2012, um ano como os outros

Esta quadra natalícia, e em especial a passagem de ano, foi marcada por uma incrível desconfiança sobre o futuro mais próximo, e grande parte das mensagens que recebi foram variantes do género «Um bom Natal, na medida do possível, e votos de um ano novo que não será nada feliz…». Na verdade, a depressão generalizada que se viu entre os gregos há pouco mais de ano e meio, e entre os irlandeses ano passado, começa a atingir a mente dos portugueses — mesmo antes de sentirem qualquer diferença na sua qualidade de vida.

Aparentemente, nunca como dantes as notícias nos media nos infundem tanto terror sobre o ano que se avizinha como agora. E as pessoas começam realmente a estar aterradas. «Onde há fumo, há fogo», lá diz o ditado popular, e se até o Primeiro Ministro recomenda a emigração, que mais falta para comprovar que estamos na presença dum annus horribilis? Já sem falar nas inúmeras «explicações» pseudo-místicas e New Age que tentam «provar» que há uma série de circunstâncias externas fora do nosso controlo que «conspiram» para que 2012 se torne num ano particularmente horrível, algumas das quais servindo-se de pseudo-ciência para as justificar; nada como ler este reconfortante artigo céptico sobre a desmistificação dos principais disparates que andam por aí a ser espalhados há vários anos ou esta mensagem da NASA …

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Mensagem de Natal

Normalmente as minhas mensagens de Natal são sempre uma oportunidade para denunciar o comercialismo da época, que pouco ou nada tem a ver com o objectivo inicial do mesmo, e que, além disso, sempre me pareceu estranho — afinal de contas, se a ideia é «portarmo-nos bem para ganhar presentes» nas poucas semanas antes do evento familiar, e termos autorização para nos portar mal o resto do ano, parece-me sempre que esta «institucionalização do Natal» me soava a falso…

Este ano, no entanto, sob a inspiração (e aspiração!) do meu professor, vou desejar uma mensagem de Natal diferente. Devido a constrangimentos financeiros, este ano o Natal de muita gente vai ser menos comercial e mais passar algum tempo junto com a família e/ou amigos. Para muitos, é um fraco consolo — uma espécie de prémio de consolação: já que não recebo prendas, ao menos que coma bacalhau com a família que mal vejo no resto do ano.

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WordCamp Lisboa 2011 — Um resumo

Todos os resumos serão necessariamente incompletos, pessoais e muito parciais. Esta é apenas a minha percepção do evento!

Mas antes de mais, um resumo do evento em imagens :)

Em primeiro lugar devo referir a perfeição da organização. Graças à Ana Aires, que fez a coordenação geral, o evento começou a horas, as sessões tiveram a duração prevista, e a pontualidade foi levada ao extremo. Nada de atrasos e de «quinze minutos académicos» ou semelhantes desculpas para a falta de pontualidade: o evento decorreu com maior precisão cronográfica que o sincronismo por NTP :) Continuar a ler

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Off for WordCamp Lisboa 2011

Ainda tenho gasolina que chegue até Lisboa, e o almoço é grátis :)

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Ainda o Acordo Ortográfico

Continua-se a discutir por este país fora a questão da aplicação do Acordo Ortográfico; regozijo-me com a existência de jornais (como o Público) e mesmo de algumas estações de TV que se recusam, como forma de protesto, de o aplicar. Cada vez são menos, é certo, e cada vez mais alunos aprendem a ortografia arrevezada do «novo» AO, pelo que com o tempo a batalha poderá estar perdida, especialmente porque nesta época toda a gente se preocupa com a crise e não com a língua e a cultura portuguesas.

Como referência, e para quem nunca o tenha lido, podem obter uma cópia do Acordo Ortográfico no site da Priberam.

A minha «guerra pessoal» não tem nada a ver com «não gostar» do Acordo Ortográfico; não creio que uma opinião pessoal sobre se «gosto» ou «não gosto» tenha qualquer importância. Em vez disso, a minha fundamentação contra o Acordo Ortográfico baseia-se em dois pilares:

  1. Há desonestidade intelectual na justificação para a sua adopção (explicarei isto em mais detalhe mais abaixo)
  2. O processo para a sua redacção e implementação não foi democrático, em especial porque não teve em conta as centenas de milhares de pessoas em Portugal e os milhões no Brasil que se pronunciaram publicamente contra o acordo.

Vejamos em mais pormenor o primeiro ponto. Já escrevi sobre isto em vários comentários e mensagens em toda a ‘net, mas o problema de o fazer em redes sociais é que a argumentação perde-se e dispersa-se e é difícil de encontrar.

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Programa do XIX Governo Constitucional

Resolvi hoje ler o documento de 128 páginas do Programa de Governo, e que foi para aprovação na AR. Graças a estas electroniquisses, hoje em dia é fácil ter acesso a estas coisas :-) Perde-se uma horinha, mas pelo menos ficamos a saber não só com que contamos, mas principalmente com o que devemos responsabilizar o Governo que elegemos nos próximos anos. Devia ser leitura obrigatória por parte de todos os jornalistas e agentes da comunicação social que vão passar os próximos quatro anos (se o Governo não cair…) a falar mal do Passos Coelho e a sua pandilha: falar mal, sim, é importante, mas deve-se fazê-lo apenas com uma opinião substanciada. E é para isso que servem estes documentos bonitos.

Obviamente que não é em 128 páginas que se consegue transmitir tudo ao mais pequeno detalhe do que vai ser feito. Isto são linhas gerais. No entanto, são um bom enquadramento que deve dar uma boa ideia do que é que vai ser feito (e do que é que absolutamente não vai ser sequer considerado). E evidentemente que algumas pessoas vão dar mais ênfase a certas áreas do que a outras, dependendo da ideologia que defendem.

O programa é um misto neo-liberal com toques de social-democracia e alguma firmeza reguladora e controladora típica de um centro-direita. Grande confusão :) Passo a tentar explicar, pelo menos nas estratégias que me chamaram mais a atenção. Algumas surpreenderam-me pela positiva, e se calhar é disso que vou falar, em prejuízo de outras que são se calhar muito mais importantes para a maioria dos portugueses.

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Três argumentos a favor do Google Plus

Coloquei isto no Facebook (ironia das ironias) mas achei que era mais fixe reunir tudo num post só e colocá-lo aqui. Porquê? Porque o Facebook não permite a pesquisa de conteúdo, e isso significa que em breve desaparecerão. E tenho interesse, daqui por um ano ou dois, olhar para este artigo e rir-me imenso com as previsões idiotas que fiz.

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As consequências do Stallmanismo radical

O modelo da distribuição de música e de vídeo/cinema está em colapso. Penso que não é preciso vir com muitas estatísticas nem com grandes filosofias para chegar a essa conclusão. Cada ano que passa, e apesar de serem lançados mais álbuns e mais DVDs, o número de vendas global em lojas tem diminuído. Durante alguns anos, a resposta das labels era aumentar os preços para compensar a falta de vendas; mas essa estratégia só piorou a situação, e actualmente os preços têm baixado, e muito.

Porquê? A razão é tremendamente simples. Nos anos 80, quando o formato CD foi lançado, começando aos poucos a substituir o vinil (e a velha cassete), este revelou-se demasiado simples de copiar: qualquer puto de 6 anos com um computador consegue extrair as músicas à vontade. O DVD resistiu um pouco mais de tempo, até os computadores se tornarem suficientemente rápidos para facilmente quebrarem as chaves de encriptação do formato com que eram codificados. Essa é uma evolução natural das coisas: não há formato digital que não possa, mais cedo ou mais tarde, ser descriptado — é uma questão de tempo. A chave super-segura de hoje é facilmente quebrada por computadores exponencialmente mais rápidos de amanhã (ou um grande número deles a trabalhar em conjunto, como é o caso da utilização da Internet para esse fim).

Com a disponibilização de produtos culturais e artísticos em formato digital que podem ser reproduzidos em computador, acabou-se finalmente uma antiga premissa, sob a qual assentava a legislação de protecção de direitos de autor: a noção de que o investimento na reprodução de uma obra era cara e necessitava de um enorme investmento. Hoje em dia, o “investimento” custa algumas poucas centenas de Euros, se tanto — e com isso pode-se copiar e distribuir tudo.

Não há sistemas de cópia seguros. A noção de “buraco analógico” (analogue hole) é uma premissa incontornável — um facto inegável: qualquer coisa que passe por um computador pode ser copiável. Pode-se fazer a cópia mais ou menos difícil (por exemplo, utilizando chips de encriptação em hardware, como existem em alguns dispositivos), mas “difícil” apenas significa “mais tempo e mais trabalho” — até a primeira pessoa encontrar uma maneira de subverter o sistema. Depois essa pessoa pode simplesmente distribuir cópias à vontade, e é impossível de prevenir esse sistema. Continuar a ler

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Contactless fraud

Um conhecido meu que vive numa cidade menor do Reino Unido outro dia estava a falar-me de como ia tirar um bilhete de autocarro e metê-lo no smartphone. Na altura fiquei pasmado com a aparente sofisticação tecnológica das pequenas cidades inglesas, mas depois percebi melhor o que é que ele queria dizer — era, afinal de contas, a mesma tecnologia usada também no sistema de transportes públicos que existe (pelo menos) na região de Lisboa (no Porto existe um sistema um pouco mais sofisticado) — NFC (Near-Field Communication).

Ora o que ele me disse e que eu não sabia é que certos smartphones incluem um chip NFC compatível com várias tecnologias contactless. Os bilhetes de autocarro, metro e combóio são, em geral, passivos: não têm bateria, e os chips são «iluminados» pelo emissor (o ponto de validação), que retiram assim a pouca energia que necessitam para poderem ser activados e o seu código lido (no fundo, numa operação semelhante ao que acontece com o RFID, embora as distâncias sejam muito mais curtas, e pressuponho que por causa disso os chips sejam ainda mais baratos). Mas no caso dos smartphones, estes, pelo menos enquanto a bateria do telemóvel estiver a funcionar, são activos. Ou seja, podem ler outros cartões com chips NFC. Ou seja… com a aplicação apropriada, podem copiar a informação contida neles.

Qual o interesse disto? Bem, o meu conhecido estava sempre a perder o passe dele. Por isso o que ele faz agora é, sempre que revalida o passe, copia-o para o telemóvel. Depois basta seleccionar o bilhete que quer antes de saltar para o autocarro ou combóio. Como o telemóvel é alimentado por bateria, o alcance é mais longe, e nem sequer o precisa de aproximar muito do ponto de validação. Se por acaso o telemóvel ficar sem carga — acontece! — então o chip passa de activo para passivo, fica com a última sequência de dados, mas continua a funcionar; não dá é para mudar (se ficou com o bilhete de combóio activo, pronto, só dá para andar de combóio).

Ora este tipo de utilização tem pelos vistos muitos fãs, especialmente em sistemas de pagamento (parece que é frequente, no Japão, que o «bilhete» de combóio também funcione como meio de pagamento válido nos quiosques das estações). Tanto é assim que a própria Apple chegou a pensar nisso para o iPhone 5; integrado com o iTunes, App Store, iBooks, o iPhone beneficiaria de uma rede já existente de fornecedores aptos a tirarem partido do chip NFC (mas aparentemente os fãs da Apple terão de esperar pelo iPhone 6…). Em compensação, no mundo Android (e Nokia…), o chip NFC é muito popular. Mesmo que não dê ainda para pagar grande coisa por cá, pelo menos existe a utilização para os transportes públicos… se se usar o «truque» deste meu conhecido.

A minha mulher, no entanto, suspeita que o civismo e a candura britânicos, onde as pessoas legitimamente «instalam» os seus diversos tipos de bilhetes de transporte público na comodidade do seu telemóvel, será facilmente explorado pela mente perversa e criminosa dos portugueses :) Uma coisa são os títulos pré-carregados que têm um limite de utilização. Mas a outra são os passes sociais, que, durante um mês, permitem viagens ilimitadas. Ora isto permite a um grupo de espertalhuços comprarem apenas um passe social e depois partilharem os respectivos códigos entre amigos; ao fim de uns meses, isto paga a todos os custos de investimento num telemóvel Samsung relativamente barato que tenha um chip NFC :) Aliás, se calhar, neste momento já existe aí algures um site na ‘net qualquer onde se possa fazer download dos identificadores de passes sociais…

Pois, isto da tecnologia é divertido, e muito útil em países com elevado grau de civismo e responsabilidade pessoal :) Mas por cá presumo que seria imediatemente convertido em pirataria da grossa.

Se é que já não é.

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101010

(Source: I'm a ladyy @Tumblr)

There are 10 kinds of people: those who know how to count in binary, and those who don’t.

Como qualquer geek que se preze, o número 42 sempre me fascinou desde que li o Hitchhiker’s Guide to the Galaxy do saudoso Douglas Adams: era supostamente a resposta dada à pergunta “Qual é o significado da vida, do universo e de tudo o mais?” por um super-hiper-computador ao fim de milhões de anos de processamento. Sendo a resposta pouco satisfatória, o computador sugere então que se calhar a resposta esteja correcta, mas que o que na realidade queriam saber era qual era a pergunta. Isto leva o super-hiper-computador a criar um novo mega-super-hiper-computador para conseguir obter a pergunta, e supostamente — segundo Adams — a própria Terra seria um elemento desse computador. Ou seja, os seres que habitam neste planeta evoluiriam para obter a pergunta cuja resposta, 42, fizesse sentido. Infelizmente para as espécies inteligentes do Universo que aguardavam ansiosamente por esse momento, por um lapso burocrático, a Terra é demolida para se construir um acesso a uma super-auto-estrada espacial, antes que alguém formule a pergunta adequada à resposta, e nós, leitores, ficamos sem a saber.

A série é um dos clássicos da ficção científica humorística britânica, e “42″ ficou na mente de todos os geeks como a resposta adequada a dar em situações em que a pergunta é demasiado ousada e esotérica para que se possa dar uma resposta com sentido. Mas a verdade é que Douglas Adams introduziu três elementos quase sérios no texto (provavelmente não foram deliberados). Um é que de alguma forma a informática estaria associada à descoberta do sentido da vida. Outro é que tanto a pergunta como a resposta, se existirem, estão já dentro de nós, nós é que não as sabemos formular. E o terceiro é que apesar da pergunta poder ser muito elaborada, a resposta é tremendamente simples, desde que a consigamos compreender.

Obviamente que passei toda a minha vida a rir-me destas ideias do Douglas Adams, e como bom geek que se preze, a gozar com a ideia, e a ser muito irritante quando me perguntavam coisas muito profundas e a responder “42″. Tal como todos os geeks. A pergunta, afinal de contas, tem sido feito por todas as filosofias e religiões desde tempos imemoriais e alegadamente nunca foi respondida de forma satisfatória, porque não é suposto fazer sentido. É quase como perguntar “o que havia antes do Big Bang” ou “o que é que está fora do Universo”, mas ainda faz menos sentido do que isso. A mera noção de que “tem de haver um sentido” é uma concepção vulgar que serviu, ao longo da história, para queimar pessoas em fogueiras e declarar guerras entre povos e nações.

O que não estava de todo à espera é que chegasse aos 42 anos de idade e realmente tivesse encontrado a resposta para o sentido da vida, do universo, e de tudo o mais, e, se bem que não seja bem 42, é na realidade algo de tremendamente simples. Se calhar Douglas Adams, radical ateu (como ele se intitulava), afinal de contas tinha razão: a resposta está realmente em nós, desde que saibamos formular a pergunta.

Agora apenas posso aspirar a que um dia seja capaz de inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo.

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