Um conhecido meu que vive numa cidade menor do Reino Unido outro dia estava a falar-me de como ia tirar um bilhete de autocarro e metê-lo no smartphone. Na altura fiquei pasmado com a aparente sofisticação tecnológica das pequenas cidades inglesas, mas depois percebi melhor o que é que ele queria dizer — era, afinal de contas, a mesma tecnologia usada também no sistema de transportes públicos que existe (pelo menos) na região de Lisboa (no Porto existe um sistema um pouco mais sofisticado) — NFC (Near-Field Communication).
Ora o que ele me disse e que eu não sabia é que certos smartphones incluem um chip NFC compatível com várias tecnologias contactless. Os bilhetes de autocarro, metro e combóio são, em geral, passivos: não têm bateria, e os chips são «iluminados» pelo emissor (o ponto de validação), que retiram assim a pouca energia que necessitam para poderem ser activados e o seu código lido (no fundo, numa operação semelhante ao que acontece com o RFID, embora as distâncias sejam muito mais curtas, e pressuponho que por causa disso os chips sejam ainda mais baratos). Mas no caso dos smartphones, estes, pelo menos enquanto a bateria do telemóvel estiver a funcionar, são activos. Ou seja, podem ler outros cartões com chips NFC. Ou seja… com a aplicação apropriada, podem copiar a informação contida neles.
Qual o interesse disto? Bem, o meu conhecido estava sempre a perder o passe dele. Por isso o que ele faz agora é, sempre que revalida o passe, copia-o para o telemóvel. Depois basta seleccionar o bilhete que quer antes de saltar para o autocarro ou combóio. Como o telemóvel é alimentado por bateria, o alcance é mais longe, e nem sequer o precisa de aproximar muito do ponto de validação. Se por acaso o telemóvel ficar sem carga — acontece! — então o chip passa de activo para passivo, fica com a última sequência de dados, mas continua a funcionar; não dá é para mudar (se ficou com o bilhete de combóio activo, pronto, só dá para andar de combóio).
Ora este tipo de utilização tem pelos vistos muitos fãs, especialmente em sistemas de pagamento (parece que é frequente, no Japão, que o «bilhete» de combóio também funcione como meio de pagamento válido nos quiosques das estações). Tanto é assim que a própria Apple chegou a pensar nisso para o iPhone 5; integrado com o iTunes, App Store, iBooks, o iPhone beneficiaria de uma rede já existente de fornecedores aptos a tirarem partido do chip NFC (mas aparentemente os fãs da Apple terão de esperar pelo iPhone 6…). Em compensação, no mundo Android (e Nokia…), o chip NFC é muito popular. Mesmo que não dê ainda para pagar grande coisa por cá, pelo menos existe a utilização para os transportes públicos… se se usar o «truque» deste meu conhecido.
A minha mulher, no entanto, suspeita que o civismo e a candura britânicos, onde as pessoas legitimamente «instalam» os seus diversos tipos de bilhetes de transporte público na comodidade do seu telemóvel, será facilmente explorado pela mente perversa e criminosa dos portugueses
Uma coisa são os títulos pré-carregados que têm um limite de utilização. Mas a outra são os passes sociais, que, durante um mês, permitem viagens ilimitadas. Ora isto permite a um grupo de espertalhuços comprarem apenas um passe social e depois partilharem os respectivos códigos entre amigos; ao fim de uns meses, isto paga a todos os custos de investimento num telemóvel Samsung relativamente barato que tenha um chip NFC
Aliás, se calhar, neste momento já existe aí algures um site na ‘net qualquer onde se possa fazer download dos identificadores de passes sociais…
Pois, isto da tecnologia é divertido, e muito útil em países com elevado grau de civismo e responsabilidade pessoal
Mas por cá presumo que seria imediatemente convertido em pirataria da grossa.
Se é que já não é.
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