e direitos que os seus colegas europeus e americanos. Não é por acaso que a China investe em países bem mais pobres que eles próprios para obterem trabalho a salários mais baixos do que os exigidos pelos chineses; não é apenas por amizade com os portugueses (que é um factor que conta!) que estão a estabelecer fábricas cá: é porque sabem que os portugueses com qualificações estão dispostos a trabalhar mais, melhor, e mais barato que os seus colegas chineses, e a China, como fornecedor mundial de produtos a baixo custo com qualidade razoável (ainda não é «boa», mas melhora de ano para ano), já não os consegue produzir de forma tão barata como dantes — mas continua a ter de escoar produtos baratos para todo o mundo. A diferença é que a população qualificada já não vai na conversa de trabalhar por uma tigela de arroz e viver numa cabana de palha.</p>
<p>Se 2012 vai ser um ano «trágico», não sei — mas duvido sinceramente disso. O que sei é que pelo menos os actuais governantes estão a começar a olhar para a realidade tal como ela é, e não como os <em>media</em> e as redes sociais gostariam que fosse. A riqueza desmesurada de que gozámos durante os anos 1990 foi toda artificialmente criada: primeiro, graças a fundos de coesão europeus, desbaratados a torto e a direito, sem qualquer controlo. Isso foi uma lição que a Europa aprendeu, e sobre a qual já me vou pronunciar mais abaixo. Em segundo lugar, graças à ganância especulativa, foi criada riqueza artificial bem para além do suportável — através do crédito fácil. Ainda hoje em dia é difícil, para a esmagadora maioria das pessoas, compreender que o dinheiro <em>não</em> é criado pela Casa da Moeda. Nem sequer é o Banco Central Europeu que <em>cria</em> dinheiro. Até o pode fazer marginalmente. Mas o dinheiro é realmente criado pelos <em>bancos privados</em>: quando emprestam cem euros e recebem cento e dez euros graças aos juros que cobravam, criaram, do nada, dez euros que não existiam antes. Puf. Apareceram magicamente nas contas dos bancos. Não precisaram de adquirir bens, ouro, ou qualquer produto financeiro. Fizeram realmente magia. É assim que «nasce» o dinheiro nas economias ocidentais (e todas as que se baseiam nelas), e sempre foi assim.</p>
<p>É claro que a noção de «crédito fácil» gera artificialmente muito mais dinheiro. Quanto mais for emprestado, mais juros são cobrados, e mais dinheiro aparece do nada. É assim que países como o Luxemburgo (que não produz nada) ou a Suíça (que produz alguma coisa) podem estar cheios de dinheiro sem esforço nenhum: tudo o que precisam é de <em>emprestar dinheiro</em>. Quanto mais emprestam, mais dinheiro surge virtualmente do vazio, mas esse dinheiro virtual é <em>transaccionável</em>. Isto não é nenhuma descoberta! Mais uma vez: sempre foi assim. A maioria das pessoas é que pensa que não&#8230;</p>
<p>A diferença é que Portugal, ao fim de meio século de regime totalitário, era um país de avarentos que não gastava um tostão e poupava tudo o que podia. Foram precisos um quarto de século — e uma nova geração de <em>novos-ricos</em> e <em>patos bravos</em> — para mudar esta mentalidade e transformá-la numa geração consumista e despesista. À custa do crédito fácil, os bancos conseguiram mudar a mentalidade, e, ao fazê-lo, geraram dinheiro onde este não existia. Isto não é mau em si: significou mais dinheiro disponível, e com este dinheiro adicional, pode-se investir mais e mais, e obter ainda mais dinheiro — a beleza do modelo capitalista assenta neste princípio.</p>
<p>Só falha, claro, quando a ganância é tal que se cometem dois erros básicos. O primeiro, mais típico de Portugal do que noutros países (e daí a crise poder vir a ser mais profunda aqui), é investir <em>menos</em> e enriquecer <em>mais </em>uma classe privilegiada. Há que encontrar um equilíbrio, que por cá não aconteceu. O segundo erro, claro, é não prever que as pessoas possam não ter a capacidade de pagar os empréstimos até ao fim. Se não conseguem pagar os juros&#8230; então esse dinheiro virtual não é criado. E isso é o que faz com que agora, subitamente, pareça ter desaparecido dinheiro em todo o lado, que não se percebe para onde é que foi! Pura e simplesmente o que aconteceu foi só isso: dinheiro virtual com o qual se contava (e sobre o qual, por exemplo, o Governo e a banca pediam constantemente empréstimos) que nunca chegou a existir.</p>
<p>Não sei qual é a «solução para a crise», e nisso pelo menos sou intelectualmente mais honesto do que a esmagadora maioria dos políticos e <em>opinion makers</em>, desde os <em>opinion makers</em> profissionais aos de café ou de poltrona da sala. Sei, isso sim, que o problema <em>fundamental</em> está na <em>mentalidade</em>. E isso não é alterável através de factores externos. Passámos 30 e tal anos a dizer aos portugueses que podem gastar dinheiro muito acima das suas posses e da capacidade real do país de gerar riqueza, porque o crédito era fácil, barato e universalmente acessível. Isso criou uma apetência para o consumo desenfreado acima das reais capacidades financeiras das pessoas. Removendo-se o crédito fácil, desmorona-se tudo — menos o desejo de possuir mais e mais bens inúteis que se transformaram em «necessidades». Os meus amigos comunistas consideram que ter 2 PlayStations, 4 <em>tablets</em> e meia dúzia de telemóveis Android são «luxos justificáveis» que devem estar obrigatoriamente acessíveis à maioria da população. Uma familiar minha, que se inclina mais para o conservadorismo de direita, preferiu oferecer bombons no Natal a toda a gente para poder comprar a 3ª PlayStation para o seu filhote muito amado. Esse tipo de mentalidade não vai desaparecer de um dia para o outro porque levou 30 anos a ser construída. E enquanto continuarmos a não ter a capacidade para aceder a todos os luxos a que estamos habituados, vamos sofrer por isso.</p>
<p>2012 não vai ser um ano de «mudança radical» excepto no reconhecimento de que o modelo actual das nossas sociedades vai ser colocado em questão. Mas as pessoas, por si só, não vão «mudar» – vão, isso sim, sofrer com a mudança. E estão a ser massivamente encorajadas pelos <em>media</em> e pelas redes sociais: nunca o «jornalismo de tragédia» vendeu tantos artigos. De certa forma, até parece que ao mostrar como cada vez mais pessoas se sentem infelizes, nós, ao ler ou ver essas notícias, deveremos tirar algum consolo disso. Se um amigo estiver a chorar, de nada serve chorar também: onde estava uma pessoa infeliz, passaram a ficar duas. No dia-a-dia, o que as pessoas saudáveis e funcionais fazem é passar um braço por cima do ombro do amigo e manter a calma: ao mostrar que nos recusamos a juntar-se à infelicidade do amigo, acabamos, mais cedo ou mais tarde, por reduzir-lhe a infelicidade. Isso é o que os bons amigos fazem. O <em>consolo</em> não está em chorar com ele; está em mostrar-lhe que não vale a pena chorar.</p>
<p>É isso que falta aprender e que vamos ter de enfrentar neste ano de 2012.</p>
<p>A primeira coisa que vai ter de acontecer, algures em 2012, é o reconhecimento de que o modelo actual da Eurolândia estava minado de erros, e que vai ter de ser corrigido, de uma vez por todas, doa a quem doer a realidade. O problema principal foi que se canalizaram centenas de milhares de milhões de euros dos contribuintes — principalmente dos contribuintes alemães, mas não só! — para as mãos de governantes com deficiências sérias de credibilidade e honestidade, sem qualquer controlo. Todos nos lembramos de como os primeiros fundos de coesão, ainda nos anos 1980, foram transformados em Ferraris e Jaguars a fundo perdido — e ninguém foi responsabilizado. Depois a Europa começou a impôr algumas — poucas — regras que eram facilmente contornadas e esses fundos continuaram a ser desbaratados; talvez já não a fundo perdido, mas através de «engenharia financeira» que permitia, no mínimo, a que uma empresa recebesse o dinheiro, o convertesse em Porsches, e depois encerrasse a empresa numa falência antes de pagar o que devia. Os próprios governos começaram a adoptar atitudes semelhantes, mas a uma escala muito superior. Quando se começou a falar em impôr regras orçamentais, só uns poucos — a Espanha, a Irlanda&#8230; — é que aceitaram essas regras. Mesmo países como a Alemanha e a França não o fizeram.</p>
<p>A situação agravou-se com a moeda única. Os países da Eurolândia comportaram-se como as crianças cujos pais lhes dão uma mesada para gastar em alimentação e livros na escola, mas que estas em vez disso gastam em doces (e jogos para a PlayStation!). Quando os pais lhes perguntam onde estão os livros de estudo, as crianças encolheram os ombros, não sabendo o que fazer, e pediram mais dinheiro — e os pais acabaram por lhes dar ainda mais dinheiro. Que foi novamente esbanjado em mais doces e mais jogos. O ciclo repetiu-se nesta década de Eurolândia: a única regra é que não havia regras. Quando se gastava todo o dinheiro, «aparecia» mais. Lembro-me sempre de que de 3 em 3 anos, ou de 4 em 4, se avisava que «os fundos de coesão iam terminar e era melhor gastar tudo enquanto se pudesse». Assim se fez&#8230; mas depois lá apareciam mais e mais fundos de coesão, <em>ad infinitum</em>. As regras também apareciam mas eram silenciosamente ignoradas.</p>
<p>Ou seja, não deu para criar um modelo económico multinacional em torno de uma moeda única sem impôr regras de utilização da distribuição de dinheiro e da sua utilização. Isso foi uma falácia, uma ilusão auto-gerada pelos membros da Eurolândia, que se acreditava — ingenuamente — poder replicar para sempre. Mesmo que existissem economistas que estranhassem a subsistência a longo prazo do modelo, as suas vozes eram silenciosamente abafadas perante a «evidência» de que se conseguia continuar a deitar dinheiro às pazadas janela fora, porque a fonte do dinheiro parecia inesgotável.</p>
<p>Isto foi uma brincadeira de crianças. Se durou uma década é porque de facto a Europa é mesmo muito, muito rica. Mas essa riqueza não é infinita; é apenas muito grande.</p>
<p>A nova Europa de 2012 não tem outro remédio: terá de ser baseada num modelo federal ou pelo menos confederativo. Isto vai fazer com que os activistas nacionalistas, baseados num princípio arbitrário de que linhas sinuosas num mapa abstracto definem «fronteiras», venham todos para a rua chorar e lamentar a falta de soberania. Todos estes conceitos — soberania, identidade nacional, fronteiras — vão ser colocados fortemente em questão neste ano de 2012. E a transição vai ser violenta e muito, muito dolorosa. Há muitos anos atrás eu previa que não iríamos assistir a uma Europa federal antes lá de 2050, pois seriam precisas mais uma ou duas gerações para nos desapegarmos de valores historicamente obsoletos, mas que estão de tal forma enraizados nos europeus, que há mil anos que lutam ferozmente pelas suas fronteiras, que não seria assim muito fácil de mudar. Teria de ser feito aos poucos.</p>
<p>A Eurolândia <em>parecia</em> ser uma tentativa de agradar a gregos e troianos — uma forma de «confederar» um grupo de países em torno de uma moeda, sem lhes restringir a «soberania» (neste caso, o direito de esbanjar dinheiro dos outros sem restrições) — mas como se viu, o modelo não funcionou: os gregos que por pouco não se transformaram em troianos, ou seja, passaram à história&#8230;</p>
<p>A Nova Eurolândia terá — e isso vai ter de acontecer em 2012 — de funcionar no pressuposto de que os países que beneficiam dos fundos de coesão <em>não</em> são entidades nem credíveis, nem honestas, nem sequer responsáveis, mas sim apenas um conjunto de oportunistas gananciosos só preocupados em arrecadar dinheiro fácil sem se importarem com as consequências. Isto não é ser «má língua»; é apenas a realidade, tal como ela é, e mais nada. Escondê-la e fingir que todos são uns anjinhos é ser-se infantil e muito inocente. Chegou o momento de perder a inocência e assumir que os países europeus — todos eles, provavelmente até incluindo a própria Alemanha — não são financeiramente responsáveis. Não se lhes pode meter dinheiro nas mãos sem regras porque o desbaratam todo como se não houvesse amanhã. E a solução passa por impôr regras, mas regras draconianas, não regras «a fingir» que podem ser ignoradas quando os governos ditos soberanos lhes apetece.</p>
<p>Isso será, seja como lhe for chamado, o princípio do federalismo europeu. Para não ferir susceptibilidades, é provável que se lhes chame outra coisa qualquer. Para evitar multidões nacionalistas nas ruas a derrubar governos, é possível que os acordos e tratados assinados em 2012 nunca usem a palavra «federação» ou «confederação» mas usem outra palavra mais <em>politicamente correcta</em>. Mas o que acontecerá é que os países da Eurolândia deixarão de ter autorização para esbanjar dinheiro europeu como lhes apetecer. Passarão a ser controlados, tal como são controlados cada um dos estados federais pelos governos centrais dos EUA, do Brasil, da Índia, da Suíça, ou da própria Alemanha. Nos EUA, a Califórnia contribui com um terço do PIB; os estados do nordeste (a «antiga União») com outro tanto; dos restantes estados, só o Texas é que apresenta uma contribuição positiva significativa para o PIB americano. Os restantes estados — aí uns 30 — não sobrevivem sem a redistribuição de riqueza efectuada pelo governo central dos EUA. Podem odiar profundamente os californianos, os texanos, os novaiorquinos e os bostonianos, mas não têm outro remédio senão aturá-los, pois são eles que lhes pagam as contas e permitem que os EUA, globalmente, seja uma nação de sucesso (se usarmos a economia como padrão de sucesso, bem entendido). Por sua vez, o Estado federal não permite que a Califórnia, o Texas, ou qualquer outro Estado apresente ideias perigosas de secessão: para garantir que 300 milhões de americanos consigam um nível de vida minimamente aceitável sem grandes sobressaltos, os estados ricos pagam pela ineficiência dos pobres, mas a contrapartida é que não «saiem do sistema» — assim, todos ganham. Todos podem queixar-se contra o Estado federal (e não há país onde se proteste activamente mais contra o governo que os EUA) mas a verdade é que são as regras federais que mantém os EUA enquanto uma nação economicamente sólida. Claro que a solidez pode «abanar». Com o colapso da indústria automóvel em Detroit, se o estado do Michigan fosse independente e soberano, teria sido lançado numa espécie de idade das trevas. Assim, lá teve o Estado federal de intervir, buscando fundos da Califórnia e do Texas e de Nova Iorque e do Massachusetts&#8230; isso não «destruiu» os Estados Unidos da América. Em vez disso, conseguiu-se evitar o pior (nem que seja porque há mais pobreza real nos EUA que na Europa) e fazer com que os EUA não «batessem no fundo» — não foram precisas medidas draconianas para recuperar a economia americana. Draconianas no sentido das que estão a ser aplicadas à Grécia, à Irlanda, a Portugal e a sabe-se lá quem mais se seguir.</p>
<p>Não estou a dizer que o modelo dos EUA seja «o melhor do mundo» — nada disso. É tudo menos isso. Mas funciona pelo menos neste tipo de crises económicas. Pode funcionar mal, é certo: afinal de contas, a crise começou justamente do lado de lá do Atlântico. No entanto, por lá, existem mecanismos para a saída da crise se processar de uma forma mais suave e menos radical. Quer gostemos do exemplo americano ou o desprezemos profundamente, vamos ter de nos inspirar nele para o modelo da Eurolândia (se não mesmo de toda a Europa).</p>
<p>Vamos ter de ter um Parlamento Europeu que efectivamente possa votar leis que sejam, de facto, aplicadas em todos os países europeus — não meras «recomendações» que os Estados-membros tentarão evitar aplicar sempre que as conseguirem contornar. A Comissão Europeia terá de se tornar num verdadeiro Executivo que possa efectivamente liderar uma solução para a crise de uma forma ágil. O Banco Central Europeu terá mesmo de se comportar como um banco central, não meramente num cofre-forte para guardar Euros e os emprestar a juros convenientes. E a Europa não terá outro remédio senão colocar inspectores em todos os países aos quais emprestou fundos: o princípio da desconfiança generalizada dos governantes dos Estados-membros deverá ser a regra, não a excepção. Ora isto tudo terá de ser colocado a funcionar em 2012, quer a gente goste, quer não. Poderemos chamar-lhe a isto a Nova União Europeia, ou a União Económica Europeia, ou qualquer outro nome, mas o que importa é que será uma federação, ou pelo menos uma confederação, onde passará igualmente a haver uma unificação a nível fiscal e muito provavelmente também a nível social.</p>
<p>É claro que os governantes dos Estados-membros temem isto. Estão aterrorizados (pelo menos a maioria deles), especialmente por causa da reacção dos seus eleitores. O eurocepticismo cresce de dia para dia com o agravamento da crise, mas os eurocépticos não percebem que o problema não está numa Europa unificada, <em>mas sim porque a Europa realmente não está unificada mas pensa que está</em>. Somos uma coisa que nem é carne nem peixe e que por isso mesmo não funciona. Ou melhor: fizémos a experiência. Não funcionou. Agora temos de avançar para o inevitável passo seguinte, quer queiramos, quer não. Podemos «dourar» a pílula para que a população europeia não se revolte, mas o resultado não pode ser outro.</p>
<p>Ou melhor&#8230; poder, até pode. Podemos ter a Alemanha e a França a voltar-se para Portugal e a dizer que temos duas opções. Ou fazemos parte da Europa federal, e voltamos ao nível de vida de 1995, ou continuamos como estamos, numa pseudo-união sem regras, e Portugal terá de voltar ao nível de vida de 1970. A escolha é nossa. E é a mesma escolha para <em>todos</em> os países europeus — só com a diferença de que a Alemanha e França, em 1970, estavam a anos-luz de Portugal em termos sociais e de prosperidade económica&#8230;</p>
<p>Aqui entra o choque de mentalidade que nos deverá «abanar» em 2012 e fazer com que este ano seja realmente diferente. Se continuarmos a persistir em manter uma «soberania» — ou seja, o direito a que os nossos governantes e as empresas perto do poder possam esbanjar todo o dinheiro que quiserem sem restrições, a custo dos contribuintes — então isso vai ter como consequência passarmos a viver de novo no Portugal de 1970. Um Portugal em que não se morria de fome, é certo, mas em que não havia TV a cores, e mesmo a preto-e-branco não existia em todos os lares. Todos tínhamos frigoríficos, mas teremos de abandonar os écrãs de plasma. A maioria das famílias não tinha automóvel, e as que tinham, tinham apenas um. Nos supermercados vendia-se leite em pó, que era barato. Podíamos ir ao cinema e ir passear ao Jardim Zoológico, mas não havia dinheiro para tirar férias todos os anos, e, quando se tirava, era para alugar uns quartos espartanos num Algarve pré-turístico, pois não havia mais lado nenhum para onde ir. Comprávamos roupa pelo Natal e pelos anos, mas não havia lojas de marca — haviam as feiras (que continuam a haver por essa província fora!) e os alfaiates e modistas de bairro. Comprávamos uns LPs de vinil ano sim, ano não, mas não haviam concertos de bandas «na moda» a que pudéssemos assistir — os preços dos bilhetes seriam incomportáveis. O Portugal de 1970 era pouco melhor do que algumas das cidades mais prósperas dos actuais países em desenvolvimento: talvez mais limpo, um pouco mais organizado, um pouco mais digno, um pouco mais arranjadinho. Mas não se chegava a morrer de fome. Era, pura e simplesmente, um país muito pobre, mais nada.</p>
<p>Se queremos continuar a insistir com a nossa «soberania» fora de uma Europa federal, é essa a consequência da nossa decisão: voltar quarenta anos para trás no tempo e resignarmo-nos ao nível de vida a que o nosso país, isolado, consegue manter para todos os seus cidadãos. Não dará para mais do que isto, a não ser que o Joe Berardo encontre petróleo em Aljubarrota. Temos alguma vantagem relativamente a 1970: em vez de estradas nacionais cheias de buracos e curvas perigosas, passaremos a ter auto-estradas cheias de buracos com curvas um pouco menos perigosas. Haverão telefones e até Internet em todo o país; muitas pessoas, tal como na Índia ou mesmo na Nigéria, continuarão a ter telemóveis. Andaremos mais a pé, de bicicleta e de transportes públicos, e teremos menos poluição nas cidades. Voltaremos à agricultura de subsistência, mas com a vantagem de que os campos abandonados há 30 anos agora estarão repousados e prontos a sustentar uma agricultura mais intensa do que dantes (teremos, é verdade, de abdicar de muita da floresta que cresceu nos últimos anos — mas toda a desflorestração contribuirá para biomassa que podemos aproveitar para produção eléctrica). Como bónus, e até se avariarem os parques eólicos para os quais não haverá dinheiro para manutenção, até estamos bem melhores do que em 1970, pois estamos muito menos dependentes de petróleo e carvão para produção energética (há já dias em que a produção de energia alternativa em Portugal corresponde a mais de 70% da energia consumida, um feito notável).</p>
<p>Claro que os Natais terão mais prendas de roupa e menos PlayStations. Claro que as lojas como a FNAC e a Worten passarão apenas a vender electrodomésticos e acabarão com os écrãs de plasma. Claro que a esmagadora maioria de centros comerciais se irão parecer com os do Martim Moniz, onde as únicas lojas disponíveis serão lojas de chineses, indianos e paquistaneses. Em compensação, com a retracção dos salários, o custo de vida vai diminuir drasticamente, pelo menos para metade, mas possivelmente para muito menos do que isso. Isto, por sua vez, tornará o país de novo atraente para o turismo internacional, mas também para atrair capital estrangeiro que invista numa indústria que  praticamente desapareceu. O «amigo americano» que investia em Portugal nos anos 1950-1970 (a par do «amigo alemão» que abria fábricas de equipamento eléctrico e electrónico, e mais tarde de automóveis) vai ser substituído pelo «amigo chinês» — mas também pelo «amigo europeu» que preferirá abrir fábricas num país de terceiro mundo que fica mais próximo da Europa, do que ir para a China e a Índia (ou mesmo o Brasil!) onde a mão de obra altamente qualificada passará a ser muito mais cara do que em Portugal.</p>
<p>Isto pode não ser tão mau como isso.</p>
<p>Mas normalmente não é o cenário que a maior parte das pessoas querem. O que querem — mais: o que exigem! — é salários alemães, impostos espanhóis, e política social escandinava. Mas para isso temos de fazer parte dum Estado federal. Temos de ter a mesma atitude dos habitantes do Dakota ou do Montana, que sozinhos estariam num país de terceiro mundo, miserável e sem capacidade de sobrevivência, mas, fazendo parte dos EUA, têm acesso aos mesmos produtos e serviços que os ricos californianos (ou texanos, ou novaiorquinos). Não há americano mais «nacionalista» que um texano; no entanto, isso não quer dizer que sejam <em>independentes</em> — têm mais «independência» enquanto membros de uma união do que fora dela. É isso que temos de pensar muito seriamente quando o nosso espírito nacionalista e anti-europeísta se manifestar e nos empurrar para a rua para derrubar governos.</p>
<p>Enquanto esperamos para ver o que acontece — para ver se a Alemanha e a França conseguem, ou não, «impôr» os alicerces de um modelo federal, vejo aqui e ali o prenúncio de uma mudança «forçada» de mentalidades. Um jornalista da TV, entusiasmado, dizia que «o governo, obrigando os genéricos a baixar de preço para metade, estava a forçar a indústria farmacêutica a cortar nas suas margens de lucro». Entre amigos meus, com contactos com o meio financeiro, fala-se de que a banca terá provavelmente de se «adaptar» a margens de lucro de «apenas 70%» neste ano de 2012, e que estavam a avisar os investidores que mais valia pouco (mas seguro) do que nada (mas especulativo).</p>
<p>O que está errado neste cenário?&#8230;</p>
<p>Nos tempos da Outra Senhora, tudo o que fosse uma margem de lucro superior a 10% era considerado «usura» e punido pelo Estado. Claro que era um regime totalitário que se estava nas tintas para os direitos dos comerciantes, embora procurasse defender, mais ou menos, alguns direitos dos consumidores — o mercado não era totalmente livre. Mas o princípio subjacente era o de limitar a ganância. E os comerciantes sobreviviam mesmo «apenas» com uma margem de 10%.</p>
<p>Ora evidentemente não estou a sugerir que se «controle» o mercado e se abandone o mercado livre — isso seria uma burrice, só fazendo sentido para uma mente radical. Supostamente, num mercado completamente livre, os preços ajustam-se de acordo com a disponibilidade dos consumidores em pagar o que lhes é pedido. Havendo liberdade de afixação de preços, os consumidores gravitam para aqueles que fornecem o melhor produto ao mais baixo preço. É por isso que um telemóvel custava €5000 em 1980 e hoje em dia é oferecido de borla com uma assinatura de 24 meses — e tem mais capacidades. E cabe no bolso da camisa! A concorrência no mercado livre faz destas coisas.</p>
<p>O problema está quando, em vez de concorrência, temos na realidade <em>cartelização</em>. E quanto mais pequeno for o mercado de um país, e menos agentes económicos existirem, maior será a cartelização. Ou seja: o agente dominante estipula livremente um preço, e os poucos e escassos concorrentes ajustam os seus preços de acordo com quem domina o mercado. Talvez o reduzam um bocadinho, ou ofereçam um pouco mais de qualidade pelo mesmo preço, mas basicamente não irão fazer muito esforço: os consumidores, tendo poucas opções, não poderão fazer escolhas livres.</p>
<p>É assim na gasolina, nas telecomunicações, e na banca. Mas também o é nos supermercados. Embora existam dezenas de milhar de produtores na indústria alimentar, há pouco mais do que meia dúzia de redes de supermercados nacionais, e todos têm mais ou menos os mesmos preços. Estabeleceram-nos uma vez, e todos se ajustaram mutuamente — não há ninguém, por exemplo, a vender batatas a um décimo do preço, apesar de ser isso que custa, mais ou menos, a produzi-las. Vendem a mais ou menos 10% de diferença uns dos outros. Talvez no comércio local possam até aumentar um pouco mais os preços; talvez possam fazer uma super-promoção de fim de stock (com produtos no limite do prazo de validade), mas os preços não vão ter descontos de 90% mesmo nessa situação (um desconto de «leve 2 kg pelo preço de 1 kg» já é muito bom!).</p>
<p>Onde vemos uma maior flutuação de preço, pois há imensa concorrência, é na roupa. Graças às feiras, às redes de ciganos empreendedores que há décadas que tomam o resto de stock das fábricas (por exemplo, no final de época) e adquirem roupa (mesmo de marca) a preço de custo, e, mais recentemente, graças às redes de lojas de chineses, os preços são, em geral, bem mais baixos e mais próximos dos custos. Basta ver que uma loja «de luxo» pode fazer descontos de 70% ou 80% nos saldos e mesmo assim vender com alguma margem; já os chineses raramente conseguem fazer descontos acima dos 30% porque os seus preços são já tão próximos do custo real que dificilmente ganham alguma coisa com esses descontos (claro que há excepções). E à medida que as grandes marcas passaram a produzir na China, a diferença cada vez é menor. Por exemplo, a H&amp;M, que produz roupa na China, Índia e outras economias de baixos custos salariais, vende roupa com qualidade semelhante à dos chineses a praticamente ao mesmo preço que estes. Mesmo assim tem margem de lucro que lhes permite fazer publicidade e adquirir grandes lojas em centros comerciais.</p>
<p>Quando trabalhava no meio editorial, havia uma regra de ouro para calcular os preços dos livros ao público: 40% para o lojista, 40% para o distribuidor, 10% para o autor, e o resto para a editora, que tinha de suportar todos os custos da edição e da sua própria empresa. Isto significava que o consumidor pagava <em>dez a vinte vezes mais</em> pelo preço de custo do livro, simplesmente porque os intermediários todos ficavam com uma fatia enorme do preço final. Hoje em dia consta que as margens ainda são maiores — algumas distribuidoras, por exemplo, ficam com 100% do preço de capa da revista, dão um X aos quiosques, e a editora, essa, tem de se safar apenas com a publicidade. Não é um bom negócio para as editoras.</p>
<p>No regime totalitário do passado, um livro custava na loja pouco mais do que 10% do que o valor de custo — e mesmo assim todos ganhavam dinheiro, suficiente para se ler bastante em Portugal. Este modelo ainda existe: o tabaco, por exemplo, também tem uma margem baixíssima. A Makro, que vende tabaco como retalhista, dá um desconto de 10%, que é tudo o que os quiosques e os cafés podem esperar obter de margem sempre que vendem um maço. E ainda têm de ir gastar gasolina (e tempo) para ir levantar os maços à Makro. A margem baixa não os impede de continuarem a vender tabaco.</p>
<p>Porque é que então os produtos e serviços são tão caros, se é possível sobreviver perfeitamente em modelos com margens baixas? A primeira resposta, claro, é mais uma vez a ganância. Já ninguém quer trabalhar com margens de 10%, com muito poucas excepões: os postos de abastecimento de combustível e os quiosques e bares que vendem tabaco. Também os comissionistas de seguros, de imobiliário e de viaturas automóveis trabalham com margens baixas. Ou os vendedores da Avon e Amway. Até recentemente, os vendedores de computadores (que também têm margens baixíssimas). Mas são excepções. No resto do mercado, a margem <em>mínima</em> é de uns 100%, mas é normal ser de 250% ou mais. Afinal de contas, «toda a gente faz o mesmo», e esta cartelização implícita significa que os consumidores não têm escolha.</p>
<p>A segunda resposta já é mais subtil. Embora tenhamos a impressão que não é assim, os preços dos bens e serviços, ajustados à inflação, estão hoje <em>relativamente</em> mais baratos do que há 30 e 40 anos atrás. Lembro-me de uma longa conversa com o meu pai àcerca disto, que insistia que hoje em dia já não podia comprar um livro por semana, porque eram caríssimos, enquanto que nos anos 60 do século passado, custavam poucos tostões. Fizémos umas contas relativas ao salário do meu pai na altura, e chegámos ambos à conclusão que os livros, hoje em dia, estão duas vezes mais <em>baratos</em>. No entanto, a <em>percepção</em> é que estão mais caros. Porquê? Porque nos anos 60 havia muito menos para consumir, e mesmo algumas coisas como a comida eram muito mais baratas. Logo, não «custava» tanto comprar livros. A mesma analogia pode ser vista em relação aos salários de hoje: para alguém que ganhe o salário mínimo como eu, comprar 4 livros por mês, a mais ou menos €20 cada um, representa 20% do meu orçamento pessoal — está fora de questão. Para o Prof. Marcelo, que ganha talvez uns €10.000 por mês, comprar (e ler!) quatro livros por semana tem um custo negligível. Custa-lhe tanto como para mim tomar uma bica!</p>
<p>Mas há mais efeitos perversos. Nos anos 60 e 70, era normal uma família arrendar uma casa por cerca de um quarto ou um terço do valor do salário (apenas do <em>pater familias</em>, porque bastava uma pessoa trabalhar para sustentar uma família). Os carros compravam-se a pronto e trocavam-se de 3 em 3 ou 5 em 5 anos, quando se fazia uma boa gestão das poupanças, e ainda se ganhava com a venda em 2ª mão; mas muito pouca gente pensava num carro. Poupava-se outro terço do salário, e o resto era para a comida e despesas familiares. Hoje em dia, praticamente todos os casais têm ambos os cônjuges a trabalhar, e um dos salários paga a casa, e o outro divide-se entre o carro, a comida, a TV por cabo e Internet, electricidade, a escola e actividades extra-curriculares dos filhos, e tudo o resto&#8230; sobra pouco! As rendas eram <em>comparativamente</em> baratas, mas os proprietários tinham menos regras a que estavam sujeitos: não havia condomínio a pagar, por exemplo, nem a obrigatoriedade de gastar dinheiro em seguros, pinturas regulares, inspecções ao gás, e assim por diante.</p>
<p>Quando as rendas aumentaram, assim como os salários, os comerciantes foram forçados a aumentar a sua margem — porque só assim, vendendo o mesmo que dantes, podiam pagar os custos recorrentes da manutenção do seu negócio. Isto tem vindo a aumentar de ano para ano. As despesas de uma loja num centro comercial são incalculáveis — especialmente quando se comparam com o que gastam muitos lojistas em zonas tradicionais que pagam meramente uns tostões de renda e têm a família a trabalhar na loja (não tendo assim muitos encargos fixos). Há uma enorme discrepância, e alguns comerciantes não têm outro remédio senão cobrir os custos mensais todos com poucas vendas com margens altíssimas. Isto é típico no caso das imobiliárias: têm de vender uma casa por mês, mas o que ganham com essa casa, tem de lhes pagar tudo — renda, impostos, salários de todo o pessoal, custos com publicidade. Se venderem duas casas nesse mês, o dono da imobiliária pode adquirir um Porsche. Três ou quatro casas, e é mais um apartamento na Expo. Este modelo é muito diferente do tradicional: baseia-se no princípio de que poucas vendas com grande margem permitem sustentar a empresa, e tudo o que vier acima dessas vendas é puro lucro que é convertido em luxos.</p>
<p>Este modelo tornou-se tão popular que é raro o comerciante, seja em que área for, que não o adopte. Com o crescimento real dos salários médios, as pessoas passaram a ter capacidade de adquirir bens com muito maior margem de lucro para os comerciantes, embora o seu custo de produção, comparado com 1960 ou 1970, tenha diminuído <em>drasticamente</em>. Não havendo «alternativa» no mercado a este modelo, todos nos habituámos a achá-lo «normal».</p>
<p>Tão «normal» que quando comparamos os preços de bens e serviços em Portugal ou noutro qualquer país europeu vemos que são mais ou menos os mesmos. Por isso «parece estar bem». Mas subitamente reparamos que fora de Portugal os salários podem ser muito mais elevados, e a carga fiscal igualmente pesada. Aí perguntamo-nos a nós próprios como é possível sobreviver assim. Será da tão falada falta de produtividade nacional?</p>
<p>Na realidade, duvido que uma empregada de uma boutique em Portugal seja «menos produtiva» do que em Espanha ou França. Mas ganha metade. O resto vai para os donos da loja, graças às margens altas que estes impõem. Ou seja: apesar de ganharmos menos do que no resto da Europa, o custo de vida é sensivelmente o mesmo, e a diferença está na margem de lucro dos comerciantes portugueses. O resultado? Vê-se no abismo entre «pobres» e «ricos», que parece ser inexplicável para o caso português. A explicação está nas margens de lucro&#8230;</p>
<p>Só se nota isto quando se começa a fazer negócios com parceiros estrangeiros e é preciso competir com eles. Graças a um Euro forte, é difícil colocar preços competitivos lá fora <em>e manter as mesmas margens de lucro</em>. É certo que os portugueses ganham menos, e por isso deviam ser capazes de produzir mais barato, <em>mas o empresário português que pensa vender os produtos lá fora não tem interesse em diminuir a sua margem de lucro</em>. Por isso queixa-se de que é impossível concorrer com os chineses, indianos, brasileiros, etc. ou mesmo com parceiros europeus que <em>estranhamente</em> conseguem colocar os mesmos produtos a mais baixo custo. É verdade que até podem ser mais produtivos, e isso faz alguma diferença, mas essa explicação só é válida <em>para os empresários que trabalham com margens baixas e salários altos</em>, que são a excepção, não a regra!</p>
<p>Ora aqui é que eu penso que vai ser forçoso outra mudança de mentalidade durante 2012, e essa, sim, vai doer. Os salários já estão a diminuir — basta aumentar o desemprego, que os salários descem, já que as pessoas preferem ganhar menos a ficarem desempregadas. Isso permite aos empresários despedir toda a gente, fazer falir as empresas, e montar outra ao lado, contratando as mesmas pessoas a metade do salário. Tecnicamente, isto é ilegal, e há casos que até são julgados em tribunal, mas cada vez é mais fácil contornar a lei — por exemplo, recorrendo a agências de trabalho temporário, que servem de «intermediários».</p>
<p>No entanto, o que estes empresários estão a descobrir é que os portugueses já não têm capacidade para consumir tanto como dantes. Ou por outra: têm a mesma <em>apetência</em> — o mesmo desejo — mas pura e simplesmente não têm a mesma capacidade financeira. Isto significa que os empresários que querem sobreviver a médio prazo não vão ter outro remédio senão cortarem nas suas margens. Talvez baixem de 400% para 250% e depois vêem se isso chega para manter o ritmo de vendas. Talvez, como a banca parece estar a querer fazer, diminuam a sua margem para uns «miseráveis» 70% (!).</p>
<p>Se esta «moda» de baixar as margens de lucro pegar, então vai acontecer algo de interessante, que se calhar é o que o nosso Ministro das Finanças quer que aconteça. Neste momento, estamos apenas a sofrer o clima de terror ao pensar que as coisas não podem continuar como dantes. Mas mais cedo ou mais tarde, alguns tímidos comerciantes vão ter de optar entre fechar as suas empresas lucrativas ou baixar as margens de lucro — e por consequência os preços — para sobreviver. Se baixarem ao ponto de acompanharem as quedas reais dos salários médios, então vão encontrar consumidores. Um exemplo estúpido: compro os mesmos livros a €5 e €7 na Amazon que cá custam €20. Se uma editora, em conluio com uma distribuidora e um grupo de lojistas, começar a colocar livros a €5 no mercado, deixo de comprar na Amazon. Não tenho a capacidade de pagar €20 por um livro, mas posso comprá-lo por €5. Se o mercado se «ajustar» para colocar livros a €5 à venda, então isso significa que essas editoras/distribuidoras/lojistas vão todos sobreviver, porque encontram consumidores — aumentam as suas vendas, compensando a diminuição drástica das margens de lucro. O efeito de cartelização vai fazer com que os restantes sejam forçados a fazer o mesmo. Como os salários se manterão baixos, a única coisa que os empresários poderão fazer é baixar as suas margens até encontrarem consumidores — mas isso não é mau. Quer dizer que todos ganhamos — os consumidores continuarão a consumir (mas a pagar muito menos pelo que consomem); os salários, apesar de baixos, vão continuar a ter capacidade de comprar ao ritmos do «antigamente»; e as empresas sobrevivem porque continuam a ter clientes (e, logo, continuam a poder contratar pessoas&#8230; que manterão assim o seu poder de compra, etc.). É um círculo vicioso descendente que se auto-ajusta à capacidade dos consumidores de pagarem os preços que lhes são impostos, e, graças ao mercado livre, permite que aqueles que se ajustem sobrevivam.</p>
<p>Claro que isso vai significar que muitos empresários passarão a ganhar <em>muito menos</em>. Mais que suficiente para cobrir os seus custos, mas deixarão de poder comprar dois ou três apartamentos por ano e a oferecer carro novo aos filhos todos os semestres.</p>
<p>Ou talvez não.</p>
<p>Em Inglaterra, que é um país onde tradicionalmente se arrendam casas e estas não se compram, o crédito fácil criou (tal como cá) uma nova apetência para adquirir casas, e o caso inglês, em pouco tempo, se tornou muito parecido com o português. Mas houve uma diferença: quando passou a ser impossível vender casas a valores altamente especulativos, os preços caíram — para <em>um terço</em>. Ou seja: os nossos amigos ingleses também estavam a trabalhar com margens de 200 e 300% sobre o custo das casas. Agora, na esperança de venderem <em>alguma</em> coisa, cortaram os custos para um terço.</p>
<p>O que fizeram os consumidores? Chegaram aos seus bancos e disseram que não iam pagar mais as suas hipotecas. Os bancos ameaçaram imediatamente ficarem com as casas. Os consumidores sorriram: o que eles iam fazer era ir ao balcão da concorrência, comprar uma casa nova por um terço do valor da que tinham, e pedir uma hipoteca a um terço do valor mensal. O banco que ficasse com a casa sobrevalorizada. O banco então entrava em pânico, sabendo perfeitamente que, se ficasse com a casa, teria de a vender a um terço do preço, com o consequente prejuízo. Não tiveram outro remédio senão negociar, mas os consumidores neste caso tinham a faca e o queijo na mão: só vale a pena negociar uma hipoteca para um <em>terço</em> do valor mensal porque é apenas isso que a casa vale! Ou o banco cortava a hipoteca para esse montante, ou podia esquecer o cliente.</p>
<p>Toda a gente está a fazer isto em Inglaterra. Em consequência, acredito que se esteja a assistir a um pseudo-<em>boom</em> imobiliário — mas apenas movimentando um terço do capital — à medida em que as pessoas trocam as suas casas caras e sobrevalorizadas por outras vendidas a um preço real e não especulativo. Os bancos estão cheios de casas que não valem o que pedem por elas, à medida que os seus clientes deixam de pagar as hipotecas. Esta é uma crise imobiliária-financeira <em>nova</em>, que colocou os consumidores na mó de cima: já não são nem as imobiliárias, nem os bancos, nem os especuladores imobiliários que ditam os preços, mas sim <em>os consumidores</em>, que perderam a capacidade de pagar tanto como antigamente. O resultado: as casas em Inglaterra estão a retornar a valores mais reais, mais próximos do custo de construção (com uma margem de 10% e não de 300%), e, assim, estão a ser vendidas. Quem perde são os bancos, que passaram a ter de cortar nas suas expectativas de ganhar chorudos milhões com hipotecas hiper-inflacionadas. Os especuladores passaram a ganhar <em>menos</em>. Mas também passaram a poder adquirir — e a especular — com casas <em>muito mais baratas</em>, para as quais existem clientes, e, logo, não estão a perder tanto como isso.</p>
<p>Segundo o que me contam meus amigos, o mesmo se está a passar na Bélgica e em França, também a larga escala.</p>
<p>Por cá, os especuladores imobiliários baixam os preços&#8230; 10%. Ou talvez 20%. Isso ainda não chega. Mas mais cedo ou mais tarde vão ter de assumir que a velha táctica de manter um imóvel «parado» durante uma década, até que os preços voltem a subir, não vai funcionar. <em>É</em> <em>muito provável que os preços não voltem a subir nunca mais</em>. À medida que os especuladores imobiliários começarem a compreender isto, vão ser forçados a baixar os preços das casas. E assim os portugueses com hipotecas vão fazer o mesmo que os ingleses, os belgas e os franceses.</p>
<p>Mas subitamente os coitados dos empresários que viam as suas margens a reduzir-se de forma a não conseguirem comprar tantos apartamentos por ano começam a ver que esses apartamentos, afinal de contas, estão a baixar drasticamente de preço. Então vão voltar a comprar o mesmo que compravam antes. Reduzindo a sua margem de lucro para um terço, se as casas passarem a custar apenas um terço que antes, significa que podem continuar a adquirir a mesma quantidade que antes. E vão começar a ser cada vez mais a perceber isto.</p>
<p>Ora é verdade que este é um cenário optimista, e que não vai acontecer em 2012, mas que se vai desenvolver, aos poucos, ao longo dos anos. Infelizmente, os produtos que têm margens já muito baixas, não vão poder entrar nesta «espiral descendente de ajuste de preços». Os produtos cujos preços de venda são já próximos dos de custo, o que acontece, para uma população que tenha, digamos, apenas um terço da capacidade de compra que tinha antes, é que estes produtos passam a ser <em>luxo</em>. Por exemplo, é pouco provável que vejamos os automóveis a baixar de preço para um terço; as margens são já muito baixas, e mesmo a diminuição de salários para um terço não vai diminuir muito o preço dos carros. Voltará a ser um artigo de luxo como era antes; o que significa também que a gasolina, se se destinar a um produto de luxo, não vai baixar de preço. É certo que em todas as indústrias de trabalho intensivo — onde o custo dos salários é a fatia mais importante dos custos fixos recorrentes — os preços finais vão forçosamente descer, e podem descer dramaticamente. Mas alguns produtos «correntes» de hoje em dia, que são de capital intensivo (e não de trabalho intensivo) ou que recorrem a matérias-primas que já não irão baixar muito de preço, provavelmente não vão tornar-se mais baratos, excepto para alguns ajustes nas margens de lucro que já são baixas nestes casos. Não é provável que automóveis, electrodomésticos, telemóveis e computadores baixem muito de preço — já são desenvolvidos em linhas de produção robotizadas e usam apenas um mínimo de trabalho manual. O mesmo irá ocorrer no mobiliário — a IKEA vai deixar de ser, para os portugueses, uma «loja de produtos baratuchos». Em compensação, vai ocorrer um fenómeno curioso, que é o de que algumas indústrias passarão a ser competitivas, pelo menos no mercado nacional: por exemplo, tudo o que seja artesanal, com recurso a mão de obra barata, poderá competir com produtos industriais que recorrem à robotização e que portanto já dificilmente conseguirão reduzir ainda mais os custos. O que quer dizer que vamos voltar a ter mel de apicultor à venda na mercearia da esquina; que os carpinteiros vão voltar a abrir lojas de móveis fabricados à mão, porque poderão concorrer com a IKEA; que se calhar vão voltar a abrir as fábricas portuguesas de electrodomésticos (que nos anos 70 do século passado tinham a particularidade de poderem fabricar modelos à medida, pois eram feitos de forma artesanal). Isto não quer dizer que se tornem mais baratos: quer dizer que, comparativamente ao resto, poderão concorrer aos preços de agora num mercado de luxo — que é o que irá acontecer aos produtos como electrodomésticos, automóveis e computadores: vão ser produtos de luxo, e vamos poder optar por soluções massificadas, ou soluções artesanais feitas à medida, pelo mesmo preço.</p>
<p>Será isto mau? Acho que é apenas <em>diferente</em>. O que acho é que não será em 2012 que vamos ver isto a acontecer (embora os casos ingleses, belgas e franceses tenham mostrado que, pelo menos no imobiliário, a inversão de tendência de preços ocorreu <em>muito depressa</em>, numa questão de poucos meses). Acho que vai ser um processo, mas não muito longo, de ajuste global para uma nova realidade. Acho que vai haver imensa resistência da parte daqueles que estão habituados há 20 anos — desde os anos 90! — a trabalhar com margens de 300% ou 400% e que agora têm de compreender que só podem cobrar 10% ou 20%. Vai haver imenso sofrimento até que os preços da maior parte dos bens e serviços efectivamente desça para metade ou para um terço do que estão agora — ou seja, para mais perto do valor de custo — e, consequentemente, os salários descerão na mesma proporção também. Podemos olhar para o Brasil como exemplo: os salários por lá são, em média, metade dos portugueses, mas o nível de vida, em média também, é metade do nosso — excepto que alguns produtos, que cá são «correntes», por lá são luxo. Mas é a isso que nos iremos ter de habituar.</p>
<p>Portugal já passou por muitos períodos assim, em que se acabaram as «vacas gordas» e o país teve de se adaptar a viver outra vez de acordo com as suas reais capacidades, e não as capacidades especulativas. Já fomos efectivamente um país-satélite de Espanha, e um pseudo-pais-satélite de Inglaterra, e isso não impediu que mantivéssemos a nossa cultura e identidade nacional, seja o que isto queira dizer para muita gente. Agora estamos prestes a embarcar numa nova aventura: a de fazermos parte de uma Europa federal, em tudo menos no nome, onde será imposto aos nossos governantes o que podem e o que não podem fazer com o dinheiro emprestado, e onde o tecido empresarial terá de aprender a sobreviver numa realidade pós-especulativa. Quanto aos consumidores-contribuintes, esses, numa primeira fase vão ter de se adaptar à mudança, para um país de salários baixos, de custo de vida também baixo, onde o comércio tradicional e artesanal vai finalmente poder voltar a competir com a indústria importada de fora, mas onde infelizmente os écrãs de plasma e as PlayStations vão deixar de ser um «direito» universal mas apenas um luxo para alguns poucos privilegiados — tal como nos anos 60 e 70.</p>
<p>De resto, vai ficar tudo na mesma.</p>
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		<title>Mensagem de Natal</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 13:12:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética e Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[Normalmente as minhas mensagens de Natal são sempre uma oportunidade para denunciar o comercialismo da época, que pouco ou nada tem a ver com o objectivo inicial do mesmo, e que, além disso, sempre me pareceu estranho — afinal de &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/12/22/mensagem-de-natal-2/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=301&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a style="color:#ff4b33;line-height:24px;font-size:16px;" href="http://arundel.files.wordpress.com/2011/12/buddha-santa.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-302" style="border-color:initial;border-style:initial;" title="Buddha Santa" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/12/buddha-santa.jpg?w=640" alt=""   /></a>Normalmente as minhas mensagens de Natal são sempre uma oportunidade para denunciar o comercialismo da época, que pouco ou nada tem a ver com o objectivo inicial do mesmo, e que, além disso, sempre me pareceu estranho — afinal de contas, se a ideia é «portarmo-nos bem para ganhar presentes» nas poucas semanas antes do evento familiar, e termos autorização para nos portar mal o resto do ano, parece-me sempre que esta «institucionalização do Natal» me soava a falso&#8230;</p>
<p>Este ano, no entanto, sob a inspiração (e aspiração!) do meu professor, vou desejar uma mensagem de Natal diferente. Devido a constrangimentos financeiros, este ano o Natal de muita gente vai ser menos comercial e mais passar algum tempo junto com a família e/ou amigos. Para muitos, é um fraco consolo — uma espécie de prémio de consolação: já que não recebo prendas, ao menos que coma bacalhau com a família que mal vejo no resto do ano.</p>
<p><span id="more-301"></span></p>
<p>Infelizmente, justamente talvez por não estarmos com a família durante tanto tempo como isso, é também nesta altura que os confrontos familiares, normalmente «adormecidos» durante o ano todo, vêm ao de cima. Lá temos de aturar a sogra chata, lá vem a lambisgóia da nora com o decote até ao umbigo, lá vem o tio gagá que se baba enquanto murmura coisas incompreensíveis, lá vêm os putos traquinas a fazer uma barulheira ensurdecedora, excitando os cães a correr à volta da casa, e, pior que isto, este ano a reclamar que a PlayStation prometida transformou-se magicamente num par de peúgas quentinhas e que o televisor de plasma esperado, que finalmente iria ser a inveja dos vizinhos, foi substituída por uma caixa de bombons comprada no Lidl. A frustração vai ainda causar mais berreiro, mais erguer de vozes, mais estalos, mais gente furiosa, que depois regressam a casa com um «Uf! Este já está, agora felizmente só aturo isto de novo para o ano!»</p>
<p>Não é, de todo, a atitude certa para que tenhamos todos um feliz Natal. E não vou vir com «moralismos» baratos e despropositados, pois nesta altura em que todos os valores foram há muito descartados, e finalmente até mesmo os valores comerciais irão ter um menor impacto na «felicidade do Natal» este ano, que mais nos resta?</p>
<p>No passado, um conjunto de sábios cujo único propósito era desejar que todos nos déssemos bem e que fossemos felizes, deixaram-nos uma (aparentemente) simples instrução para nos guiar, que é conhecida como a «<a href="http://www.wisegeek.com/what-is-the-golden-rule.htm">Regra de Ouro</a>». Surge um pouco por todo o lado, mais ou menos na mesma altura — há 3000 ou 2000 anos atrás — e é formulada mais ou menos da seguinte forma: «Ama o próximo como a ti mesmo». As palavras exactas podem variar consoante a tradição, a filosofia ou a religião que se apropriaram desse ditado; e obviamente que a interpretação também varia consoante o gosto e a cultura e os tempos. Mas esta Regra de Ouro contém profunda sabedoria que encerra o segredo para a felicidade, não só para nós próprios, mas para todos os outros. Infelizmente não é fácil de compreender, e muito mais difícil de colocar em prática: no entanto, isso não quer dizer que não se possa tentar fazer um pequeno esforço, e que melhor oportunidade do que este período natalício para experimentar?</p>
<p>Para os que se dizem cristãos, mesmo que meramente simpatizantes, ou inspirados culturalmente, esta frase é atribuída a Jesus de Nazaré, e consta que é o seu segundo mandamento (só deixou dois), de igual importância. Para os que preferem abandonar a religião e encarar a filosofia, Sócrates exprimiu o mesmo pensamento uns séculos antes. Mas em todas as religiões e filosofias principais a mesma ideia foi universalmente exposta. Mesmo no secularismo humanista é a base para documentos como a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se há alguma ética que transcende países, culturas, filosofias, religiões, e o próprio tempo, é esta Regra de Ouro universal.</p>
<p>Talvez o problema seja em como aplicá-la, e aqui as interpretações variam um pouco consoante a cultura. Por exemplo, a regra é commumente descrita como «não faças aos outros o que não queres que estes te façam a ti». Isto é apenas metade do esforço que é preciso fazer, mas já é um bom princípio.</p>
<p>Ora então como é que se aplica esta Regra de Ouro à nossa vida e à interacção com os outros? A primeira coisa a observar é que a frase não diz simplesmente «Ama o próximo» ou «faz o bem aos outros», pois é preciso, primeiro do que tudo, saber o que é este «amor» ou o que significa «fazer o bem». Algumas filosofias ou religiões moralistas gostam de colocar uma longa lista do que se deve fazer e o que se não deve fazer, prometendo torturas horrendas, neste mundo ou no próximo, sobre as consequências de não seguir a lista. Mas nenhum dos grandes mestres e professores do passado exprimiu as coisas desta maneira, especialmente aqueles que não tinham qualquer intenção de criar uma «religião organizada». O que eles propõem, isso sim, é a segunda parte da frase: «conhece-te a ti próprio». Essa é a chave da Regra de Ouro: para sabermos o que fazer aos outros, primeiro de tudo, temos de nos conhecer a nós próprios.</p>
<p>E a primeira coisa que temos de fazer, libertos de «moralismos», pretensões espirituais, regras, ou mesmo ideias pré-concebidas que nos tenham sido ensinadas, ou que tenhamos lido algures, é aplicar algum esforço para obtermos nós próprios a resposta. O que fazemos é simples: o que queremos nós nesta vida?</p>
<p>Podemos fazer longuíssimas listas intermináveis — quero ter fama, sucesso, glória, respeito, carradas de dinheiro, uma mulher boa, uma casa enorme, um carro fixe, montes de amigos, muita saúde, um país com políticos honestos — e assim por diante, mas podemos resumir tudo a uma única coisa: queremos ser felizes, e queremos evitar o sofrimento. Qualquer acção ou ideia que temos em mente assenta nesses princípios. As nossas sociedades laicas assentam igualmente na teoria de que uma sociedade melhor é aquela onde as pessoas, de alguma forma, são mais felizes, e onde temos métodos e mecanismos para lhes aliviar o sofrimento (seja o medo de que as coisas corram mal, seja  a doença e a velhice&#8230; o sofrimento pode ser físico ou mental, as sociedades procuram aliviar ambos os tipos). Mesmo as sociedades que não assentam em princípios cristãos têm exactamente os mesmos objectivos, quer sejam mais ou menos corrompidas; no pior dos casos, são construídas para criarem a felicidade de <em>alguns</em> (os que estão no poder) e tentar evitar-lhes o sofrimento.</p>
<p>Então pouco interessa o que é que nos faz feliz, pois vai ser diferente de pessoa para pessoa. Para alguns, felicidade é ver o Sporting ganhar. Para outros, é uma jantarada com os amigos. Para muitos, é ter uma família, uma casa, conforto material, saúde. Para os religiosos é entrar em comunhão com o seu deus. Não importa o que é que nos faz feliz a cada um de nós individualmente; o que importa é que reconheçamos aquilo que nos faz feliz a <em>nós</em>. Muitas vezes temos ideias completamente erradas do que é felicidade genuína, e por isso esta parte da Regra de Ouro é, para muitos, a mais complicada. Se pensamos, por exemplo, que fama, glória e riqueza é aquilo que nos faz feliz, basta abrirmos uma revista cor-de-rosa para ver todo o tipo de escândalos em que os «famosos» estão envolvidos: traições, divórcios, zangas com os produtores e os fãs, droga, acusações de sexo com menores, e tudo o mais. Se o nosso caminho é atingir aquilo que os nossos ídolos atingiram, então vamos também estar potencialmente sujeitos a isso. Mas o ascetismo e a pobreza também não criam lá muita felicidade: as mesmas revistas podem mostrar criancinhas a morrerem de SIDA e de fome em África, e não nos parecem lá muito felizes. E se não quisermos ir tão longe, basta passearmos pelas ruas de Lisboa e ver os sem-abrigo a tiritarem de frio nas ruas, com apenas uma garrafa de vinho como próxima refeição: serão eles assim tão felizes como isso?</p>
<p>No entanto, se reflectirmos um pouquinho sobre isto, há certas coisas que começamos a reconhecer com sendo universais. Pobres ou ricos, ninguém gosta de ser insultado — especialmente porque reconhecemos que nós também não gostamos. Não gostamos que nos tirem as coisas que custaram a adquirir, porque perdemos imenso tempo a trabalhar para as obter. Não gostamos que interfiram com a nossa família — ou que alguém tenha um «caso» com o nosso cônjuge. Não gostamos de ser enganados. Podemos continuar aqui a lista durante mais um tempo e acrescentar inúmeras coisas que vamos imediatamente reconhecer como nos fazendo felizes ou infelizes. Então o objectivo da segunda parte desta Regra de Ouro é justamente isso: fazer a nossa própria lista, e começar a compreender como é que ela se aplica a toda a gente, incluindo os nossos próprios animais de estimação — também eles gostam de conforto, de serem alimentados, de receber festinhas, e não gostam de levar pontapés, de que se esqueçam deles num canto, ou mesmo que sejam abandonados ao frio.</p>
<p>Não precisamos sequer de ir abrir livros de filosofia, ou de ir buscar inspiração aos grandes mestres do passado que nos deixaram as suas sábias palavras. Basta perguntarmo-nos a nós mesmos. A resposta está lá, quer a gente a reconheça, quer não. O esforço é só na compreensão de que aquilo que nos faz infeliz, também faz infeliz os outros; aquilo que nos faz feliz, também faz os outros felizes.</p>
<p>O meu professor costuma dar o exemplo de que isto não quer dizer que, lá porque eu goste de bacalhau com natas, agora todo o mundo tem de comer bacalhau com natas para ser feliz. Não: o que temos de compreender é que ficamos felizes quando comemos o que gostamos, e ficamos infelizes se não temos a nossa comida favorita. Toda a gente é assim, incluindo os nossos animais de estimação. É claro que cada um de nós tem a sua comida favorita (e se calhar não conseguimos compreender como é que pode haver alguém que goste de escaravelhos fritos com piri-piri&#8230;), mas isso é secundário: o que importa, isso sim, é reconhecer que as pessoas ficam mais contentes quando podem comer aquilo de que gostam.</p>
<p>Se conseguirmos compreender que aquilo que nos faz feliz é a mesma coisa que faz feliz os outros, então a primeira parte da Regra de Ouro pode ser agora colocada em prática. Após a fase de auto-conhecimento, então devemos criar circunstâncias e condições para que os outros, também eles, possam ter acesso às coisas que os fazem felizes, e tentar evitar que estejam em contacto com as que os fazem infelizes. «Amar», neste sentido, é reduzido à mais simples e elementar forma de relacionamento com os outros: é meramente comportarmo-nos de forma a tentar fazê-los mais felizes e a evitar que fiquem infelizes na nossa presença. E isso está ao alcance de todos nós.</p>
<p>Por exemplo, embirrar com algum membro da família durante a ceia de Natal vai fazê-lo infeliz. Como sabemos isso? Porque se embirrassem connosco, ficaríamos chateados. Então meramente abstermo-nos de embirrar com os outros já é um passo importante. Não se trata aqui de olhar apaixonadamente para alguém, vertendo lágrimas de paixão, e carinhosamente lhes dizer, cheio de emoção: «Amo-te, por isso não vou embirrar contigo, e espero que reconheças o meu enorme esforço e que me agradeças por isso». Isso é sentimentalismo bacoco em troca de alguma coisa (reconhecimento). A palavra «amor» no contexto da Regra de Ouro é altruista no sentido em que não estamos à espera que nos dêem medalhas. Mas não precisamos. Apenas por não embirrarmos com alguém vai fazer não só que essa pessoa fique mais contente, como nós próprios vamos evitar uma discussão desagradável na consequência desse embirramento. Portanto vamos evitar uma situação desgradável para nós também e evitar ficar chateados. Ganham ambos — é essa a consequência do altruismo.</p>
<p>Mas decerto haverão situações em que é «impossível» lidar com a fúria e raiva que nos inflama quando vemos um dos outros membros da família — seja porque se vestem de forma que não gostamos, seja porque nos lembramos de como nos lixaram com a herança do tetravô, seja pela forma como educam (ou deseducam) as crianças que andam por aí numa correria, seja por algo que nos disseram que nos magoou há 30 anos atrás e ainda guardamos ressentimento disso&#8230; temos milhares de razões para nos chatearmos com os outros, e é impossível, para alguém que seja meramente humano, «conter» essa raiva.</p>
<p>É certo que sim. Mas para isso é que serve esta quadra natalícia: é para, pelo menos durante um bocadinho, aprendermos a contermo-nos um pouco. Talvez seja só durante umas horas — depois podemos dar largas à nossa raiva e agressividade, e, no dia 26, dizer o que pensamos&#8230; o que o espírito da época nos pede não é que nos tornemos nuns santos de um dia para o outro, nem que sejamos uns hipócritas com sorrisos delicodoces para com as pessoas que odiamos.</p>
<p>Não, o que precisamos apenas de fazer é um pequeno esforço. Em vez de embirrar com as pessoas, ficamos calados e não damos a nossa opinião sobre o que pensamos delas. Não é preciso fazer grande alarido disso. Não precisamos de apontar para os nossos peitos e dizer: «olhem como me estou a portar bem! Nem disse ainda nada ao avô!» Ficamos apenas calados e restringimos a nossa conversa com as pessoas que mais odiamos a um mero «Boa noite» ou «Feliz Natal» na altura adequada. Se nos sentirmos especialmente motivados, podemos relembrarmo-nos de que, apesar de detestarmos a nossa mãe, a verdade é que ela vai ter depois de lavar a louça toda, e já está velha e cansada, e obviamente que não deve ser uma tarefa agradável para ela — porque também não é para nós. Sem uma palavra, dirigirmo-nos para a cozinha e lavar um copo ou dois é o que basta. Sim, se calhar vai aparecer por aí a mãe odiada aos berros a dizer «O que é que estás a fazer?! Ainda me partes os copos todos, que foram caros!» Nessa altura, retiramo-nos da cozinha e murmuramos apenas a desculpa de que só queríamos ajudar, mais nada. Nem vale a pena sorrir, se acharmos que isso só seria considerado hipocrisia.</p>
<p>O que vamos descobrir é que, mesmo fazendo este mínimo dos mínimos, vão acontecer duas coisas. Uma delas é que chegamos à conclusão que afinal de contas os nossos familiares não são as pessoas horrivelmente cínicas e moralmente depravadas que pensamos que são. A nossa sogra pode ser desagradável connosco, mas na verdade ela apenas está a exprimir o seu próprio desejo de ser feliz, e não sabe como fazê-lo. A nossa nora veste-se daquela forma provocante que tanto nos irrita porque isso a faz feliz, gosta de ser admirada — não faz de propósito para nos chatear, nós é que nos chateamos com isso. Os putos aos berros apenas estão a mostrar a sua insatisfação por não terem tido as prendas que queriam; são desagradáveis e irritantes, claro, mas só o fazem porque estão a exprimir o seu desagrado. O tio gagá que tão mau aspecto dá, sempre a babar-se, na realidade é um coitado que já não tem capacidade para fazer melhor que isso: um dia vamos estar na mesma posição que ele, quando tivermos a mesma idade. A prima que nos lixou com a herança na realidade acha que é feliz se for mais rica, por isso faz tudo para conseguir mais riqueza, à custa dos outros — pode ser uma pessoa horrível, mas no fundo só anda à procura da felicidade, tal como nós. Quando começamos a observar isso tudo, e a perceber que as pessoas todas da nossa família, por mais horríveis que nos pareçam, na realidade só andam à procura de felicidade como nós, mas não sabem como o fazer, e andam a tentar evitar a infelicidade, mas também não o sabem fazer. É só isso. Se sairmos da ceia do Natal a pensar um bocadinho que os outros não são as pessoas horríveis que pensamos ser, mas que apenas andam à procura do que nós também andamos, então já tivémos uma excelente ceia.</p>
<p>Mas a segunda coisa que acontece é no sentido inverso. Os restantes membros da família, já antecipando que nos iremos chatear com a mãe, a sogra, a nora, o pai, as crianças, o tio gagá e a prima, vão achar estranho que este Natal não tenhamos sido tão agressivos para com toda a gente. Alguns até vão pensar se não estávamos doentes. A mãe vai comentar, já mais calma, que nunca tinha lavado um copo na vida. A prima gananciosa, que sempre levara comentários àcerca da herança, vai chegar a casa a pensar, «Olha, este foi o primeiro ano em que ele (ou ela) não me chateou por causa disto! Afinal de contas, não é tão má pessoa como pensava.» Ou seja, todos voltarão para as suas respectivas casas a pensar que, afinal de contas, as coisas não foram bem iguais à tortura habitual dos outros anos. Se isso não é exactamente motivo de grande felicidade, pelo menos evitou que fosse uma fonte de grande infelicidade. E isso já não é mau!</p>
<p>A Regra de Ouro tem esta particularidade de prometer uma <em>win-win situation</em> em que todos ganham. Não é apenas para uns totós fazerem uns sorrisos patetas e serem escravos dos outros, dizendo que os «amam» muito e que por isso fazem tudo o que lhes mandaram, mas guardando por dentro enorme ressentimento por não serem devidamente apreciados. Na realidade, é uma regra extremamente funcional, cujo único objectivo é fazer com que as pessoas, compreendendo o que as motiva e o que não gostam de sentir, se abstenham de se prejudicar mutuamente, alimentando ainda mais o ódio mútuo que sentem — que nasce essencialmente da incompreensão de que os outros, no fundo, querem exactamente o que nós queremos.</p>
<p>Por isso desejo a todos um Feliz Natal em que não só não façamos a vida negra aos nossos familiares e amigos, mas que compreendamos um pouco que eles, no fundo, só querem ser felizes, são é pouco hábeis para o fazer sem nos irritar; mas nós também somos pouco hábeis, e por isso é que os irritamos tanto. A «habilidade» nasce de colocarmos a Regra de Ouro em prática, independentemente do que acreditarmos. Laicos e ateus, cristãos, budistas ou <em>new agers</em>, a Regra de Ouro é válida universalmente e está acima de qualquer filosofia, moral, ética, religião ou <em>ismo</em>, e todos a podemos seguir para ter um Natal mais feliz.</p>
<p>Isto foi o que aprendi com o meu professor e que tenciono pôr em prática <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/301/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=301&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>WordCamp Lisboa 2011 — Um resumo</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Sep 2011 17:49:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homepage]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Todos os resumos serão necessariamente incompletos, pessoais e muito parciais. Esta é apenas a minha percepção do evento! Mas antes de mais, um resumo do evento em imagens Em primeiro lugar devo referir a perfeição da organização. Graças à Ana &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/09/26/wordcamp-lisboa-2011-%e2%80%94-um-resumo/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=285&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://2011.lisboa.wordcamp.org/"><img class="alignleft size-full wp-image-286" title="wordcamp-lisboa-logo" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/09/wordcamp-lisboa-logo.png?w=640" alt=""   /></a>Todos os resumos serão necessariamente incompletos, pessoais e muito parciais. Esta é apenas a minha percepção do evento!</p>
<p>Mas antes de mais, <a href="http://wp-portugal.com/2011/09/26/wordcamp-lisboa-as-ilustracoes-de-bauke-schildt/">um resumo do evento em imagens</a> <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Em primeiro lugar devo referir a perfeição da organização. Graças à <a href="http://www.widgilabs.com">Ana Aires</a>, que fez a coordenação geral, o evento começou a horas, as sessões tiveram a duração prevista, e a pontualidade foi levada ao extremo. Nada de atrasos e de «quinze minutos académicos» ou semelhantes desculpas para a falta de pontualidade: o evento decorreu com maior precisão cronográfica que o sincronismo por NTP <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> <span id="more-285"></span></p>
<p>Em segundo lugar, a surpresa generalizada foi o número de participantes. O <a href="http://everywhereelse.wordpress.com/">Zé Fontaínhas</a>, fundador da Comunidade WordPress em Portugal (ele próprio funcionário da Automattic, empresa que desenvolveu o WordPress) confessou que teria ficado satisfeito com «umas sessenta pessoas». Pediu à Universidade Lusófona, onde decorreu o evento, «uma sala com capacidade para pelo menos 120 pessoas» não fosse acontecer um «milagre». O evento esgotou, uns dias antes da data, a capacidade total do auditório — 180 pessoas! — e ficaram pessoas em lista de espera. É certo que depois no dia não apareceram as 180 (mas umas 160-165) mas mesmo assim isso significou «casa cheia», o que não é mau para o primeiro WordCamp em Portugal.</p>
<p>A audiência, informalmente contactada, compunha-se talvez de um terço de web designers, um pouco menos do que isso de developers, e o resto não foi identificado (muitos eram consultores de <em>social media</em>). Cada qual evidentemente tinha expectativas diferentes quanto ao evento, daí talvez a razão da organização de escolher como apresentadores um <em>mix</em> de oradores, desde produtores de temas, <em>end-users</em>, alojadores de serviços que incluem WordPress, e alguns funcionários da Automattic. Foi, pois, um evento muito ecléctico. Em futuros WordCamps, se houver ainda mais inscrições, fará sentido dividir a conferência em vários <em>tracks</em> — um para web designers, um para developers, um para empresas de alojamento, um para consultores de <em>social media</em>, etc. Mas para primeiro evento fez sentido misturar tudo.</p>
<p>Notei que as apresentações foram feitas essencialmente por um «grupo de amigos» mais os seus <em>sponsors</em>. Dado que ninguém prevera o sucesso da adesão de tanta gente ao WordCamp Lisboa 2011, penso que esta opção foi a mais «segura». O «grupo de amigos» faziam essencialmente parte da equipa mais activa presente nas discussões da tradução do WordPress para português; já se conheciam de anteriores <em>MeetUps</em> e sabiam, pois, o que contavam em termos de apresentações; dois deles (portugueses) fazem parte da Automattic pelo que isto facilitou grandemente os contactos e permitiu trazer oradores também da empresa e de alguns seus parceiros principais (como a WooThemes, que conta entra os seus colaboradores também um português). Para alguém na audiência isto pode ter parecido um pouco estranho: quase todos os oradores conheciam-se pessoalmente e tratavam-se por tu e faziam referências mútuas de forma informal. Os oradores que não eram já «amigalhaços» faziam parte dos <em>sponsors</em>, como é o caso da Microsoft que insistiu ter uma apresentação extra-calendário, demonstrando como, ao fim de vários reboots, crashes, e erros no écrã, é mesmo possível ter o WordPress a correr em Windows em 20 minutos. Foi o momento catártico do WordCamp, que permitiu a todos rirmo-nos imenso — não há apresentação em Windows que não crashe, afinal de contas, mas o orador esteve à altura dos acontecimentos.</p>
<p>O <em>mix</em> de oradores também trouxe vários estilos e tipos de pessoas para o palco — desde o orador da WooThemes que admitiu publicamente que era a primeira vez que fazia uma apresentação em público (e safou-se razoavelmente bem), até «veteranos» como o Hugo Baeta (o outro português da Automattic) que se nota que faz apresentações de olhos fechados na língua que lhe pedirem. Também a profundidade das apresentações foi uma mistura: desde histórias pessoais de uma <em>blogger</em> (<a href="http://artlifework.wordpress.com/">Ana Silva</a>) que contou como foi «forçada» a tornar-se numa <em>geek</em> para tentar meter o Joomla a funcionar com o <em>template</em> que queria, e, não o conseguindo, passou a usar WordPress; passando por banalidades sobre a importância de um site Web ser visível também em telemóveis; instruções práticas sobre alguns tipos de <em>sites</em> que são possíveis de fazer em WordPress e quais os <em>plugins</em> necessários para o mesmo (para mim, uma das apresentações mais úteis, especialmente como <em>selling point</em> do WordPress como um CMS capaz de <em>tudo</em>); até às explicações técnicas <em>hard core</em> do Sérgio Carvalho da <a href="http://blog.com/">blog.com</a> mostrando como é que se implementa uma infrastrutura capaz de lidar com um milhão de <em>page views</em> diárias do WordPress. Embora acredite que 2/3 da audiência se tenha perdido ou adormecido, para mim, que ainda tenho sangue de <em>systems &amp; network engineer</em> a correr nas minhas veias, achei a explicação deveras útil, e curiosamente, fiquei também estupefacto com a simplicidade da solução capaz de escalar tão bem até esses níveis de <em>performance</em>. É preciso muito menos do que julgava, mas o mérito é todo do <em>Core Team</em> que fez um bom trabalho com o WordPress — o Sérgio apenas soube implementar uma solução robusta dadas as características da aplicação que «ajuda» a desenhar modelos escaláveis. Também achei interessante a explicação técnica da <a href="http://www.ptisp.pt/">PTisp.pt</a>, outro <em>sponsor</em> da conferência, sobre o seu sistema de <em>cloud</em>, embora tenha sido muito menos detalhada e menos específica ao WordPress.</p>
<p>Sei que ficaram muitos oradores de fora (eu fui um deles <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' />  ) o que é positivo: para o ano, o WordCamp pode se calhar ter vários dias ou <em>tracks</em> separados e ser ainda melhor. O que fica na memória é ver que, afinal de contas, existe uma enorme quantidade de gente em Portugal a trabalhar profissionalmente em WordPress, cobrindo toda a cadeia de valor: desde o alojamento de servidores pensados para sites criados em WordPress, passando pelas soluções de <em>hosting</em> WordPress (para quem não goste do wordpress.com e prefira uma solução <em>made in Portugal</em>), chegando aos criadores de <em>plugins</em>, <em>templates</em> e mesmo <em>core developers</em>, aos <em>web designers</em> e aos consultores de <em>social media</em>. Não estamos mal servidos de todo, o que pode ser uma enorme surpresa: há seis meses atrás, pediram-me para fazer um levantamento de todas as empresas nacionais que estavam a dar «suporte a instalações em WordPress» e foi mesmo muito difícil encontrar algumas (poucas), o que me frustrou bastante; depois do WordCamp fiquei com a nítida ideia de que existem dezenas (centenas?), uma das quais — a <a href="http://www.widgilabs.com/">Widgilabs</a> — sendo uma das nove empresas europeias com a classificação de <em><a href="http://codepoet.com/">Code Poet</a></em>, muito difícil de obter, especialmente porque um dos requisitos que é analisado pela Automattic é a capacidade de contribuir código e templates para a comunidade (que se calhar até conta mais para eles do que propriamente o portfolio de sites criados com WordPress!). Também foi excelente ver que existem vários portugueses associados a empresas de reputação internacional no panorama WordPress — até trabalhando na própria Automattic — pelo que, ao contrário do que julgava há seis meses atrás, Portugal até não está mal representado na comunidade global de utilizadores WordPress&#8230;</p>
<p>Ficou lançado o desafio de expandir a <a href="http://wp-portugal.com/">comunidade portuguesa WordPress</a> e eventualmente de criar o nosso próprio directório de empresas e serviços, talvez de forma mais informal e com menos rigor que o <em>Code Poet</em>, para que futuros levantamentos de mercado como o que eu fiz não retornem zero (ou quase zero&#8230;) <em>hits</em> no Google. E entretanto a mensagem que fica para as centenas de empresas portuguesas que continuam a insistir em manter os seus próprios CMS, queimando pestanas e fazendo noitadas para que os consigam actualizar constantemente e mantê-los a par das últimas necessidades e novidades tecnológicas, é a seguinte: esqueçam o «reinventar da roda». A vossa roda não é melhor que as outras. É uma perfeita estupidez continuar a desperdiçar recursos, tempo e dinheiro a manter um CMS que mais ninguém senão vocês e os vossos escassos clientes vão usar. Apostem todos esses recursos, tempo e dinheiro, isso sim, a desenvolver <em>plugins</em> para o WordPress para que este faça <em>exactamente</em> o que pretendem. Um dos oradores — Drew Strojny, <a href="http://thethemefoundry.com/">The Theme Foundry</a> — ilustrou bem esta mudança de tipo de negócio — a passagem do «desenvolvimento à medida» para o «produto» cuja venda é repetível indefinidamente. Uma empresa nacional especializada em construir sites para clientes, e que aposte num CMS que ninguém conhece e ninguém usa, pode simplesmente redireccionar os seus recursos para criar <em>plugins</em> altamente especializados (que façam o WordPress comportar-se <em>exactamente</em> como querem) — que depois podem vender à parte num mercado mundial. Existem inúmeras empresas que vendem <em>plugins</em> comerciais dessa forma: começaram por fazer <em>sites</em> para clientes e o inevitável <em>backoffice</em> num CMS criado às 3 pancadas; depois chegaram a um ponto em que os custos de manutenção desse CMS, usado só para uma dúzia ou duas de clientes, eram estratosféricos (especialmente porque certos <em>updates</em> para falhas de segurança requerem desenvolvimento e <em>deployment </em>gratuito&#8230;), e desistiram: passaram a usar WordPress e a criar apenas um conjunto de <em>plugins</em> e <em>themes</em> que se adequassem exactamente ao que o cliente precisa. E depois de satisfeito o cliente, vendem o <em>plugin</em> e/ou tema, e têm uma fonte de receita <em>adicional</em>.</p>
<p>É o que faz sentido hoje em dia. O negócio de «criação de <em>sites</em> Web» é demasiado competitivo para qualquer outra alternativa. As margens são escassas. Os clientes exigem demasiados <em>features</em> por baixo preço. A minha experiência pessoal é muito simples: normalmente quando sei que vou ter uma reunião com um potencial cliente que queira também um <em>site</em> (ou um redesenho de um <em>site</em> existente), perco uma tarde no dia anterior a fazer um «protótipo» usando um tema adequado e já com as cores, logotipo, etc. do cliente. Então a discussão deixa de se fazer em termos de «listagens de <em>features</em>» mas sim em olhar para o <em>dashboard</em> do WordPress e a ver como é que se modifica tudo. A oradora Ana Silva ilustrou esta mesma técnica para «vender» internamente uma ideia de <em>corporate blogging</em> — em vez de «diagramas» ou listas intermináveis de características, que os <em>decision makers</em> depois tinham de imaginar nas suas cabeças, mostrou pura e simplesmente como se actualiza um <em>site</em> usando WordPress. É completamente diferente.</p>
<p>Quebrou-se com este WordPress uma barreira em Portugal, que é mostrar que há centenas de pessoas aptas a trabalhar profissionalmente em WordPress; isto para mim é um <em>selling point</em> crucial para muitos clientes que «desconfiem» quando lhes digo que se cria um <em>site</em> num instantinho. Talvez para mim falte cair a última barreira: o de que o WordPress é uma ferramenta para criar <em>blogs</em>. Penso que esta «nódoa» na reputação do WordPress se vai manter durante muitos e muitos anos, e vai ser difícil de «apagá-la»; já encontrei muitos casos de empresas que optaram, por exemplo, pelo Joomla ou Typo3, porque achavam que o WordPress «só serve para <em>blogs</em>» — e depois, ironicamente, usaram um <em>template</em> de blog no seu <em>site</em> com Joomla/Typo3 <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Nos raros casos em que voltam a falar comigo, quando lhes mostro <em>sites</em> de comércio electrónico e/ou redes sociais ficam depois espantados por saber que foram feitos em WordPress&#8230; mas é certo que esta «discriminação» vai continuar durante muitos anos, e há que saber lidar com ela.</p>
<p>Afinal de contas, estou habituado a essas «discriminações»: o Linux era só para <em>geeks</em> e só servia para servidores <em>low-end</em>; o Mac OS X só serve para <em>designers</em> e é «muito caro» (1); o Second Life «é um jogo». Não sei porquê, mas passo a minha vida empresarial a lidar com preconceitos deste tipo <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Como sempre, culpo os <em>media</em> que adoram inventar estas coisas para lixar a vida dos profissionais&#8230;</p>
<p>(1) No WordCamp Lisboa 2011, 90% dos oradores e participantes usavam produtos Apple. Hum. Não admira, pois, que a Microsoft insistisse em fazer uma apresentação e que sorteasse uma Xbox 360 para mostrar que o Windows ainda não morreu, e que a Microsoft pode já não ser a maior empresa do mundo, mas que ainda está viva, inovadora, e que hoje em dia é forte apoiante de <em>software open source</em>&#8230; como os tempos mudam!</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/285/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=285&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Off for WordCamp Lisboa 2011</title>
		<link>http://arundel.wordpress.com/2011/09/24/off-for-wordcamp-lisboa-2011/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Sep 2011 06:59:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homepage]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda tenho gasolina que chegue até Lisboa, e o almoço é grátis<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=282&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda tenho gasolina que chegue até Lisboa, e o almoço é grátis <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://arundel.files.wordpress.com/2011/09/wordcamp-ticket.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-283" title="wordcamp-ticket" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/09/wordcamp-ticket.jpg?w=640" alt=""   /></a></p>
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	</item>
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		<title>Ainda o Acordo Ortográfico</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Sep 2011 15:44:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homepage]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[acordo ortográfico]]></category>

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		<description><![CDATA[Continua-se a discutir por este país fora a questão da aplicação do Acordo Ortográfico; regozijo-me com a existência de jornais (como o Público) e mesmo de algumas estações de TV que se recusam, como forma de protesto, de o aplicar. &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/09/23/ainda-o-acordo-ortografico/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=279&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://ilcao.cedilha.net/"><img class="alignleft size-full wp-image-221" title="Não ao Acordo Ortográfico — Iniciativa Legislativa de Cidadãos" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/03/nao2c.jpg?w=640" alt=""   /></a>Continua-se a discutir por este país fora a questão da aplicação do Acordo Ortográfico; regozijo-me com a existência de jornais (como o Público) e mesmo de algumas estações de TV que se recusam, como forma de protesto, de o aplicar. Cada vez são menos, é certo, e cada vez mais alunos aprendem a ortografia arrevezada do «novo» AO, pelo que com o tempo a batalha poderá estar perdida, especialmente porque nesta época toda a gente se preocupa com a crise e não com a língua e a cultura portuguesas.</p>
<p>Como referência, e para quem nunca o tenha lido, podem obter uma cópia do Acordo Ortográfico <a href="http://www.priberam.pt/docs/acortog90.pdf">no site da Priberam</a>.</p>
<p>A minha «guerra pessoal» não tem nada a ver com «não gostar» do Acordo Ortográfico; não creio que uma opinião pessoal sobre se «gosto» ou «não gosto» tenha qualquer importância. Em vez disso, a minha fundamentação contra o Acordo Ortográfico baseia-se em dois pilares:</p>
<ol>
<li>Há desonestidade intelectual na justificação para a sua adopção (explicarei isto em mais detalhe mais abaixo)</li>
<li>O processo para a sua redacção e implementação não foi democrático, em especial porque não teve em conta as centenas de milhares de pessoas em Portugal e os milhões no Brasil que se pronunciaram publicamente contra o acordo.</li>
</ol>
<p>Vejamos em mais pormenor o primeiro ponto. Já escrevi sobre isto em vários comentários e mensagens em toda a &#8216;net, mas o problema de o fazer em redes sociais é que a argumentação perde-se e dispersa-se e é difícil de encontrar.</p>
<p><span id="more-279"></span></p>
<p><a href="http://museunacionaldearqueologia-educativo.blogspot.com/2010/10/visita-de-estudo-academia-das-ciencias.html"><img class="alignleft" title="Academia das Ciências de Lisboa" src="http://1.bp.blogspot.com/_tkx37Zihuos/TLQkOnMbZPI/AAAAAAAAAmo/EjOZBECeUXI/s1600/Academia+das+ci~encias+de+Lisboa.jpg" alt="" width="400" height="228" /></a>A lei que promulga o Acordo Ortográfico, por si só, nem é uma má lei. Não modifica muita coisa. Remete tudo para um anexo, que foi alegadamente elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras, provavelmente em conjunto com as suas delegações dos CPLP, como é referido no preâmbulo da Resolução da Assembleia da República n.º 26/9.</p>
<p>Porquê delegar tal responsabilidade na Academia das Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras? Esta é a primeira questão que deve ser colocada. Por razões históricas, pelo menos desde 1931, os acordos ortográficos são propostos pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras. Até aqui tudo bem, mas há que ter em conta que (pelo menos no caso português; desconheço o caso brasileiro), se tratam de entidades <em>fechadas ao público</em> — no sentido em que apenas os seus membros podem participar nas decisões. Quer isto dizer que aqueles que vão usar a língua portuguesa no seu dia-a-dia não se podem manifestar junto da entidade que vai passar uma «lei» — o AO é, para todos os efeitos, uma lei — e que esta não é debatida publicamente. Quando a lei refere</p>
<blockquote><p>Considerando que o texto do Acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários [...]</p></blockquote>
<p>não é explicado que esse «aprofundado debate» decorreu às portas fechadas entre alguns ilustres auto-proclamados «especialistas» da praça, sem recurso a mais ninguém, excepto eventualmente um político ou outro e talvez alguns donos de editoras de manuais escolares.</p>
<p>Não tenho nada contra obter opiniões de «especialistas». Por exemplo, uma lei sobre a aplicação de determinado tratamento médico deve ser obviamente debatida por licenciados em Medicina, não por testemunhas de Jeová (que se opõem à maior parte dos tratamentos invasivos&#8230;) ou por curandeiros e «endireitas». Muito menos pela população em geral. Estamos a falar de conhecimento especializado que requer décadas de estudo e prática para obter uma compreensão mínima do assunto. O papel do legislador, nesse caso, é recolher informação e obter recomendações. Se o assunto requer conhecimentos científicos, é de esperar que qualquer parecer elaborado por cientistas seja, efectivamente, sujeito ao escrutínio dos seus pares usando critérios científicos que sejam falsificáveis — como tudo em ciência.</p>
<p>No caso da língua portuguesa, há um problema agravado. Não são os «especialistas» que dizem (ou que sabem&#8230;) como é que 240 milhões de pessoas falam e escrevem todos os dias. Quanto muito, podem <em>recolher informação</em> e <em>sistematizá-la</em>. Embora as regras da linguagem sejam lógicas, como qualquer especialista em inteligência artificial e linguagem natural poderá atestar, não é óbvio como é que todas as possibilidades de emprego da linguagem emergem desse conjunto de regras. Assim, pode-se obter uma representação da ortografia de forma sistemática e o seu registo segundo regras, mas esta representação será necessariamente sempre incompleta — não se pode consultar os 240 milhões de falantes de língua portuguesa sistematicamente e pedir-lhes que escrevam os 110.000 vocábulos da língua portuguesa (pelo menos os que estiveram em consideração no estudo para o Acordo Ortográfico). Pode-se, isso sim, trabalhar por <em>amostras</em> como em qualquer estudo científico, e obter regras a partir dessas amostras, e depois validar a sua aplicação de acordo com os procedimentos habitualmente usados em estatística. Tudo isto são procedimentos padronizados em ciência, que certamente qualquer ilustre membro da Academia das <em>Ciências</em> de Lisboa muito bem conhecerá.</p>
<p>No entanto, se isso foi feito, não consta <em>de todo</em> no texto do Acordo Ortográfico!</p>
<p>Então quais foram os critérios <em>apresentados</em> para as alterações, aparentemente aleatórias, do texto? Não se pode sequer falar de «aproximação ao português do Brasil», como a maioria dos portugueses gosta de dizer. O AO é refutado igualmente por muitos movimentos de protesto brasileiros — alguns dos quais alegam ter <em>milhões</em> de pessoas contra o AO (contrastando com as centenas de milhar do lado de cá do Atlântico, pelo menos as iniciativas que surgem na &#8216;net e que, infelizmente, de pouco ou nada servem — a suspensão da entrada em vigor do Acordo Ortográfico requer em Portugal de uma <a href="http://ilcao.cedilha.net/">Iniciativa Legislativa de Cidadãos</a> o que precisa de 35.000 assinaturas <em>em papel</em> — ao contrário das petições, que podem ser feitas via Internet). Mas tal é o protesto do lado dos nossos irmãos brasileiros que o <a href="http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/11/04/ult5772u5947.jhtm">Congresso brasileiro, em 2009, considerou a hipótese de rever o acordo</a>. E cito:</p>
<blockquote><p>Não houve uma discussão democrática e aberta.</p>
<p><em>— Ernani Pimentel, movimento Acordar Melhor</em></p></blockquote>
<p>Ou seja, é o próprio Brasil que fica chocado com a ideia de que eles, brasileiros, de certa forma são vistos como querendo impôr um Acordo Ortográfico aos restantes países falantes de português — <em>quando eles próprios também não querem este acordo</em>! E, ainda mais do que nós, criticam a falta de transparência e de democracia no processo todo. Diria «mais do que nós» porque se calhar do lado de cá do Atlântico nem são esses os argumentos apresentados, mas sim coisas que têm a ver com «gosto pessoal» e «imposição das editoras (brasileiras?)» (desmontarei esta teoria mais abaixo).</p>
<p>Ora eu por mim até estaria disposto a aceitar um qualquer «acordo ortográfico», desde que se assumissem, <em>no mínimo dos mínimos</em>, os seguintes pressupostos:</p>
<ul>
<li>Discussão livre e aberta entre todos os 240 milhões de falantes de português. Não apenas «alguns». Envolvimento de mais organizações no processo: professores, autores, e jornalistas, por exemplo (e não só editoras!). Quase todas as organizações repudiam o acordo, seja de que lado do Atlântico for, e fazem-no publicamente com veemência. Como é possível então que tenha havido «aprofundado debate», se ninguém publicou as actas do mesmo, nem se sabe onde decorreu, excepto eventualmente num ou outro programa de TV, e sempre <em>a posteriori</em> à decisão tomada?</li>
<li>Processo democrático. Se 240 milhões de pessoas falam português, estes 240 milhões devem ter uma palavra a dizer na forma como escrevem a sua língua. A isto chama-se pura e simplemente — <em>referendo</em>. Seria talvez o referendo mais abrangente no espaço lusófono, atravessando nações, continentes e oceanos. Não seria um excelente exemplo a dar a todo o mundo? Que sabemos <em>democraticamente</em> preservar um elemento fundamental da nossa cultura? E se o resultado for uma enorme abstenção ou um rotundo <strong>NÃO!</strong> — aceite-se a decisão do povo e continue-se o debate. Falamos português há mais de 850 anos, não há necessidade de «apressar» o processo&#8230;</li>
<li>Critérios científicos validáveis e/ou falsificáveis. Isto é um pouco obscuro, mas se se invoca a «autoridade» da Academia de <em>Ciências</em>, espera-se que esta, para justificar as suas decisões, utilize processos <em>científicos</em>. Certo? Pois.</li>
</ul>
<p>Então vamos lá a ver os «critérios» usados pela Academia de Ciências (não li o texto da lei brasileira que aprova o acordo no Brasil, pelo que não sei se os anexos são os mesmos, e se a Academia Brasileira de <em>Letras</em> simplesmente aceitou a argumentação da Academia de <em>Ciências</em> de Lisboa sem a contestar; presumo que não, mas não sei).</p>
<p>Cito o seguinte excerto:</p>
<blockquote><p>As palavras afectadas por tal supressão representam 0,54% do vocabulário geral da língua, o que é pouco significativo em termos quantitativos (pouco mais de 600 palavras em cerca de 110000).</p></blockquote>
<p>Note-se a expressão <em>pouco significativo</em>. É essa utilização que é intelectualmente desonesta, porque se baseia no pressuposto <em>quantitativo</em>, que aparentemente justifica que as alterações se devam/possam fazer por serem justamente pouquíssimas palavras as que são afectadas. Mas é pouco significativo <em>para quem</em>?</p>
<p>Ironicamente, o autor do anexo (não identificado) reconhece imediatamente a seguir que <em>qualitativamente</em>, no entanto, o impacto é grande!</p>
<blockquote><p>Este número é, no entanto, qualitativamente importante, já que compreende vocábulos de uso muito frequente (como, por exemplo, acção, actor, actual, colecção, colectivo, correcção, direcção, director, electricidade, factor, factura, inspector, lectivo, óptimo, etc.).</p></blockquote>
<p>Sabendo que uma grande parte da população não usa 110.000 vocábulos diariamente — mas talvez apenas uns 5 ou 6 mil — então o que este acordo ortográfico está a afirmar é o seguinte: «bom, não vale a pena chatearem-se com o AO porque só mudamos umas 600 palavras. O facto de que essas 600 palavras representam talvez 10% de todos os vocábulos vulgarmente utilizados pela esmagadora maioria da população falante da língua portuguesa é <em>irrelevante</em> (para nós, membros da Academia de Ciências)».</p>
<p>Ora é <em>isso</em> que é intelectualmente desonesto: considerar o impacto <em>qualitativo</em> da mudança como <em>importante</em>, mas depois aplicá-la à mesma, porque <em>quantitativamente</em> —assumindo que a população usa diariamente 110.000 vocábulos, o que é ridículo! — é <em>pouco significativo</em>.</p>
<p>Se esta Lei do Acordo Ortográfico fosse publicada numa revista científica, seria logo «chumbada» à partida por usar justificações não relevantes, por cometer várias falácias lógicas, e finalmente pela totalidade de ausência de critérios científicos para as justificar. Aliás, a ironia é que o autor desconhecido do texto até admite a diferença entre o impacto <em>quantitativo</em> (pequeno) e o <em>qualitativo</em> (enorme!), mas nem sequer se justifica concretamente que foi o critério <em>quantitativo</em> que prevaleceu. Aliás, eu não estive obviamente presente na elaboração do dito acordo, mas esta redacção tresanda a «comentário feito <em>a posteriori</em>» para parecer que existe alguma «cientificidade» no método utilizado&#8230; mas quando o próprio autor nem sequer diz qual foi o critério que prevaleceu, mas simplesmente enumera <em>factos</em>, então temos de assumir que <em>não houve na realidade nenhum critério lógico, válido ou sequer científico na elaboração do Acordo Ortográfico</em>, mas apenas uma «opinião» de um conjunto de «eruditos» que tiveram procuração e carta branca para fazer o que lhes apetece.</p>
<p>Sendo assim, em consciência, não posso aceitar a credibilidade da Academia das Ciências para saber o que é importante ou não num Acordo Ortográfico. Ora mas se não tem credibilidade, então porque é que é a Academia das Ciências a estabelecer o AO? Quando se contratam <em>peritos</em> para auxiliar o legislador nas suas funções, presume-se que os peritos, de facto, o sejam. E em ciência podemos analisar o resultado dos peritos, discuti-lo, e abertamente contestar resultados «forçados» e rejeitar uma tese ou teoria se os critérios que conduzem à mesma revelam-se errados (mesmo que apenas parcialmente errados). Ou seja: o Acordo Ortográfico não foi o resultado de uma análise científica, mas sim de um conjunto de «opiniões» <em>a priori</em>, que depois usaram uma argumentação (fraca e contraditória!) para tentar «cientificar» a opinião. Isto é desonestidade intelectual.</p>
<p>E, como cidadão, tenho então de condenar politicamente quem colocou a decisão <em>política</em> nas mãos de quem <em>não tem credibilidade científica</em>; como cidadão, denuncio publicamente o caso, e, como estamos em democracia, até votei em representantes <em>diferentes</em> dos que aprovaram o AO, na esperança de que estes pelo menos estejam abertos a uma discussão séria sobre o assunto&#8230; no fundo, não quero mais do que os brasileiros pediram em 2009: contestando a seriedade do trabalho que conduziu ao AO, pediram ao Congresso que o reveja, a que este alegadamente acedeu. Também isso eu peço aos nossos representantes democraticamente eleitos na Assembleia da República.</p>
<p>No fundo qual é a questão? Não vou especular na «teoria da conspiração» de que as editoras brasileiras passariam a poder invadir o mercado português sem necessitar de se preocupar com a dupla grafia. Essa «teoria da conspiração» pode ser desmontada pelo facto de <em>continuar a haver dupla grafia</em>. Há é <em>menos</em> dupla grafia:</p>
<blockquote><p>O número de palavras abrangidas pela dupla grafia é de cerca de 0,5% do vocabulário geral da língua, o que é pouco significativo (ou seja, pouco mais de 575 palavras em cerca de 110000), embora nele se incluam também alguns vocábulos de uso muito frequente.</p></blockquote>
<p>Ou seja, por um lado, é sempre «pouco significativo» mudar a grafia de 500-600 palavras; mas embora num dos casos (acção, actor, actual, colecção, colectivo, correcção, direcção, director, electricidade, factor, factura, inspector, lectivo, óptimo&#8230;) se tenha optado pela <em>supressão obrigatória e fim da dupla grafia</em> (optando-se neste caso pela grafia brasileira), noutros casos — <em>tão frequentes como os primeiros —manteve-se</em> a dupla grafia!</p>
<p>Se o critério fosse <em>meramente o quantitativo</em>, então faria sentido, isso sim, mudar <em>todas</em> as palavras (ou seja, pouco mais de 1%&#8230;) para grafia <em>única</em>, e, nesse caso, isso sim, reforçaria a tese conspiratória de que «as editoras brasileiras querem invadir o mercado nacional baixando os custos, produzindo edições com uma ortografia unificada». Mas mesmo neste caso, o argumento seria falacioso: não é só a ortografia que é diferente, mas os <em>vocábulos</em> também são, e estes são ainda mais significativos, pois variam de região para região — no Brasil <em>e</em> em Portugal. Já nem falando na preferência brasileira pelo gerúndio quando em Portugal se favorecem os infinitivos. Ora este é um acordo <em>ortográfico</em> e não <em>sintático e semântico</em>. Sejamos honestos: as editoras <em>brasileiras</em> não são «os maus da fita» — até porque no Brasil o acordo ortográfico é tudo menos consensual! Se quiserem continuar a editar em português de Portugal, vão sempre ser obrigadas a rever a escolha dos vocábulos e da gramática, e isso continua a implicar uma edição adicional para Portugal — <em>o acordo ortográfico em nada evitará isto</em>.</p>
<p>Então temos, isso sim, de olhar para as «teorias da conspiração» com mais base justificativa. E nestes casos eu uso o velho critério americano: <em>follow the money.</em></p>
<p>Então quem sai a ganhar — financeiramente — com a mudança do acordo ortográfico?</p>
<ul>
<li>Todas as edições escolares têm de ser revistas e re-editadas, caindo o ónus dos custos sobre os pais, que vão ser obrigados a comprar novos livros para os seus filhotes. Isto dá a ganhar às editoras nacionais cuja subsistência vem principalmente das edições de manuais escolares; contam-se entre estas as maiores editoras nacionais.</li>
<li>Como todas as leis têm de ser redigidas de novo, as tipografias que editam o Diário da República — assim como todos os livros, manuais, etc. que circulam nos ministérios e institutos — vão beneficiar enormemente desta re-edição maciça de textos. Indirectamente, isto vai beneficiar todas as actividades acessórias: mais papel será gasto (bom para a Soporcel!), mais tinta, mais contratações de serviços a <em>designers</em> gráficos, etc. Isto significam novos contratos ou a revisão — por alto — dos contratos existentes. Evidentemente isto movimenta muita gente! E estes custos, claro, serão suportados pelos contribuintes com os seus cada vez maiores impostos&#8230;</li>
</ul>
<p>De resto não vejo grande interesse <em>comercial</em> no acordo ortográfico. Mas como é sabido, Portugal produz cerca de 50% da pasta de papel <em>a nível mundial</em>; é uma das nossas principais indústrias. Por sua vez, as editoras, ao fim de décadas de torpor económico, começaram a mostrar sinais claros de que os portugueses passaram a <em>comprar</em> mais livros (mesmo que não os leiam!); isto reforçou a ideia de que apostar na edição é um bom negócio (ao contrário das décadas de 1980 e 1990, em que a edição era algo feito com amor e carinho e espírito de sacrifício, pois raramente era rentável&#8230;) e catapultou as editoras para cima da linha de água das empresas «economicamente interessantes» em Portugal. Agora é torná-las em <em>gigantes</em> — e nada como criar um mecanismo legal que permita que estas passem a ganhar <em>balúrdios</em> durante estes anos de crise. Até é justificável meramente do ponto de vista político: as editoras, tipografias, etc., graças ao trabalho acrescido, contratam mais pessoas, consomem mais bens e geram crescimento económico <em>artificial</em> num sector historicamente frágil. Logo, nesse sentido, não é uma má medida&#8230;</p>
<p>Criticar o Acordo Ortográfico «porque não gostamos dele» é fácil. Todos o fazemos diariamente. Mas é preciso um pouco mais para o refutar, rejeitar e exigir que seja revisto. Na minha perspectiva, há três fortes razões para o fazer:</p>
<ol>
<li>O processo de «imposição» do Acordo Ortográfico, que ninguém quer de ambos os lados do Atlântico, não foi nem sujeito a debate, nem democrático, ao contrário do que o texto da lei pretende. A título de exemplo, faço parte de organizações de autores que sempre se pronunciaram contra o acordo; nem sequer a opinião destas foi tomada em conta&#8230; já nem falando do público em geral ou dos pais cujas crianças estão confusas com a adopção do «novo» acordo e já nem sabem como é que se escreve português&#8230;</li>
<li>Os critérios para a redacção do texto do acordo não têm <em>credibilidade científica</em>; logo, o recurso a <em>peritos</em> de uma Academia das <em>Ciências</em> para a sua redacção não tem validade política. Ou os «peritos» mostram que são capazes de um trabalho <em>com consistência científica</em>, e, nesse caso, o texto em questão deve estar sujeito a <em>todos os processos de debate e refutação científica existentes</em>, ou, se o texto é apresentado como uma <em>opinião dogmática</em>, deve então ser debatido de forma <em>aberta </em>e <em>democrática</em>. Agora não se pode é atirar com uma lei baseada em alegados pressupostos «científicos» (para evitar o debate aberto e limitá-lo à <em>opinião de peritos</em>) e assumi-la como <em>dogma</em>: seria como se o Estado português consultasse algumas organizações religiosas e impusesse o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Criacionismo">Criacionismo</a> nas aulas de biologia, justificando que «tinham consultado uns peritos e, baseado nessas opiniões, tinham tomado a decisão a favor do Criacionismo». Este acordo ortográfico está para a língua portuguesa como o criacionismo está para a biologia.</li>
<li>Seja qual for o acordo ortográfico que esteja em vigor, não é legítimo que os custos da implementação do mesmo <em>seja pago por quem mais protesta pela sua entrada em vigor</em>. Se efectivamente são as editoras que querem o Acordo Ortográfico, então devem ser elas a <em>oferecer</em> os manuais escolares aos pais! (Acabava-se o AO em três tempos!!) Se é preciso mudar todos os textos legislativos <em>retrospectivamente</em> por causa do novo AO, então <em>não</em> se deve cobrar esses custos aos contribuintes — que seja a <em>Academia das Ciências a pagar a factura!</em> :-)</li>
</ol>
<p>Se quisermos aproveitar o trabalho feito, sem sermos obrigados a sofrer as consequências nefastas — culturais e económicas! — do AO, então é muito simples: use-se o texto do acordo actual, mas mantenha-se a dupla grafia, como já estava no acordo de 1986. Um Acordo Ortográfico não <em>implica</em> uma grafia <em>única</em>, mas sim que todas as partes que assinam o acordo concordem em <em>quais são as palavras que têm dupla grafia</em>. E se eu fosse membro da Academia das Ciências usava o mesmo argumento que eles: já que o número destas palavras representa «apenas» pouco mais de 1% do léxico de 110.000 palavras (independentemente do seu <em>uso</em>, claro está!), então manter a grafia dupla é&#8230; <em>pouco significativo</em>.</p>
<p>Resolve-se de vez um problema que tem aborrecido 240 milhões de pessoas nos cinco continentes e três oceanos <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  E o custo para os contribuintes é zero. Melhor do que isto, nem nas lojas dos chineses&#8230;</p>
<p>Nem peço mais do que os brasileiros pediram ao seu Congresso em 2009: que se reveja o acordo&#8230; e <a href="http://ilcao.cedilha.net/">para isso são precisas as 35.000 assinaturas</a>.</p>
<p><small><em>Ironicamente, ao visitar o site da Academia de Ciências de Lisboa, reparei que não é usada consistentemente a nova ortografia! Alguns textos publicados no site já a adoptam, pelo menos parcialmente, mas nem sequer são a maioria. Ou seja, nem sequer a Academia acredita no Acordo Ortográfico&#8230; <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  </em> I rest my case.</small></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/279/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/279/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=279&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Não ao Acordo Ortográfico — Iniciativa Legislativa de Cidadãos</media:title>
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			<media:title type="html">Academia das Ciências de Lisboa</media:title>
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		<title>Programa do XIX Governo Constitucional</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2011 15:03:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[programa de governo]]></category>
		<category><![CDATA[xix governo constitucional]]></category>

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		<description><![CDATA[Resolvi hoje ler o documento de 128 páginas do Programa de Governo, e que foi para aprovação na AR. Graças a estas electroniquisses, hoje em dia é fácil ter acesso a estas coisas Perde-se uma horinha, mas pelo menos ficamos &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/07/08/programa-do-xix-governo-constitucional/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=273&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;"><a href="http://www.pcm.gov.pt/"><img class="aligncenter size-full wp-image-274" title="Presidência do Conselho de Ministros" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/07/presidencia-do-conselho-de-ministros.jpg?w=640" alt=""   /></a>Resolvi hoje ler o documento de 128 páginas do <a href="http://arundel.files.wordpress.com/2011/07/programa_gc19.pdf">Programa de Governo</a>, e que foi para aprovação na AR. Graças a estas <em>electroniquisses</em>, hoje em dia é fácil ter acesso a estas coisas <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' />  Perde-se uma horinha, mas pelo menos ficamos a saber não só com que contamos, mas principalmente com o que devemos responsabilizar o Governo que elegemos nos próximos anos. Devia ser leitura obrigatória por parte de todos os jornalistas e agentes da comunicação social que vão passar os próximos quatro anos (se o Governo não cair&#8230;) a falar mal do Passos Coelho e a sua pandilha: falar mal, sim, é importante, mas deve-se fazê-lo apenas com uma <em>opinião substanciada</em>. E é para isso que servem estes documentos bonitos.</p>
<p style="text-align:left;">Obviamente que não é em 128 páginas que se consegue transmitir <em>tudo</em> ao mais pequeno detalhe do que vai ser feito. Isto são linhas gerais. No entanto, são um bom enquadramento que deve dar uma boa ideia do que é que vai ser feito (e do que é que absolutamente não vai ser sequer considerado). E evidentemente que algumas pessoas vão dar mais ênfase a certas áreas do que a outras, dependendo da ideologia que defendem.</p>
<p style="text-align:left;">O programa é um misto neo-liberal com toques de social-democracia e alguma firmeza reguladora e controladora típica de um centro-direita. Grande confusão <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Passo a tentar explicar, pelo menos nas estratégias que me chamaram mais a atenção. Algumas surpreenderam-me pela positiva, e se calhar é disso que vou falar, em prejuízo de outras que são se calhar muito mais importantes para a maioria dos portugueses.</p>
<p style="text-align:left;"><span id="more-273"></span>O que achei mais inovador é uma noção de que, em simultâneo, se pretende mais regulação e fiscalização&#8230; mas que não seja «o Governo» a fazer essa regulação e fiscalização. Isto é, para mim, curioso, porque não costuma ser tradição. «Mais fiscalização» mas «menos Estado» é uma política mais social-democrata que neo-liberal; um bom neo-liberal quer sempre menos Estado mas não gosta muito da parte da fiscalização&#8230; a «fiscalização» é para ficar a cargo dos «mercados» em regime de auto-regulação dos mesmos, de forma livre.</p>
<p style="text-align:left;">Mas a ideia presente no Programa de Governo é que o Governo não confia nem nos mercados para se auto-regular, nem no Governo e no <em>boyismo</em> para o fazer. Então propõe que toda a actividade seja fiscalizada e regulada por entidades <em>independentes</em>. Para evitar o corporativismo e os tráfegos de poder (inevitáveis quando surgem este tipo de entidades&#8230;), a proposta é que os seus membros sejam nomeados pelo Governo, Assembleia da República, e Presidente da República, e que sejam controladas e fiscalizadas por estes três órgãos. Qual é a ideia subjacente? Imaginemos que um ministro propõe um cunhado para uma destas entidades. Vai a votação na AR. Sabendo-se de imediato que é um cunhado, vai imediatamente ser rotulado de <em>boy</em>. Toda a comunicação social saberá disso. Então eventualmente a AR negará a nomeação, a não ser que tenha razões para isso; se a maioria da AR aprovar o <em>boy</em>, pode ainda o Presidente da República achar uma má ideia (dadas as circunstâncias) e vetar. Isto é garantia de isenção absoluta? Não, mas é um bom esforço: estas entidades estarão para além do <em>boyismo</em> partidário e para além da burrocracia pública e dos seus inúmeros defeitos — mas estarão sob escrutínio directo do Governo, da AR, e do PR.</p>
<p style="text-align:left;">Parece-me uma ideia interessante. Especialmente quando serão estas entidades que irão avaliar o desempenho dos ministérios em cumprir os orçamentos, em fazer as avaliações dos alunos no ensino, em propôr as promoções por mérito de funcionários públicos, em controlar o despesismo no SNS, e assim por diante. É uma espécie de «Estado corporativo democraticamente eleito e democraticamente fiscalizado». Uma ideia de direita com controlo democrático. É no mínimo curioso, mas se calhar muito apropriado para este país que temos. E se calhar eu é que sou ignorante e estas coisas são vulgares lá fora&#8230;</p>
<p style="text-align:left;">A segunda ideia que me saltou à mente foi uma excessiva preocupação com os portos. Fala-se de portos em todo o lado. Mas que raio, porquê esta obsessão súbita sobre uma área tão em declínio, na qual não conseguimos competir excepto em nichos de mercado&#8230;? Praticamente não temos marinha mercante, e a pesca é artesanal, e os grandes estaleiros estão principalmente na Coreia. Então porquê tanta revitalização do sector portuário?</p>
<p style="text-align:left;">Mais à frente tudo começa a fazer sentido quando se olha para a política energética. O objectivo não é o da migração para um modelo assente em energias renováveis, mas sim a redução, pura e simples, de 30% do consumo de energia em 9 anos. 30%! Com o objectivo bem claro de não depender tanto do petróleo. Ora para isto acontecer, o Governo propõe uma mudança radical na distribuição de produtos: fazê-los essencialmente por via marítima (!) e, onde não há portos — no interior — chegar lá por via ferroviária. Ora isto é que realmente foi uma surpresa. Nada de TGVs para esbanjar dinheiro. Em vez disso, aproveitar os nossos recursos naturais (mar, alguns rios navegáveis) e complementá-los com uma forma de distribuição de mercadoria barata e pouco poluente (o sistema ferroviário). Isto é pensar de forma <em>radical</em>. Acho que nunca tinha visto um governo pensar nisto a sério. As transportadoras vão-se passar!</p>
<p style="text-align:left;">Ou talvez não: pois tudo isto — incluindo o transporte ferroviário — vai ser liberalizado. Provavelmente vão convencer os operadores de logística a criar empresas ferroviárias. Pode parecer incrível, especialmente em termos de ambição — mas é de facto inovador. Olhemos para os estuários do Tejo e do Sado: são gigantescos. Podíamos ter em qualquer dos dois rios os maiores portos do mundo. O Mar da Palha no Tejo dava para meter lá dentro todos os portos europeus e sobrava espaço. Somos privilegiadíssimos na localização e na qualidade dos portos; e, bolas, temos uma história e tradição marítimas com uns 600 anos pelo menos. Será então completamente parvo tornar Portugal — uma vez mais — no entreposto marítimo do século XXI, numa altura em que poupar nos custos de combustível e transporte só faz é sentido? Eu acho muito, muito ambicioso, mas se calhar tem lógica&#8230;</p>
<p style="text-align:left;">A verdade é que Sócrates e Cavaco Silva encheram o país de auto-estradas. Quando se completarem os últimos troços, não vai ser preciso construir muito mais — e o que se construir pode ser tudo inteiramente privado. Ficam os custos de manutenção. Mas os custos das «grandes obras públicas» já não precisam ser auto-estradas: podem ser os novos portos e a nova rede ferroviária de mercadorias. Se calhar Viseu vai finalmente ter a linha de caminho de ferro que ambiciona há século e meio (e que já teve&#8230;) para escoar os seus produtos. Veremos no que nisto vai dar.</p>
<p style="text-align:left;">Mudando completamente de assunto&#8230; uma coisa que achei imensa piada foi o papel futuro da CGD (o BPN é para vender&#8230; até finais de Julho!). Acabam-se todos os negócios «secundários» da CGD — seguros e quejandos — e privatiza-se isso tudo. Qual é o papel do banco do Estado? Financiar PMEs na sua internacionalização.</p>
<p style="text-align:left;">Leram bem <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Ora isto é completamente <em>radical</em>. Qualquer bancário que se preze sabe perfeitamente que o papel dos bancos <em>não</em> é financiar empresas que precisam; isso é suicídio. É, sim, financiar as empresas que têm garantias que possam pagar empréstimos — ou seja, só se empresta dinheiro a quem não precisa. Isto é a «regra de ouro» do negócio bancário. Toda a gente sabe isso. O Governo de Passos Coelho também sabe: por isso, os bancos privados podem continuar a fazer como sempre fizeram. Mas o banco do Estado vai funcionar <em>ao contrário</em>. O objectivo da CGD <em>não</em> é concorrer com os privados, como tem feito até hoje. É fazer aquilo que nenhum banco privado, no seu legítimo juízo, alguma vez faria: apoiar os que precisam. Ora não sei em que é que isto vai dar. Mas recordo-me que países como a Holanda e o Japão pensam exactamente da mesma forma: é com o dinheiro dos contribuintes que se apoia o crescimento das empresas <em>que mais precisam de dinheiro para crescer</em>. As que não precisam de dinheiro conseguem sempre financiar-se. Isto, claro, para além do esforço notável em apostar em capital de risco, apoiar os agentes nesta área, e a promover esse tipo de investimentos mais e mais (já estou a ver o <a href="http://maverick.pt/">Mário Valente</a> a abrir conta na CGD&#8230;).</p>
<p style="text-align:left;">Isto, claro, depois de reduzir em 15% os quadros de direcção e colocá-los a partilhar os mesmos carros. É uma medida divertida. Estou mesmo a ver o Passos Coelho a entrar numa direcção-geral qualquer e perguntar: quantos membros têm a vossa direcção? Um director e cinco adjuntos. E quantos carros? Bem, o director tem quatro, e cada adjunto dois&#8230; Ok, novas regras. Agora há um director e dois adjuntos. E há um carro apenas para a direcção-geral. Combinam com o motorista a sequência de transporte e marcam na agenda as deslocações. Em pânico, dizem que assim não é possível, com só um carro para toda a direcção não podem levar a mulher às compras e buscar os filhos à escola, não dá&#8230; assim vão ter de usar os próprios carros (que horror!). Azar! Sim, bem sei que isto é uma medida pequenina. Mas há muitos directores-gerais (e equiparados), inúmeros adjuntos e vice-presidentes em todo o lado, e demasiados carros. Tudo isso somado é uma boa fatia dos orçamentos dessas direcções.</p>
<p style="text-align:left;">A propósito de orçamentos, há montes de medidas divertidas. Uma delas é que cada ministro é pessoalmente responsável (pública e politicamente) pelo seu próprio orçamento. Se não o cumprir, é penalizado no ano seguinte; paga uma multa. Só se estiver em desespero e o seu ministério em colapso é que pode pedir ajuda aos colegas no Conselho de Ministros para «emprestarem» dinheiro dos seus orçamentos. Mas não se vai buscar mais aos contribuintes (ou a outras «medidas extraordinárias»); e o resultado ao final do ano tem que bater certo com o orçamentado&#8230;</p>
<p style="text-align:left;">Obviamente que o Programa de Governo não é simpático. Está lá claramente que vai haver aumentos de impostos em todo o lado, aumento de taxas, aumento de tudo e mais alguma coisa, menos formas de evasão fiscal, menos deduções, penas mais pesadas para quem não cumpra. Não vai ser nada fácil. E fica bem claro que o Passos Coelho não vai renegociar medidas com o BCE/FMI/CE. Pelo contrário: antevendo o pior, vai impôr medidas bem mais fortes do que as negociadas. Que não haja ilusões a esse respeito. Nem sequer existem aquelas palavras bonitas que os governantes gostam de meter para dar esperança: «se no futuro as condições se alterarem, poderemos considerar um abaixamento dos impostos&#8230;.» O PSD dizia muito deste tipo de coisas. Mas o Programa de Governo não diz nada disso. É mesmo para agravar impostos e taxas em todo o lado. Não se fala, em lado nenhum, de «voltar atrás». O que os neo-liberais esperam é que o crescimento brutal das exportações portuguesas (que andam consistentemente nos 25% — uma brutalidade para um país como o nosso!) e o emagrecimento do Estado, mais a liberalização dos contratos de trabalho (vai haver apenas um tipo: «Nos contratos a celebrar no futuro haverá uma ponderação da passagem para a existência legal de um só tipo de contrato de maneira a tendencialmente acabar com os contratos a termo [...]», pág. 27 — em compensação, o número de «temporários» será fixo por lei e uma percentagem máxima do total de contratados), fará com que, de uma forma ou de outra, os salários acabem por aumentar de forma global, fazendo com que o «peso» da carga fiscal agravadíssima se sinta menos. Por outras palavras: se o salário mínimo bruto fosse de €2500 (estou a brincar, claro) uma carga fiscal de 50% não doía a ninguém. Esse é o objectivo neo-liberal. Se é atingível ou não, logo se verá, mas a verdade é que o aumento incrível das exportações faz-me pasmar; neste momento, a única coisa que faz com que essa riqueza acumulada não se faça sentir na população é por causa do despesismo do Estado&#8230; se o Governo PSD/PP conseguir realmente acabar com esse despesismo e com a burrocracia inútil, vamos estar mesmo muito bem daqui por uma década. Veja-se o caso do Ministério da Agricultura, em que 80% do seu orçamento é para manter a estrutura&#8230; que o que faz principalmente é aprovar os dinheiros europeus a distribuir aos agricultores. Mas como levam tanto tempo a fazê-lo — por causa da burrocracia — os agricultores nunca veêm um tostão — porque os prazos esgotam-se e o dinheiro volta todo para os cofres da UE. A medida de acabar com isto de uma vez por todas <em>está bem clara</em> no Programa de Governo: os agricultores vão passar a receber tudo <em>directamente</em> da UE (tal como acontece em Espanha&#8230; por isso é que eles produzem mais barato em nós). Ou seja: pode-se cortar com 80% da despesa do Ministério da Agricultura, que só servia para manter a estrutura — e esse dinheiro fica também disponível para os agricultores <em>para além</em> do que recebem da UE. Simples, não? Pois, mas implica mandar muitos <em>boys</em> para a rua e pôr o ministério a funcionar sem burrocracia.</p>
<p style="text-align:left;">O ataque à burrocracia é inesperado. Como se sabe, há logo duas coisas (e uma terceira&#8230;) que desaparecem nos governos PSD/PP. A primeira é a cultura. Mas a segunda são as tecnologias de informação. A terceira normalmente é o ambiente.</p>
<p style="text-align:left;">Este governo tem a atitude típica para a cultura (não podemos esperar milagres desse lado; mas pelo menos há uma promessa de colocar o ICEP a funcionar: «ai deles se não começarem a promover o nosso país <em>como deve ser</em> no estrangeiro». Isso pelo menos é encorajador). O ambiente é visto de uma perspectiva sustentabilista e não ecologista, o que obviamente desagradará a esquerda, mas é melhor que nada. Agora na parte das tecnologias de informação é que fiquei muito surpreendido. Tradicionalmente, o PSD desconfia de computadores. Este governo tem a atitude oposta. O Sócrates fez realmente um bom trabalho a mostrar como é que se pode realmente substituir papel por <em>checkboxes</em> em sites Web. O Passos Coelho quer ir mais longe: quer informatizar <em>tudo</em>, mesmo contra a vontade das pessoas. Os médicos e os farmacêuticos devem estar a rogar-lhe pragas, porque ele vai mesmo introduzir o cartão de saúde digital (se calhar aproveitando o Cartão de Cidadão para poupar dinheiro), e <em>tudo</em> — receitas, consultas, exames, etc. — vai passar a ser por via informática. Adeus às fraudes com medicamentos e receitas falsas. Olá médicos furibundos que vão passar a ter de usar computadores. Os juízes também conseguiram, apesar de inúmeros protestos; os médicos são a última profissão liberal a resistir <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  E isso nota-se: ao contrário da Justiça, que tem uma rede universal para todos os agentes, a Saúde nunca teve uma rede única. As farmácias são independentes, e as que são membros da ANF (quase todas, mas há umas poucas independentes) têm a sua rede própria. Os principais hospitais públicos são informatizados, mas têm redes independentes. Em 2005, salvo erro, existiam pelo menos seis redes informáticas na Saúde, que não comunicavam entre si — e que não chegavam a todo o lado.</p>
<p style="text-align:left;">Ora tudo isto é para ser mudado. Se o Passos Coelho conseguir prosseguir com o trabalho do Sócrates nesta área, o papel como suporte burocrático vai deixar de existir em 2015. Mas há mais inovações subentendidas. Aparentemente as constantes reuniões e deslocações para reuniões serão substituídas por videoconferência sobre Internet com partilha online de documentos. Ainda não o vi no Google Plus, mas se calhar o Conselho de Ministros já lá tem o seu Hangout. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Ou — cruz credo! — se calhar usam mas é o Second Life e eu ando mais distraído do que pensava&#8230; Piadas à parte, acho todas estas iniciativas louváveis, obviamente por serem a minha área, mas porque normalmente os governos PSD/PP querem lá saber da informática. Este quer que <em>todo</em> o governo seja electrónico e que não haja mais papel; e por razões pragmáticas, não é por gostar de computadores, é mesmo para poupar dinheiro e tempo. Fixe! Agora esperemos que apoie também as soluções <em>open source</em> como fez a Alemanha <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p style="text-align:left;">Uma coisa gira é que, embora se aumentem as taxas moderadoras e outras contribuições para o SNS, o Estado vai passar a publicar, para cada intervenção (até nos medicamentos!), quanto é que é participado pelo Estado, e quanto foi o contribuinte que pagou. Isso vai ter um efeito psicológico interessante. Por exemplo, uma operação às hemorróidas como fiz em 2007 (acho que foi em 2007) custa €5000. O meu seguro de saúde pagou €4500. Se tivesse feito pelo SNS, ao fim de talvez uma década de espera (é uma cirurgia pouco prioritária&#8230;), talvez só tivesse pago uns €80. Ora o preço da operação custa os mesmos €5000, quer seja no público, quer no privado (pouco mais ou menos&#8230;). Os cidadãos que se queixam que têm de pagar uma cirurgia no SNS pagando €100 vão provavelmente engolir em seco quando perceberem que, graças aos seus impostos, dos €5000 da operação, o Estado pôde comparticipar €4900 — em vez de pensarem que aquilo «dantes» custava-lhe €80 e agora custa €100. Não é verdade. Sempre custou €5000. A diferença é que o Estado agora comparticipa menos.</p>
<p style="text-align:left;">Penso que esta medida devia ser aplicada a tudo, e não apenas à saúde. Por exemplo, quando compramos o passe social, reclamamos que cada vez está mais caro; mas esquecemo-nos de que 75% do seu valor é comparticipado pelo Estado. Se num passe em que pagamos €70 estiver lá escrito: «Preço: €280. Comparticipação do Estado: €210. Utente: €70» as pessoas começam a olhar de outra forma para o custo das coisas. O mesmo se pode aplicar à energia eléctrica, à educação pública e a uma variedade imensa de produtos e serviços em que o Estado comparticipa imenso, mas que os contribuintes nem fazem ideia de quanto (ou sequer de que há, realmente, uma comparticipação). Se calhar até a comida! «Estas laranjas que custam €1,70/quilo são subsidiadas em €1/quilo pelo Estado português e pela União Europeia». Acho que isto é importante para os cidadãos valorizarem o que na realidade o Estado lhes subsidia para que não tenham um nível de vida ainda pior do que o que têm. É importante valorizarmos aquilo que temos!</p>
<p style="text-align:left;">Por outro lado, também gostava de ver a afixação pública dos impostos sobre o combustível, o álcool e o tabaco, para que se saiba também quanto é que o Estado nos rouba nesses casos. Isso não está previsto no Programa do XIX Governo Constitucional <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p style="text-align:left;">Também proponho que se siga a sugestão louca do Santana Lopes, que quando formou governo, meteu um site no ar com a lista de medidas que ia implementar no seu mandato. Eram mais de 9000. Quando foi corrido a pontapé, tinha já implementado 4000. Nada mau, para apenas 9 meses de trabalho. Se o Passos Coelho seguisse a mesma sugestão, o pessoal ficava a perceber melhor que trabalho é que o governo está a fazer. Por exemplo, acho verdadeiramente fascinante que, na maioria dos países, não se espera grande coisa dos primeiros 100 dias de governação. Mas o gabinete de Passos Coelho ainda nem sequer foi arejado e ele já anuncia coisas como «O Governo tem como objectivo encontrar um comprador para o BPN até ao final de Julho de 2011» (pág. 20). Vender um <em>banco</em> inteiro em apenas 3 semanas, sabendo que tecnicamente o Programa de Governo ainda não foi sequer formalmente aprovado?? É obra. Mas são estas coisas que os portugueses precisam de saber — que há toneladas de medidas a aplicar, que o Governo mal foi eleito, mas que <em>já está a fazer coisas, algumas das quais muito complicadas</em>&#8230; Por exemplo, ainda nem sequer se sabe o estado em que estão as finanças do Estado, mas <a href="http://www.pcm.gov.pt/pt/GC19/Governo/ConselhoMinistros/ComunicadosCM/Pages/20110707.aspx">já se começou a preparar o Orçamento de Estado de 2012</a>. As primeiras reuniões preparatórias começam já na&#8230; próxima segunda feira. Dir-me-ão que «isto é normal, todos os anos é assim». Pois que seja! Mas é importante que tenhamos uma noção do que é que o Governo anda a fazer, e da quantidade de coisas que realmente está a fazer em prazos apertadíssimos. Bem sei que é para impressionar a Europa. Tudo bem! Mas impressiona-me a mim também.</p>
<p style="text-align:left;">Em conclusão&#8230; dizia-me uma vez um padre numa homilia que as pessoas apenas retêm 5% do que ouvem. Já não me lembro do resto da homilia, mas lembro-me desses 5%, provando que o padre tinha razão! O mesmo se passará com este Programa de Governo. Não vou reter mais do que os 5% <em>que me interessaram</em> do texto. Alguém que o leia vai obviamente discordar de quais são os 5% «interessantes». Os meus amigos ideologicamente de esquerda só vão ver os cortes nos apoios sociais, o reforço das estruturas privadas de apoio social, os impostos, as taxas, o excesso de fiscalização, o policiamento, o fim da cultura, e sei lá que mais. Os meus amigos neo-liberais vão gostar das privatizações de tudo e de mais alguma coisa e gostar muito do encolhimento gradual e subtil do Estado, mas não vão gostar de saber que vai haver muito mais prestação de contas às «Autoridades Independentes»; ficarão curiosos com o incentivo ao capital de risco. O pessoal da cultura vai desmaiar. O que esteja ligado ao turismo vai ficar muito céptico relativamente ao «relançamento» do ICEP (em articulação com o Min. Negócios Estrangeiros) como agência de marketing da <em>Marca Portugal</em> a nível internacional. Os sindicalistas já estão a pintar as suas faixas e nem sequer quiseram ler o capítulo sobre o Trabalho porque lhes causa pesadelos. Os professores vão suspirar de alívio; já os «cientistas da educação» estarão a fazer as malas para ir para um país diferente.</p>
<p style="text-align:left;">E assim por diante.</p>
<p style="text-align:left;">O divertido deste Programa de Governo é que vai afectar toda a gente de forma diferente, mas será impossível ser completamente indiferente ao mesmo — há sempre qualquer coisa que nos vai afectar directamente (especialmente onde dói mais, ou seja, na carteira), mas vai haver algures uma medida qualquer de que também vamos gostar. Como é impossível agradar a gregos e troianos, e quem tem de ser mais «agradado» com este Programa de Governo são as instituições financeiras que nos emprestam dinheiro, é evidente que não é um Programa de Governo que seja <em>simpático</em>. Não é um Programa de Governo para conquistar votos: é um programa reformista, e a maioria das pessoas detesta mudanças. Não é um programa populista. Nem sequer é demagógico; no seu conjunto, e apesar de uma medida ou outra poder ser mais «popular», tudo o que ali está, se for implementado, vai garantir que o PSD e o PP não ganhem as próximas eleições. Nem sequer lhes vai garantir palmadinhas nas costas e um agradecimento por um trabalho bem feito. Se a história se repetir (como se viu com o Santana Lopes) serão corridos a pontapé logo que haja um Presidente da República de esquerda&#8230;</p>
<p style="text-align:left;">Agora, para bem de todos nós, espero mesmo que estas reformas possam ir todas para a frente. Se sim — e duvido; muitas são mesmo muito optimistas e ambiciosas — vamos estar em melhores condições em 2015, mesmo que muitas das reformas tenham que ir muito para além do que este Programa de Governo propõe&#8230; mas será mais fácil de as engolir com o governo que vier a seguir.</p>
<p style="text-align:left;">Não votei nestes gajos, mas talvez mereçam o meu voto de confiança. Vamos a ver. Escrever 128 páginas de ideias ambiciosas é fácil; colocá-las em prática, no país que temos, é outra conversa.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/273/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=273&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Três argumentos a favor do Google Plus</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 12:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[facebook]]></category>
		<category><![CDATA[g+]]></category>
		<category><![CDATA[google]]></category>
		<category><![CDATA[google plus]]></category>

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		<description><![CDATA[Coloquei isto no Facebook (ironia das ironias) mas achei que era mais fixe reunir tudo num post só e colocá-lo aqui. Porquê? Porque o Facebook não permite a pesquisa de conteúdo, e isso significa que em breve desaparecerão. E tenho &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/07/05/tres-argumentos-a-favor-do-google-plus/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=268&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arundel.files.wordpress.com/2011/07/logo-google-plus.png"><img class="alignleft size-full wp-image-269" title="logo-google-plus" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/07/logo-google-plus.png?w=640" alt=""   /></a>Coloquei isto no Facebook (ironia das ironias) mas achei que era mais fixe reunir tudo num post só e colocá-lo aqui. Porquê? Porque o Facebook não permite a pesquisa de conteúdo, e isso significa que em breve desaparecerão. E tenho interesse, daqui por um ano ou dois, olhar para este artigo e rir-me imenso com as previsões idiotas que fiz.</p>
<p><span id="more-268"></span></p>
<h3>Os três argumentos a favor do Google Plus</h3>
<p>Concordo em absoluto que o forte do Facebook foi tornar-se na maior plataforma de distribuição de jogos &#8220;casuais&#8221; (no sentido de serem jogos para não-jogadores) que depois se tornaram em &#8220;sociais&#8221;. Isso foi o pontapé de saída para que empresas como a Zynga surgissem praticamente do nada para se tornarem monstros de uma nova geração de jogos, que pura e simplesmente se tornaram &#8220;mainstream&#8221; (enquanto que dantes eram meramente um nicho).</p>
<p>Concordo também em absoluto que a segunda maior inovação que o Facebook teve foi copiar a ideia do Digg (a ideia de &#8220;gostarmos&#8221; de coisas que encontramos na net) mas integrá-la numa plataforma social. Ou seja: já havia jogos antes do Facebook; já havia forma de dizer às outras pessoas do que gostávamos; mas foi o Facebook que levou as duas coisas às &#8220;massas&#8221;.</p>
<p>Logo, onde o Google+ vai fazer a diferença não é em nenhuma destas duas áreas. Vai, isso sim, como disse o fundador do MySpace, conseguir finalmente aquilo que tinha prometido como Wave (e que falhou), e aquilo que o MySpace sempre quis fazer (mas que também falhou): integrar sistemas diferentes numa rede social única.</p>
<p>Isto precisa de uma explicação. Quando o Facebook começou, o que era mais interessante era ter forma de ir &#8220;puxar&#8221; imagens do Flickr e vídeos do YouTube para a nossa timeline e integrar no nosso perfil (já que o Facebook não permite — felizmente! — um nível de personalização muito grande). Mas depois o Facebook tornou-se ganancioso: porquê enviar tráfego para a concorrência? Porque não incluir toda essa funcionalidade no próprio site? (O MySpace sucumbiu à mesma tentação)</p>
<p>Ao fazê-lo, obrigou as pessoas a largarem as aplicações que já usavam para usarem exclusivamente o Facebook: e sobre isso o Zuckerberg aplicou maior controlo. As fotos e vídeos pertencem-lhe. Os nossos dados pertencem-lhe também. Quanto mais partilharmos, mais dados ele tem, e mais força um maior número de pessoas a vir para o Facebook para poder ter acesso a conteúdo controlado.</p>
<p>Ora o protótipo do Google+ parece quebrar com essa regra. Em vez de &#8220;forçar&#8221; tudo a estar no mesmo sítio, aparentemente o que vai é permitir que possamos ir buscar tudo a outros sítios, e, de forma inversa, alimentar todas as redes sociais a partir de um sistema integrado. Neste momento, o protótipo apenas integra com o Picasa. Mas talvez daqui por um ano integre com <em>tudo</em>. E não só com produtos Google (como o Google Games&#8230;), mas com praticamente tudo que exista por aí. Deixamos de estar &#8220;presos&#8221; a uma plataforma, mas usamos a que nos convier mais.</p>
<p>Mas não é aí que se vai prender a atenção dos marketeers; isto é apenas argumentação para os jornalistas. Para os marketeers, uma coisa apenas vai interessar: o +1. A Google vende 28 mil milhões de dólares com anúncios — quase todos na pesquisa. A pesquisa é influenciada pelos +1. Quanto mais gente partilhar um link, melhor será o resultado na pesquisa (desde, claro, que a pessoa esteja ligada ao Google para ver esses resultados; mas 200 milhões já estão). Ora isso vai dar um forte alerta aos marketeers: se querem que os seus anúncios sejam mais vistos nos motores de pesquisa da Google, têm de convencer os anunciantes a atrairem um grande número de pessoas a clicar no +1. Quanto mais clicks, maior a possibilidade de aparecer o &#8220;seu&#8221; anúncio. E isto vai ser a base de negócio desta segunda década: a forma de influenciar os anúncios &#8220;certos&#8221; a aparecerem.</p>
<p>Os &#8220;Likes&#8221; do Facebook não têm relevância&#8230; excepto para o Facebook, claro. Mas a Facebook só vende anúncios no Facebook, por isso é evidente que não se está a perder nada com isso. Em contraste, o Google vende anúncios <em>em todo o lado</em>. Por isso a opção dos marketeers vai ter de ser entre recomendar os anunciantes a terem anúncios num mercado que vale 1800 milhões de dólares e que tem 700 milhões de utilizadores, ou, em vez disso, colocá-los num mercado que vale 28 mil milhões de dólares e que tem 3 mil milhões de utilizadores, um terço dos quais em plataformas móveis. A Google oferece esta segunda hipótese, por sensivelmente o mesmo preço.</p>
<p>Resumindo, eis, para já, os pontos fortes do Google+:</p>
<ol>
<li>Para os geeks, para os apologistas da liberdade de informação, para aqueles preocupados com privacidade: um modelo novo que respeita a Netiquette dos tempos da USENET, em vez do modelo &#8220;privacy is dead&#8221; proposto pelo Zuckerberg.</li>
<li>Para os jornalistas, a solução que permite integração entre tudo e com tudo, na mesma plataforma social, sem restrições impostas pelo proprietário da plataforma.</li>
<li>Para os marketeers, um mercado vinte vezes maior (pronto, quinze <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  ) em valor e quatro vezes maior em público-alvo para colocarem os seus anúncios.</li>
</ol>
<p>Ter &#8220;Rodinhas&#8221; ou não ter &#8220;Rodinhas&#8221; é pouco relevante neste contexto.</p>
<p><em>Isto vinha a propósito do interface do Google+ ser ou não inovador, revolucionário, e a forma de atrair utilizadores; muitos assumiam, e penso que correctamente, que a interface do Google+ não é assim nada de especial (posso concordar parcialmente com isto) e que não vai ser isso que vai trazer utilizadores ao Google+ (concordo em absoluto com isso). Obrigado ao <a href="https://sites.google.com/site/nelsonzagalo/">Nelson Zagalo</a> por ter lançado esta discussão no Facebook <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/268/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/268/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=268&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>As consequências do Stallmanismo radical</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jun 2011 16:14:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>

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		<description><![CDATA[O modelo da distribuição de música e de vídeo/cinema está em colapso. Penso que não é preciso vir com muitas estatísticas nem com grandes filosofias para chegar a essa conclusão. Cada ano que passa, e apesar de serem lançados mais &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/06/21/as-consequencias-do-stallmanismo-radical/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=192&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rms_at_pitt.jpg"><img class="alignleft" title="Richard Stallman, foto de Victor Powell" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b8/Rms_at_pitt.jpg/220px-Rms_at_pitt.jpg" alt="" width="220" height="146" /></a>O modelo da distribuição de música e de vídeo/cinema está em colapso. Penso que não é preciso vir com muitas estatísticas nem com grandes filosofias para chegar a essa conclusão. Cada ano que passa, e apesar de serem lançados mais álbuns e mais DVDs, o número de vendas global em lojas tem diminuído. Durante alguns anos, a resposta das <em>labels</em> era aumentar os preços para compensar a falta de vendas; mas essa estratégia só piorou a situação, e actualmente os preços têm baixado, e muito.</p>
<p>Porquê? A razão é tremendamente simples. Nos anos 80, quando o formato CD foi lançado, começando aos poucos a substituir o vinil (e a velha cassete), este revelou-se demasiado simples de copiar: qualquer puto de 6 anos com um computador consegue extrair as músicas à vontade. O DVD resistiu um pouco mais de tempo, até os computadores se tornarem suficientemente rápidos para facilmente quebrarem as chaves de encriptação do formato com que eram codificados. Essa é uma evolução natural das coisas: não há formato digital que não possa, mais cedo ou mais tarde, ser descriptado — é uma questão de tempo. A chave super-segura de hoje é facilmente quebrada por computadores exponencialmente mais rápidos de amanhã (ou um grande número deles a trabalhar em conjunto, como é o caso da utilização da Internet para esse fim).</p>
<p>Com a disponibilização de produtos culturais e artísticos em formato digital que podem ser reproduzidos em computador, acabou-se finalmente uma antiga premissa, sob a qual assentava a legislação de protecção de direitos de autor: a noção de que o investimento na reprodução de uma obra era cara e necessitava de um enorme investmento. Hoje em dia, o &#8220;investimento&#8221; custa algumas poucas centenas de Euros, se tanto — e com isso pode-se copiar e distribuir tudo.</p>
<p>Não há sistemas de cópia seguros. A noção de &#8220;buraco analógico&#8221; (<em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Analog_hole">analogue hole</a></em>) é uma premissa incontornável — um facto inegável: qualquer coisa que passe por um computador pode ser copiável. Pode-se fazer a cópia mais ou menos difícil (por exemplo, utilizando chips de encriptação em hardware, como existem em alguns dispositivos), mas &#8220;difícil&#8221; apenas significa &#8220;mais tempo e mais trabalho&#8221; — até a <em>primeira</em> pessoa encontrar uma maneira de subverter o sistema. Depois essa pessoa pode simplesmente distribuir cópias à vontade, e é <em>impossível</em> de prevenir esse sistema.<span id="more-192"></span></p>
<p>Quando há saltos qualitativos drásticos na forma de reprodução, a sociedade normalmente voltou-se para encontrar modelos que protejam o investimento dessa reprodução. Assim, na Idade Média europeia, como era muito caro reproduzir um livro à mão, a «protecção» era garantida pela própria organização da Igreja: não haviam «copistas independentes» pura e simplesmente porque não se ensinava a técnica de copista a ninguém que não estivesse sob a alçada da Igreja.</p>
<p>Quando no século XIX a impressão em larga escala tornou-se facilitada, e o mercado passou a ser mundial, o que era caro era a distribuição até ao utilizador final, o leitor, numa sociedade ávida de leitura, mesmo na classe média. Por questões sociais, entendeu-se que o livro deveria ser «barato» (acessível à classe média). Isto obrigou a enormes investimentos na sua produção mas principalmente na distribuição, de forma a que as editoras conseguissem colocar os produtos a um preço socialmente aceitável nas mãos do maior número de pessoas possíveis; nascem os «direitos de autor» para proteger toda esta «máquina editorial», e criou-se um novo método para os autores poderem ser pagos: uma percentagem do custo de capa. Este método partilha receita, mas também o risco, com o autor. Mas ao mesmo tempo faz com que o autor tenha uma fonte de rendimento — não precisa ou de nascer rico, ou de encontrar um patrono rico. As litogravuras, também produzidas em massa, forneceram um método semelhante aos pintores de receberem um rendimento regular pelo seu trabalho.</p>
<p>Dickens passou grande parte da sua vida a tentar impedir que os americanos comprassem os seus livros no Reino Unido e que os reproduzissem a uma velocidade estonteante. É um dos impulsionadores do código de direito de autor internacional que ainda hoje perdura. A motivação é muito simples: a cópia indiscriminada sem pagar direitos ao autor, mas aproveitando-se do seu nome e obra para vender livros, prejudica directamente o rendimento do autor — ganha menos dinheiro, e, como consquência, terá de ter um emprego fixo noutro sítio qualquer. Então deixa de ser um autor profissional — alguém cuja única profissão é produzir obras artísticas — para passar a ser um <em>amador</em>: uma pessoa que tem um emprego fixo e que nas horas livres escreve (ou pinta) umas coisitas.</p>
<p>À medida que a nossa sociedade se estratificou segundo áreas de competência, cada vez mais se abandonou o modelo do «homem que faz tudo» da Renascença para o culminar da hiper-especialização do final do século XX. À excepção dos políticos (já abordei isso noutros artigos&#8230;), espera-se que qualquer pessoa que desempenhe uma profissão o faça em regime de exclusividade. O «artista» é uma profissão como qualquer outra; o artista deve, pois, ser profissional, e ter uma carreira que lhe permita sustentar-se para apenas produzir arte. Ou seja: abandonou-se o sistema de patronatos (ou de riqueza pessoal) para um sistema de profissionalização em que o artista é pago directamente na proporção do que produz.</p>
<p>A diferença está na forma como recebe rendimentos. Um actor pode, pura e simplesmente, ser pago sempre que entra em cena. Logo, o modelo é igual ao de qualquer profissional liberal: é pago à hora, tem um contrato de trabalho em que tem de representar X horas por semana, etc. É um modelo simples de entender.</p>
<p>Um pintor ou escultor <em>pode</em> ter um modelo diferente: trabalhar <em>à encomenda</em>, o que é mais frequente na escultura. No entanto, isso significa uma certa capacidade de se mover nos meios «certos», agradar aos críticos e aos curadores dos museus e galerias, e ter uma certa capacidade de saber-se vender a si mesmo. São profissões mais complicadas. O pintor tem uma vantagem: pode vender gravuras do seu trabalho, e receber uma percentagem das vendas — <em>royalties</em>.</p>
<p>Mas os autores literários, os realizadores de cinema, e (até recentemente) os músicos funcionam noutro modelo. Ninguém «encomenda» um livro a um autor (com raras excepções) porque o risco é elevado, excepto para autores muito bem estabelecidos. Então negoceia-se uma partilha de riscos e de lucros. O autor entra com o trabalho criativo; a editora, com os custos de impressão e distribuição. Se o livro vender bem, o autor recebe uma percentagem de lucros, e ambos ficam contentes (a editora fica mais contente — ganha a maior fatia — mas também a verdade é que o autor trabalha <em>antes</em> do livro saír, enquanto que a editora trabalha <em>enquanto</em> o livro estiver a ser distribuído, e tem uma máquina poderosa por trás de toda a estrutura). Se vender mal, o autor perdeu tempo a escrever a sua obra (mas uma vez completada, ela não deixa de existir) e a editora fica com caixotes e caixotes de lixo em aramazém — perdem ambos. Portanto, este modelo é mutuamente interessante — ambos ganham ou perdem dependendo do sucesso de ambos.</p>
<p>O cinema funciona mais ou menos da mesma forma, com a diferença de que se podem vender «sessões de cinema» (caras de reproduzir, mas o custo é partilhado por toda a audiência) ou DVDs individuais (baratas de reproduzir). Claro que a isso tudo depois pode acrescentar-se o <em>merchandising</em>. Mas essencialmente o modelo é o mesmo: o realizador, por si só, não lhe serve de nada ter umas bobines de filme a apanhar pó em casa. Tem de as distribuir para ganhar dinheiro. As distribuidoras, por sua vez, precisam da criatividade dos realizadores para terem filmes para distribuir. Ambos ganham se partilharem os lucros e os riscos.</p>
<p>A música é <em>ligeiramente</em> diferente. Um músico pode ganhar de duas formas: ou vendendo reproduções da sua música (tal como o autor literário ou o realizador de cinema), ou dando concertos (um pouco como o actor). No primeiro caso, existe, mais uma vez, um acordo de partilha de lucros e riscos com a editora que o distribui; no segundo caso, ganha como qualquer profissional liberal. Ora talvez neste caso é que as coisas se tornam interessantes porque se alimentam mutuamente: o músico dá um concerto, torna-se popular, vende mais CDs, o que por sua vez faz com que os fãs queiram assistir a mais concertos, e assim por diante. Não é de estranhar, pois, que sejam as próprias editoras a suportar os custos dos concertos e a organizá-los e promovê-los.</p>
<p>Os autores também fazem «sessões de autógrafos», mas duvido que haja algum que viva disso (o Dickens deve ter sido a única excepção à regra&#8230;). Fazem-no porque é esperado deles. Da mesma forma, os realizadores também vão a <em>premières</em> e a festivais de cinema ganhar prémios, mas não vivem disso. Em ambos os casos, dependem exclusivamente das editoras e distribuidoras para obterem qualquer rendimento; estão completamente nas mãos deles.</p>
<p>Este modelo funcionou bem durante a maior parte do século XX porque os custos de produção e distribuição eram não apenas elevados, mas tecnologicamente inacessíveis à esmagadora maioria do público-alvo.</p>
<p>Com a Internet, tudo mudou. Agora a reprodução passou a ser a custo zero, e a distribuição, embora não seja zero, seja tão barata que o custo é, efectivamente, negligível. Isto coloca evidentemente a questão sobre a legitimidade do modelo predominante, que assentava no pressuposto que era caro e difícil editar e distribuir uma obra.</p>
<p>Como nesta equação autor/editor certos membros mais de esquerda, pró-cultura mas anti-capital, viram que balança pendia para o lado do «editor», propôs-se a abolição do modelo de distribuição vigente — abolindo, pois, as leis que regulam o direito de autor. O movimento <em>open source</em> começou por se aplicar ao <em>software</em>, mas como pelo menos desde o final dos anos 1980 o <em>software</em> passou a estar abrangido pelas leis de direito de autor, Stallman e seguidores propuseram o mesmo modelo para todo o tipo de obras artísticas; Lessig propôs o modelo usado pelo <em>Creative Commons</em> como adaptação do modelo <em>open source</em> à produção artística. Na sua vertente comercial, nem as licenças <em>open source</em>, nem as licenças <em>Creative Commons</em> impedem que o artista (ou programador) seja pago pela sua obra. Apenas propõem formas de licenciamento para a <em>distribuição</em> do seu trabalho, que pode ir desde a colocação no domínio público (abandono do direito a ser reconhecido como autor), ser completamente livre (abandono dos <em>royalties</em> mas mantendo a autoria), limitado a certo tipo de utilizações (ex. para fins educativos ou culturais, sem fins lucrativos), ou totalmente comercial.</p>
<p>Este modelo fazia sentido especialmente para o desenvolvimento de <em>software</em>. Não me cabe a mim considerar, ou não, o programador profissional como «artista». É discutível. Mesmo nos meus tempos de faculdade se assumia que programar era mais arte do que ciência; talvez estivesse mais perto da arquitectura: há uma parte que tem essencialmente a ver com metodologia, técnica, e conhecimento científico, mas há outra parte que é claramente talento artístico. Mas discutir esta classificação é perfeitamente marginal. O que importa reter é a forma como o programador ganha dinheiro.</p>
<p>Obviamente que isto não é uma lista exaustiva, mas há pelo menos duas formas (e meia) principais. A primeira é o contrato de trabalho vulgar; espera-se que um profissional consiga escrever X linhas de código por dia (vi uma referência que dizia que a média de linhas correctas por <em>dia</em> eram umas 20, mas acho que esta referência peca pelo excessivo pessimismo) e é contratado em permanência. A segunda forma pressupõe que o programador é um <em>freelancer</em> que cobra à hora (tal como um médico, advogado, ou músico num concerto). A &#8220;meia&#8221; forma adicional é o programador totalmente independente que cria as suas próprias aplicações para as vender.</p>
<p>Os programadores são criaturas estranhas. O seu trabalho é programar; mas o seu <em>hobby</em> principal, depois de jogar nas consolas é&#8230; programar também. Significa isto que para se entreterem, programam <em>outras</em> coisas que não estejam relacionadas com trabalho. Ora isto despertou o enorme potencial para o mundo do <em>software gratuito</em>: são aplicações desenvolvidas pelos programadores <em>no seu tempo livre</em>, que o fazem <em>para se divertir</em>. Isso <em>não</em> quer dizer que estas aplicações sejam <em>piores</em> lá porque ninguém tenha pago para elas; pelo contrário, regra geral até acabam por ser <em>melhores</em>, porque os programadores, no seu tempo livre, <em>empenham-se mais nas coisas que gostam de fazer</em>. Por outras palavras, estar a corrigir bugs num módulo de integração entre Oracle e uma aplicação monótona de ERP é uma coisa que o programador faz com o cérebro desligado; é trabalho, não tem puto de interesse. Desenvolver um novo motor de renderização 3D para a próxima geração de consolas é um <em>prazer</em>.</p>
<p>A analogia seria um músico que dá concertos oito horas por dia para ganhar a sua vida, e nos intervalos, para relaxar, dá espectáculos gratuitos de música fantástica, inovadora, criativa, na qual se empenha <em>mais</em> do que nos concertos pagos. Não quer dizer que não existam músicos assim, mas são raros!</p>
<p>Esta anomalia na forma de trabalhar dos programadores levou o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Richard_Matthew_Stallman">Stallman</a> a propôr um modelo futuro em que todos os programadores do mundo partilhassem livremente as aplicações que desenvolviam gratuitamente, apontando justamente que estas tendem a ser <em>melhores</em> que as aplicações comerciais, porque há, por um lado, mais <em>empenho</em> nelas; e por outro, porque há <em>muito mais gente a trabalhar nelas</em>. Por exemplo, o <em>core</em> do sistema operativo Windows é programado por uma dezena de milhar dos melhores programadores em todo o mundo. O <em>core</em> do Linux tem <em>várias centenas de milhar</em> de programadores, alguns dos quais são igualmente dos melhores programadores do mundo — o problema da Microsoft é que os seus recursos para contratar programadores são limitados (mesmo que seja riquíssima, a Microsoft não tem recursos <em>infinitos</em>), enquanto que os programadores do <em>core</em> do Linux, como trabalham de borla, podem ser em qualquer número — sem limites.</p>
<p>Agora esconde-se aqui uma falácia que é <em>sempre</em> menosprezada pelos Stallmanistas. É que os programadores têm normalmente um emprego (pronto, claro que podem estar desempregados no momento, e mesmo assim desenvolverem aplicações gratuitas, mas isso é a excepção). Ou são contratados durante o dia — e programam de borla à noite — ou são <em>freelancers</em> aproveitando os intervalos entre projectos para fazerem as suas próprias aplicações que distribuem gratuitamente. Ou então são académicos, têm uma bolsa de investigação, ou outra forma de se sustentar — podem trabalhar no MacDonalds de dia e programar à noite (já contratei <em>freelancers</em> assim). Ou são ricos e não precisam de trabalhar. Ou são putos a estudar. Seja qual for a razão, o importante aqui a reter é que <em>trabalham profissionalmente</em> (ou têm uma fonte de rendimento regular) para depois, <em>nos tempos livres</em>, poderem desenvolver <em>software</em> livre à vontade. A principal excepção a esta regra são <em>empresas</em> que apostaram no modelo <em>open source</em> (porque ganham dinheiro com serviços acessórios, ex. instalação, formação, suporte técnico) e empregam programadores para desenvolver aplicações que depois são fornecidas gratuitamente e/ou em modelo <em>open source</em>. Ou seja: estas empresas deixaram de depender da <em>licença</em> do <em>software</em> como forma de rendimento, e apostam em vez disso nos <em>serviços</em> em torno do <em>software</em> como receita. Alguns <em>freelancers</em> também fazem isto. No meu entendimento, esta é a <em>melhor</em> forma de gerir um projecto de <em>software</em> livre, mas é igualmente a <em>mais difícil</em>: não é fácil sustentá-la a longo prazo, porque o <em>software</em>, conforme cresce em complexidade, mais manutenção necessita, e não há uma correlação directa com o número de pessoas que necessita de serviços adicionais; para piorar a situação, quanto melhor for o <em>software</em> e mais fácil a sua instalação e utilização, menor será a necessidade de adquirir serviços adicionais; por outro lado, fazer uma aplicação gratuita deliberadamente difícil de instalar e manter significa que existirão legiões de programadores que, nos seus tempos livres, replicarão a funcionalidade da aplicação e lançarão um «produto concorrente» com as mesmas ideias mas sem os «defeitos». Isto está constantemente a acontecer.</p>
<p>Seja como for, a ideia que fica a reter é que o movimento do <em>software</em> gratuito e <em>open source</em> existe fundamentalmente <em>porque os programadores têm outras fontes de rendimento asseguradas</em>. Ou seja: capitalizam na sua experiência profissional — <strong>não</strong> são amadores! — para depois desenvolver aplicações de altíssima qualidade nos seus tempos livres.</p>
<p>Quando ficou mais que evidente que o modelo de distribuição de música, vídeos, e em breve dos livros, está condenado a desaparecer — a Internet vai assumir essa distribuição de forma universal, mais cedo ou mais tarde — colocou-se o problema bem complicado de como remunerar os criadores. Isto é muito interessante de seguir em dois tipos de forums de discussão: o dos programadores e entusiastas do movimento <em>open source</em>, e o dos artistas.</p>
<p>Entre os entusiastas do movimento <em>open source</em>, a argumentação é muito simples: o modelo de distribuição de obras artísticas em suporte físico está condenado, ponto final. A distribuição gratuita via Internet, onde a duplicação de suportes digitais é impossível de evitar, irá tornar qualquer outra forma obsoleta. É certo que podem haver serviços especializados — por exemplo, o <em>streaming</em> de vídeo a uma velocidade e resolução garantidas pode ser um modelo pago, que encontrará subscritores interessados em ter uma garantia de que recebem as coisas com qualidade — mas, regra geral, será <em>impossível</em> impedir a disseminação gratuita de qualquer obra criativa em forma digital. Pode ser <em>legalizada</em> — ou melhor, <em>penalizada</em> legalmente — tornando esse acto um <em>crime</em>, mas é uma artificialidade: é demasiado simples subverter a lei, e demasiado complicado aplicá-la. Quem está ligado à Internet, por definição, vai piratear conteúdos protegidos por leis de direito de autor, ponto final. Isto é um <em>facto</em>.</p>
<p>Conscientes deste <em>facto</em>, os proponentes do modelo <em>open source</em>, e da sua adaptação às restantes obras artísticas via <em>Creative Commons</em>, propõem a abolição, pura e simples, das leis de direito de autor. A filosofia é simples: uma lei que não pode ser aplicada não deve estar em efeito.</p>
<p>Do ponto de vista desta argumentação, tudo parece favorecer o abandono do método tradicional de edição e distribuição de obras; e, de facto, as quedas de vendas de CDs (e de DVDs&#8230;) bem mostra que isso tem tido um impacto sério. E vai continuar, com cada vez mais milhares de milhões de pessoas ligadas à Internet; não é algo que se possa «reverter» mas que é <em>inevitável</em>.</p>
<p>Nos forums de artistas e autores, pelo contrário, a grande questão que fica por resolver é: «Então e nós, como vamos comer?» Os defensores da abolição dos direitos de autor propõem que «trabalhem como toda a gente». O que quer isto dizer? Que tenham um contrato de trabalho pelo qual se comprometam a produzir X peças artísticas por unidade de tempo.</p>
<p>Ora isto funciona nalgumas áreas. Por exemplo, o guião de um filme é contratado à hora. Sem guião não há filme. Logo, um autor literário pode vender guiões; recebe um X, passa os direitos ao produtor do filme, e vai para casa contente. Da mesma forma, uma banda sonora para um anúncio, uma telenovela, ou um filme, funciona no mesmo modelo: o artista é contratado, produz a música, pagam-lhe, e pronto, acabou-se o seu direito à obra. Um fotógrafo é contratado para cobrir um casamento, pagam-lhe X, entrega as fotos, e terminou o seu serviço. Isto funciona em muitos casos.</p>
<p>Nestes casos todos, quem está mais lixado é o autor literário. Sem distribuição assegurada, sem críticos de literatura, está confinado à edição (online) de autor. Ora isto significa que tem de ter a sorte de obter um aval de um crítico para que o seu trabalho seja reconhecido. Mas mesmo que o seja&#8230; como irá ganhar dinheiro com isso? Ninguém, se não tiver a garantia de ganhar algo com isso, vai contratar um <em>autor literário</em>. Se as livrarias deixarem de vender livros porque tudo o que é preciso é copiar PDFs ou iBooks ou Kindle Books de dispositivo para dispositivo, então como é que o autor ganhará dinheiro com a sua produção literária?</p>
<p>A resposta é: não ganha. Passa a trabalhar no MacDonalds e a ser um autor <em>amador</em> (ou seja, alguém cuja profissão principal nada tem a ver com a produção literária). Ora isto é, efectivamente, acabar com a literatura, ou torná-la <em>medíocre</em>. A razão principal pela qual só temos um Nobel da Literatura é que o José Saramago foi, até meados dos anos 1990, o <em>único</em> autor português <em>profissional</em>; na altura, todos os outros eram amadores, ou seja, tinham uma profissão que nada tinha a ver com a produção literária. A arte, como tudo o resto, requer <em>dedicação exclusiva</em>.</p>
<p>Isto é <em>muito</em> diferente dos programadores que passam o seu tempo livre a produzir aplicações gratuitas. É que eles no seu dia-a-dia <em>profissional</em> estão sempre a programar. Logo, têm experiência. Logo, a sua produção <em>nos tempos livres</em> é desenvolvida aplicando essa mesma experiência. Logo, tem <em>qualidade</em>.</p>
<p>Um autor que trabalha no MacDonalds durante o dia perde 8 horas em que <em>não</em> está a escrever. É certo que pode depois passar 8 horas a escrever «para compensar». Mas não chega. Tomemos o exemplo do músico: não há nenhum concertista que não passe <em>pelo menos oito horas por dia a treinar</em>. Depois, para além desse treino, vai dar concertos: pode não dar concertos todos os dias, é certo, mas pelo menos terá ensaios. A vida do músico profissional é como do atleta de alta competição: passa o tempo todo a treinar. Mas é justamente por isso que se torna um especialista e produz obras artísticas <em>de qualidade</em>. Claro que há imensas bandas e grupos corais de amadores. Alguns são mesmo muito bons! Enganariam uma audiência que não tivesse críticos de música presentes. Mas isso não chega: amadores é bom, mas a nossa sociedade exige <em>profissionais</em> — pessoas que são pagas para passarem o tempo todo na sua área de especialização — para ter <em>qualidade</em>. Este aspecto da qualidade é muitas vezes confundido com outros (qualidade é muito difícil de definir), mas posso para já usar uma definição: «qualidade é a capacidade de reproduzir fielmente e na perfeição determinado tipo de actividade». Isto requer <em>treino constante altamente especializado</em>.</p>
<p>Os músicos — os actualmente mais afectados pelo fim da protecção dos direitos de autor — são um pouco diferentes dos autores. Podem dar concertos públicos, e podem vender cópias da sua música em formato digital. Se lhes for removida a possibilidade de vender música — como é proposto pelos abolicionistas das leis de direito de autor — então terão de passar a vida a dar concertos. Ora isto é <em>tecnicamente</em> possível: requer uma mudança de mentalidade que faça com que mais e mais pessoas desejem ver música ao vivo e estejam dispostos a trabalhar para isso. É precisamente o que as agências e produtoras de música têm andado a fazer; é por isso que grupos como os <a href="http://www.festivaispt.org/5934-duran-duran-18-de-agosto-em-albufeira/">Duran Duran até já dão concertos em Albufeira</a>. Por sua vez, em vez de apostarem na venda da música <em>massificada</em>, as editoras apostam em <em>edições coleccionáveis</em>. Isto faz sentido: no «pacote» em que vem o CD podem vir outros brindes que justificam a sua aquisição — já que a música, essa, pode ser pirateada de qualquer lugar. A mesma estratégia se aplica aos DVDs, como é evidente; o «assalto» aos DVDs até é capaz de se fazer muito mais depressa do que o da música, pois a velocidade da Internet de banda larga cresceu exponencialmente, e é possível piratear qualquer DVD em poucos minutos. Mas na indústria do cinema há outras formas de ganhar dinheiro: investir em tecnologias que só existam — mesmo que temporariamente — em salas de cinema (como o 3D); <em>merchandising</em>; direitos de redistribuição pelos canais de televisão. Só a venda de DVDs é que deixará de existir.</p>
<p>Penso que o problema do Stallmanismo radical é que os seus defensores não querem <em>esperar</em>. Querem copiar toda a música, filmes, e livros que puderem <em>já</em>, imediatamente. Ora toda a indústria tem de se adaptar a um novo modelo. Tal como o Dickens teve de lutar para sobreviver enquanto autor no novo modelo (o das <em>royalties</em> reconhecidas internacionalmente), os artistas de hoje em dia têm de aguardar que as suas editoras desenvolvam novas formas de os remunerarem. Penso que se vai no bom sentido — afinal de contas, apesar da pirataria aumentar exponencialmente enquanto que as vendas de CDs e DVDs diminuem na mesma proporção, não deixamos de ter bandas a tocar e realizadores a produzirem filmes. No caso dos músicos, os fãs até cada vez são mais beneficiados: têm concertos ao vivo nos sítios mais incríveis, e cada vez há mais concertos ao vivo.</p>
<p>Acho que no meio disto tudo quem está mesmo lixado são os autores. A Amazon já anunciou que <a href="http://phx.corporate-ir.net/phoenix.zhtml?c=176060&amp;p=irol-newsArticle&amp;ID=1565581&amp;highlight">pela primeira vez tinham sido vendidos mais livros em formato digital do que em papel</a>. Ok, isto é bom para os autores, mas&#8230; durante quanto tempo? Quantos livros digitais foram já <em>pirateados</em>?</p>
<p>É certo que existem para a música e para os vídeos uma enormidade de serviços acessórios — desde a Amazon ao iTunes — que permitem o acesso mediante pagamentos baixos. Mas acho que é apenas um período de transição. Hoje em dia o pessoal começa a ter fibra em casa, e a velocidade da fibra só vai aumentar: significa isto que o argumento de que se consegue obter música ou filmes (ou livros&#8230;) de uma fonte fidedigna que garante a qualidade do serviço e da entrega do formato digital vai perder mais e mais a sua importância. Eu lembro-me ainda da primeira pirataria que fazia quando comecei a ter acesso à Internet — levava-se uma semana para piratear um CD, e só se conseguiam filmes de baixa qualidade, e não eram muitos. Hoje em dia, num par de horas consegue-se praticamente tudo de borla, incluindo filmes em alta definição. Estes serviços estão condenados a médio prazo (por isso a Apple tem preferido diversificar em vez de apostar exclusivamente no modelo da música&#8230;). Mas dão a hipótese das editoras e produtoras de desenvolverem métodos alternativos para pagar aos seus artistas.</p>
<p>Pessoalmente, como sou pouco consumidor de objectos de arte, não sinto essa necessidade de ter cento e cinquenta mil músicas e oito mil vídeos no meu iPhone. O que me preocupa não é a quantidade de coisas que possa instalar gratuitamente e ouvir/ver/ler. Preocupa-me, isso sim, que não se destrua a capacidade dos autores e artistas de serem remunerados pelo seu trabalho. E que não se usem respostas facilitistas do género «vão trabalhar para o MacDonalds!» — isso não ajuda em nada, excepto o de enfurecer os artistas, com a consequente diminuição dos mesmos. Se aos artistas for dito que têm de abdicar de remuneração, deixarão de trabalhar. Jovens talentosos desistirão de uma carreira artística sem futuro e dedicar-se-ão a ser contabilistas e advogados. Estaremos rodeados de amadores com talento — como se vê nos concursos estúpidos da TV — mas deixaremos de ter Arte na nossa sociedade. E a alternativa — arte subsidiada pelo Estado — não é viável, dado que existem recursos limitados para isso. A arte, como tudo o resto, deve ser comercial e beneficiar financeiramente o artista, para que este continue a produzir com qualidade. Salvaguardar isto é <em>muito mais importante</em> do que optar por uma ideologia de esquerda de abolição da propriedade&#8230; intelectual. E não é muito mais importante porque sou eu a dizer; é que a conclusão óbvia de não estar disposto a pagar pelo trabalho de um artista significa não dar valor à arte. Se a arte não tem valor, porque é que haverão pessoas a quererem ser artistas?</p>
<p>Eu prefiro partir do outro extremo: considerar que uma sociedade sem arte nem sequer é humana; a arte é tão fundamental para a sociedade como um todo como tudo o resto. Portanto é preciso criar um modelo que fomente a preservação do artista enquanto uma profissão crucial do ponto de vista civilizacional (a <em>existência</em> de arte sempre foi uma <em>consequência</em> da civilização!). Se o modelo actual não funciona, tudo bem, substitui-se por outro; o modelo do «patrono das artes» também foi descartado e substituído no século XIX pelo sistema de <em>royalties</em>. Agora está na altura de propôr modelos novos, mas só fazem sentido enquanto se garantir que há incentivos para continuar a fazer produção artística — e esses incentivos não são palmadinhas nas costas e <em>Likes</em> no Facebook, mas sim comida em cima da mesa dos artistas.</p>
<p>«A definição de um artista é alguém que é pago pela sua produção artística. O resto são amadores.» A definição é da minha mulher, que, como sempre, tem toda a razão.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/192/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/192/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=192&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Contactless fraud</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 16:01:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um conhecido meu que vive numa cidade menor do Reino Unido outro dia estava a falar-me de como ia tirar um bilhete de autocarro e metê-lo no smartphone. Na altura fiquei pasmado com a aparente sofisticação tecnológica das pequenas cidades &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/06/20/contactless-fraud/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=258&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/c/c3/NFC-N-Mark-Logo.png"><img class="alignleft" title="NFC N Mark Logo" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/c/c3/NFC-N-Mark-Logo.png" alt="" width="237" height="198" /></a>Um conhecido meu que vive numa cidade menor do Reino Unido outro dia estava a falar-me de como ia tirar um bilhete de autocarro e metê-lo no <em>smartphone</em>. Na altura fiquei pasmado com a aparente sofisticação tecnológica das pequenas cidades inglesas, mas depois percebi melhor o que é que ele queria dizer — era, afinal de contas, a mesma tecnologia usada também no sistema de transportes públicos que existe (pelo menos) na região de Lisboa (no Porto existe um sistema um pouco mais sofisticado) — NFC (<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Near_field_communication">Near-Field Communication</a>).</p>
<p>Ora o que ele me disse e que eu não sabia é que certos <em>smartphones</em> incluem um <em>chip</em> NFC compatível com várias tecnologias <em>contactless</em>. Os bilhetes de autocarro, metro e combóio são, em geral, <em>passivos</em>: não têm bateria, e os <em>chips</em> são «iluminados» pelo emissor (o ponto de validação), que retiram assim a pouca energia que necessitam para poderem ser activados e o seu código lido (no fundo, numa operação semelhante ao que acontece com o RFID, embora as distâncias sejam muito mais curtas, e pressuponho que por causa disso os <em>chips</em> sejam ainda mais baratos). Mas no caso dos <em>smartphones</em>, estes, pelo menos enquanto a bateria do telemóvel estiver a funcionar, são <em>activos</em>. Ou seja, podem ler outros cartões com <em>chips</em> NFC. Ou seja&#8230; com a aplicação apropriada, podem copiar a informação contida neles.</p>
<p>Qual o interesse disto? Bem, o meu conhecido estava sempre a perder o passe dele. Por isso o que ele faz agora é, sempre que revalida o passe, copia-o para o telemóvel. Depois basta seleccionar o bilhete que quer antes de saltar para o autocarro ou combóio. Como o telemóvel é alimentado por bateria, o alcance é mais longe, e nem sequer o precisa de aproximar muito do ponto de validação. Se por acaso o telemóvel ficar sem carga — acontece! — então o <em>chip</em> passa de activo para passivo, fica com a última sequência de dados, mas continua a funcionar; não dá é para mudar (se ficou com o bilhete de combóio activo, pronto, só dá para andar de combóio).</p>
<p>Ora este tipo de utilização tem pelos vistos muitos fãs, especialmente em sistemas de pagamento (parece que é frequente, no Japão, que o «bilhete» de combóio também funcione como meio de pagamento válido nos quiosques das estações). Tanto é assim que a própria Apple chegou a pensar nisso para o <a href="http://news.cnet.com/8301-27076_3-20063294-248.html">iPhone 5</a>; integrado com o iTunes, App Store, iBooks, o iPhone beneficiaria de uma rede já existente de fornecedores aptos a tirarem partido do <em>chip</em> NFC (mas aparentemente os fãs da Apple terão de esperar pelo iPhone 6&#8230;). Em compensação, no mundo Android (e Nokia&#8230;), o <em>chip</em> NFC é muito popular. Mesmo que não dê ainda para pagar grande coisa por cá, pelo menos existe a utilização para os transportes públicos&#8230; se se usar o «truque» deste meu conhecido.</p>
<p>A minha mulher, no entanto, suspeita que o civismo e a candura britânicos, onde as pessoas legitimamente «instalam» os seus diversos tipos de bilhetes de transporte público na comodidade do seu telemóvel, será facilmente explorado pela mente perversa e criminosa dos portugueses <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Uma coisa são os títulos pré-carregados que têm um limite de utilização. Mas a outra são os passes sociais, que, durante um mês, permitem viagens ilimitadas. Ora isto permite a um grupo de espertalhuços comprarem apenas um passe social e depois partilharem os respectivos códigos entre amigos; ao fim de uns meses, isto paga a <em>todos</em> os custos de investimento num telemóvel Samsung relativamente barato que tenha um <em>chip</em> NFC <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Aliás, se calhar, neste momento já existe aí algures um site na &#8216;net qualquer onde se possa fazer <em>download</em> dos identificadores de passes sociais&#8230;</p>
<p>Pois, isto da tecnologia é divertido, e muito útil em países com elevado grau de civismo e responsabilidade pessoal <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Mas por cá presumo que seria imediatemente convertido em pirataria da grossa.</p>
<p>Se é que já não é.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/arundel.wordpress.com/258/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/arundel.wordpress.com/258/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=258&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>101010</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 18:15:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Sequeira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética e Religião]]></category>
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		<description><![CDATA[There are 10 kinds of people: those who know how to count in binary, and those who don&#8217;t. Como qualquer geek que se preze, o número 42 sempre me fascinou desde que li o Hitchhiker&#8217;s Guide to the Galaxy do saudoso Douglas &#8230; <a href="http://arundel.wordpress.com/2011/06/15/101010/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=arundel.wordpress.com&amp;blog=489290&amp;post=248&amp;subd=arundel&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_249" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://semierotic.tumblr.com/post/6044272502"><img class="size-full wp-image-249 " title="42-life-universe-everything" src="http://arundel.files.wordpress.com/2011/06/42-life-universe-everything.jpg?w=640" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">(Source: I&#039;m a ladyy @Tumblr)</p></div>
<blockquote><p>There are 10 kinds of people: those who know how to count in binary, and those who don&#8217;t.</p></blockquote>
<p>Como qualquer <em>geek</em> que se preze, o número 42 sempre me fascinou desde que li o <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Hitchhiker's_Guide_to_the_Galaxy">Hitchhiker&#8217;s Guide to the Galaxy</a></em> do saudoso Douglas Adams: era supostamente a resposta dada à pergunta &#8220;Qual é o significado da vida, do universo e de tudo o mais?&#8221; por um super-hiper-computador ao fim de milhões de anos de processamento. Sendo a resposta pouco satisfatória, o computador sugere então que se calhar a resposta esteja correcta, mas que o que na realidade queriam saber era qual era a <em>pergunta</em>. Isto leva o super-hiper-computador a criar um novo mega-super-hiper-computador para conseguir obter a pergunta, e supostamente — segundo Adams — a própria Terra seria um elemento desse computador. Ou seja, os seres que habitam neste planeta evoluiriam para obter a pergunta cuja resposta, 42, fizesse sentido. Infelizmente para as espécies inteligentes do Universo que aguardavam ansiosamente por esse momento, por um lapso burocrático, a Terra é demolida para se construir um acesso a uma super-auto-estrada espacial, antes que alguém formule a pergunta adequada à resposta, e nós, leitores, ficamos sem a saber.</p>
<p>A série é um dos clássicos da ficção científica humorística britânica, e &#8220;42&#8243; ficou na mente de todos os <em>geeks</em> como a resposta adequada a dar em situações em que a pergunta é demasiado ousada e esotérica para que se possa dar uma resposta com sentido. Mas a verdade é que Douglas Adams introduziu três elementos quase sérios no texto (provavelmente não foram deliberados). Um é que de alguma forma a informática estaria associada à descoberta do sentido da vida. Outro é que tanto a pergunta como a resposta, se existirem, <em>estão já dentro de nós</em>, nós é que não as sabemos formular. E o terceiro é que apesar da pergunta poder ser muito elaborada, a resposta é tremendamente simples, desde que a consigamos compreender.</p>
<p>Obviamente que passei toda a minha vida a rir-me destas ideias do Douglas Adams, e como bom <em>geek</em> que se preze, a gozar com a ideia, e a ser muito irritante quando me perguntavam coisas muito profundas e a responder &#8220;42&#8243;. Tal como todos os <em>geeks</em>. A pergunta, afinal de contas, tem sido feito por todas as filosofias e religiões desde tempos imemoriais e alegadamente nunca foi respondida de forma satisfatória, porque não é suposto fazer sentido. É quase como perguntar &#8220;o que havia antes do Big Bang&#8221; ou &#8220;o que é que está <em>fora</em> do Universo&#8221;, mas ainda faz menos sentido do que isso. A mera noção de que &#8220;tem de haver um sentido&#8221; é uma concepção vulgar que serviu, ao longo da história, para queimar pessoas em fogueiras e declarar guerras entre povos e nações.</p>
<p>O que não estava de todo à espera é que chegasse aos 42 anos de idade e <em>realmente</em> tivesse encontrado a resposta para o sentido da vida, do universo, e de tudo o mais, e, se bem que não seja <em>bem</em> 42, é na realidade algo de tremendamente simples. Se calhar Douglas Adams, <em>radical ateu</em> (como ele se intitulava), afinal de contas tinha razão: a resposta está realmente em nós, desde que saibamos formular a pergunta.</p>
<p>Agora apenas posso aspirar a que um dia seja capaz de inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo.</p>
<h3><span id="more-248"></span>Porque é que a pergunta não faz sentido?</h3>
<p>Não tenciono, de forma alguma, dar a resposta assim sem mais nem menos numa bandeja, porque encontrá-la é um processo pessoal; estar a &#8220;ouvir conversa da tanga&#8221; não ajuda absolutamente em nada, ou pode, pelo contrário, desviar a atenção da procura da resposta, por desagrado para com a pessoa que nos impinge as &#8220;tretas do costume&#8221;. Mas talvez, tal como o mega-super-computador do Douglas Adams, possa dar umas dicas de onde procurar as perguntas de forma correcta; depois caberá a cada um escolher como proceder.</p>
<p>Olhando em torno de nós, podemos se calhar dividir as pessoas em vários grupos. A maioria não se preocupa com as questões filosóficas, desde que seja mais ou menos feliz. Outro grupo agarrou-se a uma religião, que lhe dá a pergunta e a resposta, e orienta a sua vida no sentido de achar que é o que faz sentido e que lhe trará a felicidade, mesmo que seja depois da vida. Finalmente, um terceiro grupo olha para a pergunta, rejeita-a por não fazer sentido, olha para o que as filosofias e religiões lhes dizem, rejeita ainda mais intensamente por as respostas <em>não</em> fazerem qualquer sentido, e segue a vida sem qualquer &#8220;sentido&#8221; imposto por terceiros, e não é por isso que é mais infeliz.</p>
<p>Mas pelo menos encontramos uma coisa comum a todos estes grupos. Todos, de certa forma, andam à busca de uma coisa apenas: felicidade. Esse conceito, para uns, pode ser profundamente filosófico. Para outros pode ser apenas uma bejeca na praia rodeado de amigos — prazer. Entre os dois extremos, a resposta, no entanto, parece ser comum: quero orientar a minha vida de forma a ser mais ou menos feliz, durante o maior período de tempo possível. Logo, a primeira resposta à pergunta parece muito simples, e penso que todas as pessoas concordarão com ela: o sentido da vida é tentar ser feliz.</p>
<p>Então a pergunta afinal de contas parece não ser totalmente desprovida de sentido. A resposta — &#8220;42&#8243; — quer apenas dizer: &#8220;quero encontrar alguma felicidade, algum prazer&#8221;. Agora a <em>forma</em> como o fazemos é que pode ser muito diferente. A maior parte de nós quer coisas muito concretas: família, um emprego, respeito dos outros, amigos, borga, sexo. Alguns, mais espirituais, preferem descartar isso tudo e achar que o &#8220;prazer&#8221; afasta da verdadeira felicidade, que é &#8220;mística&#8221; e não está ligada com essas coisas. Mas acho que a maior parte discordará desta abordagem ultra-radical: os pseudo-místicos que por aí andam acabam por ser pessoas invejosas cheias de rancor, proselitistas, e dão a entender que andam furiosas com o resto do mundo por não seguirem as mesmas ideias. Não me parece que sejam lá muito sucedidos na sua busca pela felicidade. Outros são pura e simplesmente intrujões: vendem livros e cursos sobre felicidade, e se calhar graças a essas vendas até se tornam eles próprios mais felizes, mas os que compram os livros e assistem aos cursos nem por isso. Alguns talvez fiquem temporariamente mais contentes, é possível. Mas mesmo assim prefiro as bejecas na praia: são mais baratas, não requerem grande filosofia nem compreensão, e dão também algum prazer temporário. Para quê estar com grandes conversas? Mais vale seguir uma vida que me crie as oportunidades de poder estar a beber mais bejecas com os amigos&#8230;</p>
<h3>Mas aparentemente não conseguimos controlar as condições para nos mantermos felizes&#8230;</h3>
<p>A verdade é que bebemos a nossa bejeca, e até ficamos contentinhos, e depois lá temos de voltar para casa, para no dia seguinte ir trabalhar, aturar clientes chatos e colegas sacanas, e suspirar pelo próximo fim de semana para beber outra bejeca. Como seria muito mais feliz a nossa vida se não precisássemos de trabalhar e pudéssemos passar o tempo a beber bejecas com os amigos!&#8230;</p>
<p>Mas quando olhamos melhor para esta imagem, vemos que também não é bem assim. Há um limite de quantas bejecas conseguimos beber de seguida (no meu caso, ao fim de uma e meia, já tenho a minha dose&#8230;). E os amigos nem sempre estão bem dispostos: há dias que, malvados, quando o que mais queremos é divertirmo-nos, estão eles a contar histórias lamechas do que lhes aconteceu no emprego ou como a mulher os anda a enganar com outros. Há dias em que a bejeca com os amigos sabe-nos a amargo; íamos com a intenção de nos divertirmos, e apanhámos mas é uma grande seca. Pensamos se afinal de contas não devíamos era ter ido arranjar <em>outros</em> amigos com quem sair, porque <em>estes</em> decididamente são uns neuróticos depressivos e só nos dão secas. Mas a verdade é que até podemos substituir os amigos por outros mais divertidos&#8230; e mais cedo ou mais tarde estes também terão os seus maus momentos, altura em que os substituiremos por outros, e assim por diante.</p>
<p>A verdade é que tudo é assim. A mulher com que nos casámos ao fim de uns anos já não nos entusiasma. A casa nova, ao fim de dez anos, precisa de ser reparada. O vizinho que nos parecia simpático resolveu levantar um muro no quintal, e agora passamos os dias no tribunal a ver se lhe lixamos a vida e arranjamos uma providência cautelar ou coisa parecida que nos permita derrubar-lhe o muro. Os colegas no emprego novo, que eram todos atenciosos nas primeiras semanas, andam a falar mal de nós ao chefe; os clientes com ar mais honesto subitamente deixaram de fazer pagamentos; e as Finanças caiem-nos logo em cima com multas. O nosso irmão favorito, com o qual sempre nos démos bem, resolveu embirrar com a partilha da herança. A nossa sogra, sempre um amor de pessoa, tornou-se inaturável agora que entrou na menopausa. Nem o carro que era uma maravilha quando o comprámos se porta bem: agora deu-lhe para estar a avariar-se todos os dias, e o mecânico já não sabe o que fazer (mas lá vai cobrando as horas de trabalho). Tudo muda, por mais que nos esforcemos por evitar a mudança; e ainda por cima, parece que muda para pior. Claro que de vez em quando até muda para melhor: uma coisa que se resolve, uma tia rica que nos deixa uma herança, um amigo que nos vende um carro novo impecável a um preço incrível (e não somos enganados!). Mas isto acaba por ser temporário. Ao fim de uns anos, a herança gastou-se — em multas de estacionamento&#8230; ou porque o banco perdeu o nosso dinheiro — e o carro, esse, de tanto uso começa a avariar-se também. Aí recomeçamos todo o nosso ciclo de buscar coisas novas que durem, seja o emprego, seja um casamento, seja um grupo de amigos, seja uma casa, seja qualquer outra coisa. Não haverá nada que dure??</p>
<p>Quando olhamos à nossa volta, e se estamos com atenção, o que vemos é que isto não nos acontece só a nós. Está constantemente a acontecer a toda a gente. Não há ninguém que tenha uma felicidade duradoura (e os poucos que dizem que sim revelam-se mais tarde uns mentirosos e hipócritas). Os poucos que a têm parecem depois apanhar com coisas piores ainda — tipo, os milionários jogadores de futebol que se metem em escândalos e divórcios e tudo da sua vida íntima é publicamente revelado da forma mais escabrosa possível. E mesmo aqueles que até conseguem evitar os escândalos acabam, mais cedo ou mais tarde, por perder o seu momento de glória — os futebolistas deixam de jogar futebol, as actrizes envelhecem e deixam as telenovelas quando nem a cirurgia plástica consegue salvar a sua aparência.</p>
<p>Ou seja, há realmente coisas que nos fazem felizes. Mas são temporárias, porque tudo acaba por mudar. Pode levar mais ou menos tempo — pode até durar ao momento da nossa morte! — mas a verdade é que nada &#8220;dura para sempre&#8221;. Mesmo o amor eterno que existe entre certos casais (sim, ainda existe entre muitos) que se sabem adaptar constantemente à mudança de ambos e que por isso conseguem uma relação de muito longo tempo acabará quando pelo menos um dos dois morrer.</p>
<p>Ora isto parece ser profundamente injusto: tudo o que andamos à procura é de um pouco de felicidade. Tudo o que fazemos é tentar acabar com os momentos de insatisfação que nos assolam, mesmo nas mais pequenas coisinhas. Passamos a vida toda a estudar, a ter um emprego honesto, uma relação perfeita, uma família ideal, e somos um modelo de virtude e de conduta ética com amigos e colegas — mas para quê? Mesmo isso tudo de nada nos serve. Nunca conseguimos ser completamente felizes de forma duradoura, porque não há nada que dure: as coisas e pessoas envelhecem, estragam-se, partem-se, separam-se, desaparecem. Podemos substitui-las constantemente por novas coisas, novas pessoas, mas estas inevitavelmente serão sujeitas ao mesmo ciclo de deterioração e destruição ou desaparecimento. Aprendemos isto desde pequeninos: o gelado que nos sabia tão bem acaba-se, e depois temos de esperar pela generosidade dos nossos pais para que nos ofereçam outro. Ficamos insatisfeitos ou mesmo aborrecidos quando essa expectativa não se torna em realidade.</p>
<p>Mas como adultos fazemos a mesma coisa: planeamos a nossa vida para que seja uma sucessão de momentos de felicidade. Estudamos, trabalhamos, constituimos uma família, com o objectivo de chegar, um dia, a esse momento de felicidade. Mas aparentemente nunca chega. Quando chega, &#8220;sabe a pouco&#8221;, como a bejeca que temos de abandonar na praia porque são horas de voltar para casa. O melhor que conseguimos fazer é contentarmo-nos com o que temos, suspirar pelo que não temos, e fazer com que isso nos sirva de algum consolo.</p>
<h3>Mas então não há maneira de dar a volta a isto?&#8230;</h3>
<p>A maioria das pessoas nem sequer pensa sobre o assunto. A p*** da vida é mesmo assim; como diz o velho ditado, <em>&#8220;Life is a bitch, and then you die&#8221;</em>. Aprendemos com os nossos paizinhos — que por sua vez aprenderam com os avós, e assim por diante — que as coisas são mesmo assim, e que a &#8220;vida&#8221; é uma coisa séria, cheia de obstáculos, mas que quando os transpomos, ficaremos contentes por ter alcançado alguma coisa. E em certa medida é verdade: transpor obstáculos dá-nos alguma alegria. Mas depois há novos obstáculos&#8230; nunca pára. Alguns dirão que a vida é justamente estar constantemente a lidar com esses obstáculos: fortalece-nos a personalidade, e isso deve tornar-nos mais fortes e robustos para lidar com o que der e que vier.</p>
<p>Outros, descontentes com a situação, metem-se nos copos. Ou nas amantes. Ou nas duas coisas. Ou arranjam um hobby, um escape que torne as coisas mais tragáveis. Ou tornam-se criativos. Alguns passarão a vida a mudar constantemente de sítio, de emprego, de companheiro/a, na expectativa de encontrar finalmente uma forma de vida &#8220;que funcione&#8221;. Mas são comparativamente poucos que o façam: meter-se nos copos é mais fácil, ou estupidificar frente à TV &#8220;para não pensar muito nos problemas&#8221; é ainda mais fácil, mais barato, e causa menos problemas ao fígado. Seja como for, encontrar &#8220;distracções&#8221; é uma solução frequente. Mas essas distracções também não duram muito tempo; podemos andar satisfeitos quando estamos distraídos, mas depois temos lá de voltar à &#8220;vida real&#8221; e esquecer esse momento de alegria.</p>
<p>Outros ainda procuram explicações filosofico-religiosas para justificar tudo isto. Dizem uns que foi um deus qualquer que nos predestinou a esta vida; rezando fará com que tenha piedade de nós, e que nos mande uma benesse de vez em quando, tipo uma vitória no Euromilhões. Outros dirão que não é um deus pessoal que faz isso, mas o &#8220;universo&#8221;, ou a &#8220;energia do universo&#8221;, que nos irá beneficiar permanentemente se fizermos X ou Y ou comprarmos o livro Z ou fizermos ofertas e doações a K. Talvez assim seja. Mas olhando para essas pessoas o que vejo é que são tão neuróticas como eu. Também passam por problemas de divórcios, de perdas de emprego, de colegas que os enganam. Também têm de pagar impostos como todos nós. E se ganham o Euromilhões, não vejo que haja uma percentagem maior de crentes a ganhá-lo do que não-crentes. E, no fundo, todos irão morrer: crentes ou não-crentes, todos adoecem, envelhecem, e morrem. Alguns podem morrer felizes porque vão encontrar o Criador numa vida melhor, mas depois pergunto-me a mim mesmo que vida melhor será essa. Um jardim com virgens em que não haja nada mais que fazer do que sexo todo o dia e toda a noite? Sim, será decerto giro durante umas semanas, ou talvez mesmo meses, mas&#8230; e depois? Estamos a falar de uma <em>eternidade</em>. Qual é o limite de virgens que conseguimos aturar durante esse tempo todo? E mesmo a alternativa cristã de passar o tempo numa nuvem a louvar o Senhor para toda a eternidade não me parece particularmente atractiva. Algumas seitas prometem uma casinha com jardim e um <em>barbecue</em>. Parece giro, até começar a pensar que se calhar ao fim de uns milhares de anos a fumarada que vem do <em>barbecue </em>da casa do vizinho começa sinceramente a chatear-me, e vou mas é levantar o muro, pois aqui no Paraíso pelo menos não há advogados e RGEUs e ninguém me pode impedir de o fazer&#8230; e começa a briga com o vizinho!</p>
<p>Por outras palavras — lá porque exista a promessa de uma &#8220;vida melhor&#8221; no &#8220;além&#8221;, onde quer que isso seja, porque é que esse &#8220;além&#8221; haverá de ser diferente, se as pessoas são as mesmas? Ou tornamo-nos automaticamente &#8220;santos&#8221; ao passar a fronteira da morte? E o que é um &#8220;santo&#8221;? Sinceramente, se o que me esperasse no &#8220;além&#8221; era uma lavagem cerebral para que subitamente achasse que a melhor coisa do universo era estar a cantar &#8220;Hossana&#8221; todos os dias, 24h/dia, então sim, é que teria pânico de morrer!</p>
<p>Há esta noção de que de alguma forma o descartar deste corpo físico e deste mundo onde estamos rodeados de filhos da p*** que nos lixam a vida irá automagicamente transformar-nos em Seres Perfeitos, cheios de carinho e amor e sentimentos bonitos. Mas porquê? Mesmo assumindo que tal fosse possível, porque é que no &#8220;além&#8221; o meu vizinho subitamente se tornaria numa pessoa infinitamente agradável, se neste momento é tudo menos isso? (Estou a formular uma pergunta retórica; na realidade, gosto imenso dos meus vizinhos e dou-me bem com eles!)</p>
<p>Portanto, não me parece que esta linha de pensamento tenha grande saída.</p>
<p>Os que rejeitam a filosofia e a religião apostam noutra estratégia (que no fundo não deixa de ser filosófica). Só temos esta vida, então o ideal é fazer o melhor possível que conseguirmos, e tentarmos lixar menos a vida dos outros, na expectativa de que eles, em retrospectiva, nos lixem também o menos possível. Se todos tivermos uma atitude de nos lixarmos menos uns aos outros, pode ser que nos consigamos dar bem. Pode não haver aí uma &#8220;eternidade&#8221; de tempo para, depois da morte, nos consigamos dar bem uns com os outros, mas haverão em média várias décadas desta vida bem concreta em que podemos começar a trabalhar nesse sentido. Ok, é uma visão um pouco mais razoável. Se assumirmos que os problemas estão nas relações com os outros (e com as outras coisas), e se conseguirmos que todos adoptem a mesma conduta ética uns para os outros, então parece-me razoável de assumir que o resultado será uma sociedade onde as pessoas se lixem menos umas às outras, e todos beneficiarão disso. Podem não ser mais felizes, mas serão menos infelizes. Parece-me bem!</p>
<p>Só que isto, mesmo assim, parece-me tremendamente insatisfatório. Não haverá um método qualquer para que em vez de ficar-me apenas por ser &#8220;menos infeliz&#8221; não possa ser &#8220;mais feliz&#8221;? Argumentar-se-á quem me seguiu até este parágrafo que à partida isso não é possível, porque não podemos manipular os objectos à nossa volta — não os podemos tornar em objectos que não nos causem insatisfação. E, assumindo que não existam poderes telequinéticos e percepção extra-sensorial (são boas premissas!&#8230;), não há como mudar a mente das outras pessoas para que deixem de nos chatear. Posso <em>forçá-las</em> a deixarem de me chatear a cabeça, mas para isso teria de ser nomeado ditador absoluto e ter uma polícia secreta que mandasse para a cadeia todos os que me chateassem. Infelizmente, isso não está ao meu alcance. Felizmente, também não está ao alcance da esmagadora maioria das pessoas que me rodeiam.</p>
<h3>Então qual é a forma de lidar com &#8220;os outros&#8221; e as coisas que me rodeiam?</h3>
<p>Um senhor muito sábio deu uma vez um exemplo simples de que gosto bastante. Imaginemos que andamos pelo mundo fora de pés descalços e constatamos que tudo nos magoa: pedras na calçada, o asfalto demasiado quente, os cardos e picos nos campos, e assim por diante. Para onde quer que vamos, há sempre qualquer coisa a magoar-nos os pés. Então pensamos que se calhar o que era fixe era ter uma quantidade ilimitada de cabedal macio e fofinho, e forrar o chão de todo o mundo. Assim podíamos ir para onde quiséssemos sem magoar os pés. Ora obviamente que isto é impossível; não há cabedal suficiente para forrar <em>todo</em> o mundo! Isto é justamente como tentar transformar a mente das pessoas que nos rodeiam e os objectos e circunstâncias que surgem de forma a não nos incomodarem mais. Mas este sábio sugeriu uma alternativa muito simples: que tal cortar apenas um pedacinho de cabedal e enfaixar os nossos pés nele? Assim podemos ir para qualquer parte do mundo e nada nos irá magoar. (Que eu saiba, este sábio não era um industrial do calçado.)</p>
<p>A resposta na altura surpreendeu-me por ser tão simples e óbvia. Pois claro, não posso mudar o mundo; mas posso mudar-me <em>a mim</em>. E isso deu uma volta de 180º na forma de encarar as coisas: em vez de arreliar-me porque não consigo controlar o mundo, que tal apenas controlar-me a mim mesmo? À partida é mais fácil — a minha mente está sempre presente e sempre disponível, e não custa dinheiro nenhum mudá-la <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Agora a questão é obviamente como fazê-lo de forma correcta. Voltemos ao exemplo dos sapatos. Sem o pedaço de cabedal, o &#8220;truque&#8221; não funciona. Ou seja: se eu andar pelo mundo fora descalço, mas andar a repetir-me a mim mesmo &#8220;isto não dói, eu não estou a sentir dor, estou apenas a imaginar coisas&#8221;&#8230; estou apenas a enganar-me a mim próprio. Claro que dói. Repetir mentiras a mim mesmo — uma coisa que se conhece do meio como <em>pensamentos positivos</em> — não serve de nada. Ou por outra&#8230; serve para ficarmos com os pés em sangue, e depois vai doer <em>muito mais</em> quando descobrimos que teria sido muito mais fácil usar um par de sapatos. Se calhar pelo preço do livro ou curso de &#8220;pensamento positivo&#8221; podia mas era ter ido aos saldos da Seaside. Ou seja, há claramente métodos <em>errados</em> para mudar a nossa mente que não conduzem a resultado algum, excepto, eventualmente, o de chegarmos à conclusão que andámos mas é a perder tempo, e de ficarmos ainda mais furiosos que antes.</p>
<p>Então qual é o &#8220;truque&#8221;? Infelizmente é de tal forma simples (como o 42) que é muito difícil de encarar. A primeira coisa é olhar para o nosso interior, e, despido de preconceitos políticos, sociais, religiosos, filosóficos, éticos, ou de qualquer forma de intelectualidade profunda, tentar perceber porque raio pensamos como pensamos. Quando um vizinho nos insulta, o que acontece? Ficamos furiosos. Mas porquê? Porque o malandro do vizinho está a dizer palavrões e a envergonhar-nos em público. Por isso ficamos furiosos, e ripostamos — seja com mais palavrões, seja dando-lhe um estalo, ou, se formos cínicos e tivermos dinheiro para isso, processando-o por calúnia e difamação.</p>
<p>Mas porque é que é isso tão importante? Palavras são apenas palavras. Se ele nos insultasse em chinês ou servo-croata, não nos importaríamos, porque não percebiamos o que nos estava a dizer. Ou seja, não são as palavras em si que são &#8220;insultuosas&#8221;: somos nós que atribuímos a capacidade às palavras de nos insultar. As palavras em si são apenas ondas mecânicas transmitidas pelo ar. Nós é que temos no nosso cérebro um conjunto de ligações neuronais que disparam sempre que captamos essas ondas mecânicas e que nos fazem reagir de certa forma. Mas porquê? Bem, em muitos dos casos, porque fomos ensinados — por pais, professores, amigos, ou descobrindo por nós próprios — que aquela sequência de ondas mecânicas corresponde àquilo que damos o nome de &#8220;insulto&#8221;, e que a reacção apropriada é ficar furioso e irritado. Mas porquê? Bem&#8230; &#8220;porque é assim&#8221;. Ou &#8220;porque em sociedade não se anda a insultar as pessoas, e diz-se que quando estas são insultadas, têm o direito a retaliar&#8221;. Mas porquê?</p>
<p>Estão a ver que isto é o dia dos &#8220;porquês&#8221;. Esta é a atitude de profundo cepticismo a aplicar a tudo o que nos rodeia. Porque é que tenho de me &#8220;sentir insultado&#8221;? Quem é que me &#8220;manda&#8221; reagir assim? Indo mais longe: se me &#8220;sinto insultado&#8221;, fico furioso, respondo na mesma moeda, e depois fico eu e o meu vizinho chateados. Ganhámos alguma coisa com isso? Bem, dirão alguns, há a satisfação de ter &#8220;vencido o argumento&#8221; e isso traz-nos alguma felicidade temporária, por isso é que insultamos as outras pessoas e respondemos aos insultos na mesma moeda. Mas isso não faz sentido algum. Primeiro, se há de facto &#8220;alguma&#8221; felicidade, reconhecemos que é temporária: é um momento apenas de alegria por termos vencido uma discussão. Depois passa. Mas continuamos chateados com o vizinho. E ele connosco. E ele vai voltar a insultar-nos no futuro, e voltaremos a responder, e ficamos mais chateados. Ou seja: por causa de uns pequenos momentos de alegria temporária, que desaparecem logo a seguir, estamos dispostos a passar o tempo todo chateados com outra pessoa e a insultá-la para o resto das nossas vidas; algumas pessoas mais obsessivas passarão as noites a pensar no assunto e a contar aos amigos como têm um vizinho insuportável&#8230; mantendo-nos num estado de permanente chateação. Isso fará sentido?</p>
<p>Qual é a alternativa? Receber um insulto com um sorriso parvo, mas ignorar o insulto. Isto se calhar ainda deixa o vizinho mais irritado da primeira vez. Se calhar vai então redobrar os esforços a tentar insultar-me ainda mais violentamente. Mas quando vir que os insultos não têm qualquer efeito, acaba por desistir. Pode apelidar-nos de totós e contar aos amigos como tem um vizinho burro, que se pode insultar dia e noite, que não se deixa afectar. E depois? Que me interessa a opinião que os amigos deles tenham sobre mim? Se vierem tentar insultar-me também para experimentar se é verdade ou não, respondo com o mesmo sorriso parvo. Ao final de algumas tentativas, vão chegar também à conclusão que sou um totó, mas deixam de me chatear. Tenho eu paz e sossego, porque vão desistir de me insultar; mas também o vizinho e os amigos, porque deixam de se ter de preocupar comigo.</p>
<p>Parece impossível de conseguir? Não é nada. Requer é alguma paciência e esforço. E acima de tudo, uma capacidade enorme de <em>atenção</em>: estar permanentemente a observar aquilo que nos irrita e pura e simplesmente deslargar, não deixar que nos afecte. São apenas palavras.</p>
<p>Mas claro que o argumento contra isto é que a &#8220;passividade&#8221; não é uma solução. No emprego podemos ser atacados verbalmente, e se não nos defendermos, podemos ser despedidos, e depois ficamos sem emprego, sem dinheiro para pagar a casa, e a mulher pega nas malas e nos filhos e deixa-nos na rua. Tudo por causa de um princípio ético muito bonito, mas que aparentemente não dá bons resultados. É aqui que entra o treino adequado: saber o que responder quando somos atacados verbalmente. Às vezes basta um sorriso; outras vezes terá de ser bem mais do que isso. Agora o que é importante perceber é que não há nenhuma resposta pré-definida, pré-condicionada, que seja aplicável às situações &#8220;só porque os outros me dizem para o fazer&#8221;. O primeiro treino é não ligar muito às opiniões dos outros, e apenas fazer aquilo que é mais <em>funcional</em>, no sentido de não prejudicar ninguém, mas também de resolver a situação. O segundo treino, muito mais importante — e muito mais difícil! — é nem sequer ligar nada às nossas próprias opiniões.</p>
<p>Este último treino é o mais complicado, porque requer uma observação ainda mais atenta do que se passa na nossa cabecinha. Estamos furiosos, porquê? Porque fomos &#8220;educados&#8221; para pensar de determinada forma quando algo nos acontece. Mas o que são esses &#8220;pensamentos&#8221;? Para muitos, são uma espécie de palavras que guardamos dentro do cérebro. Mas se estamos já a dar pouca importância às palavras que surgem como ondas mecânicas externas, porque é que aquelas que estão de alguma forma arquivadas na rede neuronal dos nossos cérebros &#8220;mais importantes&#8221;? Bem, damos-lhes mais importantes porque são <em>nossas</em>. Temos a <em>propriedade</em> sobre os nossos pensamentos. Mas aqui temos mais uma vez de olhar bem e perguntarmo-nos: mas afinal de contas, &#8220;quem&#8221; é esta &#8220;coisa&#8221; que tem propriedade sobre os nossos pensamentos? &#8220;Eu&#8221; sou esses pensamentos — como dizia o Descartes — ou há &#8220;algo&#8221; que tem esses pensamentos e a que convenientemente rotulo de &#8220;eu&#8221;? Chegamos rapidamente a algumas contradições: se digo &#8220;eu tenho pensamentos&#8221; então &#8220;eu&#8221; e &#8220;pensamentos&#8221; são entidades distintas; se digo &#8220;eu <em>sou</em> os meus pensamentos&#8221; então sempre que passo a ter pensamentos antagónicos — deixo de ser &#8220;eu&#8221;? Quando durmo ou estou bêbado e não tenho pensamentos, continuo a ser &#8220;eu&#8221;? Se pensava de forma diferente há 10 ou 20 anos atrás, esse &#8220;eu&#8221; de 1991 é o mesmo &#8220;eu&#8221; que o de 2011? Como é possível ser o mesmo &#8220;eu&#8221; se os pensamentos são <em>diferentes</em>? Sou um &#8220;upgrade&#8221; do &#8220;eu&#8221; de 1991, uma espécie de Eu 2.0, <em>improved and expanded with extra features</em>, mas apesar de pensar de forma completamente diferente e de me comportar de forma completamente diferente, continuo a ser o mesmo &#8220;eu&#8221;? Isto começa a tornar-se complicado de sustentar&#8230;</p>
<p>Se observarmos bem durante algum tempo, e assumindo que temos realmente interesse em fazê-lo, o que vamos chegar à conclusão será qualquer coisa mais ou menos como isto: &#8220;bem, eu não sou especialista em neurologia ou psicologia; tudo o que posso dizer é que aqui dentro da minha cabecinha, presumivelmente no cérebro, aparecem uns pensamentos e umas emoções — algumas das quais despoletam novos pensamentos. Convenciono chamar a tudo isto, e somo-lhe o resto do corpo para não deixar nada de fora, como sendo &#8216;eu&#8217;. Os pensamentos podem mudar, a forma como reajo às emoções também, mas a verdade é que há &#8216;algo&#8217; que perdura, o que quer que seja, pois não percebo muito disto, e chamo a esse &#8216;algo&#8217; simplesmente &#8216;eu&#8217;&#8221;. Penso que será difícil encontrar alguém que não pense mais ou menos assim; se tiver formação em psicologia ou neurologia talvez tenha uma formulação mais complicada. O desafio que coloco é então de apontar exactamente onde é que está o &#8220;eu&#8221; no corpo. Serão as bactérias intestinais também parte do &#8220;eu&#8221;? E os ácaros? Não, dirão uns, isso não faz parte do corpo. Ok, e as células mitocondriais que nem sequer têm o mesmo DNA que nós mas que estão dentro de todas as células? Erm&#8230; pronto, talvez sejam parte de nós. Certo. Então quando corto um braço, o &#8220;eu&#8221; fica nesse braço? Uhm&#8230; nope. Está no cérebro. Fixe! Então se começo a cortar pedacinhos do cérebro até este deixar de funcionar, onde é que está o &#8220;eu&#8221;? Aqui os mais filosóficos dirão que o &#8220;eu&#8221; é um <em>propriedade emergente da complexidade neuronal</em> (os outros não saberão o que dizer), que é uma coisa que anda muito em voga em neurologia. Mente, consciência, pensamentos, raciocínios são bem explicados como &#8220;propriedades emergentes&#8221; — uma espécie de definição científica muito divertida porque não explica nada, excepto que são necessárias certas causas e condições para que &#8220;surjam&#8221; certas coisas como uma &#8220;mente&#8221; ou um &#8220;eu&#8221;.</p>
<p>Porreiro, pá! Por mim fico satisfeito com essa definição: não há uma substância (física ou paranormal) que possamos chamar de &#8220;eu&#8221;. No entanto, todos temos uma &#8220;sensação&#8221; de &#8220;eu&#8221;, mesmo que não saibamos muito bem porquê, ou onde está. Se começarmos a admitir que este &#8220;eu&#8221; não é mais do que uma &#8220;sensação&#8221;, uma &#8220;convenção&#8221; que facilite a comunicação (imaginem se erradicássemos a palavra &#8220;eu&#8221; do dicionário; como poderíamos comunicar uns com os outros), uma &#8220;propriedade emergente&#8221; da fantástica máquina biológica que é o nosso corpo, então deixaremos de lhe dar assim tanta importância. Essa tal &#8220;propriedade emergência&#8221; tem tanta existência <em>intrínseca</em> do que uma palavra a que damos o significado de &#8220;insulto&#8221; e que nos faz furiosos. Tal como é preciso haver um certo &#8220;condicionamento&#8221; para que reconheçamos um &#8220;insulto&#8221; e tenhamos uma reacção violenta a esse insulto, também houve um certo conjunto de causas e condições para que o &#8220;eu&#8221; surja como uma &#8220;propriedade emergente&#8221; da complexidade do nosso cérebro. Certo?</p>
<p>Eh pá, mas a esta altura, a malta começará a dizer que uma coisa é o cérebro, que tem propriedades neurológicas muito bem definidas e tal, e a outra é uma palavra, que, pronto, sim, é um conjunto de ondas mecânicas transmitidas pelo ar, e como tal só tem significado quando entra lá na nossa cabecinha e activa uns circuitos que nos fazem reagir violentamente. Ora o &#8220;eu&#8221; deve ser mais do que meramente isso, é qualquer coisa que está intrinsecamente no cérebro, lá codificado de alguma forma, e mesmo que não se saiba muito bem como é que o cérebro funciona, um dia destes saber-se-á, e nessa altura poderá haver uma formulação científica de onde é que está o &#8220;eu&#8221;.</p>
<p>Talvez assim seja. Pode acontecer. No entanto, tudo o que sejam &#8220;propriedades emergentes&#8221; tendem a escapar facilmente da análise científica mais profunda; quando se começa a cortar as coisas aos pedacinhos, reduzindo o número de causas e condições para essas &#8220;propriedades emergentes&#8221;, estas pura e simplesmente deixam&#8230; de &#8220;emergir&#8221;. Portanto, até que surjam novos desenvolvimentos nesta área, a minha proposta de hipótese de trabalho é que coisas abstractas como &#8220;mente&#8221;, &#8220;raciocínio lógico&#8221;, &#8220;inteligência&#8221;, &#8220;eu&#8221;, são meramente propriedades emergentes da complexidade da rede neuronal de um cérebro saudável inserido num corpo que o alimenta. E como tal não passam de convenções, conceitos: palavras que facilitam a comunicação, mas que não têm existência por si só, mas sim apenas na dependência de várias causas e condições. Por exemplo, sem cérebro, não há &#8220;eu&#8221;. Um cérebro de um morto não tem &#8220;eu&#8221; em lado nenhum (acho que pelo menos com isto toda a gente concordará). Logo, o cérebro por si só não é o &#8220;eu&#8221;, mas será certamente uma das causas principais.</p>
<p>Aonde é que quero chegar com isto tudo? Bom, basicamente, para mostrar que estar agarrado a esta ideia de &#8220;eu&#8221; como sendo uma coisa muito importante e preciosa de manter não faz sentido — faz tanto sentido como um bombista suicida fazer explodir um edifício porque acredita nas virgens eternas do paraíso. Esta &#8220;crença&#8221; num &#8220;eu&#8221; como sendo uma coisa importante faz com que o defendamos contra tudo e todos, e que cometamos actos terríveis contra outras pessoas. Mas, de uma forma também passiva, é por querermos &#8220;agradar&#8221; a este &#8220;eu&#8221; que andamos sempre a saltitar de actividade em actividade a procurar alguma felicidade para gratificar este eu. Ora não há mal algum em fazer actividades agradáveis. O problema está que todas estas actividades não são duradouras, e como tal, precisamos constantemente de ter mais actividades, porque enquanto continuarmos a acreditar no &#8220;eu&#8221; como sendo a coisa mais importante a preservar, faremos tudo para o agradar. Os crentes poderão dizer que na realidade acreditam que a coisa mais importante que existe para eles é um deus ao qual rezam, mas na verdade, colocam o seu próprio &#8220;eu&#8221; acima de deus: rezam ao seu deus para que este lhes conceda graças e bençãos (neste mundo ou noutro qualquer) que venham a gratificar esse &#8220;eu&#8221; de alguma forma. Se forem muito altruistas, pedirão graças e bençãos para os &#8220;eus&#8221; dos outros, na expectativa de receberem algo em troca, claro (nem que seja noutro mundo).</p>
<p>Eu prefiro &#8220;acreditar&#8221; que nem sequer este &#8220;eu&#8221; realmente existe, é apenas uma &#8220;propriedade emergente&#8221;, e tal como todas as outras, não lhe dou demasiada importância. &#8220;Acreditar&#8221; é uma palavra muito forte; apenas observo e analiso por mim próprio a ver se encontro alguma coisa de sólida e substancial neste &#8220;eu&#8221;. Poderão dizer-me que sem maquinaria e conhecimentos de neurologia e de filosofia profunda não chego a lado nenhum, mas isso parece-me ridículo — é dizer que nem sequer tenho capacidade de definir onde é que está algo que me acompanha toda a vida!</p>
<p>Uma vez descartando-me da &#8220;sobre-valorização&#8221; de uma &#8220;coisa&#8221; que se calhar tenho dentro da minha cabeça mas que não sei muito bem o que é, passo a encarar o mundo de uma forma muito diferente. Deixo de levar as coisas tão a sério. Trabalho, família, prestígio, poder, glória, tudo aquilo que são expectativas dos meus pais, dos meus amigos, dos meus familiares — só são acções de gratificação do ego, esse tal &#8220;eu&#8221; que não existe lá muito bem em lado nenhum, mas que acarinho como se fosse um deus pessoal. Em vez disso, o esforço em busca dessas coisas só vai trazer problemas, mais cedo ou mais tarde. Isto não quer dizer que tenha de acabar com o trabalho, a família, ou os amigos. Quer dizer que tenho de lhes dar <em>a devida importância</em>: não é aí que reside a fonte da felicidade, e, como tal, não vale a pena stressar. Preciso de trabalho para comer e pagar impostos; preciso da família e amigos para companhia; mas reconheço que todas estas coisas são momentâneas, não são duradouras, e não tenho grande controlo sobre elas (ou nenhum). Para quê, pois, preocupar-me? Da mesma forma com que não me preocupo com os insultos, também não me preocupo com a fama e glória. Os famosos acabam como rostos na <em>Caras</em> com os seus escândalos e divórcios; prefiro o anonimato. Os ricos andam em pânico por lhes poderem roubar o dinheiro (sendo o maior ladrão o Estado, claro); a mim que já me roubaram tudo, tenho poucas preocupações, excepto o de comer, vestir-me, e de ter um sítio para dormir onde não chova. Claro que isto não quer dizer que queira ser ermita ou monge <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Não vejo grande interesse nisso, especialmente por causa do ponto que se segue&#8230;</p>
<h3>Onde é que está então a felicidade?&#8230;</h3>
<p>Se não está na riqueza (nem decerto na pobreza), na glória e fama, nos amigos, na família, no trabalho, nos <em>hobbies</em>, nas coisas que me faço para divertir&#8230; onde está então? Aqui as coisas não são imediatamente lógicas, mas o que concluo é que não pode estar em nada de externo — se são coisas sobre as quais não tenho controlo, e são pouco duradouras, então não podem ser fonte de felicidade. Isto é só porque até agora não consegui conceber nada que me dê <em>felicidade duradoura</em>, e, sinceramente, não conheço ninguém que tenha adquirido nada que lhe dê isso. No melhor dos casos, são coisas que duram&#8230; até morrermos. Por isso não duram &#8220;para sempre&#8221;.</p>
<p>Então se não estão em lado externo nenhum, terão forçosamente de estar <em>internamente.</em> Mas aqui as coisas são complicadas de descobrir. Por um lado, sou afectado por tudo o que me rodeia. E isso geralmente são coisas pouco duradouras que causam insatisfação por não durarem para sempre. O que é que tenho &#8220;internamente&#8221; que seja duradouro? O &#8220;eu&#8221; não será de certeza: vai mudando com o tempo, e, como vimos, não há lá muita &#8220;consistência&#8221; nesse &#8220;eu&#8221;. De certeza que não são os meus pensamentos, as minhas emoções: são também coisas que aparecem e desaparecem. Posso tentar-me enganar e dizer &#8220;eu sou feliz!&#8221; mil vezes por dia, mas depois de deixar de dizer isso, serei mesmo feliz? Duvido. Quando estou a dormir, serei feliz? Nem me lembro; se o sou, é um desperdício, pois nem sequer me lembro <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>No entanto é inegável que este &#8220;eu&#8221; <em>sente</em> felicidade quando lhe acontecem coisas boas e quando evita coisas más. Ou seja, esta noção de &#8220;felicidade&#8221; surge na consequência de coisas boas e do evitar de coisas más. O problema está em que normalmente não são duradouras, e que ando à procura de coisas que façam surgir essa felicidade espontaneamente de coisas duradouras, e não as consigo encontrar.</p>
<p>Ora aqui é que as coisas são <em>mesmo</em> difíceis. Se há &#8220;algo&#8221; que seja felicidade, e que seja duradoura, não pode estar no exterior, onde nada é duradouro. Mas no meu interior há muito poucas coisas duradouras (até o meu &#8220;eu&#8221; um dia irá morrer e deixa de existir). Será que há então <em>algo mais</em> para além desse &#8220;eu&#8221;?</p>
<p>Bom, que há &#8220;algo mais&#8221;, isso é fácil de observar. Se há &#8220;algo&#8221;, como disse, que pode <em>observar</em> os pensamentos, as emoções e <em>chamar-lhe</em> &#8221;eu&#8221;, então esse &#8220;algo&#8221; é distinto dos pensamentos, das emoções, e do tal &#8220;eu&#8221; que tem pouca credibilidade existencial. O que quer que seja esse &#8220;algo&#8221;, é muito difícil de descrever, mas todos os sentimos. Podemos chamar-lhe qualquer coisa como &#8220;atenção&#8221;, ou &#8220;vontade&#8221;, se não quisermos ser muito místicos (e prefiro evitar misticismos, que isto de olhar para a nossa própria mente não tem nada de mágico, esotérico, ou místico; qualquer pessoa o pode fazer, já que todos temos uma mente <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  ). O que vejo é o seguinte: se não fosse a porra dos meus pensamentos pré-condicionados, interligados com as minhas emoções, que me fazem reagir de certa forma (que muitas vezes nem quero&#8230;), de acordo com preconceitos, moralidades, ou educação, bem, então se calhar podia ser feliz, porque não seria <em>condicionado</em> por todas essas porcarias que por lá andam na minha mente. Certo? Quantas vezes não pensamos que &#8220;se eu tivesse conseguido controlar-me, teria evitado aquela situação desagradável&#8221;. Nesse momento tivémos consciência de que podíamos ter feito umas coisas mas fizémos outras por condicionamentos. Dizemos &#8220;foi mais forte que eu&#8221; ou &#8220;perdi a cabeça&#8221; ou mesmo &#8220;estava fora de mim&#8221;. Em todas estas frases está implícita, de certa forma, a noção que até temos consciência de que reagimos de forma condicionada, e que isto nos fez acabar por sofrer com a situação, para além de prejudicar terceiros e lixar-lhes também com o juízo. Mas pronto. &#8220;É mais forte do que nós&#8221;.</p>
<p>Então o que devo concluir é que esses &#8220;condicionamentos&#8221;, apesar de estarem presentes de certa forma algures nos caminhos neuronais percorridos pela mente no cérebro, não são realmente &#8220;parte&#8221; de mim — são apenas lixo que por lá anda. Reajo de forma condicionada porque tenho, digamos, a cabeça cheia de m***a. Mas se limpar a cabecinha de toda a m***a que por lá vai, com que fico?</p>
<p>Bom, fico &#8220;descondicionado&#8221;. Deixo de ser uma espécie de <em>robot</em> que só sabe reagir às emoções de uma forma previsível. E passo a poder tomar a decisão mais apropriada que melhor se adaptar à situação. Ao fazê-lo, prejudico menos as pessoas, mas também sou menos prejudicado por elas. E isso significa que cada momento é um momento livre de aborrecimentos, chatices, e outras tretas que me lixam o juízo e me dão cabo da cabeça. Numa palavra, é um momento de<em> felicidade</em>.</p>
<p>Mas tenho dois problemas. O primeiro é que tenho <em>muito</em> lixo dentro da cabeça. Ok, para isso, há que empregar métodos para o remover. O segundo é que não consigo, a <em>todos</em> os momentos, estar suficientemente &#8220;afastado&#8221; dos meus condicionamentos (o lixo) para agir de forma racional e funcional. Ok, para isso há métodos também. Mas se conseguir remover o lixo e agir <em>sempre</em> de forma racional e funcional, livre desses condicionamentos, então não há nada de externo que me possa lixar o juízo. Posto por outras palavras: não há nada de externo que me possa fazer infeliz. Nesse caso nem sequer os meus próprios pensamentos idiotas e as minhas emoções cretinas me podem afectar; posso observá-las, senti-las, usufruir delas, mas não me deixar condicionar por elas. Ora esse estado é duradouro — desde que me treine em mantê-lo. E não é algo que tenha de &#8220;fabricar&#8221; ou &#8220;construir&#8221; (não preciso de andar a repetir &#8220;sou feliz! sou feliz!&#8221; e mandar poemas sobre felicidade aos amigos no Facebook&#8230;): é algo que está já presente na minha mente e sempre esteve lá. Eu é que não presto atenção a ele, porque entretenho-me a olhar para o lixo, e achar que é o lixo — os meus condicionamentos, o meu ego — que é importante e válido.</p>
<p>Passei toda a minha vida a achar que o lixo dentro da minha cabecinha era bom, que o meu ego precisava de se fortalecer vencendo obstáculos externos, e que são as condições externas, sobre as quais não tenho qualquer controlo, que me irão dar alguma felicidade. Coloquei imenso esforço durante toda a minha vida nessa atitude. Porquê? Porque toda a gente que conheço fez o mesmo. No entanto, não sou mais feliz que os outros, que também não são lá muito bom exemplo — com as suas neuroses, depressões, idas a terapeutas, e escapismos como TV e bebida e amantes.</p>
<p>Se calhar chegou a altura de questionar se é assim tão fundamental dar tanta importância a esse lixo dos condicionamentos e começar a sério a deixar de depender tanto desse lixo. E, uma vez descoberto o &#8220;truque&#8221;, tentar explicar ao maior número de pessoas como o fazer, para que sejam também livres do lixo dentro das suas cabeças, e felizes por isso mesmo.</p>
<p><em>Como</em> o fazer? Bom, isso agora são outros trezentos <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Não sou qualificado para responder a <em>essa</em> pergunta. Apenas posso prometer que farei todos os esforços para me qualificar! Agora desde já aviso que não é fácil. Passei uns quarenta anos a acumular condicionamentos — lixo — e tenho literalmente a cabeça toda cheia de trampa que me impingiram. Lavar a mente da m***a acumulada em quarenta anos não se consegue de um dia para o outro, e tenho consciência de que sou muito preguiçoso — especialmente porque quanto mais trampa se tira, mais difícil fica tirar o resto que cá ficou. É normal: o ego não gosta de ser atacado, e defende-se como pode! Tantos anos de condicionamento não desaparecem assim de repente. A lavagem cerebral a que fui sujeito foi lenta, prolongada, e constante — ao ponto de pensar que a realidade que vejo é mesmo assim. Até recentemente, duvidava sequer da minha capacidade de poder pensar de outra forma, de me poder efectivamente libertar dos meus condicionamentos (&#8220;sabe <em>tãããão bem</em> insultar aquele f.d.p. do vizinho que me chateia a cabeça com o berbequim sempre a trabalhar ao fim de semana&#8230;&#8221;). Agora acho que é possível desde que me empenhe, mas não vai ser fácil!</p>
<h3>Então afinal de contas qual é o sentido da vida, do universo, e de tudo o mais?</h3>
<p>Acaba por ser simples: fazer com que toda a gente se veja livre de toda a trampa que têm nas suas cabecinhas, e, uma vez livres desses condicionamentos, poderem realmente ser felizes, mas de forma duradoura, e não temporária, dependendo de causas externas que nunca são duradouras. Mas para isso tenho primeiro eu de me ver livre da minha própria trampa. Enquanto continuar condicionado a pensar que o meu ego é que tem razão, estou feito ao bife, e não tenho qualquer capacidade para ajudar um caracol.</p>
<p>As boas notícias é que isto é perfeitamente possível. As melhores notícias é que existe uma série de métodos que efectivamente funcionam. As excelentes notícias foi ter encontrado alguém que generosamente está disponível a apontar-me (e a qualquer pessoa que o queira fazer, claro) quais os métodos mais eficazes para o meu caso. As más notícias é que os métodos são árduos e trabalhosos e que a maioria das pessoas não tem paciência para os seguir <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Mas se houver alguma coisa mais nobre do que livrar todas as pessoas dos seus próprios condicionamentos e torná-las assim felizes, ainda não a encontrei.</p>
<p>Isto é, para mim, 42.</p>
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