Milagres vs. Fenómenos Paranaturais
Como católico, não acredito em milagres que não sejam dogmáticos
e os únicos que são supostamente dogmáticos são os que foram “feitos” por Jesus Cristo
(e mesmo esses… digamos que os evangelistas, como qualquer bom autor, tinham muuuuuuuita liberdade criativa nas suas descrições
Mas enfim…) Por acaso, até prova em contrário (tipo: o próprio Cristo a bater-me à porta e a explicar-me a situação
), até acho que TODOS esses alegados “milagres” de JC têm explicações científicas perfeitamente razoáveis, ou são – muito mais provavelmente – erros de compilação, de tradução, misturados com a tal criatividade literária. Sinceramente, para além de darem “colorido à história”, não estão a fazer lá falta nenhuma à mensagem. Má FC, sem dúvidas
Quanto aos OUTROS milagres (ie. pós-JC), sou completamente céptico. Tínhamos aqui de perder horas completamente off-topic a tentar definir o que são “milagres” e o que não são. Violações das leis da física? No way, José. Poderes místicos ocultos e apenas disponíveis a um grupo de “iluminados”? Bem, já depende do que são esses “poderes”; existiram ao longo da história da humanidade toneladas de seres humanos com capacidades extraordinárias (inteligência, carisma, capacidade de trabalho, força…) que tornariam todas as suas proezas verdadeiros “milagres”. Some-se a isso uma grande liberdade criativa por parte de quem descreveu esses milagres, e pronto: já não sabemos com quantas linhas nos cosemos. Daí o meu terrível cepticismo.
Quanto a coisas como “curas milagrosas”, ou “intervenções milagrosas” pedidas a santos ou outras entidades similares, já apenas posso dizer que a cura está em 50% na nossa mente, coisa que aceitamos hoje em dia como um lugar comum. Não tenho qualquer dúvida em acreditar (note-se: não em demonstrar matematicamente, ou sujeitar esta crença na auto-cura pela mente à análise rigorosa do méodo científico) que alguém com muita fé que confie plenamente que essas “intervenções milagrosas” vão funcionar se consegue curar – pelo menos em casos estatisticamente significativos. Há ALGUNS estudos científicos sobre o poder da oração, e parece haver um desvio estatístico positivo no sentido de se curar mais facilmente aquele que acredita que Deus (ou alguém através dele) o pode curar “miraculosamente”. Mas devo ser honesto e dizer que os mesmos estudos mostram que ateus convictos se curam com a mesma facilidade que crentes, desde que se empenhem em acreditar que se conseguem curar. A meu ver (sim, continuo católico
) a tarefa está mais facilitada para os crentes que depositam a sua confiança num Deus que não hesitará em ajudar quem queira ser ajudado, do que em ateus que preferem apostar com mais força em si mesmos. Mas, como é evidente, sou demasiado parcial para poder emitir uma opinião neutra; aceito perfeitamente que queiram demonstrar-me o contrário (ie. que é mais fácil acreditarmos em nós próprios para nos curarmos a nós mesmos). Seja como for, não nos conseguimos curar de TUDO apenas com o “poder da oração” ou o “poder da mente”. Felizmente temos medicamentos e cirurgias para todas essas situações (e viva a ciência da medicina e farmacêutica!).
Ou seja, chamar a isso “milagres” é perfeitamente discutível. Prefiro chamar-lhe auto-cura psicológica ou qq. coisa assim que não tenha nenhuma conotação “religiosa”.
Em resumo, penso que a maioria dos “milagres” alegadamente documentados se encaixam justamente nestas três áreas: violações das leis da física, super-poderes, e curas miraculosas. No primeiro caso, acho impossível; no segundo, acho que são exageros de quem descreveu esses super-poderes; e no terceiro caso, acredito que possam haver curas miraculosas apenas pelo poder da mente (ou da oração, se forem crentes), mas que não são verdadeiros “milagres”.
Além disso, Deus não é uma espécie de Steven Spielberg com a sua Dreamworks a realizar efeitos especiais grandiosos para impressionar os pobres e raquíticos humanos. Acho que deve ter bem mais que fazer do que isso
Aliás, ainda para mim o maior milagre é ter realizado uma Criação que quase se auto-explica sem necessidade de Criador
(1)
Mas para mim não faz qualquer sentido Deus andar por aí a criar Universos e depois a inventar constantemente pretextos para violar as Suas próprias regras
Teríamos assim uma espécie de Isaac Asimov que “inventa” três leis da robótica para depois escrever 35 romances e mais de 200 contos a arranjar histórias em que as leis sejam violadas. Nah. Não vejo nenhuma explicação racional para isso – teríamos de criar uma teologia de um Deus sacanóide, para aí a inventar regras muito perfeitinhas e todas a baterem certo umas com as outras, mas de vez em quando, a meter umas perversidades lá pelo meio… do tipo: “ai pensam que sabem de tudo?? Ahá! Vamos agora estragar-vos as vossas lindas teorias e meter para aqui uns tipos com o dom da bilocação, só para ver se conseguem explicar *isso*. Oh Sto. António, anda cá… ou será que é: anda lá?” Peço desculpa, mas não caio nessa do “Deus perverso” e de uma Criação que não se pode auto-explicar. As duas coisas não são coerentes em simultâneo.